{"id":1494,"date":"2007-05-21T22:28:42","date_gmt":"2007-05-21T20:28:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1494&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T22:30:12","modified_gmt":"2016-05-01T20:30:12","slug":"marian-stamp-dawkins-em-busca-da-consciencia-animal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/marian-stamp-dawkins-em-busca-da-consciencia-animal\/","title":{"rendered":"Marian Stamp Dawkins: Em busca da consci\u00eancia animal"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p>Marian Stamp Dawkins \u00e9 bi\u00f3loga. Ela \u00e9 docente e pesquisadora no Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, e est\u00e1 encarregada de um curso de comportamento animal no Somerville College (Oxford). Sua pesquisa atual tem por objeto, notadamente, os fatores de bem- (ou mal-) estar entre os frangos de cria\u00e7\u00e3o. Ela colaborou em diversas obras consagradas ao bem-estar e ao comportamento animal. No cerne dos seus trabalhos se encontra uma pesquisa sobre a consci\u00eancia do outro:<\/p>\n<blockquote><p>Tanto quanto me recordo, tenho estado fascinada pela quest\u00e3o de saber aquilo que se passava no esp\u00edrito dos outros animais. Numa das minhas recorda\u00e7\u00f5es mais remotas, h\u00e1 um cercado com gansos, estou sentada ao lado, e me pergunto por que a passagem de um avi\u00e3o voando em baixa altitude parece perturb\u00e1-los muito menos do que a mim, sendo que eles deram uma olhada para o c\u00e9u e viram, pelo que tudo indica, exatamente o mesmo objeto que eu. Eu tinha naquele tempo, como ainda tenho hoje em dia, o sentimento do mist\u00e9rio que encerra o fato de haver nascido num corpo espec\u00edfico, de s\u00f3 ter acesso \u00e0 pr\u00f3pria experi\u00eancia particular, de n\u00e3o poder atingir a experi\u00eancia direta de estar em outros corpos, os dos gansos ou os de outros humanos<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Marian Dawkins, pref\u00e1cio de Through our Eyes Only?, p. ix.\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Marian Dawkins figura entre os que contribu\u00edram para a obra coletiva, dirigida por Peter Singer <i>In Defense of Animals<\/i> (Em Defesa dos Animais) (1985), em que ela assinou um artigo intitulado \u00abThe Scientific Basis for Assessing Suffering in Animals\u00bb<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"\u00abQuais s\u00e3o os dados cient\u00edficos que permitem detectar o sofrimento entre os\u00a0(...)\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span> (A Base Cient\u00edfica para a Avalia\u00e7\u00e3o do Sofrimento em Animais). A conclus\u00e3o desse artigo \u00e9 caracter\u00edstica de sua maneira de pensar:<\/p>\n<blockquote><p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 preciso que recorramos a uma analogia com n\u00f3s mesmos, para decidirmos se um outro ser (inclusive um outro humano) sente alguma coisa, uma vez que a nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia subjetiva \u00e9 a \u00fanica \u00e0 qual n\u00f3s temos acesso direto. Mas uma analogia com n\u00f3s mesmos que consista em considerar os animais como esp\u00e9cies de humanos cobertos de pelos ou de penas \u00e9 muito diferente e muito mais prop\u00edcia ao erro do que uma analogia que utilize plenamente o que sabemos da biologia do animal envolvido[...]. A analogia do segundo tipo deve ser elaborada pe\u00e7a por pe\u00e7a (Do que \u00e9 que este animal gosta? Em que condi\u00e7\u00f5es goza de boa sa\u00fade? Como se manifesta nele o medo ou a frustra\u00e7\u00e3o?). \u00c9 preciso trabalhar duro para a\u00ed chegar, pois isso exige muita pesquisa fundamental sobre cada esp\u00e9cie de animal que somos levados a abordar. Mas \u00e9 o \u00fanico tipo de analogia que nos permite esperar que possamos nos colocar um pouco na pele das outras esp\u00e9cies e come\u00e7ar a ver o mundo n\u00e3o mais somente atrav\u00e9s dos nossos olhos, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s dos delas.<\/p><\/blockquote>\n<p>O t\u00edtulo do mais renomado dos livros de Marian Dawkins, <i>Through Our Eyes Only?<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"Marian Stamp Dawkins Through our Eyes Only? The Search for Animal\u00a0(...)\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span> (Atrav\u00e9s dos Nossos Olhos Apenas?), evoca esta tem\u00e1tica por si s\u00f3. Vindo \u00e0 luz em 1993, foi objeto de duas reimpress\u00f5es<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o (Oxford University Press) data de 2003.\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>. Aquilo que segue \u00e9 um resumo dessa obra (indispon\u00edvel em l\u00edngua francesa). Um simples resumo: as id\u00e9ias e os conhecimentos s\u00e3o os de Dawkins, sem a menor contribui\u00e7\u00e3o ou coment\u00e1rio de minha parte. O exerc\u00edcio implica inevitavelmente uma perda de informa\u00e7\u00e3o, uma vez que foi preciso condensar um livro de 192 p\u00e1ginas.<\/p>\n<p>Em aditamento, encontra-se no anexo, \u00e0 p\u00e1gina 26, o resumo de uma exposi\u00e7\u00e3o apresentada por Dawkins em mar\u00e7o de 2005, tendo por objeto os mesmos temas que esse livro.<\/p>\n<h3>Cap\u00edtulo 1: Introdu\u00e7\u00e3o<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh5\" class=\"spip_note\" title=\"Os t\u00edtulos que dei aos cap\u00edtulos n\u00e3o s\u00e3o os escolhidos por Marian Dawkins, cuja\u00a0(...)\" href=\"#nb5\" rel=\"footnote\">5<\/a>]<\/span><\/h3>\n<p>Os animais t\u00eam pensamentos e sentimentos? \u00c9 uma quest\u00e3o extremamente dif\u00edcil de ser tratada com os dados fragment\u00e1rios de que se disp\u00f5e hoje em dia, mas a empresa n\u00e3o \u00e9 totalmente desesperada.<\/p>\n<p>Este livro foi escrito como se se tratasse de convencer dois tipos de p\u00fablicos muito diferentes que estudar a consci\u00eancia animal \u00e9, ao mesmo tempo, poss\u00edvel e digno de interesse: por um lado, os que duvidam de que os animais tenham um esp\u00edrito e, por outro lado, os que julgam evidente que eles t\u00eam um.<\/p>\n<p>A consci\u00eancia \u00e9 um fen\u00f4meno que cada um de n\u00f3s experimenta vivamente, mas que nos \u00e9 imposs\u00edvel definir de maneira simples. Saber se h\u00e1 indiv\u00edduos conscientes entre outras esp\u00e9cies \u00e9 de uma import\u00e2ncia decisiva para determinar quais s\u00e3o os nossos deveres morais para com os n\u00e3o-humanos. A quest\u00e3o \u00e9 igualmente central no plano cient\u00edfico. Como sucede que tenhamos uma subjetividade? Por que e como a consci\u00eancia se desenvolveu ao longo da evolu\u00e7\u00e3o? Tal \u00e9 o profundo enigma com que a biologia se defronta. \u00c9 evidente que \u00e9 vantajoso para os animais se protegerem contra o que lhes \u00e9 nocivo. Mas por que \u00e9 preciso que eles sejam conscientes para se protegerem? No final das contas, n\u00f3s fazemos muitas coisas inconscientemente. Retiramos as nossas m\u00e3os de um forno ardente bem antes de compreender exatamente que os nossos dedos correm o risco de serem danificados. Por que \u00e9 preciso que a dor fa\u00e7a mal? Por que n\u00e3o basta que os nossos corpos evitem ou limitem os danos, funcionando segundo regras, \u00e0 maneira de m\u00e1quinas, sem que nada deva ser conscientemente <i>desagrad\u00e1vel<\/i>?<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o natural s\u00f3 pode favorecer a consci\u00eancia se o fato, para um animal, de estar consciente, desempenha um papel na sua maneira de se comportar. Supor que ele n\u00e3o desempenha nenhum n\u00e3o pode sen\u00e3o deixar incomodado todo aquele que cr\u00ea na universalidade do darwinismo. Mas tampouco \u00e9 muito confort\u00e1vel afirmar que ele desempenha um papel, quando n\u00e3o temos a menor id\u00e9ia de como ele o faz.<\/p>\n<p>Marian Dawkins defender\u00e1 que o ponto de vista segundo o qual a consci\u00eancia afeta o funcionamento dos organismos \u00e9 o mais plaus\u00edvel, que n\u00e3o h\u00e1 l\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o ao esquema darwiniano, e que se deve conceber a consci\u00eancia como um fen\u00f4meno biol\u00f3gico, cujo estudo depende do m\u00e9todo cient\u00edfico. Mas ela n\u00e3o deixa de ser menos um dos problemas mais formid\u00e1veis com que os nossos esp\u00edritos poderiam defrontar-se. Hoje em dia, ningu\u00e9m compreende a consci\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil conceber um assunto que toque t\u00e3o profundamente em tantas quest\u00f5es capitais. Infelizmente, \u00e9 igualmente dif\u00edcil conceber um fen\u00f4meno mais \u00e1rduo de ser estudado. A dificuldade est\u00e1 relacionada com o seu car\u00e1ter essencialmente privado. \u00c9 poss\u00edvel saber o que se passa na nossa cabe\u00e7a, mas jamais \u00e9 poss\u00edvel saber com certeza o que sentem os outros: eis a raz\u00e3o pela qual tantas pessoas afirmam que o estudo da consci\u00eancia \u00e9 imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00f3s nos comportamos sem cessar como se tiv\u00e9ssemos acesso ao mundo interior dos outros, e o mais surpreendente \u00e9 que esta hip\u00f3tese parece fundamentada. N\u00f3s reconfortamos beb\u00eas, escrevemos slogans publicit\u00e1rios, pronunciamos palavras que conseguem acalmar uma pessoa encolerizada... Desafiando a l\u00f3gica e agindo como se pud\u00e9ssemos saber o que vivenciam os outros, conseguimos muitas vezes controlar a situa\u00e7\u00e3o e predizer o que eles v\u00e3o fazer, o que sugere vivamente que avaliamos corretamente o que eles sentem.<\/p>\n<p>Conseguimo-lo utilizando a nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia e supondo que as outras pessoas se nos assemelham em certos aspectos. Fazemos melhor do que isso: levamos em conta as circunst\u00e2ncias que podem fazer com que um outro difira de n\u00f3s. Uma pessoa que n\u00e3o gosta de gatos compreende a dor de um velho solit\u00e1rio, cujo gato morreu esmagado.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que \u00e9 ainda mais dif\u00edcil compreender um organismo de uma outra esp\u00e9cie do que um velho taciturno. Em princ\u00edpio, no entanto, a l\u00f3gica do \u00absimilar-mas-diferente\u00bb, que nos permite penetrar em outros mundos interiores, poderia ainda funcionar. Se nos dermos ao trabalho, descobriremos similitudes que \u00e0 primeira vista nada t\u00eam de evidente. Mas n\u00e3o se deve subestimar a dificuldade. Quanto mais o outro \u00e9 diferente, tanto mais isso exige esfor\u00e7os no sentido de ver as coisas do seu ponto de vista. Podem ser cometidos erros grosseiros quando se cede \u00e0 facilidade de crer que os animais s\u00e3o exatamente como n\u00f3s.<\/p>\n<h3>Cap\u00edtulo 2: Comportamentos complexos<\/h3>\n<p>Um elemento que pode sugerir a presen\u00e7a da consci\u00eancia entre organismos muito diferentes de n\u00f3s \u00e9 a <i>complexidade do comportamento<\/i>. N\u00e3o se trata de afirmar que todo o comportamento complexo \u00e9 consciente, mas antes, que a complexidade do comportamento e a aptid\u00e3o de se adaptar a circunst\u00e2ncias vari\u00e1veis fazem parte dos indicadores que assinalam a consci\u00eancia. A primeira parte da nossa investiga\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia entre outras esp\u00e9cies vai consistir, portanto, em utilizar o que sabemos do seu comportamento, perguntando-nos se ele pode ser diretamente assemelhado ao de um aut\u00f4mato inconsciente, que funciona segundo uma s\u00e9rie de regras, ou se ele \u00e9 suficientemente complexo e imprevis\u00edvel para sugerir ao menos a possibilidade de um vislumbre de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Segundo uma id\u00e9ia disseminada, os animais obedecem cegamente ao seu instinto: o seu comportamento nada tem de inteligente ou de complexo. Mas quanto mais se estuda o comportamento animal, mais se descobre que as respostas simples constituem a exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pesquisadores suecos quiseram descobrir como as f\u00eameas dos tetra-liras escolhiam os machos com que elas se acasalavam. Eles tiveram de se confessar vencidos: nenhum dos crit\u00e9rios f\u00edsicos ou comportamentais que eles tentaram explicava a escolha. Mas eles constataram que os machos escolhidos pelas f\u00eameas ainda estavam vivos seis meses ap\u00f3s o acasalamento. As f\u00eameas tinham, portanto, conseguido fazer uma \u00abpredi\u00e7\u00e3o\u00bb sobre a esperan\u00e7a de vida dos machos um em frente do outro, e escolhido os futuros sobreviventes como pais para os seus filhotes. Os pesquisadores eram, em contrapartida, incapazes de realizar esta predi\u00e7\u00e3o ao utilizarem diversos crit\u00e9rios aparentemente pertinentes (infesta\u00e7\u00e3o por parasitas, reservas de gordura...).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi estudado o comportamento dos cervos no outono, quando eles est\u00e3o competindo pelo acesso \u00e0s f\u00eameas. Os rivais se avaliam a partir de uma s\u00e9rie de indicadores (entre os quais, a capacidade de bramar por longo tempo em ritmo sustentado), que fornecem uma estimativa de sua forma f\u00edsica. O combate n\u00e3o se trava sen\u00e3o quando os machos, um em frente do outro, s\u00e3o de for\u00e7a compar\u00e1vel e o resultado do combate \u00e9 incerto. Quando ele \u00e9 previs\u00edvel, o mais fraco se retira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estes exemplos (e outros, evocados por Marian Dawkins) mostram que o comportamento de muitos animais est\u00e1 longe de ser simples. Eles n\u00e3o se contentam em reagir a uma ou duas caracter\u00edsticas do seu meio ambiente. Eles produzem respostas que exigem uma discrimina\u00e7\u00e3o complexa entre diferentes estados ou acontecimentos. O seu comportamento pode chegar a ponto de pesquisar e extrair informa\u00e7\u00f5es complementares do seu meio ambiente para tomar uma \u00abdecis\u00e3o\u00bb. Mas seria poss\u00edvel que estes comportamentos aparentemente inteligentes n\u00e3o passassem de respostas pr\u00e9-programadas, que n\u00e3o traduzissem nenhuma compreens\u00e3o real? Talvez a f\u00eamea tetraz-lira reconhe\u00e7a uma diferen\u00e7a muito sutil entre as cores dos machos, que n\u00e3o tenha sido percebida pelos humanos, e responda cegamente a este indicador?<\/p>\n<p>\u00c0 hip\u00f3tese de os animais serem est\u00fapidos s\u00f3 se pode opor com sucesso mostrando-se que eles fazem mais do que responder de um modo autom\u00e1tico \u00abcong\u00eanito\u00bb e que eles s\u00e3o capazes de aprender a adaptar o seu comportamento \u00e0s circunst\u00e2ncias particulares em que se encontrem. Ter-se-\u00e1 a prova que se procura mostrando-se que eles v\u00e3o al\u00e9m das respostas autom\u00e1ticas, e que eles demonstram possuir uma compreens\u00e3o suficiente do mundo, para serem capazes de manipul\u00e1-lo no sentido de atingir os seus pr\u00f3prios fins. Um animal que pode aprender a tornar a sua vida melhor, mudando o seu comportamento, deve ter ao menos uma compreens\u00e3o m\u00ednima da maneira pela qual o seu mundo funciona.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conhecem-se muitos exemplos em que animais aprendem, memorizam, \u00abavaliam\u00bb uma situa\u00e7\u00e3o, e \u00abdecidem\u00bb em fun\u00e7\u00e3o desta avalia\u00e7\u00e3o. Os cantos de p\u00e1ssaros que nos encantam s\u00e3o, muitas vezes, gritos de defesa do territ\u00f3rio. Eles dizem \u00abFora! Aqui \u00e9 o meu lar!\u00bb. Cantar custa menos do que se bater, mas o pr\u00f3prio canto toma tempo, em detrimento de outras atividades, como se alimentar. Bruce Falls estudou o canto de uma esp\u00e9cie particular de pardais da Am\u00e9rica do Norte. S\u00e3o os machos que cantam. Um pardal instalado num territ\u00f3rio responde ao canto de um estrangeiro, mas n\u00e3o ao de um vizinho. O vizinho, ao contr\u00e1rio do estrangeiro, n\u00e3o \u00e9 uma amea\u00e7a (ele tem o seu pr\u00f3prio terreno). Mas ao se registrar o canto de um vizinho que habita no oeste do territ\u00f3rio do pardal M, e se difundir o mesmo a partir do leste, ent\u00e3o M se p\u00f5e a cantar. A mudan\u00e7a de origem parece fazer nascer a d\u00favida sobre o car\u00e1ter inofensivo do vizinho. O pardal distingue, portanto, os cantos individuais, aprende de onde deveriam vir os cantos conhecidos, e reage de maneira diversa segundo as circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os ratos n\u00e3o foram exterminados pela massa de veneno espalhada para destru\u00ed-los gra\u00e7as \u00e0 sua capacidade de aprender de seus cong\u00eaneres e de transmitir algumas das coisas que eles aprenderam a seus filhotes. Foram realizadas experi\u00eancias em laborat\u00f3rio sobre pares de ratos (A e B). Tira-se o rato A da gaiola e (sem que B possa observ\u00e1-lo) d\u00e1-se-lhe um alimento que ele jamais saboreou, marcado por um odor de cacau, por exemplo. Quando A retorna \u00e0 gaiola, B se p\u00f5e a fazer a toalete dele e a cheir\u00e1-lo atentamente, sobretudo a boca. Depois se tira B da gaiola, propondo-se-lhe dois alimentos incomuns, um dos quais exala o cheiro do cacau. Ele escolhe aquele com odor de cacau, anteriormente \u00abtestado\u00bb pelo seu cong\u00eanere. Em seguida, realiza-se uma seq\u00fc\u00eancia similar, mas desta vez utilizando-se uma bebida conhecida e apreciada pelos dois ratos (\u00e1gua a\u00e7ucarada). Verte-se na bebida de A (enquanto ele est\u00e1 isolado de B) um produto que o torna temporariamente doente. Constata-se que, em seguida, n\u00e3o somente A, mas B (que inspecionou A enquanto ele estava doente) tamb\u00e9m, recusam a \u00e1gua a\u00e7ucarada. Uma experi\u00eancia compar\u00e1vel foi realizada com base numa col\u00f4nia inteira de ratos. Habitua-se os mesmos a serem alimentados com dois tipos de alimentos, X e Y. Depois, uma \u00fanica vez, contamina-se o alimento X com um produto que os torna temporariamente doentes. Constata-se que, em seguida, o conjunto da col\u00f4nia recusa o alimento X. Al\u00e9m disso, esta recusa persiste entre as gera\u00e7\u00f5es jovens: entre ratos nascidos ap\u00f3s o epis\u00f3dio da contamina\u00e7\u00e3o. No caso de se tratar de humanos, qualificar-se-ia de cultural esta transmiss\u00e3o de uma interdi\u00e7\u00e3o dos mais velhos aos mais jovens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mark Elgar realizou um estudo sobre os pardais comuns em Cambridge, particularmente sobre o comportamento de um pardal que, quando ele est\u00e1 empoleirado num lugar seguro, percebe alimento (p\u00e3o) sobre o solo. Nesse momento, ele pode ir comer sozinho, ou lan\u00e7ar chamados que fazem vir outros pardais (tanto mais numerosos quanto o chamado for repetido), com quem ele dever\u00e1 compartilhar. Mas quando s\u00e3o diversos os p\u00e1ssaros a procurarem o alimento, ao mesmo tempo em que vigiam os arredores com o olhar, h\u00e1 mais chances de um dos convivas se dar conta da aproxima\u00e7\u00e3o de um predador e alertar os outros. O estudo revela que o comportamento varia segundo as circunst\u00e2ncias:<\/p>\n<p>- Quanto mais o perigo percebido for significativo (por exemplo, num jardim conhecido por ser freq\u00fcentado por um gato), tanto mais o pardal recruta cong\u00eaneres antes de descer ao solo. (Inversamente, se o perigo percebido \u00e9 pequeno, o pardal come sozinho).<\/p>\n<p>- No inverno, quando o alimento escasseia, com um perigo igual, um pardal recruta menos cong\u00eaneres.<\/p>\n<p>- Parece mesmo que \u00e9 feita uma avalia\u00e7\u00e3o grosseira da facilidade de compartilhar, uma vez que, com uma quantidade igual de p\u00e3o, um p\u00e1ssaro convida menos parceiros quando se trata de fatias inteiras, do que de peda\u00e7os menores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Citar-se-\u00e1, enfim, o caso dos vampiros (morcegos da Am\u00e9rica do Sul), que se alimentam chupando sangue de animais grandes. Estando de volta \u00e0 col\u00f4nia, eles podem regurgitar uma parte do sangue recolhido, para alimentar certos cong\u00eaneres que foram menos felizes em sua busca por alimento. Wilkinson descobriu que eles alimentavam de prefer\u00eancia, por um lado, membros de sua fam\u00edlia, e por outro lado, indiv\u00edduos n\u00e3o-aparentados que os tinham alimentado no passado. H\u00e1 coopera\u00e7\u00e3o e reciprocidade. Estabelecem-se v\u00ednculos entre indiv\u00edduos, que permitem contrair d\u00edvidas e ressarci-las mais tarde. Os maus pagadores s\u00e3o punidos (eles deixam de ser alimentados). H\u00e1 a\u00ed uma grande dist\u00e2ncia das respostas simples e autom\u00e1ticas do instinto cego.<\/p>\n<p>Quanto mais se estuda o comportamento dos animais, tanto mais se reconsidera a id\u00e9ia de que eles nada fazem a n\u00e3o ser responder de maneira simples a est\u00edmulos simples. Se a complexidade do comportamento \u00e9 um dos indicadores da consci\u00eancia, ent\u00e3o devemos deixar aberta a possibilidade de muitos animais serem conscientes.<\/p>\n<h3>Cap\u00edtulo 3: Precau\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas<\/h3>\n<p>Este cap\u00edtulo trata dos vieses que levam a concluir, sem precau\u00e7\u00f5es suficientes, que animais s\u00e3o conscientes ou a atribuir-lhes, partindo de bases contest\u00e1veis, certas capacidades mentais. Melhor \u00e9 que se fa\u00e7am as cr\u00edticas por si mesmo do que esperar que os advers\u00e1rios as fa\u00e7am. Devemos apoiar-nos unicamente sobre dados que resistem a um exame escrupuloso. \u00c0s vezes, um comportamento pode parecer mais complexo ou \u00abinteligente\u00bb do que realmente \u00e9. H\u00e1 entre n\u00f3s uma propens\u00e3o animista que nos leva a interpretar o que nos rodeia como sendo \u00abcomo n\u00f3s\u00bb, inclusive os objetos inanimados, como as bonecas, os barcos ou as montanhas. N\u00e3o o fazemos conscientemente; se nos acusassem de faz\u00ea-lo, negar\u00edamos, mas uma parte de n\u00f3s realiza esta hip\u00f3tese com freq\u00fc\u00eancia, e esta propens\u00e3o se manifesta ainda mais fortemente quando nos defrontamos com animais de comportamento aparentemente complicado. Esta tend\u00eancia \u00e9 refor\u00e7ada pelo fato de os bi\u00f3logos usarem palavras que, na linguagem corrente, implicam a consci\u00eancia, tais como \u00abavaliar\u00bb ou \u00abdecidir\u00bb. \u00c0s vezes eles se d\u00e3o ao trabalho de precisar que as empregam num sentido t\u00e9cnico \u2013 comportar-se \u00abcomo se\u00bb se avaliasse ou decidisse \u2013 que n\u00e3o exclui que este comportamento se explica por uma regra simples. (Poder-se-ia, num caso extremo, descrever um termostato como \u00abse decidindo\u00bb a aquecer a casa, quando a temperatura cai abaixo de certo patamar). Mas quando um bi\u00f3logo escreve que um animal \u00abpune os trapaceiros\u00bb, muitos o compreendem no sentido corrente.<\/p>\n<p>Devemos desconfiar tamb\u00e9m da nossa tend\u00eancia de ver sentido e rela\u00e7\u00f5es em toda a parte, inclusive l\u00e1 onde eles provavelmente n\u00e3o existem. Contra isso, \u00e9 preciso armar-se de alguns instrumentos estat\u00edsticos, particularmente a no\u00e7\u00e3o de probabilidade. N\u00e3o \u00e9 suficiente que um animal d\u00ea a \u00abboa resposta\u00bb num exerc\u00edcio que lhe seja proposto por pesquisadores. Ser\u00e1 preciso ainda perguntar-se quantas outras respostas ele teria podido dar nesse contexto. Se as alternativas forem muito pouco numerosas, o resultado ser\u00e1 pouco significativo. Da mesma forma, ao propormos a um chimpanz\u00e9 que re\u00fana s\u00edmbolos que representem palavras, tendemos a maravilhar-nos se uma vez ele consegue formar uma frase, ao passo que isso n\u00e3o \u00e9 significativo no caso de se tratar de uma exce\u00e7\u00e3o e das suas composi\u00e7\u00f5es estarem, em sua maioria, destitu\u00eddas de sentido.<\/p>\n<p>Antes de afirmar que um comportamento prova que animais s\u00e3o conscientes ou possuem uma capacidade mental espec\u00edfica, \u00e9 prudente submeter-se \u00e0 navalha de Occam (perguntar-se se a sua atitude n\u00e3o pode ser explicada de maneira mais simples). Particularmente, dois tipos de explica\u00e7\u00f5es mais simples devem ser contemplados: \u00abo efeito Clever Hans\u00bb e a explica\u00e7\u00e3o por automatismos (<i>rules of thumb = regras pr\u00e1ticas<\/i>).<\/p>\n<h4>O efeito Clever Hans<\/h4>\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo vinte, um artista alem\u00e3o, chamado von Osten, apresentava-se com o seu cavalo Clever Hans, um g\u00eanio matem\u00e1tico. Clever Hans sabia contar e fazer opera\u00e7\u00f5es (ele dava a resposta \u00e0s perguntas formuladas sob a forma de batidas com o casco sobre o solo). Intrigado, um pesquisador de psicologia, Oscar Pfungst, estudou o fen\u00f4meno em condi\u00e7\u00f5es rigorosamente controladas. Ele descobriu que, na realidade, Clever Hans se orientava por sinais f\u00edsicos muito leves, dados <i>inconscientemente<\/i> pelo seu dono, indicando quando ele devia come\u00e7ar e cessar de bater. Clever Hans era notavelmente dotado para decodificar as atitudes dos humanos (ele tamb\u00e9m conseguia faz\u00ea-lo quando era Pfungst quem formulava as perguntas), mas ele n\u00e3o sabia contar (ele se enganava quando aquele que formulava a pergunta ignorava a resposta).<\/p>\n<p>Os animais s\u00e3o muitas vezes dotados para interpretar as atitudes dos outros, uma aptid\u00e3o \u00fatil para a sua sobreviv\u00eancia. Assim, ao aproximarem-se hienas, ora as zebras continuam a pastar tranq\u00fcilamente, ora elas fogem. Elas adivinham se as hienas v\u00eam para ca\u00e7ar ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos anos 70 e no in\u00edcio dos anos 80, foram anunciados resultados espetaculares a prop\u00f3sito das capacidades ling\u00fc\u00edsticas dos chimpanz\u00e9s, com base nos estudos realizados sobre Washoe pelo casal Gardner e sobre Sarah, por David Premack: os macacos n\u00e3o somente compreendiam e utilizavam palavras, mas eles tinham no\u00e7\u00f5es de sintaxe (compreender que a ordem das palavras importa para determinar o sentido de uma frase). Mas muitas precau\u00e7\u00f5es metodol\u00f3gicas tinham sido negligenciadas. Particularmente, o fato de que os humanos, educando estes chimpanz\u00e9s, os tinham educado como os seus pr\u00f3prios filhos e desenvolvido fortes expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao seu sucesso \u00abescolar\u00bb, aumentava entre estes humanos a propens\u00e3o a interpretar os resultados em excesso. Ele tamb\u00e9m favorecia, entre os macacos, a aptid\u00e3o de decodificar as indica\u00e7\u00f5es corporais dadas involuntariamente pelos seus educadores, \u00e0 maneira de Clever Hans. Depois passou a navalha de Occam. Os estudos sobre os chimpanz\u00e9s foram conduzidos em condi\u00e7\u00f5es experimentais mais rigorosamente controladas, tendo sido preciso rever os desempenhos reconhecidos aos macacos, diminuindo-os. Particularmente, a sua capacidade de compreender a estrutura de uma frase foi posta seriamente em d\u00favida.<\/p>\n<h4>A explica\u00e7\u00e3o por automatismos<\/h4>\n<p>Von Frisch descobriu em 1973 a \u00abdan\u00e7a das abelhas\u00bb e mostrou como ela permitia a uma colhedora indicar \u00e0s outras, tendo retornado \u00e0 colm\u00e9ia, em que local e a que dist\u00e2ncia ela havia encontrado alimento, para que outras pudessem ir coletar do mesmo por sua vez. Mais tarde, descobriu-se que o vigor e a probabilidade de execu\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a davam, al\u00e9m disso, uma indica\u00e7\u00e3o sobre a riqueza relativa da fonte. As abelhas que encontraram uma fonte de alimento abundante dan\u00e7am mais rapidamente do que as que encontraram uma fonte mais escassa, e mais oper\u00e1rias se dirigem para o local indicado pelas primeiras do que pelas segundas.<\/p>\n<p>N\u00e3o menos not\u00e1vel \u00e9 o processo pelo qual \u00e9 fundada uma nova colm\u00e9ia. Chega um momento em que a rainha em exerc\u00edcio deixa a colm\u00e9ia, acompanhada por uma grande parte das oper\u00e1rias, enquanto a outra parte permanece e educa jovens rainhas, uma das quais substituir\u00e1 aquela que partiu. O enxame que deixou o ninho vai \u00absuspender-se\u00bb num galho, enquanto espera descobrir um novo domic\u00edlio. Dezenas de abelhas exploradoras partem para explorar as cavidades circunvizinhas e retornam para \u00abfazer o seu relat\u00f3rio\u00bb, sob a forma, ainda neste caso, de uma dan\u00e7a, indicando a localiza\u00e7\u00e3o da cavidade explorada e cuja intensidade \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do grau de adapta\u00e7\u00e3o dessa cavidade \u00e0s necessidades do enxame. Uma exploradora pode se deixar influenciar por uma outra que dance mais vigorosamente do que ela, partir para explorar a cavidade proposta pela sua colega, e voltar, por sua vez, para fazer o seu relat\u00f3rio. Este processo, que pode durar diversos dias, conduz a uma redu\u00e7\u00e3o progressiva do n\u00famero de locais candidatos, at\u00e9 que o consenso se estabele\u00e7a sobre um \u00fanico dentre eles, em dire\u00e7\u00e3o ao qual o enxame parte para se instalar.<\/p>\n<p>Temos vontade de descrever estes fen\u00f4menos, dizendo que as colhedoras ou as exploradoras dizem \u00e0s outras o que elas viram, que as abelhas sabem quais locais s\u00e3o os melhores, e que as decis\u00f5es coletivas se ap\u00f3iam numa esp\u00e9cie de processo democr\u00e1tico. Tudo isso implica um conhecimento consciente entre as abelhas, e uma transmiss\u00e3o consciente de id\u00e9ias de umas \u00e0s outras. Mas h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o mais simples. Tomemos, por exemplo, o processo que faz com que os locais ricos em alimento sejam mais visitados do que os locais mais pobres. Von Frisch descobriu que ele se baseava na media\u00e7\u00e3o de abelhas receptoras, que permanecem no ninho e cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 de aliviar as colhedoras. Elas est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de comparar o grau de concentra\u00e7\u00e3o em a\u00e7\u00facar das diversas colhedoras. As receptoras se apressam a aliviar as exploradoras que trazem um n\u00e9ctar rico, enquanto as outras precisam esperar. Quando uma abelha \u00e9 aliviada depressa, ela dan\u00e7a vigorosamente; se ela tem de esperar, ela dan\u00e7a lentamente, ou n\u00e3o dan\u00e7a em absoluto. As outras colhedoras s\u00e3o estimuladas pela dan\u00e7a vigorosa e se dirigem para as melhores fontes de alimento. O resultado \u00e9 notavelmente eficaz e parece t\u00e3o complexo, que nos induz a crer que um esp\u00edrito racional est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o. Mas de fato ele resulta de uma s\u00e9rie de etapas simples, cada uma das quais pode ser uma resposta autom\u00e1tica que n\u00e3o requer absolutamente nenhum pensamento. As regras seguidas pelas abelhas podem n\u00e3o passar da obedi\u00eancia cega a uma s\u00e9rie de instru\u00e7\u00f5es, tais como \u00abResponder mais fortemente \u00e0s maiores concentra\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00facar\u00bb, \u00abDan\u00e7ar em fun\u00e7\u00e3o do tempo de descarregamento\u00bb etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Henri Fabre estudou o comportamento de uma esp\u00e9cie de vespas, em que a f\u00eamea escava uma toca, para ali botar o seu ovo, retornando depois regularmente para alimentar a larva. Cada vez que ela traz uma presa, ela come\u00e7a por coloc\u00e1-la na borda do buraco, depois entra para inspecionar o ninho e torna a sair, para puxar a presa para dentro. Henri Fabre observou o que se passava se, enquanto a vespa estava no interior, a presa era afastada da borda do buraco. O seu comportamento \u00e9 invari\u00e1vel, mesmo depois de o acontecimento se ter produzido 40 vezes: ela vai buscar a presa, recoloca-a na entrada, recome\u00e7a a inspe\u00e7\u00e3o, torna a sair, torna a levar a presa at\u00e9 a borda do buraco, e assim sucessivamente. Ela \u00e9 incapaz de escapar deste ritual, de cessar de obedecer a uma regra para adaptar-se a uma situa\u00e7\u00e3o nova<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh6\" class=\"spip_note\" title=\"No dossi\u00ea \u00abComportamento animal, comportamento humano\u00bb, que veio \u00e0 luz em\u00a0(...)\" href=\"#nb6\" rel=\"footnote\">6<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Todos os estudos feitos at\u00e9 agora sobre os insetos sugerem que eles respondem a regras simples e n\u00e3o pensam realmente.<\/p>\n<p>A chave para estabelecer que animais fazem mais do que obedecer a tais regras (e, portanto, para estabelecer que \u00e9 poss\u00edvel que eles pensem) \u00e9 estudar como eles reagem em situa\u00e7\u00f5es <i>novas<\/i>. Nossa pr\u00f3xima etapa constituir\u00e1 em mostrar casos em que o comportamento animal parece requerer o pensamento. O pensamento n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico \u00e0 consci\u00eancia (pode-se utilizar corretamente regras de gram\u00e1tica sem ter a menor id\u00e9ia do que s\u00e3o essas regras). Todavia, estabelecer que animais \u00abpensam\u00bb, que n\u00e3o seguem cegamente regras pr\u00e9-definidas, \u00e9 uma das etapas que nos aproximam do objetivo (mostrar que eles s\u00e3o conscientes).<\/p>\n<h3>Cap\u00edtulo 4: Pensar<\/h3>\n<p>O pensamento pode ser caracterizado por dois atributos: 1) o indiv\u00edduo possui uma representa\u00e7\u00e3o interior do mundo e 2) ele consegue manipular essa representa\u00e7\u00e3o para conceber o que aconteceria em circunst\u00e2ncias novas.<\/p>\n<p>Um exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o de um rato num labirinto: se, quando se obstrui o seu caminho habitual, ele consegue encontrar <i>diretamente<\/i> a sua rota (e n\u00e3o por tentativas e erros), \u00e9 que ele tem uma representa\u00e7\u00e3o interior do labirinto e pensa para encontrar o meio de sair do mesmo.<\/p>\n<p>Pensar pode levar a comparar duas representa\u00e7\u00f5es ou mais, e a tomar decis\u00f5es sobre a a\u00e7\u00e3o a ser praticada, fundamentadas numa esp\u00e9cie de avalia\u00e7\u00e3o dos resultados prov\u00e1veis. Pensar \u00e9 n\u00e3o somente possuir uma representa\u00e7\u00e3o  interior, mas ser capaz de manipul\u00e1-la (considerar o que aconteceria se um elemento mudasse, por exemplo) e comportar-se de maneira apropriada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 representa\u00e7\u00e3o modificada. \u00c9 esta maneira de ter uma \u00abmedida de antecipa\u00e7\u00e3o\u00bb que distingue o pensamento dos automatismos. Um animal que possui uma lista de instru\u00e7\u00f5es, por longa que seja, indicando o que \u00e9 preciso fazer em cada circunst\u00e2ncia, n\u00e3o tem necessidade de ter um modelo interior do mundo. Mas um animal que \u00e9 capaz de ir al\u00e9m da lista pr\u00e9-implantada e de encarar o inesperado mostra que ele tem a possibilidade de buscar, dentre diversas a\u00e7\u00f5es contempl\u00e1veis, aquela que \u00e9 a melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As experi\u00eancias descritas neste cap\u00edtulo foram retidas por Marian Dawkins porque elas foram constru\u00eddas de forma a se premunir ao m\u00e1ximo contra as fontes de erro descritas no cap\u00edtulo 3. O autor relata cada vez em detalhe o dispositivo experimental, as precau\u00e7\u00f5es tomadas para se assegurar que o animal n\u00e3o encontrava a boa resposta ao acaso, ou guiando-se por uma coisa diferente da faculdade que se procura estudar, ou ainda, aplicando regras simples<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh7\" class=\"spip_note\" title=\"Este \u00faltimo elemento \u00e9 o mais dif\u00edcil de ser descartado: os pesquisadores\u00a0(...)\" href=\"#nb7\" rel=\"footnote\">7<\/a>]<\/span>. N\u00e3o podemos, neste resumo, retomar o detalhe de cada experi\u00eancia, nem evocar todos os exemplos citados.<\/p>\n<h4>Extrapola\u00e7\u00e3o, seq\u00fc\u00eancia<\/h4>\n<p>Uma maneira de \u00abmanipular as coisas em sua cabe\u00e7a\u00bb consiste em extrapolar, particularmente para determinar onde um objeto deve se encontrar, ou reaparecer, depois que tenhamos cessado de v\u00ea-lo. Num estudo feito sobre pombos, o objeto que desaparecia temporariamente era um ponteiro de rel\u00f3gio. A experi\u00eancia revelou que os pombos sabiam onde o ponteiro devia reaparecer em fun\u00e7\u00e3o do tempo decorrido desde o seu desaparecimento.<\/p>\n<p>Procurou-se igualmente saber se os pombos possuem ou podem adquirir a no\u00e7\u00e3o de seq\u00fc\u00eancia, de ordem entre acontecimentos. Para isso, ensina-se-lhes que para obter alimento eles devem dar bicadas em motivos luminosos na ordem verde-vermelho-azul-amarelo, por exemplo. A experi\u00eancia \u00e9 realizada de tal maneira, que os suportes f\u00edsicos das cores, a sua forma, a sua disposi\u00e7\u00e3o espacial, sejam muito diferentes em cada teste, de modo que os p\u00e1ssaros n\u00e3o possam servir-se de sua excelente mem\u00f3ria visual para responder. O estudo conclui que os pombos possuem positivamente o conceito de seq\u00fc\u00eancia, num n\u00edvel de abstra\u00e7\u00e3o elevado, que lhes permite aplic\u00e1-lo em situa\u00e7\u00f5es novas.<\/p>\n<h4>No\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas<\/h4>\n<p>H\u00e1 diferentes graus na posse de no\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas. Pode tratar-se somente de uma aprecia\u00e7\u00e3o grosseira de tamanho relativo. Um p\u00e1ssaro ou um carneiro que, de dois grupos, opta por reunir-se ao mais numeroso, tem este tipo de capacidade, sem saber, para tanto, contar o n\u00famero de indiv\u00edduos de cada grupo.<\/p>\n<p>Encontram-se casos em que um animal mostra uma compreens\u00e3o do n\u00famero mais preciso e mais abstrato, sendo que ele consegue aplic\u00e1-la em situa\u00e7\u00f5es diferentes. Marian Dawkins d\u00e1 dois exemplos disso. O primeiro relata uma experi\u00eancia em que ratos aprendem rapidamente que \u00e9 (por exemplo) o sexto t\u00fanel que \u00e9 o bom num conjunto de 12, quando os doze s\u00e3o colocados sucessivamente em posi\u00e7\u00f5es diferentes (espa\u00e7amento vari\u00e1vel, em linha, ou em \u00e2ngulo reto...). O segundo exemplo se refere ao papagaio cinza Alex, educado por Irene Pepperberg. Alex pronuncia e utiliza com conhecimento de causa palavras que designam objetos, subst\u00e2ncias, cores e formas. Foram-lhe ensinados os nomes dos n\u00fameros 2, 3, 4, 5, 6. Ele se mostrou capaz de responder corretamente \u00e0 pergunta \u00abquanto?\u00bb, e isso para lotes de objetos que ele conhece, mas tamb\u00e9m para objetos que ele n\u00e3o conhece, ou ainda misturas de objetos (Se, por exemplo, segura-se na m\u00e3o tr\u00eas bast\u00f5es e duas chaves, Alex responde \u00abcinco\u00bb).<\/p>\n<p>\u00abUm p\u00e1ssaro que sabe contar? Rid\u00edculo!\u00bb, dir\u00e3o os c\u00e9ticos. Mas as duas hip\u00f3teses em disputa, a saber, \u00abO animal obedece a regras pr\u00e9-definidas\u00bb e \u00abo animal pensa\u00bb, conduzem a predi\u00e7\u00f5es diferentes com refer\u00eancia a seu comportamento. Quando foram tomadas tantas precau\u00e7\u00f5es quanto poss\u00edvel para verificar que explica\u00e7\u00f5es mais simples n\u00e3o funcionavam, ent\u00e3o a navalha de Occam nos incita a concluir que os animais pensam, ou pelo menos alguns dentre eles.<\/p>\n<h4>\u00abMentir\u00bb e determinar os mentirosos<\/h4>\n<p>Os macacos-vervet s\u00e3o animais territoriais, que vivem em pequenos grupos. Quando um deles v\u00ea membros de um outro bando se aproximarem do seu territ\u00f3rio, ele lan\u00e7a um grito caracter\u00edstico \u00abwrrr\u00bb. Esse grito previne os membros do seu pr\u00f3prio grupo que intrusos est\u00e3o se aproximando e assinala a estes \u00faltimos que eles foram vistos. Ouvindo um \u00abwrrr\u00bb, os membros dos dois grupos se re\u00fanem e se confrontam. As mais das vezes, depois de se ter fitado intensamente e ter trocado \u00abwrrrs\u00bb, cada um torna a partir pacificamente do seu lado. Mas \u00e0s vezes a situa\u00e7\u00e3o se agrava com atitudes mais amea\u00e7adoras. \u00c9 ent\u00e3o que os macacos lan\u00e7am um outro grito caracter\u00edstico \u00abchutter\u00bb. Cheney e Seyfarth estudaram uma tropa de macacos \u00abvervets\u00bb selvagens e registraram os gritos de um macaco S. Em seguida, eles difundiram por diversas vezes o \u00abwrrr\u00bb de S, quando nenhum outro grupo estava \u00e0 vista. No princ\u00edpio, os membros do grupo reagiram como de costume, interrompendo as suas atividades para procurar os intrusos com o olhar. Mas a partir da nona vez, eles cessaram de prestar aten\u00e7\u00e3o nisso, quando o mesmo grito proveniente de qualquer outro macaco continuava a desencadear o alerta. Cheney e Seyfarth difundiram ent\u00e3o o \u00abchutter\u00bb registrado de S, e a\u00ed os macacos tampouco reagiram. Os \u00abvervets\u00bb foram, portanto, capazes de oferecer uma resposta apropriada a uma situa\u00e7\u00e3o nova (ouvir gritos lan\u00e7ados sem conhecimento de causa). Eles souberam detectar que um indiv\u00edduo anteriormente cr\u00edvel n\u00e3o o era mais, e foi efetivamente o indiv\u00edduo, e n\u00e3o o grito, que foi reconhecido, uma vez que a desconfian\u00e7a para com o seu \u00abwrrr\u00bb foi imediatamente estendida ao seu \u00abchutter\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Emil Menzel estudou as intera\u00e7\u00f5es sociais de seis chimpanz\u00e9s colocados num vasto recinto. Ele se interessou particularmente pela maneira pela qual eles podem utilizar o comportamento dos outros para saber onde h\u00e1 alimento. Para isso, ele esconde frutas no parque e mostra a um \u00fanico dos macacos (que se chamar\u00e1 de iniciado) onde eles se encontram, enquanto os outros est\u00e3o encerrados (Naquele momento, o iniciado n\u00e3o pode tocar no alimento. Ele olha simplesmente, depois ele \u00e9 encerrado com os demais). Em seguida, o grupo de chimpanz\u00e9s \u00e9 liberado. A presen\u00e7a do iniciado permite a todos encontrar rapidamente o esconderijo, ao passo que quando nenhum deles o conhece, \u00e9 s\u00f3 raramente que ele \u00e9 descoberto. \u00c9 neste contexto que foram observados comportamentos de \u00abmentira\u00bb ou de \u00abengano\u00bb. A iniciada era Belle. Quando Rock (um macho dominante) permanecia encerrado e ela conduzia os outros ao esconderijo, as rela\u00e7\u00f5es eram razoavelmente amistosas e cada um tinha o que comer. Quando Rock estava presente, ele batia em Belle ou a mordia e guardava todo o alimento para si. Belle come\u00e7ou por se dirigir cada vez mais lentamente em dire\u00e7\u00e3o ao esconderijo quando Rock estava presente. Depois ela cessou de indicar onde estavam as frutas, mas dirigiu-se para l\u00e1 diretamente, se sentou sobre o monte e esperou que Rock seguisse o seu caminho. Mas Rock descobriu rapidamente o estratagema. Logo que ela ficava sentada mais de alguns segundos, ela a fazia retirar-se precipitadamente e se apoderava das frutas. Ent\u00e3o Belle tentou parar nas proximidades do alimento, mas n\u00e3o justamente em cima. Rock se p\u00f4s a procurar na zona situada em torno dela, at\u00e9 encontrar. Em seguida, Belle passou a parar cada vez mais longe do esconderijo e a esperar que Rock olhasse alhures, para se precipitar para o mesmo. Rock reagiu pondo-se a olhar alhures e mesmo a se afastar, at\u00e9 que Belle se movesse. Se ele tinha a chance, fazendo isso, de se aproximar do alimento, Belle mostrava sinais de nervosismo, que ele interpretava como se dissesse \u00abvoc\u00ea arde\u00bb. Em algumas ocasi\u00f5es, Belle tentou <i>afastar<\/i> o grupo do alimento, e depois, enquanto todos estavam ocupados a procurar, correr em dire\u00e7\u00e3o ao esconderijo. Numa outra s\u00e9rie de experi\u00eancias, Manzel escondeu duas por\u00e7\u00f5es de alimento, uma grande e uma pequena, a tr\u00eas metros de dist\u00e2ncia entre si. Belle conduziu Rock para a pequena e se precipitou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 grande enquanto ele comia. Quando Rock come\u00e7ou a ignorar a por\u00e7\u00e3o pequena, para conservar o olho sobre Belle, isso a deixou louca de raiva. Est\u00e1 a\u00ed um exemplo de dois animais que pensam na maneira de obter o que querem , que inovam, e que encontram a solu\u00e7\u00e3o apropriada numa escalada em que eles devem resolver problemas de uma complexidade intelectual crescente.<\/p>\n<p>Vimos, portanto, ao longo de todo este cap\u00edtulo, uma s\u00e9rie de comportamentos cuja explica\u00e7\u00e3o mais plaus\u00edvel \u00e9 que os animais pensam.<\/p>\n<h3>Cap\u00edtulo 5: Sentir<\/h3>\n<p>O pensamento n\u00e3o passa de uma dimens\u00e3o do esp\u00edrito. A outra dimens\u00e3o reside na capacidade de experimentar sentimentos: medo, c\u00f3lera, dor, felicidade etc. Muitos consideram esta capacidade como sendo ao mesmo tempo o aspecto mais fundamental da consci\u00eancia e aquele que mais importa no plano moral.<\/p>\n<p>Os animais experimentam sensa\u00e7\u00f5es e emo\u00e7\u00f5es? Para sab\u00ea-lo, s\u00e3o necess\u00e1rios m\u00e9todos diferentes dos utilizados para detectar o pensamento. As aptid\u00f5es intelectuais s\u00e3o reveladas a partir da capacidade de fornecer respostas certas. Mas n\u00e3o h\u00e1 resposta certa no que se refere \u00e0s emo\u00e7\u00f5es. Os sinais corporais que as manifestam (enrubescer, tremer...) podem ser muito diferentes segundo as esp\u00e9cies e verificar-se dif\u00edceis de serem interpretados. Para procurar a maneira de detectar os sentimentos, \u00e9 melhor partir de id\u00e9ias gerais sobre aquilo de que se trata.<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, o aspecto essencial de uma emo\u00e7\u00e3o \u00e9 que <i>ela nos importa<\/i>. N\u00e3o somos portadores passivos dos nossos sentimentos, simples observadores da sua exist\u00eancia. Estamos envolvidos no que acontece. As nossas emo\u00e7\u00f5es fazem com que nos preocupemos com o que adv\u00e9m. Se sentimos alguma dor, importa-nos que ela cesse. Portanto, se queremos saber se outros animais experimentam emo\u00e7\u00f5es, devemos procurar se h\u00e1 fatos que indiquem que tamb\u00e9m eles se preocupam com o que lhes acontece. O fato de n\u00e3o podermos perguntar-lho com palavras n\u00e3o constitui um obst\u00e1culo insuper\u00e1vel. Sabemos, por n\u00f3s mesmos, que a \u00edndole de um sentimento poderoso \u00e9 que ele invade o nosso esp\u00edrito inteiro, a ponto de nos acontecer de estarmos preparados a fazer \u00abde tudo\u00bb para obter o que queremos. Enquanto experimentamos as nossas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es, o que v\u00eaem os outros, do exterior, s\u00e3o nossas a\u00e7\u00f5es, o fato de que procuramos obter alguma coisa e que \u00e0s vezes estamos preparados para fazer grandes sacrif\u00edcios para consegui-lo. O equivalente destas a\u00e7\u00f5es \u00e9 observ\u00e1vel entre outros animais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pode-se formular aos animais perguntas sem palavras: eles est\u00e3o preparados para fazer esfor\u00e7os, passar tempo, renunciar a uma oportunidade, para obter o que querem? Pode-se medir a intensidade do esfor\u00e7o que eles est\u00e3o preparados a fornecer, e tamb\u00e9m fazer com que revelem o que eles preferem entre duas coisas desej\u00e1veis. A beleza deste m\u00e9todo \u00e9 que ele \u00e9 aplic\u00e1vel a praticamente todas as esp\u00e9cies e permite investigar sobre a maioria dos aspectos do seu meio ambiente. \u00c9 suficiente que se seja bastante engenhoso para adaptar os dispositivos \u00e0 morfologia de cada animal (os que t\u00eam m\u00e3os podem acionar alavancas, os peixes podem nadar atrav\u00e9s de t\u00faneis...), e que se tenha o esp\u00edrito suficientemente aberto para imaginar que um animal pode estar preparado para muitos esfor\u00e7os para obter alguma coisa cujo interesse nos parece incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p>Entre os estudos pioneiros feitos segundo este m\u00e9todo, figuram os impulsionados pela Comiss\u00e3o Brambell, institu\u00edda pelo governo brit\u00e2nico nos anos 60, para promover o bem-estar dos animais submetidos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o industrial. Entre as in\u00fameras recomenda\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o, figura esta, referente \u00e0s galinhas criadas em bateria: o fundo das gaiolas deveria ser feito de espessas espirais de fio met\u00e1lico (A), de prefer\u00eancia a um fio met\u00e1lico fino, tecido em malhas cerradas (B). A id\u00e9ia era que seria mais confort\u00e1vel para as galinhas terem um ch\u00e3o espesso. Em seguida \u00e0 publica\u00e7\u00e3o desta recomenda\u00e7\u00e3o, Arthur Black e Barry Hughes tomaram a iniciativa de estudar as prefer\u00eancias das galinhas na mat\u00e9ria. Para isso, eles lhes permitiram deslocar-se livremente entre os tipos de solos A e B, anotando de 10 em 10 segundos onde elas se encontravam. Ao contr\u00e1rio do que se esperava, resultou que elas passavam muito mais tempo sobre o solo B, desaconselhado pela Comiss\u00e3o Brambell, e por fim se descobriu a raz\u00e3o disso: a superf\u00edcie das patas em contato com o solo era mais vantajosa sobre o solo de malhas finas do que sobre o solo mais espesso, permitindo uma melhor reparti\u00e7\u00e3o do peso do corpo.<\/p>\n<p>Se esta experi\u00eancia mostra que \u00e9 poss\u00edvel enganar-se em nossa aprecia\u00e7\u00e3o <i>a priori<\/i> das prefer\u00eancias dos animais, ela n\u00e3o fornece para tanto uma imagem correta da opini\u00e3o das galinhas sobre o seu meio ambiente: enquanto se lhes deixa somente a escolha entre os solos A e B, n\u00e3o se aprende nada sobre o que elas pensam das condi\u00e7\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o industrial. Permitindo-se-lhes deslocar-se entre os solos gradeados A e B e um solo mais natural C, feito de turfa, de terra ou de cavacos de madeira, \u00e9 rapidamente este \u00faltimo que \u00e9 escolhido. Esta prefer\u00eancia por um solo que permite arranhar e tomar banhos de poeira \u00e9 manifestada inclusive por galinhas que n\u00e3o conheceram sen\u00e3o solos gradeados desde o seu nascimento, quando, com a idade de quatro meses, esta possibilidade lhes \u00e9 oferecida pela primeira vez.<\/p>\n<p>V\u00ea-se com freq\u00fc\u00eancia os frangos de cria\u00e7\u00e3o industrial projetarem sobre as suas costas uma poeira imagin\u00e1ria. Se lhes \u00e9 dado acesso a um solo mais natural, eles se entregam a uma verdadeira orgia de banhos de poeira real, como se eles recuperassem o tempo perdido. Tudo isso sugere que as galinhas desejam muito poder arranhar o solo e tomar banhos de poeira, e esta conclus\u00e3o se confirma quando elas n\u00e3o podem ter acesso ao solo que elas preferem, a n\u00e3o ser consentindo em fazer um esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Podem-se conceber diversos dispositivos para medir quanto as galinhas est\u00e3o dispostas a pagar para ter acesso a coisas tais como erva fresca, um solo para arranhar, um lugar para p\u00f4r os ovos<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh8\" class=\"spip_note\" title=\"Um poedouro \u00e9 um cesto no qual as galinhas v\u00e3o botar ovos. Ele \u00e9 o substituto\u00a0(...)\" href=\"#nb8\" rel=\"footnote\">8<\/a>]<\/span>, a companhia de outras galinhas etc. Norma Bubier, por exemplo, utilizou para este fim o fato de que as galinhas n\u00e3o gostam das passagens estreitas. Ela observou que elas estavam, no entanto, dispostas a franquear repetidamente tais passagens para ter acesso a alimento ou a um solo brando, e que as galinhas que estavam a ponto de p\u00f4r ovos consentiam em fazer esfor\u00e7os consider\u00e1veis para ter acesso a lugares para p\u00f4r os ovos. Assim se tem uma id\u00e9ia da profunda frustra\u00e7\u00e3o dos milh\u00f5es de galinhas obrigadas a p\u00f4r ovos diariamente em gaiolas que est\u00e3o desprovidas dos mesmos. Bubier tamb\u00e9m observou que as galinhas aceitavam pagar certo \u00abpre\u00e7o\u00bb para poder tornar a reunir-se a um grupo de cong\u00eaneres (s\u00e3o animais sociais), mas menos elevado do que o que elas pagam para ter um lugar de p\u00f4r ovos, ou um solo que permita os banhos de poeira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estas observa\u00e7\u00f5es \u2013 e outras observa\u00e7\u00f5es similares, feitas a respeito de animais de diferentes esp\u00e9cies \u2013 mostram que n\u00e3o somente eles manifestam prefer\u00eancias, mas que eles desenvolvem grandes esfor\u00e7os para obter certas coisas, que eles t\u00eam um comportamento muito semelhante ao que provocam entre n\u00f3s as emo\u00e7\u00f5es poderosas, as que fazem com que o nosso esp\u00edrito seja invadido pela necessidade imperiosa de obter, de realizar ou de evitar alguma coisa.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 este paralelismo entre o comportamento deles e o nosso realmente suficiente para afirmar que eles experimentam, como n\u00f3s, sentimentos positivos e negativos? Pode-se contentar em definir as emo\u00e7\u00f5es em termos de disposi\u00e7\u00e3o de obter ou evitar alguma coisa? N\u00e3o \u00e9 deixar de lado a dimens\u00e3o mais importante das emo\u00e7\u00f5es: as sensa\u00e7\u00f5es subjetivas de prazer, dor, solid\u00e3o, alegria etc. As emo\u00e7\u00f5es n\u00e3o ser\u00e3o mais do que o que n\u00f3s <i>fazemos<\/i>, porque dependem fundamentalmente daquilo que <i>experimentamos<\/i>? Talvez tenhamos estabelecido que os animais agem como n\u00f3s, mas n\u00e3o tenhamos respondido \u00e0 quest\u00e3o decisiva de saber se eles experimentam sentimentos como n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o se ficar\u00e1 surpreso em ficar sabendo que a resposta a esta quest\u00e3o ainda nos escapa. O estudo do comportamento animal n\u00e3o permite estabelecer com certeza que a procura obsessiva por alimento \u00e9 acompanhada pela sensa\u00e7\u00e3o de fome, ou que os cuidados proporcionados aos filhotes s\u00e3o acompanhados por amor. O problema \u00e9 o mesmo que se refere a outros humanos que n\u00e3o n\u00f3s pr\u00f3prios. Mas, dir\u00e3o, os outros humanos assemelham-se-nos a tal ponto, que a atribui\u00e7\u00e3o de sentimentos semelhantes aos nossos \u00e9 somente um pequeno passo a ser dado, enquanto que, tratando-se de indiv\u00edduos de outras esp\u00e9cies, \u00e9 um abismo que seria necess\u00e1rio franquear, profundo demais para que permane\u00e7a razo\u00e1vel fiar-se no princ\u00edpio de analogia. No entanto, trabalhos como os conduzidos pelo fisiologista canadense Michel Cabanac sugerem que o salto a ser dado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande. Esse pesquisador est\u00e1 persuadido de que as emo\u00e7\u00f5es t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o e que existe uma correla\u00e7\u00e3o estreita entre a fisiologia, as emo\u00e7\u00f5es e o comportamento (a sensa\u00e7\u00e3o de fome \u00e9 uma componente do mecanismo que permite remediar um d\u00e9ficit fisiol\u00f3gico que coloca o nosso organismo em perigo, incitando-nos a procurar alimento).<\/p>\n<p>Cabanac realizou, entre outros, um estudo comparativo das respostas dos humanos e dos ratos \u00e0s subst\u00e2ncias a\u00e7ucaradas. Para os humanos, tratava-se de atribuir uma nota (um n\u00famero inteiro, compreendido entre \u20132 e +2) que exprimisse o prazer ou desprazer que eles tinham em tomar uma bebida a\u00e7ucarada. Cabanac transcreveu sob a forma de um gr\u00e1fico a maneira pela qual a atribui\u00e7\u00e3o de notas variava em fun\u00e7\u00e3o de diversas circunst\u00e2ncias: por exemplo, a nota atribu\u00edda era mais reduzida entre os indiv\u00edduos que acabavam de concluir uma refei\u00e7\u00e3o, ou que j\u00e1 tinham tomado uma primeira bebida um pouco antes. Para as mulheres, ela tamb\u00e9m variava segundo a fase do ciclo menstrual.<\/p>\n<p>Em seguida, a mesma quest\u00e3o foi colocada para ratos, n\u00e3o lhes pedindo para atribuir notas, mas medindo a quantidade de l\u00edquido a\u00e7ucarado que eles decidiam tomar segundo as circunst\u00e2ncias. Os gr\u00e1ficos obtidos para os ratos e os humanos foram de uma semelhan\u00e7a extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Uma experi\u00eancia da mesma ordem foi elaborada por Cabanac para revelar as prefer\u00eancias dos ratos e dos humanos com refer\u00eancia \u00e0 temperatura ambiente (em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 temperatura do corpo) e as suas rea\u00e7\u00f5es \u00e0s mudan\u00e7as de temperatura. Ainda a\u00ed, os resultados se verificaram notavelmente semelhantes.<\/p>\n<p>Poder-se-ia certamente sustentar que os ratos se nos assemelham tanto, que eles s\u00e3o pequenas m\u00e1quinas que n\u00e3o sentem nada, enquanto n\u00f3s temos sede ou calor ou frio. Mas a estreita semelhan\u00e7a do comportamento e da fisiologia<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh9\" class=\"spip_note\" title=\"O corpo dos ratos reage de maneira muito semelhante ao dos humanos em\u00a0(...)\" href=\"#nb9\" rel=\"footnote\">9<\/a>]<\/span> fazem com que a teoria mais simples, a que requer a introdu\u00e7\u00e3o de um m\u00ednimo de cl\u00e1usulas especiais, seja que se eles nos s\u00e3o semelhantes no que \u00e9 observ\u00e1vel, eles tamb\u00e9m o s\u00e3o no que n\u00e3o vemos (a experi\u00eancia subjetiva).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Neste cap\u00edtulo, recorremos t\u00e3o-somente a uma vers\u00e3o m\u00ednima da argumenta\u00e7\u00e3o \u00e0 base de analogia. N\u00e3o sustentamos que as outras esp\u00e9cies eram exatamente como n\u00f3s. Conclu\u00edmos somente que era plaus\u00edvel que outras esp\u00e9cies tivessem, como n\u00f3s, estados conscientes, e compartilhassem conosco a dicotomia b\u00e1sica entre os que s\u00e3o agrad\u00e1veis e desagrad\u00e1veis. \u00c9 poss\u00edvel que cada esp\u00e9cie tenha a sua pr\u00f3pria distribui\u00e7\u00e3o entre o que seja agrad\u00e1vel e desagrad\u00e1vel, e que, \u00e0s vezes, ela seja semelhante \u00e0 nossa e, \u00e0s vezes, completamente diferente. A natureza exata desta reparti\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 para ser descoberta.<\/p>\n<p>Tudo o que nos importa, num futuro pr\u00f3ximo, \u00e9 termos estabelecido que seja prov\u00e1vel que pelo menos certos animais experimentem emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es, percebidas ora como penosas ou dolorosas, ora como agrad\u00e1veis e desej\u00e1veis.<\/p>\n<h3>Cap\u00edtulo 6: A consci\u00eancia \u00e9 da compet\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica?<\/h3>\n<p>Ao longo de todo este livro, as sensa\u00e7\u00f5es privadas, conscientes, foram claramente distinguidas dos fatos publicamente observ\u00e1veis, tais como os comportamentos dos animais. Ainda que invis\u00edveis, atividades tais como \u00abpensar\u00bb ou \u00abcontar\u00bb pertencem \u00e0 segunda categoria, porque os seus <i>resultados<\/i> s\u00e3o p\u00fablicos. Assim, se afirmamos que um animal est\u00e1 extrapolando para determinar a posi\u00e7\u00e3o de um objeto oculto em movimento, podemos predizer o que ele vai fazer (o local aonde ele ir\u00e1 procurar o objeto), se ele realmente estiver efetuando esta opera\u00e7\u00e3o. Podem ser tiradas conclus\u00f5es cientificamente v\u00e1lidas sobre os acontecimentos, n\u00e3o-observ\u00e1veis, que se desenrolam na cabe\u00e7a do animal, porque captamos o pensamento atrav\u00e9s dos seus efeitos.<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0 consci\u00eancia, isto \u00e9 diferente. A raz\u00e3o pela qual tantas pessoas sustentam que jamais podemos saber se um outro indiv\u00edduo experimenta alguma coisa \u00e9 que a toda a predi\u00e7\u00e3o que fazemos, supondo-o sens\u00edvel (ele grita porque o golpe recebido lhe faz mal) se op\u00f5e uma predi\u00e7\u00e3o paralela (o golpe provoca o grito, sem que o indiv\u00edduo sinta alguma coisa). Parece imposs\u00edvel distinguir o fato de sentir realmente alguma coisa do de se comportar \u00abcomo se\u00bb uma sensa\u00e7\u00e3o estivesse sendo experimentada. \u00c9 por este motivo que o estudo da sensibilidade \u00e9 muitas vezes considerado como n\u00e3o sendo da compet\u00eancia da ci\u00eancia: uma teoria que n\u00e3o \u00e9 estribada por predi\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 uma teoria cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Para muitos cientistas, h\u00e1 duas esp\u00e9cies de quest\u00f5es: aquelas \u00e0s quais podemos esperar encontrar respostas, e as outras. E a quest\u00e3o de saber se um outro organismo, que n\u00e3o o nosso, \u00e9 consciente, \u00e9 praticamente a \u00fanica a ser enquadrada na segunda categoria. Pois, na mat\u00e9ria, o obst\u00e1culo seria de ordem l\u00f3gica e n\u00e3o imput\u00e1vel a limites intelectuais ou t\u00e9cnicos, que se pudesse esperar que fossem superados com o tempo.<\/p>\n<p>Marian Dawkins n\u00e3o compartilha este ponto de vista. A distin\u00e7\u00e3o entre o sentido privado (suposto impercept\u00edvel do exterior) e o comportamento p\u00fablico (test\u00e1vel), que t\u00ednhamos admitido at\u00e9 aqui, talvez seja menos s\u00f3lida do que parece. A presen\u00e7a da consci\u00eancia \u00e9 t\u00e3o indetect\u00e1vel quanto se diz? Um tema evocado ao longo de todo este livro foi que a consci\u00eancia evoluiu porque ela \u00e9, em diversos sentidos, vantajosa para os que a possuem. Numerosos s\u00e3o os zo\u00f3logos, psic\u00f3logos e fil\u00f3sofos que falaram de \u00abfun\u00e7\u00f5es\u00bb da consci\u00eancia e especularam sobre as vantagens que ela proporciona. O ponto importante \u00e9 que se a consci\u00eancia tem uma fun\u00e7\u00e3o, ela tamb\u00e9m tem <i>efeitos<\/i>. Ora, os efeitos s\u00e3o, em princ\u00edpio, detect\u00e1veis.  No que se refere \u00e0 consci\u00eancia, pode-se sustentar duas posi\u00e7\u00f5es coerentes (mas de plausibilidade desigual):<\/p>\n<p>- ou afirmar que ela \u00e9 indetect\u00e1vel porque ela n\u00e3o tem absolutamente nenhum efeito; \u00e9 preciso ent\u00e3o abandonar a id\u00e9ia de uma fun\u00e7\u00e3o e de uma evolu\u00e7\u00e3o da sensibilidade e declarar-se epifenomenalista;<\/p>\n<p>- ou considerar que ela interfere no comportamento, que ela \u00e9 uma componente do mecanismo que o controla. Se a consci\u00eancia tem uma fun\u00e7\u00e3o, ele deve permitir aos animais fazer alguma coisa de espec\u00edfico, que pode ser detectado.  Em compensa\u00e7\u00e3o, um h\u00edbrido das duas posi\u00e7\u00f5es precedentes \u2013 a saber, que a consci\u00eancia teria uma fun\u00e7\u00e3o, mas que nos seria para todo o sempre imposs\u00edvel detect\u00e1-la\u00a0-, n\u00e3o \u00e9 logicamente defens\u00e1vel.  Mesmo se n\u00e3o podemos decidir com certeza entre as duas teses que permanecem em disputa, a segunda \u00e9 mais plaus\u00edvel do que a primeira. Bernard Baars, em <i>A Cognitive Theory of Consciousness<\/i> (Uma Teoria Cognitiva da Consci\u00eancia) (Cambridge University Press, 1988), sustenta que na maioria dos casos agimos mais eficazmente quando n\u00e3o temos consci\u00eancia dos nossos atos: um solista interpreta primorosamente uma pe\u00e7a conhecida ao deixar os seus dedos correrem automaticamente sobre o teclado, enquanto o exerc\u00edcio se transforma em cat\u00e1strofe se, sob a press\u00e3o do stress, ele se p\u00f5e a se perguntar qual deveria ser o pr\u00f3ximo gesto. Os processos inconscientes se verificam muitas vezes muito superiores para gerar situa\u00e7\u00f5es bem-conhecidas e previs\u00edveis. Os processos conscientes s\u00e3o melhores para gerar situa\u00e7\u00f5es novas ou quando h\u00e1 imprevisibilidade. O fato de conseguirmos identificar circunst\u00e2ncias em que a consci\u00eancia \u00e9 um trunfo sugere que ela n\u00e3o \u00e9 um \u00abextra\u00bb sup\u00e9rfluo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o temos uma compreens\u00e3o precisa dos efeitos da consci\u00eancia, mas dispomos de fortes indica\u00e7\u00f5es quanto \u00e0 dire\u00e7\u00e3o em que \u00e9 preciso procur\u00e1-los: as situa\u00e7\u00f5es novas, de conseq\u00fc\u00eancia imprevis\u00edvel, aquelas em que se tenta possuir uma medida de antecipa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos acontecimentos, parecem ser aquelas que provocam os fatos mentais conscientes. Estas caracter\u00edsticas est\u00e3o particularmente presentes nas intera\u00e7\u00f5es com outros indiv\u00edduos. Diversos autores ventilaram a id\u00e9ia de que as rela\u00e7\u00f5es sociais s\u00e3o um dom\u00ednio em que a intelig\u00eancia se verifica particularmente \u00fatil. \u00c9 l\u00e1 que se encontram rela\u00e7\u00f5es de \u00abconfian\u00e7a\u00bb, \u00abreciprocidade\u00bb ou \u00ablogro\u00bb. \u00c9 vantajoso conseguir prever o que far\u00e1 um cong\u00eanere e o que ele faria se as circunst\u00e2ncias mudassem. A vida social oferece um ambiente continuamente vari\u00e1vel, que se tornou complexo pela intelig\u00eancia dos aliados e advers\u00e1rios com que nele se entra em contato. Mas h\u00e1 outras circunst\u00e2ncias em que pode constituir uma vantagem avaliar as conseq\u00fc\u00eancias daquilo que se poderia fazer em rela\u00e7\u00e3o aos acontecimentos subseq\u00fcentes, como apanhar peixes, construir barragens sobre rios ou extrair objetos de lugares de acesso muito dif\u00edcil. Se h\u00e1 alguma verdade em tudo isso, ent\u00e3o da\u00ed resulta que n\u00e3o h\u00e1 duas esp\u00e9cies de quest\u00f5es: aquelas que se referem ao corpo dos animais (\u00e0s quais se pode esperar responder um dia) e as que concernem ao seu esp\u00edrito (\u00e0s quais n\u00e3o se poderia responder jamais). Pelo contr\u00e1rio, a quest\u00e3o da consci\u00eancia animal deveria estar firmemente vinculada ao campo da biologia, do qual que ela depende tanto quanto o tema das mol\u00e9culas que transportam o oxig\u00eanio. Se a consci\u00eancia tem uma fun\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o o seu estudo pertence inteiramente ao dom\u00ednio cient\u00edfico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos o balan\u00e7o dos dados reunidos neste livro:<\/p>\n<p>- Certos animais t\u00eam comportamentos que se explicam melhor ao atribuir-se-lhes um pensamento, uma capacidade de manipular uma representa\u00e7\u00e3o interna do mundo. Eles t\u00eam no\u00e7\u00f5es de ordem ou de n\u00famero, eles avaliam diferentemente a credibilidade de indiv\u00edduos diferentes...<\/p>\n<p>- Certos animais agem de forma a obter ou evitar certas coisas de uma maneira muito semelhante \u00e0 nossa, quando desejamos ou tememos intensamente alguma coisa.<\/p>\n<p>Pode-se certamente estacionar na posi\u00e7\u00e3o c\u00e9tica e afirmar que, \u00e0 diferen\u00e7a de n\u00f3s, os animais fazem tudo isso inconscientemente. \u00c9 verdade que, logicamente, esta possibilidade n\u00e3o pode ser exclu\u00edda. Mas a l\u00f3gica nos diz tamb\u00e9m duas coisas: 1) que a mesma atitude deveria levar-nos a duvidar igualmente de que os outros humanos sejam conscientes; 2) que \u00e9 necess\u00e1rio construir uma argumenta\u00e7\u00e3o especial, no caso de se querer sustentar que comportamentos semelhantes podem estar acompanhados de estados mentais diferentes (presen\u00e7a ou aus\u00eancia de consci\u00eancia).<\/p>\n<p>Ao se aceitar o argumento da analogia para inferir a consci\u00eancia em outros humanos, \u00e9 dif\u00edcil que se recuse a atribuir a consci\u00eancia a indiv\u00edduos de outras esp\u00e9cies que apresentam as mesmas similitudes que n\u00f3s em rela\u00e7\u00e3o a alguns caracteres decisivos. Vimos que se encontrava entre animais a complexidade do comportamento, a aptid\u00e3o de \u00abpensar\u00bb inteligentemente e atitudes que indicam que o que lhes acontece lhes importa. A conclus\u00e3o que se imp\u00f5e, em virtude do princ\u00edpio de Occam (reter a explica\u00e7\u00e3o mais simples), \u00e9 que esses animais s\u00e3o conscientes.<\/p>\n<p>Aceitar esta conclus\u00e3o poderia revolucionar em dois planos a vis\u00e3o que possu\u00edmos das outras esp\u00e9cies presentes sobre este planeta. No plano moral, isso poderia subverter a nossa concep\u00e7\u00e3o da forma pela qual se deveria tratar os animais. No plano cient\u00edfico, isso deveria provocar uma revis\u00e3o radical do que \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica v\u00e1lida do comportamento animal: se a consci\u00eancia \u00e9 um fen\u00f4meno biol\u00f3gico, que evoluiu em raz\u00e3o das vantagens que ela proporciona a seus possuidores, ent\u00e3o deve estar faltando alguma coisa de muito importante em toda a explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o leva isto em conta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Anexo<\/h3>\n<h3>Marian Dawkins na confer\u00eancia sobre a sensibilidade animal<\/h3>\n<h3>Londres, mar\u00e7o de 2005)<\/h3>\n<p>Eu sabia que Marian Dawkins era uma refer\u00eancia em mat\u00e9ria de bem-estar animal. Sem jamais ter lido alguma obra sua (eu s\u00f3 o fiz ap\u00f3s t\u00ea-la ouvido no \u00faltimo m\u00eas de mar\u00e7o), eu acreditava conhecer o registro que era o seu: ela fazia parte desses peritos, cujo trabalho consiste em estabelecer m\u00e9todos e crit\u00e9rios para avaliar a sa\u00fade, o <i>stress<\/i>, as prefer\u00eancias... dos animais. Ela era autoridade nesse campo, por ter estado entre os pioneiros, e pelo fato de se preocupar verdadeiramente em conhecer as necessidades dos animais. \u00c9 um trabalho importante, quando \u00e9 conduzido honestamente desta maneira, pois fornece as bases cient\u00edficas que servem de ponto de apoio para exigir o estabelecimento de normas que tornem menos penosas as condi\u00e7\u00f5es de vida nos locais de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marian Dawkins \u00e9 efetivamente tudo isso, mas descobri, ouvindo-a falar, no dia 17 de mar\u00e7o de 2005, na confer\u00eancia sobre a sensibilidade animal, organizada pelo CIWF, em Londres, que ela tamb\u00e9m era algu\u00e9m que tinha uma consci\u00eancia aguda do formid\u00e1vel problema te\u00f3rico que constitui o fen\u00f4meno da sensibilidade, e de seu interesse pr\u00e1tico pela causa animal. Eu estava particularmente receptiva a esta dimens\u00e3o, porque ela reunia o que David e eu t\u00ednhamos tentado fazer passar atrav\u00e9s do <a class=\"spip_out broken_link\" href=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/article.php3?id_article=283\" rel=\"external\">texto redigido para essa confer\u00eancia<\/a> e, de maneira mais geral, aquilo em que a equipe inteira dos <i>Cahiers<\/i> tinha decidido trabalhar desde o n\u00famero 23. Dentre as notas tomadas no local, durante a sua interven\u00e7\u00e3o, rabisquei \u00abEla corresponde inteiramente \u00e0 nossa linha!\u00bb.<\/p>\n<p>Vou tentar reproduzir aqui alguns elementos de sua confer\u00eancia, que podem completar ou atualizar o que ela escrevia em <i>Through our Eyes Only?<\/i> (Atrav\u00e9s dos nossos Olhos Apenas?). Para faz\u00ea-lo, eu me ap\u00f3io nos meus pr\u00f3prios apontamentos, na exposi\u00e7\u00e3o redigida por David<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh10\" class=\"spip_note\" title=\"http:\/\/site.voila.fr\/dudroitanimal\/...\" href=\"#nb10\" rel=\"footnote\">10<\/a>]<\/span> e nas exposi\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis no site do CIWF<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh11\" class=\"spip_note\" title=\"http:\/\/animalsentience.com\/more_con... e http:\/\/www.ciwf.org.uk\/education\/in...\" href=\"#nb11\" rel=\"footnote\">11<\/a>]<\/span>. Chamo a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que compreendo mal o ingl\u00eas oral e que, portanto, uma parte do que ela disse escapou-me completamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua exposi\u00e7\u00e3o estava em parte estruturada em torno dos diferentes meios de que se disp\u00f5e para determinar exatamente a consci\u00eancia animal: por um lado, as t\u00e9cnicas para revelar as capacidades cognitivas e, por outro lado, as para revelar as emo\u00e7\u00f5es (seja atrav\u00e9s do estudo de comportamentos que podem manifestar prefer\u00eancias, seja a partir de medidas da atividade cerebral). Cada aspecto estava ilustrado por exemplos. Um deles, particularmente apto a sugerir que os animais sentem a dor e que os seus comportamentos inteligentes est\u00e3o ligados \u00e0quilo que eles experimentam, dizia respeito aos frangos de abate. Havendo sa\u00eddo de viveiros de crescimento r\u00e1pido, s\u00e3o numerosos os que t\u00eam problemas nos ossos e deforma\u00e7\u00f5es das patas. Quando se lhes d\u00e1 a escolha entre um alimento colorido de azul, contendo um analg\u00e9sico, e um alimento colorido de amarelo, que n\u00e3o o cont\u00e9m, constata-se que os frangos mancos escolhem o alimento que cont\u00e9m o analg\u00e9sico, enquanto os frangos v\u00e1lidos escolhem o que n\u00e3o o cont\u00e9m.<\/p>\n<p>As transpar\u00eancias que passavam em sucess\u00e3o sobre a tela durante a exposi\u00e7\u00e3o enumeravam os dados que advogam em favor da intelig\u00eancia e da sensibilidade dos animais, mas cada um terminava pela mesma quest\u00e3o: \u00abIsto \u00e9 uma prova da sensibilidade animal?\u00bb, enquanto oralmente Marian Dawkins mencionava de cada vez o argumento a que se poderiam aferrar os c\u00e9ticos (Certamente, os ratos aprendem, mas os computadores tamb\u00e9m; sim, h\u00e1 atividade cerebral, mas sabemos que o c\u00e9rebro participa de a\u00e7\u00f5es que praticamos inconscientemente...). Toda a sua interven\u00e7\u00e3o estava estruturada de molde a incitar o p\u00fablico a n\u00e3o subestimar a for\u00e7a que representa hoje em dia ainda a \u00abposi\u00e7\u00e3o c\u00e9tica\u00bb e a n\u00e3o superestimar o que a ci\u00eancia est\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es de fazer para se lhe opor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais do que o seu livro de 1993, a sua exposi\u00e7\u00e3o de mar\u00e7o de 2005 continha refer\u00eancias \u00e0 filosofia contempor\u00e2nea do esp\u00edrito, a come\u00e7ar por David Chalmers, a quem ela tomou emprestado a express\u00e3o \u00abo \u00e1rduo problema\u00bb (<i>the hard problem<\/i>) para designar a quest\u00e3o da consci\u00eancia. Ela tamb\u00e9m chamou a aten\u00e7\u00e3o do audit\u00f3rio para uma fam\u00edlia de pensadores modernos, reunidos sob o r\u00f3tulo dos adeptos da teoria HOT (<i>High Order Thinking<\/i> \u2013 pensamento de ordem superior<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh12\" class=\"spip_note\" title=\"Express\u00e3o devida a David M. Rosenthal.\" href=\"#nb12\" rel=\"footnote\">12<\/a>]<\/span>), que defendem a tese segundo a qual os \u00fanicos a possu\u00edrem a consci\u00eancia s\u00e3o os que t\u00eam um pensamento complexo (um pensamento sobre o pensamento), o que exige a linguagem (Carruthers \u00e9 um representante dos mesmos), ou que sustentam, como Dennett, que o esp\u00edrito de um indiv\u00edduo que possui a linguagem talvez seja t\u00e3o diferente quanto o de um indiv\u00edduo que n\u00e3o a possui, que \u00e9 enganoso designar um e outro por este mesmo termo de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Marian Dawkins, quanto a ela pr\u00f3pria, convidava desde o in\u00edcio a distinguir a \u00abconsci\u00eancia fenom\u00eanica\u00bb, a saber, a dimens\u00e3o b\u00e1sica da sensibilidade (ouvir, ver, ter medo ou sentir dor...), da \u00abconsci\u00eancia de acesso\u00bb, que permite formas de pensamento elaborado. \u00c9 a consci\u00eancia fenom\u00eanica que deve ser o nosso ponto de ataque, no que se refere \u00e0 sensibilidade animal, dizia ela.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao longo de toda a sua exposi\u00e7\u00e3o, Dawkins insistiu no enigma que constitu\u00eda a consci\u00eancia. Na parte introdut\u00f3ria, ela dizia:<\/p>\n<blockquote><p>Creio que a pessoa que melhor formulou o problema \u00e9 T.H. Huxley, o campe\u00e3o do darwinismo, que disse: \u00abIsso tem a ver com o sistema nervoso. Mas quanto a saber como uma extremidade de tecido nervoso pode realmente dar origem a uma percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, a uma experi\u00eancia sens\u00edvel, isso permanece um mist\u00e9rio profundo. H\u00e1 a\u00ed algo como que de m\u00e1gico\u00bb. E creio que Huxley tinha raz\u00e3o. Mesmo que saibamos hoje em dia muito mais sobre o c\u00e9rebro do que sabia Huxley, estamos ainda em face do mesmo problema.<\/p><\/blockquote>\n<p>A \u00faltima parte da sua exposi\u00e7\u00e3o, intitulada \u00abLevar a sensibilidade a s\u00e9rio\u00bb, se estribava numa transpar\u00eancia projetada sobre a tela, em que se podia ler:<\/p>\n<p>\u2022 A sensibilidade \u00e9 \u00abo problema \u00e1rduo\u00bb: n\u00e3o sabemos de onde ela vem, nem o que ela faz.<\/p>\n<p>\u2022 Para avan\u00e7ar, \u00e9 preciso reconhecer as dificuldades e responder \u00e0s cr\u00edticas.<\/p>\n<p>\u2022 O estudo da sensibilidade animal \u00e9 um dos campos mais apaixonantes e importantes de toda a biologia.<\/p>\n<p>Marian Dawkins concluiu dizendo que at\u00e9 que pud\u00e9ssemos provar cientificamente a exist\u00eancia da sensibilidade animal, dever\u00edamos deixar aos animais o benef\u00edcio da d\u00favida e que, de prefer\u00eancia a supor que j\u00e1 sabemos o que se experimenta na pele de um outro ser sens\u00edvel, dever\u00edamos antes procurar ouvir a voz dos animais.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Marian Dawkins, pref\u00e1cio de <i>Through our Eyes Only?<\/i>, p. ix.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>\u00abQuais s\u00e3o os dados cient\u00edficos que permitem detectar o sofrimento entre os animais?\u00bb. O texto integral deste artigo est\u00e1 dispon\u00edvel em: <a class=\"spip_url spip_out\" href=\"http:\/\/articles.animalconcerns.org\/...\" rel=\"external\">http:\/\/articles.animalconcerns.org\/...<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>Marian Stamp Dawkins Through our Eyes Only? The Search for Animal Consciousness (Atrav\u00e9s dos nossos olhos somente? Em busca da consci\u00eancia animal).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span>A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o (Oxford University Press) data de 2003.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb5\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 5\" href=\"#nh5\" rev=\"footnote\">5<\/a>]\u00a0<\/span>Os t\u00edtulos que dei aos cap\u00edtulos n\u00e3o s\u00e3o os escolhidos por Marian Dawkins, cuja tradu\u00e7\u00e3o seria pouco expl\u00edcita.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb6\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 6\" href=\"#nh6\" rev=\"footnote\">6<\/a>]\u00a0<\/span>No dossi\u00ea \u00abComportamento animal, comportamento humano\u00bb, que veio \u00e0 luz em <i>Sciences humaines<\/i> (Ci\u00eancias humanas) n\u00b019, de julho de 1992, p. 30, descreve-se uma formiga voadora que tem exatamente o mesmo comportamento que a vespa, e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se procede \u00e0 mesma experi\u00eancia que a de Henri Fabre. Exceto que o resultado \u00e9 diferente: \u00abObserva-se que a formiga, cujo mecanismo estereotipado foi voluntariamente perturbado, vai ent\u00e3o repeti-lo integralmente. [...] No entanto, este joguinho tem um fim: ao cabo de certo tempo, a formiga acaba por recolher a presa diretamente. Ela foi, portanto, capaz de modificar o seu comportamento, para adapt\u00e1-lo aos est\u00edmulos exteriores, como o fazem os vertebrados.\u00bb. Esta passagem do n\u00famero 19 de <i>Sciences humaines<\/i>, \u00e0 qual n\u00e3o tive acesso, \u00e9 citada por Yves Bonnardel, em seu pref\u00e1cio a <i>Luc Ferry ou le r\u00e9tablissement de l\u2019ordre<\/i> (Luc Ferry ou o restabelecimento da ordem), obra coletiva que apareceu em Tahin-party, em 2001: <a class=\"spip_url spip_out\" href=\"http:\/\/tahin-party.org\/ferry.html\" rel=\"external\">http:\/\/tahin-party.org\/ferry.html<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb7\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 7\" href=\"#nh7\" rev=\"footnote\">7<\/a>]\u00a0<\/span>Este \u00faltimo elemento \u00e9 o mais dif\u00edcil de ser descartado: os pesquisadores devem demonstrar muito engenho para imaginar quais poderiam ser essas regras e conceber o dispositivo de forma que elas n\u00e3o conduzam ao bom resultado.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb8\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 8\" href=\"#nh8\" rev=\"footnote\">8<\/a>]\u00a0<\/span>Um poedouro \u00e9 um cesto no qual as galinhas v\u00e3o botar ovos. Ele \u00e9 o substituto que certas formas de cria\u00e7\u00e3o oferecem para aquilo que as galinhas fazem em liberdade: procurar um canto tranq\u00fcilo e sombrio para construir um grande ninho em que elas botam os ovos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb9\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 9\" href=\"#nh9\" rev=\"footnote\">9<\/a>]\u00a0<\/span>O corpo dos ratos reage de maneira muito semelhante ao dos humanos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta ou \u00e0 adu\u00e7\u00e3o de alimento; \u00e9 por isso que eles s\u00e3o muitas vezes utilizados como modelos neste campo, como por exemplo, para os estudos sobre a obesidade.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb10\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 10\" href=\"#nh10\" rev=\"footnote\">10<\/a>]\u00a0<\/span><a class=\"spip_url spip_out broken_link\" href=\"http:\/\/site.voila.fr\/dudroitanimal\/...\" rel=\"external\">http:\/\/site.voila.fr\/dudroitanimal\/...<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb11\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 11\" href=\"#nh11\" rev=\"footnote\">11<\/a>]\u00a0<\/span><a class=\"spip_url spip_out\" href=\"http:\/\/animalsentience.com\/more_con...\" rel=\"external\">http:\/\/animalsentience.com\/more_con...<\/a> e <a class=\"spip_url spip_out broken_link\" href=\"http:\/\/www.ciwf.org.uk\/education\/in...\" rel=\"external\">http:\/\/www.ciwf.org.uk\/education\/in...<\/a><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb12\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 12\" href=\"#nh12\" rev=\"footnote\">12<\/a>]\u00a0<\/span>Express\u00e3o devida a David M. Rosenthal.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marian Stamp Dawkins \u00e9 bi\u00f3loga. Ela \u00e9 docente e pesquisadora no Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, e est\u00e1 encarregada de um curso de comportamento animal no Somerville College (Oxford). Sua pesquisa atual tem por objeto, notadamente, os fatores de bem- (ou mal-) estar entre os frangos de cria\u00e7\u00e3o. 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