{"id":1481,"date":"2007-12-23T22:13:09","date_gmt":"2007-12-23T21:13:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1481&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T22:59:17","modified_gmt":"2016-05-01T20:59:17","slug":"por-um-radicalismo-realista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/por-um-radicalismo-realista\/","title":{"rendered":"Por um radicalismo realista"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p>O ataque iniciado nos <i>Cahiers<\/i> contra o humanismo suscitou v\u00e1rios debates entre os anti-especistas pelo fato do humanismo ter cristalizado sobre si v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es positivas \u2013 de n\u00e3o viol\u00eancia, de abertura, de generosidade, de sensibilidade, de franqueza, de intelig\u00eancia, de equil\u00edbrio, de responsabilidade, para citarmos apenas algumas. Temo que o p\u00fablico acabe pensando que estamos jogando tudo fora. E estimo que este temor seja um temor fundado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, n\u00e3o seria suficiente criticarmos o especismo? Que contribui\u00e7\u00e3o poderia ter a cr\u00edtica do humanismo? Enfim, existem os anti-humanistas especistas. N\u00e3o est\u00e1 na moda se auto-intitular anti-humanista \u2013 para chamar a aten\u00e7\u00e3o sobre uma vers\u00e3o pessoal do humanismo? E, assim, a palavra anti-humanista acaba sendo apenas um sin\u00f4nimo para designar algu\u00e9m \u00abamargo\u00bb.<\/p>\n<h3>O humanismo: <i>1984<\/i><\/h3>\n<h4>\u00abA guerra \u00e9 a paz<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"Slogan do Partido no romance 1984 de George Orwell (1948). Nos por\u00f5es do\u00a0(...)\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span>\u00bb<\/h4>\n<p>O que eu chamo aqui de \u00abhumanismo\u00bb n\u00e3o \u00e9 apenas o movimento que possui este nome e que nasceu no Renascimento; mas o conjunto destes elementos culturais e ideol\u00f3gicos, onipresentes em nossas sociedades, que constroem e veneram este objeto imagin\u00e1rio chamado \u00abo Homem\u00bb, pressuposto representar o que cada humano(a) \u00e9, e ao mesmo tempo deve se esfor\u00e7ar para ser<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"O humanismo neste sentido prov\u00e9m de antes do Renascimento; desconfio que foi\u00a0(...)\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>A dificuldade j\u00e1 se encontra no fato de percebermos o humanismo. O martelamento ideol\u00f3gico \u00e9 incessante, obsessivo, ao ponto de se tornar subliminar; como o barulho dos avi\u00f5es para aqueles que moram nas imedia\u00e7\u00f5es do aeroporto de Roissy. \u00c9 preciso um esfor\u00e7o particular para constatar cada refer\u00eancia \u00e0 superioridade do Homem, \u00e0 sua dignidade particular, \u00e0 sua beleza e \u00e0 sua bondade sem igual. Escutem bem, caros amigos: \u00abDireitos do homem!\u00bb; \u00abtudo o que \u00e9 humano nos interessa!\u00bb; \u00abele n\u00e3o \u00e9 um cachorro!\u00bb; \u00abdignidade humana!\u00bb; \u00abtodos os homens s\u00e3o iguais!\u00bb; \u00abtodos os homens t\u00eam um cora\u00e7\u00e3o!\u00bb; \u00abcalor humano!\u00bb; \u00abliberdade humana!\u00bb; \u00abcrime contra a humanidade!\u00bb; \u00abcrime bestial!\u00bb; \u00abn\u00e3o coma como um porco!\u00bb; sem contar as refer\u00eancias indiretas, mais numerosas ainda \u2013 elogios \u00e0 intelig\u00eancia, ao fato de ser capaz de ultrapassar seus pr\u00f3prios limites de forma gratuita (esporte...), ou pelo fato de termos ficado em p\u00e9... que apenas s\u00e3o compreens\u00edveis se analisados dentro do esquema mental humanista, reativado e consolidado continuamente.<\/p>\n<p>O humanismo, de acordo com esta propaganda ideol\u00f3gica cotidiana, seria o contr\u00e1rio da barb\u00e1rie; assim como a religi\u00e3o, e, particularmente o cristianismo, que seria o reino do altru\u00edsmo e do amor.<\/p>\n<p>Entretanto, o <i>curriculum vitae<\/i> do humanismo \u00e9 profundamente sangrento, assim como o da religi\u00e3o, e isso levando em conta apenas o sangue humano. Explicitamente, em nome do Homem, foram cometidos os massacres nazistas, estalinianos e dos Khmer-vermelhos. Os exemplos hist\u00f3ricos s\u00e3o abundantes, mas seria de pouca utilidade cit\u00e1-los aqui, por estarmos t\u00e3o habituados a ver em cada massacre de humanos cometido em nome do Homem apenas um acidente sem liga\u00e7\u00e3o com o humanismo \u2013 assim como aconteceu com a Santa Inquisi\u00e7\u00e3o, ou mais de dois mil\u00eanios de anti-semitismo, acontecimentos sem liga\u00e7\u00e3o com nossa \u00abreligi\u00e3o de amor\u00bb.<\/p>\n<p>Mas trata-se tanto de hist\u00f3ria quanto de l\u00f3gica. Vou ilustr\u00e1-lo atrav\u00e9s de duas afirma\u00e7\u00f5es humanistas freq\u00fcentes.<\/p>\n<h4>\u00abO humanismo, \u00e9 a igualdade\u00bb<\/h4>\n<p>Por sua pr\u00f3pria estrutura, o humanismo \u00e9 incompat\u00edvel com a igualdade, inclusive entre seres humanos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 o \u00abHomem\u00bb? Fomos habituados a acreditar em duas coisas completamente contradit\u00f3rias:<\/p>\n<ul>\n<li>Todo membro da esp\u00e9cie humana \u00e9, de cara, plenamente e de modo igual, Homem.<\/li>\n<li>Devemos nos esfor\u00e7ar para sermos iguais ao modelo \u00abHomem\u00bb, devemos ser o mais humano(a)s poss\u00edvel. Podemos ent\u00e3o ser mais ou menos Homem.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Estas <i>duas<\/i> proposi\u00e7\u00f5es est\u00e3o simultaneamente onipresentes na propaganda ideol\u00f3gica humanista. Por exemplo, os fascistas, que n\u00e3o acreditam na igualdade humana, seriam monstros, \u00abratos\u00bb (\u00aba besta imunda\u00bb); resumindo, seriam sub-homens<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"Mal acabei de escrever esta frase e recebi um e-mail de um antifascista\u00a0(...)\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<blockquote class=\"noindent\"><p>O <i>doublepenser<\/i> \u00e9 a atitude de manter nas mentalidades duas cren\u00e7as contradit\u00f3rias, aceitando-as ao mesmo tempo<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh5\" class=\"spip_note\" title=\"1984, p\u00e1g. 171 (edi\u00e7\u00e3o Penguin Modern Classics).  \u00ab&nbsp;O \u00abdoublepenser \u00e9 central \u00e0\u00a0(...)\" href=\"#nb5\" rel=\"footnote\">5<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Por um lado, para ser homem \u00e9 suficiente de ser <i>Homo sapiens<\/i>; por outro lado, a filosofia ocidental incessantemente quis definir o tal homem atrav\u00e9s de tal ou tal caracter\u00edstica efetiva, que podemos mais ou menos possuir: por sua alma imortal, por sua intelig\u00eancia, por sua cultura, etc. Enfim, este conceito de Homem se op\u00f5e, explicitamente, ao Animal; e o que fazemos aos animais? Basta olharmos em nossos pratos. A maior ou menor grande humanidade de cada humano(a) \u00e9, assim, um desafio formid\u00e1vel; um desafio simb\u00f3lico e, bem mais do que simb\u00f3lico. De um lado, esta humanidade representa a principal linha estruturante, justificadora, de nossa hierarquia social. Ter sucesso na escola e na universidade \u00e9 provar sua aptid\u00e3o \u00e0 intelig\u00eancia e \u00e0 cultura; seu humanismo, ent\u00e3o. Por outro lado, desde a democracia ateniense at\u00e9 os campos de concentra\u00e7\u00e3o hitlerianos, passando pelos campos de algod\u00e3o dos Estados Unidos escravagistas, nada foi mais f\u00e1cil do que justificar atrav\u00e9s da exalta\u00e7\u00e3o do Homem a exclus\u00e3o de in\u00fameros <i>Homo sapiens<\/i> da esfera de igualdade; pior ainda, desde que exalta-se a humanidade, que fazemos dela um valor a ser alcan\u00e7ado, um valor que n\u00e3o nos \u00e9 concedido de cara, e que \u00e9 ao mesmo tempo uma fonte de direitos \u2013 para o humanismo, \u00e9 a <i>\u00fanica<\/i> fonte de direitos \u2013 a igualdade, inclusive entre os humanos(a)s, torna-se impens\u00e1vel.<\/p>\n<h4>\u00abO humanismo, \u00e9 a bondade\u00bb<\/h4>\n<div class=\"image image-float-right\"><img src=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/IMG\/squelettes\/documents\/pou.jpg\" alt=\"Image\" \/>\u00abO abatedouro \u00e9 a alegria\u00bb<\/p>\n<\/div>\n<p>Neste domingo de P\u00e1scoa o papa disse que devemos parar de derramar \u00abo sangue do homem\u00bb. Este singular \u2013 \u00abo homem\u00bb - que o humanismo tanto aprecia \u00e9 de fato bem singular: pois tanto no Kosovo quanto em Belgrado, \u00e9 o sangue <i>dos<\/i> humano(a)s que \u00e9 derramado<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh6\" class=\"spip_note\" title=\"Sobre a palavra homem, no masculino: eu a repito assim, pois \u00e9 o conceito\u00a0(...)\" href=\"#nb6\" rel=\"footnote\">6<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>E o que incomoda os humano(a)s em quest\u00e3o? O humano(a) cujo sangue \u00e9 derramado; que tem fome; que tem medo; que perdeu seus familiares; que est\u00e1 cansado, doente, ferido, que tem frio, que n\u00e3o tem mais abrigo ou seguran\u00e7a ou perdeu suas refer\u00eancias, ser\u00e1 que essa pessoa diz: \u00abme incomoda que o Homem seja maltratado\u00bb? O papa e o humanismo em geral, nos conclamam para defendermos <i>o Homem<\/i>, nos levam a agir de acordo com uma motiva\u00e7\u00e3o completamente estranha \u00e0 das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>O humanismo nos imp\u00f5e uma frieza absoluta com rela\u00e7\u00e3o aos sofrimentos e as alegrias dos humanos. E n\u00e3o pode ser diferente, pois ou s\u00e3o os sofrimentos e a alegria que s\u00e3o importantes, e neste caso esses sentimentos s\u00e3o importantes tanto quando for um rato ou um humano que os sintam; ou ent\u00e3o \u00e9 a humanidade que importa, e neste caso, o sofrimento e a alegria t\u00eam, no m\u00e1ximo, um valor instrumental. A \u00fanica solu\u00e7\u00e3o seria a de declarar, como fez Descartes, que o sofrimento e a alegria n\u00e3o humanos simplesmente n\u00e3o existem; que os gritos dos n\u00e3o-humanos s\u00e3o apenas barulhos de rel\u00f3gio. Mas tal ponto de vista n\u00e3o \u00e9 mais defendido por ningu\u00e9m, pelo menos dessa forma extrema<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh7\" class=\"spip_note\" title=\"Entretanto \u00e9 muito forte a tenta\u00e7\u00e3o de desclassificar as emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es\u00a0(...)\" href=\"#nb7\" rel=\"footnote\">7<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Hoje em dia a ortodoxia humanista n\u00e3o se refere a Descartes, mas a Kant. Segundo Kant, a \u00e9tica se baseia em um \u00fanico imperativo, do qual examinaremos uma das formula\u00e7\u00f5es<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh8\" class=\"spip_note\" title=\"Kant, Fundamentos da metaf\u00edsica dos costumes, segunda se\u00e7\u00e3o.\" href=\"#nb8\" rel=\"footnote\">8<\/a>]<\/span>:<\/p>\n<blockquote class=\"noindent\"><p>Aja de tal modo que tu trates a humanidade, em tua pessoa e na pessoa do outro, sempre como um fim, jamais como um meio.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00abTratar a humanidade como um fim\u00bb pode ter conseq\u00fc\u00eancias variadas. Sabemos da oposi\u00e7\u00e3o habitual, se n\u00e3o completamente constante, do humanismo \u00e0 eutan\u00e1sia (humana), inclu\u00eddo quando esta \u00e9 pedida pelo doente para colocar fim a seus sofrimentos, advindos de uma doen\u00e7a incur\u00e1vel. Kant era categoricamente contra o suic\u00eddio. Por outro lado, ele n\u00e3o se opunha \u00e0 pena de morte; ao contr\u00e1rio, pois a \u00abhumanidade\u00bb implica responsabilidade. No fim das contas, a \u00e9tica Kantiana imp\u00f5e apenas de modo contingente, quando ela imp\u00f5e, de agir pelo <i>bem<\/i> do outro, ou de si pr\u00f3prio \u2013 ao menos se entendemos por \u00abbem\u00bb alguma coisa que tenha liga\u00e7\u00e3o com a felicidade, com o deleite da vida. Com efeito, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o particular para que o bem do indiv\u00edduo sens\u00edvel coincida com o do \u00abHomem\u00bb nele ou nela. Bem ao contr\u00e1rio: \u00aba humanidade no homem\u00bb consiste principalmente no que o faz um \u00abn\u00e3o animal\u00bb; e por que de fato os humanos(as) s\u00e3o animais, e que o bem real deles \u00e9 um bem animal, podemos dizer que fundamentalmente a moral humanista consiste em matar o \u00abanimal em n\u00f3s\u00bb - em <i>nos<\/i> matar.<\/p>\n<p>Um ato realizado por pura compaix\u00e3o \u00e9, segundo Kant, desprovido de valor moral; apenas o que importa \u00e9 o frio respeito do imperativo categ\u00f3rico. Agir por compaix\u00e3o, por sentimento, equivale, para ele, a agir por ego\u00edsmo, por submiss\u00e3o a nossas emo\u00e7\u00f5es animais. Por a\u00ed ele, e os humanistas em geral, n\u00e3o podem mais reivindicar nenhum tipo de bondade. N\u00e3o \u00e9 por coincid\u00eancia que, em 1961, durante seu processo, Eichmann justificou a obedi\u00eancia \u00e0s ordens hitlerianas citando a moral kantiana \u2013 ele lamentava os sofrimentos de suas v\u00edtimas mas evitou a fraqueza de lev\u00e1-los em considera\u00e7\u00e3o...<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu poderia multiplicar os exemplos das contradi\u00e7\u00f5es brutais entre o que \u00e9 o humanismo - tanto na teoria quanto na pr\u00e1tica - e o que ele aspira ser. Eu me contentarei de citar brevemente dois outros exemplos:<\/p>\n<p>- O humanismo lutaria contra a fome no mundo. O modelo humanista do Homem \u00e9, entretanto, fundamentalmente o do cidad\u00e3o - do cidad\u00e3o <i>de um dado pa\u00eds<\/i>, ent\u00e3o. Em n\u00edvel internacional, a \u00abpessoa\u00bb que \u00e9 tratada como indiv\u00edduo e ao qual s\u00e3o atribu\u00eddos direitos inviol\u00e1veis \u00e9 a na\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o ser humano. A\u00ed ainda, h\u00e1 \u00abindiv\u00edduos\u00bb mais ou menos humanos \u2013 na\u00e7\u00f5es mais ou menos \u00abdesenvolvidas\u00bb, o crit\u00e9rio sendo a economia, a capacidade de dominar a mat\u00e9ria. Este aspecto das coisas esteja, talvez, hoje em dia, evoluindo; mas tenho o sentimento que o humanismo seja, pelo menos em parte, respons\u00e1vel pela mis\u00e9ria econ\u00f4mica \u00e0 qual est\u00e3o submetidos(as) uma grande parte dos humanos(as) do planeta.<\/p>\n<p>- O humanismo garante respeitar a diversidade dos indiv\u00edduos. Entretanto, ao valorizar como essencial a afilia\u00e7\u00e3o \u00e0 esp\u00e9cie humana, ele desvaloriza todo o resto, como sendo subsidi\u00e1rio. A atual fuga proeminente tecnol\u00f3gica n\u00e3o consegue mascarar o grande medo do humanismo desde o \u00abfim das ideologias\u00bb: o t\u00e9dio. Apenas o Homem existe, o resto \u00e9 apenas decora\u00e7\u00e3o. A dissid\u00eancia \u00e9 tratada, n\u00e3o com tortura nos por\u00f5es do Minist\u00e9rio do Amor, como no romance de Orwell, mas atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o. Os humanistas se mostram particularmente incapazes de compreender ou de entender o discurso anti-especista como ele \u00e9, procurando, ao contr\u00e1rio, mold\u00e1-lo atrav\u00e9s de todos os meios, para coloc\u00e1-lo dentro de esquemas mentais que lhe sejam mais pr\u00f3ximos, como o naturalismo ou o fascismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O humanismo \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, especista. N\u00e3o me parece poss\u00edvel lutar contra o especismo sem atacar o humanismo. Entretanto \u00e9 o que tenta a maioria das organiza\u00e7\u00f5es de \u00ablibera\u00e7\u00e3o animal\u00bb atrav\u00e9s do mundo, que se auto-declaram anti-especistas, mas usam ao m\u00e1ximo os esquemas de pensamento humanista. Mas como poder\u00edamos imaginar dar realmente, de forma pr\u00e1tica, o mesmo peso dos interesses humanos aos interesses dos n\u00e3o humanos sem renunciarmos ao discurso obsessivo feito \u00e0 gl\u00f3ria do \u00abhomem\u00bb? Uma tal gl\u00f3ria sem privil\u00e9gios seria bem estranha! A cr\u00edtica do humanismo me parece indispens\u00e1vel.<\/p>\n<h3>Ser anti-humanistas?<\/h3>\n<p>Uma coisa \u00e9 denunciar o humanismo, como eu acabo de fazer; outra coisa \u00e9 n\u00e3o ser humanista. O que n\u00e3o deve ser esquecido \u00e9 que, os humanistas, n\u00e3o s\u00e3o apenas Kant e outros Luc Ferry. Os humanistas s\u00e3o todos(as) humanos(as), pelo menos em nossos pa\u00edses; os humanistas somos cada um(a) de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A propaganda ideol\u00f3gica incessante \u00e0 qual estamos submetidos(as) tem a fun\u00e7\u00e3o de levantar a bandeira humanista at\u00e9 nos menores meandros de nossa exist\u00eancia. O humanismo conseguiu, sobretudo, colocar seu carimbo em tudo o que nos parece desej\u00e1vel ou generoso de ser apropriado.<\/p>\n<p>O truque consiste em associar sistematicamente a igualdade, a bondade, a felicidade e assim por diante a um racioc\u00ednio humanista. N\u00e3o fazer mal ao outro \u2013 respeitar seus interesses de ser sens\u00edvel, de animal, ent\u00e3o \u2013 torna-se \u00abrespeitar sua dignidade humana\u00bb. Ajudar uma pessoa que morre de frio no passeio torna-se \u00abn\u00e3o deix\u00e1-lo morrer como um cachorro\u00bb. Ajudar as pessoas de pa\u00edses long\u00ednquos torna-se \u00abhumanit\u00e1rio\u00bb. Nosso horror pela carnificina nazista torna-se horror pelo fato de \u00abtratar os homens como se fossem animais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh9\" class=\"spip_note\" title=\"Esta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 sistem\u00e1tica. O termo \u00abHolocausto\u00bb (Shoah) se refere atrav\u00e9s\u00a0(...)\" href=\"#nb9\" rel=\"footnote\">9<\/a>]<\/span>\u00bb. Gozar de nossas faculdades torna-se \u00abdesenvolver-se como ser humano\u00bb. Nossa condi\u00e7\u00e3o comum de seres que sofrem e que sentem alegria torna-se \u00abtodos os homens s\u00e3o iguais\u00bb. E at\u00e9 defender os animais torna-se desejar \u00abtrat\u00e1-los humanamente\u00bb.<\/p>\n<p>Em todos os lugares, em nossas mentes e em nossas ruas o humanismo construiu seus templos. A gastronomia \u00e9 um deles, ainda que o prazer de comer seja tudo, salvo uma exclusividade humana; mas cada refei\u00e7\u00e3o deve ser um hino \u00e0 cultura, ao simb\u00f3lico, etc. O mesmo para a escola, enquanto sua justifica\u00e7\u00e3o seja o prazer e a necessidade de aprender que n\u00f3s partilhamos com qualquer um filhote de gato. Outro templo do humanismo: a psican\u00e1lise, esta hidr\u00e1ulica de nossos desejos animais. E a medicina, cuja tarefa \u00e9 a de lutar contra o sofrimento e a morte, que nada t\u00eam de particularmente humano. E a justi\u00e7a, o regulamento pac\u00edfico de nossos diferendos \u2013 atividade que partilhamos com v\u00e1rios animais sociais, e, particularmente, com os outros grandes s\u00edmios. E a filosofia, busca sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o objetivo e o subjetivo, mas que desesperadamente desejou limitar a subjetividade apenas aos seres humanos. E, claro, a antropologia, a etnologia e a sociologia, cujo <i>credo<\/i> mais constante \u00e9: o homem n\u00e3o \u00e9 um animal.<\/p>\n<p>O humanismo procede por repress\u00e3o\/sublima\u00e7\u00e3 o. O que n\u00e3o podemos suprimir, devemos transfigurar. Os homens n\u00e3o comem apenas para se alimentar, veja bem! Contrariamente aos animais, claro. A sexualidade humana \u00e9 vista como \u00abtendo um sentido\u00bb, mas n\u00e3o nos outros animais. Nos humanos a sexualidade tem a honra de servir como trampolim para o Amor, enquanto que os animais fazem isso apenas para se reproduzirem (ou, no m\u00e1ximo, servem da sexualidade como uma t\u00e9cnica para \u00abcausarem agressividade no grupo\u00bb; ver o resumo p\u00e1g 53). A finalidade \u00e9 cada vez separar nossas atividades e motiva\u00e7\u00f5es de seus equivalentes nos n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu disse que acredito que a cr\u00edtica do humanismo \u00e9 indispens\u00e1vel; mas ela tamb\u00e9m me parece potencialmente mobilizadora. Na realidade, o humanismo representa para o especismo um pouco do que o patriarcado representa para o sexismo: a tradu\u00e7\u00e3o concreta, em todos nossos atos da vida cotidiana, do princ\u00edpio abstrato discriminat\u00f3rio. O humanismo nos op\u00f5e ao Animal; mas n\u00f3s somos animais! Efetivamente, o humanismo, em cada ato e em cada pensamento <i>nos op\u00f5e a n\u00f3s mesmos<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh10\" class=\"spip_note\" title=\"Al\u00e9m dos exemplos citados, mencionemos a proibi\u00e7\u00e3o do aborto que existe em\u00a0(...)\" href=\"#nb10\" rel=\"footnote\">10<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Mas o humanismo conseguiu aderir t\u00e3o fortemente ao que \u00e9 bom que tornou-se imposs\u00edvel coloc\u00e1-lo diretamente no lixo sem n\u00e3o apenas parecer colocar tamb\u00e9m no lixo estes elementos bons que, fundamentalmente e praticamente s\u00e3o o contr\u00e1rio do humanismo, mas que ele impregnou como esponjas. Exemplo: passo todos os dias na frente de um a\u00e7ougue. Eu n\u00e3o quebro os vidros dele, eu n\u00e3o fa\u00e7o nada. Sou adepto da igualdade animal. Mas como \u00e9 que eu reagiria se em vez de galinhas ou leit\u00f5es, ali dentro eu visse pequenas crian\u00e7as humanas mortas, enfiadas em ganchos, cortadas e sendo vendidas? N\u00e3o \u00e9 apenas o fato de legalmente eu nada poder fazer no caso das galinhas e dos leit\u00f5es. Mas se eu quisesse reagir <i>emocionalmente<\/i> como se fossem humanos (as), eu me tornaria louco, ou ent\u00e3o, em nome da igualdade animal, eu nivelaria minhas emo\u00e7\u00f5es por baixo. Eu n\u00e3o reagiria mais, ou bem fracamente, com rela\u00e7\u00e3o aos sofrimentos dos humanos e das humanas. Os massacres do Kosovo, de Ruanda? E da\u00ed?...! Dois mil animais passam dentro das panelas na Fran\u00e7a por minuto. O Holocausto? E da\u00ed?... Uma gota no mar de sofrimentos impostos aos seres sens\u00edveis deste s\u00e9culo. O racismo? Uma das variantes do especismo. E assim por diante. Hoje em dia, todas nossas rea\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias foram constru\u00eddas sobre o terreno humanista; eu n\u00e3o posso rejeitar de imediato o humanismo, ainda que eu saiba que ele \u00e9 fundamentalmente incompat\u00edvel com a igualdade, sem comprometer gravemente toda possibilidade de lutar pela igualdade, inclusive pela igualdade animal. Como lutar contra as carnificinas dos n\u00e3o humanos se nos opomos apenas mecanicamente \u00e0s carnificinas humanas? Como conclamar as pessoas \u00e0 generosidade se puxamos, com um golpe seco, o tapete em que ela sempre esteve assentada? E como construir sem generosidade um movimento pol\u00edtico a favor dos mais desarmados das v\u00edtimas do humanismo?<\/p>\n<p>O mesmo vale para a compaix\u00e3o em geral. Muitos nos censuraram que os <i>Cahiers<\/i> se caracterizam pela sua frieza. N\u00f3s quisemos evitar o estilo lacrimoso, \u00abcaritativo\u00bb, t\u00edpico da defesa animal. A defesa animal adotou este estilo, pois \u00e9 o \u00fanico que o humanismo lhe autorizou: o terreno do acess\u00f3rio.Quando um ser humano \u00e9 maltratado, n\u00e3o o defenderemos invocando a piedade; \u00abpiedade para as mulheres\u00bb n\u00e3o \u00e9 o slogan preferido das feministas! A piedade \u00e9 para o humanismo um termo pejorativo, apenas bom para os n\u00e3o e subumanos. Para uma humana, ser\u00e3o invocados seus \u00abdireitos\u00bb, sua \u00abdignidade\u00bb. Mas ao atacarmos o humanismo sobre o \u00fanico terreno que <i>ele<\/i> considera v\u00e1lido, o da raz\u00e3o, n\u00f3s lhe damos tamb\u00e9m, de certo modo, raz\u00e3o. Um de meus desacordos com o artigo de Yves Bonnardel sobre o livro de Florence Burgat, <i>Animal Mon Prochain<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh11\" class=\"spip_note\" title=\"\u00abPerplexit\u00e9...\u00bb, p\u00e1g. 7 deste n\u00famero.\" href=\"#nb11\" rel=\"footnote\">11<\/a>]<\/span>, \u00e9 que ele me parece reproduzir, em nome do rep\u00fadio ao humanismo, esta frieza mesmo que \u00e9 a marca do humanismo. O humanismo que deseja separar radicalmente a \u00e9tica das emo\u00e7\u00f5es; e que despreza, profundamente, a piedade e a compaix\u00e3o. Do mesmo modo, por seu parti pris intelectual, os <i>Cahiers<\/i> prestam uma homenagem impl\u00edcita constante a esta mesma intelig\u00eancia que assinalaria, segundo o humanismo, a fronteira homem\/animal<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh12\" class=\"spip_note\" title=\"N\u00e3o se trata de rejeitar a intelig\u00eancia, na medida em que n\u00f3s ou outros a\u00a0(...)\" href=\"#nb12\" rel=\"footnote\">12<\/a>]<\/span>!<\/p>\n<p>Parece-me imposs\u00edvel sair brutalmente do c\u00edrculo vicioso humanista. O humanismo \u00e9 nossa cultura, no bem e no mal. Sair do humanismo \u00e9 reconstruir toda nossa cultura. E quem teria a absurda aud\u00e1cia de se crer capaz, sozinho(a) ou em um pequeno grupo, de reconstruir, de A a Z toda uma cultura&nbsp;? \u00c9 por isso que, desde o in\u00edcio, os <i>Cahiers<\/i> desejaram evitar se posicionar como <i>a<\/i> voz do anti-especismo. Durante muito tempo, fomos, em um certo sentido, a \u00fanica voz claramente aud\u00edvel. Mas eu me alegro ao constatar o aparecimento de outras vozes anti-humanistas, seja no seio do movimento anti-especista expl\u00edcito, ou no exterior; como a voz de Florence Burgat.<\/p>\n<p>A principal cr\u00edtica que poder\u00edamos fazer \u00e0 Florence Burgat \u00e9 a sua condescend\u00eancia com o humanismo. Mas tal condescend\u00eancia \u00e9 inevit\u00e1vel. Florence Burgat n\u00e3o \u00e9 condescendente <i>como n\u00f3s<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh13\" class=\"spip_note\" title=\"A den\u00fancia, fundada, de certos aspectos humanistas dos Cahiers foi, durante\u00a0(...)\" href=\"#nb13\" rel=\"footnote\">13<\/a>]<\/span>. Para sairmos do humanismo, nossa tarefa deve ser a de realizarmos um trabalho de separa\u00e7\u00e3o; n\u00e3o se trata de rejeitarmos sistematicamente tudo o que traz a marca do humanismo \u2013 pois tudo, em nossas vidas, traz sua marca. Por mais humanista que ele seja, <i>Animal Mon Prochain<\/i> realiza um trabalho de separa\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias dire\u00e7\u00f5es. Eu interpreto sua refer\u00eancia \u00e0 piedade neste sentido.<\/p>\n<h3>Recuperar a compaix\u00e3o<\/h3>\n<p>Uma leitura r\u00e1pida de Florence Burgat pode trazer a impress\u00e3o que ela rejeita a racionalidade, invocando a piedade para os animais, assim como pedimos a gra\u00e7a ap\u00f3s termos perdido um processo. Inicialmente ela parece dar raz\u00e3o ou deixar a raz\u00e3o com os advers\u00e1rios da reflex\u00e3o do comportamento \u00e9tico com rela\u00e7\u00e3o aos animais, propondo criticar n\u00e3o os racioc\u00ednios deles mas as raz\u00f5es que eles alegam:<\/p>\n<blockquote class=\"noindent\"><p>Instrumento incisivo da classifica\u00e7\u00e3o, eu pergunto se a raz\u00e3o n\u00e3o deveria ser o objeto de uma cr\u00edtica j\u00e1 que ela funciona como uma for\u00e7a que funda um direito exclusivamente dirigido para o interesse da comunidade reduzida dos seres qualificados como racionais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh14\" class=\"spip_note\" title=\"F. Burgat, Animal Mon Prochain, p\u00e1g. 71.\" href=\"#nb14\" rel=\"footnote\">14<\/a>]<\/span>?<\/p><\/blockquote>\n<p>Tal atitude nos choca, pois acreditamos ser simples mostrarmos, com argumentos pouco contest\u00e1veis, que esta raz\u00e3o na verdade n\u00e3o \u00e9 uma; por exemplo, ao notarmos que fundar a \u00e9tica sobre a raz\u00e3o n\u00e3o implica limitar sua amplitude aos seres racionais. Argumentos simples, sim, mas pouco eficazes, n\u00f3s sabemos disso, frente \u00e0 uma comunidade de fil\u00f3sofos humanistas acostumados( as), ainda mais quando eles e elas n\u00e3o confessam, com a id\u00e9ia de uma ess\u00eancia humana incomensur\u00e1vel ao \u00abanimal\u00bb. \u00c9 ent\u00e3o, ao contr\u00e1rio, essa ontologia humana que Florence Burgat ataca diretamente.<\/p>\n<p>O humanismo isolou a piedade na esfera do acess\u00f3rio; Florence Burgat, ao contr\u00e1rio, a coloca na base de sua \u00e9tica. E ela o faz, segundo me parece, sem rejeitar a raz\u00e3o. Neste ponto, assim como em v\u00e1rios outros, ela \u00e9 insuficientemente expl\u00edcita, inclusive at\u00e9 amb\u00edgua; mas o importante \u00e9 a dire\u00e7\u00e3o que ela indica.<\/p>\n<p>Parece-me que esta dire\u00e7\u00e3o aparece na seguinte passagem:<\/p>\n<p>Ao transpor um conceito epistemol\u00f3gico do campo \u00e9tico, poder\u00edamos dizer, sobre a piedade, que ela \u00e9 uma experi\u00eancia crucial<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh15\" class=\"spip_note\" title=\"F. Burgat, p\u00e1g. 200.\" href=\"#nb15\" rel=\"footnote\">15<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Esta transposi\u00e7\u00e3o do campo epistemol\u00f3gico - da f\u00edsica, por exemplo, e geralmente do estudo do que <i>\u00e9<\/i> \u2013 no campo \u00e9tico \u2013 ao estudo do que <i>deve ser<\/i> \u2013 parece abrir um fio condutor. Pois se a filosofia humanista fez tudo para separar radicalmente o racional do sens\u00edvel no campo \u00e9tico, ele n\u00e3o p\u00f4de faz\u00ea-lo no campo cient\u00edfico. N\u00e3o que a articula\u00e7\u00e3o entre o sens\u00edvel e o racional seja uma quest\u00e3o j\u00e1 resolvida hoje; mas ningu\u00e9m negaria que toda nossa f\u00edsica se baseia, <i>ao mesmo tempo<\/i>, e <i>sem contradi\u00e7\u00f5es<\/i>, na experi\u00eancia \u2013 o sens\u00edvel - e sobre o racioc\u00ednio.<\/p>\n<p>Rejeitar <i>um<\/i> racioc\u00ednio n\u00e3o \u00e9 rejeitar <i>a<\/i> raz\u00e3o. A f\u00edsica escol\u00e1stica da Idade M\u00e9dia, aristot\u00e9lica, tamb\u00e9m construiu sobre a base da raz\u00e3o; mas foi suficiente que Galileu deixasse cair da torre de Pisa dois objetos de peso para jog\u00e1-la por \u00e1gua abaixo<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh16\" class=\"spip_note\" title=\"Cerca de 1590. Para a f\u00edsica escol\u00e1stica, um objeto mais pesado cai mais\u00a0(...)\" href=\"#nb16\" rel=\"footnote\">16<\/a>]<\/span>. Ao mesmo tempo, a experi\u00eancia de Galileu foi, em um certo sentido, incomunic\u00e1vel. Os dois pesos chegam embaixo ao mesmo tempo&nbsp;: era necess\u00e1rio ver acontecer para acreditar, pelo menos em uma sociedade a priori hostil a tal resultado. Que a piedade seja incomunic\u00e1vel \u2013 \u00aba piedade como experi\u00eancia e n\u00e3o como id\u00e9ia<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh17\" class=\"spip_note\" title=\"F. Burgat, p\u00e1g. 204.\" href=\"#nb17\" rel=\"footnote\">17<\/a>]<\/span>\u00bb - nos faz pensar, atrav\u00e9s de um reflexo humanista, que ela se origina do ato da f\u00e9, do irracional. Mas n\u00e3o agimos assim quando se trata de nossa f\u00edsica moderna&nbsp;! O humanismo nos desacostumou a enxergar na piedade o que ela \u00e9: a percep\u00e7\u00e3o do sofrimento alheio.<\/p>\n<p>Fazendo de n\u00f3s ess\u00eancias \u2013 \u00abalmas\u00bb - o humanismo proibiu toda comunica\u00e7\u00e3o real. Como \u00e9 que as ess\u00eancias poderiam comunicar entre si? Nossa alma \u00e9 como um diamante, eterno e inalter\u00e1vel. O humanismo nos isola no solipsismo.<\/p>\n<p>[N.T.: Solipsismo, do latim \"solu-, \u00abs\u00f3\u00bb +ipse, \u00abmesmo\u00bb +-ismo\".) \u00e9 a cren\u00e7a filos\u00f3fica de que, al\u00e9m de n\u00f3s, s\u00f3 existem as nossas experi\u00eancias. O solipsismo \u00e9 a conseq\u00fc\u00eancia extrema de se acreditar que o conhecimento deve estar fundado em estados de experi\u00eancia interiores e pessoais, n\u00e3o se conseguindo estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o direta entre esses estados e o conhecimento objetivo de algo para al\u00e9m deles. O \"solipsismo do momento presente\" estende este ceticismo aos nossos pr\u00f3prios estados passados, de tal modo que tudo o que resta \u00e9 o eu presente. Wikipedia].<\/p>\n<p>Por outro lado,<\/p>\n<blockquote class=\"noindent\"><p>[a] piedade retira o indiv\u00edduo de sua ipseidade, o desapropria do c\u00edrculo de sua autonomia ao atenuar a distin\u00e7\u00e3o entre si e o outro<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh18\" class=\"spip_note\" title=\"F. Burgat, p\u00e1g. 205.\" href=\"#nb18\" rel=\"footnote\">18<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>A piedade nos faz perceber o sofrimento do outro da mesma forma como percebemos nosso pr\u00f3prio sofrimento. Ela se torna, ao mesmo tempo, uma <i>motiva\u00e7\u00e3o<\/i>, do mesmo modo que nossas motiva\u00e7\u00f5es pessoais. O que n\u00e3o quer dizer que ela seja a \u00fanica motiva\u00e7\u00e3o, que o racioc\u00ednio \u00e9tico n\u00e3o possa ser feito no mesmo instante em que sentimos compaix\u00e3o. A f\u00edsica tamb\u00e9m n\u00e3o se limita \u00e0 experi\u00eancia!Tamb\u00e9m n\u00e3o quer dizer que toda piedade seja boa, que ela esteja acima de toda cr\u00edtica. Podemos sentir compaix\u00e3o pelas montanhas ou pelos rios, como citou Yves<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh19\" class=\"spip_note\" title=\"\u00abPerplexit\u00e9...\u00bb, p\u00e1g. 18.\" href=\"#nb19\" rel=\"footnote\">19<\/a>]<\/span>. A exist\u00eancia de falsas percep\u00e7\u00f5es da f\u00edsica n\u00e3o desqualifica a experi\u00eancia f\u00edsica global. A compaix\u00e3o e a alegria partilhadas est\u00e3o na base da \u00e9tica, assim como a experi\u00eancia f\u00edsica est\u00e1 na base da f\u00edsica: sem elas, n\u00e3o saber\u00edamos que n\u00e3o estamos cada um(a) sozinho(a); e a \u00e9tica perderia todo prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>E, a menos que voltemos ao cartesianismo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel declararmos falsa <i>toda<\/i> piedade pelos n\u00e3o-humanos. Conseq\u00fcentemente, a \u00e9tica inclui tanto os n\u00e3o-humanos quanto os humanos(as).<\/p>\n<p>O humanismo se apropriou da piedade, reduzindo-a ao mesmo tempo \u00e0 sombra de si pr\u00f3pria. O racioc\u00ednio de Florence Burgat nos restituiu a piedade. Ali\u00e1s, n\u00e3o se trata de examinarmos quanto Florence Burgat \u00e9 humanista; mas sim de n\u00e3o deixarmos nossos pr\u00f3prios preconceitos humanistas nos esconder a desestabiliza\u00e7\u00e3o radical que Florence realiza no cora\u00e7\u00e3o da obra humanista.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<h2 class=\"champ contenu_ps\">Notes<\/h2>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span><a class=\"spip_in\" href=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/perplexite\/\">\u00abPerplexit\u00e9...\u00bb<\/a>, p\u00e1g. 7 deste n\u00famero.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>Slogan do Partido no romance <i>1984<\/i> de George Orwell (1948). Nos por\u00f5es do Minist\u00e9rio do Amor s\u00e3o torturados e mortos os \u00abcriminosos do pensamento\u00bb; \u00e9 o Minist\u00e9rio da Verdade que cuida de atribuir os fatos com uma ortodoxia sempre mutante; e assim por diante.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>O humanismo neste sentido prov\u00e9m de antes do Renascimento; desconfio que foi o cristianismo que, desde seu in\u00edcio, exacerbou este culto ao Homem (identificado ao Cristo&nbsp;?), e a escol\u00e1stica que fez dele um sistema.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span>Mal acabei de escrever esta frase e recebi um e-mail de um antifascista anti-especista no qual ele qualifica os fascistas de \u00absapos degenerados\u00bb. Boa reutiliza\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o hitleriana do mundo...<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb5\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 5\" href=\"#nh5\" rev=\"footnote\">5<\/a>]\u00a0<\/span><i>1984<\/i>, p\u00e1g. 171 (edi\u00e7\u00e3o Penguin Modern Classics).  \u00ab&nbsp;O \u00abdoublepenser \u00e9 central \u00e0 [ideologia do Partido]\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb6\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 6\" href=\"#nh6\" rev=\"footnote\">6<\/a>]\u00a0<\/span>Sobre a palavra <i>homem<\/i>, no masculino: eu a repito assim, pois \u00e9 o conceito <i>deles<\/i>; de fato, o humanismo cita o \u00abhomem\u00bb com tra\u00e7os estranhamente masculinos. Aqui eu n\u00e3o desenvolverei este ponto importante.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb7\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 7\" href=\"#nh7\" rev=\"footnote\">7<\/a>]\u00a0<\/span>Entretanto \u00e9 muito forte a tenta\u00e7\u00e3o de desclassificar as emo\u00e7\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o humanas. Vi tal pesquisador procurar distinguir a \u00absimples\u00bb dor \u00abanimal\u00bb do sofrimento, que somente as humanas podem sentir. Por outro lado, nasci muito tarde para escutar as teorias escravagistas sobre a insensibilidade dos Negros(as)...<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb8\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 8\" href=\"#nh8\" rev=\"footnote\">8<\/a>]\u00a0<\/span>Kant, <i>Fundamentos da metaf\u00edsica dos costumes<\/i>, segunda se\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb9\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 9\" href=\"#nh9\" rev=\"footnote\">9<\/a>]\u00a0<\/span>Esta transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 sistem\u00e1tica. O termo \u00abHolocausto\u00bb (<i>Shoah<\/i>) se refere atrav\u00e9s sua origem b\u00edblica (G\u00eanesis 22) \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o homem\/animal (Abra\u00e3o se prepara para sacrificar seu filho para Deus; este o substitui <i>in extremis<\/i> por um carneiro).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb10\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 10\" href=\"#nh10\" rev=\"footnote\">10<\/a>]\u00a0<\/span>Al\u00e9m dos exemplos citados, mencionemos a proibi\u00e7\u00e3o do aborto que existe em quase todos os pa\u00edses do mundo, em nome do car\u00e1ter humano, ent\u00e3o sagrado, dos embri\u00f5es, entretanto t\u00e3o pouco sens\u00edveis quanto uma pedra; e o desprezo pelos humanos que n\u00e3o possuem ou possuem pouca \u00abintelig\u00eancia humana\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb11\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 11\" href=\"#nh11\" rev=\"footnote\">11<\/a>]\u00a0<\/span>\u00abPerplexit\u00e9...\u00bb, p\u00e1g. 7 deste n\u00famero.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb12\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 12\" href=\"#nh12\" rev=\"footnote\">12<\/a>]\u00a0<\/span>N\u00e3o se trata de rejeitar a intelig\u00eancia, na medida em que n\u00f3s ou outros a tenha, e n\u00e3o se trata de rejeitar outras particularidades freq\u00fcentemente humanas. Trata-se de recusar que ela seja um fim ou um valor em si. Ela n\u00e3o deveria atribuir nenhuma gl\u00f3ria, e apenas ser vista como um instrumento para se aproveitar a vida.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb13\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 13\" href=\"#nh13\" rev=\"footnote\">13<\/a>]\u00a0<\/span>A den\u00fancia, fundada, de certos aspectos humanistas dos <i>Cahiers<\/i> foi, durante muito tempo a especialidade de Philippe Moulh\u00e9rac. Seus textos podem ser obtidos no endere\u00e7o: P. Moulh\u00e9rac, Neyrolles, 43440 Champagnac. Enviar alguns trocados para despesas postais.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb14\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 14\" href=\"#nh14\" rev=\"footnote\">14<\/a>]\u00a0<\/span>F. Burgat, <i>Animal Mon Prochain<\/i>, p\u00e1g. 71.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb15\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 15\" href=\"#nh15\" rev=\"footnote\">15<\/a>]\u00a0<\/span>F. Burgat, p\u00e1g. 200.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb16\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 16\" href=\"#nh16\" rev=\"footnote\">16<\/a>]\u00a0<\/span>Cerca de 1590. Para a f\u00edsica escol\u00e1stica, um objeto mais pesado cai mais r\u00e1pido. N\u00e3o \u00e9 verdade, ou pelo menos n\u00e3o \u00e9 sensivelmente verdade, salvo para os objetos muito leves, que sofrem a resist\u00eancia do ar.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb17\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 17\" href=\"#nh17\" rev=\"footnote\">17<\/a>]\u00a0<\/span>F. Burgat, p\u00e1g. 204.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb18\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 18\" href=\"#nh18\" rev=\"footnote\">18<\/a>]\u00a0<\/span>F. Burgat, p\u00e1g. 205.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb19\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 19\" href=\"#nh19\" rev=\"footnote\">19<\/a>]\u00a0<\/span>\u00abPerplexit\u00e9...\u00bb, p\u00e1g. 18.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ataque iniciado nos Cahiers contra o humanismo suscitou v\u00e1rios debates entre os anti-especistas pelo fato do humanismo ter cristalizado sobre si v\u00e1rias conota\u00e7\u00f5es positivas \u2013 de n\u00e3o viol\u00eancia, de abertura, de generosidade, de sensibilidade, de franqueza, de intelig\u00eancia, de equil\u00edbrio, de responsabilidade, para citarmos apenas algumas. 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