{"id":1474,"date":"2006-10-29T19:32:05","date_gmt":"2006-10-29T18:32:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1474&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T19:34:14","modified_gmt":"2016-05-01T17:34:14","slug":"quem-vai-ao-vento-nao-perde-o-assento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/quem-vai-ao-vento-nao-perde-o-assento\/","title":{"rendered":"Quem vai ao vento n\u00e3o perde o assento"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p>Os humanos sentem respeito, admira\u00e7\u00e3o e uma grande fascina\u00e7\u00e3o pelos predadores. Vimos nos \u00faltimos meses, na revista <i>Paris Match<\/i>, um artigo \u00abLes animaux, nous les aimons, prot\u00e9geons-les\u00bb (\u00abOs animais, n\u00f3s os amamos, vamos proteg\u00ea-los\u00bb) \u2013 um artigo sobre os animais. Onze esp\u00e9cies foram estudadas, dentre elas, 9 de predadores (le\u00e3o, lobo, urso, \u00e1guia, crocodilo...). Um outro exemplo \u00e9 a publica\u00e7\u00e3o recente de uma revista chamada <i>Pr\u00e9dateurs: l\u2019encyclop\u00e9die des grands chasseurs du monde animal<\/i> (\u201cPredadores: a enciclop\u00e9dia dos grandes ca\u00e7adores do mundo animal\u201d) \u2013 cada n\u00famero \u00e9 dedicado a um predador diferente (tubar\u00e3o, lobo, le\u00e3o...) e acompanhado com uma fita v\u00eddeo. O assunto vende bem. Como se trata de produtos comerciais, tais edi\u00e7\u00f5es mostram a preda\u00e7\u00e3o sob o \u00e2ngulo que o p\u00fablico espera encontrar, apenas apresentando os estere\u00f3tipos e banalidades que o leitor deseja ver. Utilizarei v\u00e1rias cita\u00e7\u00f5es tiradas desse tipo de publica\u00e7\u00e3o para ilustrar minha an\u00e1lise.<\/p>\n<h2>O teatro da preda\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Como s\u00e3o ent\u00e3o apresentados os predadores, a preda\u00e7\u00e3o, as presas, qual fun\u00e7\u00e3o lhes \u00e9 atribu\u00edda e que interesse isso representa para n\u00f3s, humanos?<\/p>\n<h3>Predadores, policiais e faxineiros<\/h3>\n<p>Mesmo se beneficiam de uma bela imagem no seio do \u00abreino animal\u00bb, de um lugar especial, os predadores continuam sendo animais e s\u00e3o percebidos como imersos na Natureza, como n\u00e3o (ou pouco) individualizados, como possuidores de uma natureza da sua <i>esp\u00e9cie<\/i> que corresponde a um lugar (fun\u00e7\u00e3o) no seio da Totalidade, no seio de toda Natureza<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. meu artigo \u00abL\u2019Animal, l\u2019Homme, la Nature, la Soci\u00e9t\u00e9... et moi dans tout\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>A revista <i>Pr\u00e9dateurs<\/i> \u00e9 particularmente expl\u00edcita: a verdadeira fun\u00e7\u00e3o do tubar\u00e3o, por exemplo, como \u00e9 explicada p\u00e1gina por p\u00e1gina \u00e9... de fazer reinar a Ordem na Natureza.<\/p>\n<p>- T\u00edtulo: <i>\u00abL\u2019arme supr\u00eame des oc\u00e9ans\u00bb<\/i> (\u00abA arma suprema dos oceanos\u00bb)<\/p>\n<p>- Subt\u00edtulo: <i>\u00abGendarme \u00e9cologique\u00bb<\/i> (\u00abPolicial ecol\u00f3gico\u00bb)<\/p>\n<p>- Introdu\u00e7\u00e3o: <i>\u00ab...e esta fisiologia perfeita totalmente destinada a preda\u00e7\u00e3o! O tubar\u00e3o \u00e9 uma arma magn\u00edfica a servi\u00e7o dos equil\u00edbrios marinhos fundamentais.\u00bb<\/i><\/p>\n<p>Efetivamente, os predadores s\u00e3o sistematicamente apresentados como concebidos para realizar uma miss\u00e3o: a conserva\u00e7\u00e3o da Natureza. S\u00e3o ferramentas perfeitamente adaptadas \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de sua tarefa: \u00abm\u00e1quina de guerra perfeitamente regulada\u00bb, \u00abperfeitamente programada\u00bb, \u00abmatador perfeito\u00bb, \u00abpredador impiedoso\u00bb, \u00abm\u00e1quina para matar\u00bb.<\/p>\n<p>E assim sobre os lobos:<\/p>\n<blockquote><p>Seu olhar dourado analisa de maneira t\u00e3o precisa quanto um computador...<\/p><\/blockquote>\n<p>E sobre os leopardos:<\/p>\n<blockquote><p>Poder\u00edamos dizer que um engenheiro aprofundou seriamente seus estudos antes de colocar a m\u00e1quina para funcionar...<\/p><\/blockquote>\n<p>Sobre as \u00e1guias:<\/p>\n<blockquote><p>A \u00e1guia \u00e9 a mais implac\u00e1vel e a mais suntuosa m\u00e1quina voadora concebida para a ca\u00e7a...<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou ainda sobre os crocodilos:<\/p>\n<blockquote><p>Esta mec\u00e2nica r\u00fastica e pregui\u00e7osa nunca mata por prazer...<\/p><\/blockquote>\n<p>O indiv\u00edduo predador perde assim toda vida pr\u00f3pria, sua exist\u00eancia inteira possuiu uma finalidade:<\/p>\n<blockquote><p>... a natureza produziu um animal blindado, anf\u00edbio, sofisticado e perigoso predador. Tudo neles \u00e9 previsto para ser ofensivo, n\u00e3o importa a situa\u00e7\u00e3o em que se encontrem.<\/p><\/blockquote>\n<p>A m\u00edstica humanista-naturalista nos autoriza a \u00abexplorar a Natureza\u00bb, com a condi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o perturbarmos a ordem: caso contr\u00e1rio, a Natureza poderia se vingar. Somos ent\u00e3o respons\u00e1veis por este \u00abequil\u00edbrio\u00bb, e devemos garantir que estes \u00abpoliciais naturais\u00bb possam continuar cumprindo suas tarefas de manuten\u00e7\u00e3o da ordem, pois o far\u00e3o <i>necessariamente<\/i> melhor que n\u00f3s. Assim, as \u00faltimas p\u00e1ginas da revista <i>Predateurs<\/i> s\u00e3o sempre dedicadas a \u00abexaminarem a prote\u00e7\u00e3o destes animais\u00bb.<\/p>\n<h3>As presas s\u00e3o lixo<\/h3>\n<p>Se os predadores s\u00e3o nobres e realizam uma miss\u00e3o da mais alta import\u00e2ncia, as presas, por outro lado, s\u00e3o sistematicamente apresentadas como lixos contagiosos dos quais \u00e9 necess\u00e1rio se livrar para que n\u00e3o se acumulem e degradem a superf\u00edcie de nosso planeta:<\/p>\n<blockquote><p>Engolindo os cad\u00e1veres dos peixes, exterminando os doentes e os machucados, o tubar\u00e3o contribui em larga escala para manter o equil\u00edbrio do ecossistema.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Os le\u00f5es e os carn\u00edvoros t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o reguladora natural. Eles limitam os efetivos de herb\u00edvoros que, se numerosos, provocam uma r\u00e1pida desertifica\u00e7\u00e3o. Esta limita\u00e7\u00e3o interv\u00e9m sobre os excedentes e s\u00f3 \u00e9 exercida sobre os animais menos r\u00e1pidos, os menos \u00e1geis, os menos atentos ou mais velhos. Este equil\u00edbrio que liga a cobertura vegetal, os herb\u00edvoros e os carn\u00edvoros \u00e9 muito fr\u00e1gil.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Mas, o lobo, ao atacar preferencialmente os animais fracos, doentes, jovens ou velhos, revitaliza, regula e trata das popula\u00e7\u00f5es dos ruminantes, tal qual um verdadeiro \u00abveterin\u00e1rio natural\u00bb.<\/p><\/blockquote>\n<h3>Por\u00e9m os humanos n\u00e3o s\u00e3o presas<\/h3>\n<p>A ideologia do l\u2019<i>apartheid des esp\u00e8ces<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. Y. Bonnardel, \u00abL\u2019Apartheid des esp\u00e8ces\u00bb, Cahiers antisp\u00e9cistes n\u00b014,\u00a0(...)\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span> nos diz que, enquanto os outros animais s\u00e3o vistos como parte integrante da Natureza, de um sistema totalit\u00e1rio, fechado, herm\u00e9tico, repetitivo (\u00abc\u00edclico\u00bb), im\u00f3vel \u00e0 nossa escala de tempo, regido pela \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. D. Olivier, \u00abLa Nature ne choisit pas\u00bb, Cahiers antisp\u00e9cistes n\u00b014,\u00a0(...)\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span> (dentro da qual se encontra particularmente a preda\u00e7\u00e3o), por outro lado, os humanos, s\u00e3o considerados pertencer \u00e0 esfera do social, de um sistema aberto, din\u00e2mico, linear (o progresso da civiliza\u00e7\u00e3o), regido pelo Direito e pela Justi\u00e7a. Os dois sistemas, o social e o natural, devem continuar bem separados. N\u00e3o se deve intervir na Natureza, que est\u00e1 fora do social. N\u00e3o podemos julg\u00e1-la com nossas categorias humanas pois \u00abEla\u00bb \u00e9 absolutamente diferente. \u00abEla\u00bb deve continuar sendo sua pr\u00f3pria refer\u00eancia, infinitamente outra, secreta, incompreens\u00edvel e fundamentalmente s\u00e1bia. Assim como Deus.<\/p>\n<p>Nesta mitologia, os humanos nasceram da natureza, sa\u00edram dela, mas guardaram algumas liga\u00e7\u00f5es com \u201cEla\u201d: principalmente foi a Natureza que lhes forneceu os meios (intelectuais propriamente humanos) para que se libertassem d\u2019\u201cEla\u201d \u2013 assim como Deus, nas mitologias monote\u00edstas, lhes tinha dado a liberdade de provarem do fruto do conhecimento. \u00c9 sobretudo pela sexualidade e por suas outras necessidades fisiol\u00f3gicas, dentre as quais o modo de se alimentar, que os humanos, est\u00e3o supostamente religados \u00e0 Natureza: \u00e9 assim que a sexualidade ou o consumo (de carne, principalmente), que s\u00e3o pr\u00e1ticas sociais ligadas entre outras a simbolismos de domina\u00e7\u00e3o, s\u00e3o profundamente sentidas como pr\u00e1ticas naturais, que nem saber\u00edamos questionar. Os humanos se consideram fora da Natureza mas uma de suas liga\u00e7\u00f5es continua existindo... a preda\u00e7\u00e3o: eles\/elas <i>s\u00e3o<\/i> (quer dizer: <i>querem ser<\/i>) predadores, inclusive, pelo fato de sua superioridade, querem ser super predadores.<\/p>\n<p>Quando s\u00e3o os humanos que s\u00e3o predados por outros animais, trata-se de um erro da Natureza: n\u00e3o \u00e9 \u00abfun\u00e7\u00e3o normal\u00bb da Humanidade a de servir de presa!<\/p>\n<p>Assim, o n\u00famero da revista <i>Pr\u00e9dateurs<\/i> dedicado aos tubar\u00f5es nos tranq\u00fciliza:<\/p>\n<blockquote><p>De vez em quando, seu zelo o conduz a atacar o homem. Entretanto ele n\u00e3o est\u00e1 programado para isto. Este predador supremo n\u00e3o seleciona o que abocanha.<\/p><\/blockquote>\n<p>Resumindo: seria por distra\u00e7\u00e3o ou sob qualquer outro fator que lhe fa\u00e7a esquecer que n\u00e3o somos comest\u00edveis (\u00abse ele for perturbado\u00bb, \u00abse ele se sentir amea\u00e7ado\u00bb...) que o tubar\u00e3o, \u00e0s vezes, agride os humanos.<\/p>\n<blockquote><p>Os comedores de homens, inclusive o grande tubar\u00e3o branco, n\u00e3o est\u00e3o, a priori, programados para atacarem os nadadores ou os mergulhadores. Os acidentes s\u00e3o provocados sobretudo pela atitude dos homens. Ou estes apresentam um comportamento que os tubar\u00f5es julgam agressivo ou ca\u00e7am, matando os peixes que sangram abundantemente, excitando os ardores dos tubar\u00f5es.<\/p><\/blockquote>\n<p>Estes \u00abacidentes\u00bb n\u00e3o s\u00e3o imput\u00e1veis \u00e0 Natureza (pois digerir a carne de humanos n\u00e3o est\u00e1 previamente programado): s\u00e3o os pr\u00f3prios humanos que se exp\u00f5em, negligenciando as tais \u00ableis naturais\u00bb.<\/p>\n<p>Para os naturalistas e humanistas isso \u00e9 l\u00f3gico e normal. Normal, pois a verdadeira natureza (fun\u00e7\u00e3o) do tubar\u00e3o \u00e9 de fazer reinar a Ordem nesta Natureza, de suprimir os membros doentios, sendo que os seres humanos, n\u00e3o consideram se situar nesta mesma Ordem.<\/p>\n<h3>Os humanos e a preda\u00e7\u00e3o animal<\/h3>\n<p>Assim sendo, os humanistas se indignam logicamente, quando impedimos um gato de comer um rato ou um le\u00e3o de comer uma gazela, desde que procuremos uma alternativa para um animal \u00ab100% natural\u00bb que aterrorize, mate e depois coma um outro. Sua natureza \u00e9 a de ca\u00e7ar e seria antinatural intervirmos contra isso. Faz parte da natureza do camundongo, do rato, do animal ca\u00e7ado, de ser comido, de ser uma presa. Se o forte tem for\u00e7a por causa da natureza, o fraco tamb\u00e9m \u00e9 fraco porque esta \u00e9 sua natureza.<\/p>\n<blockquote><p>nas eras quando a natureza nos ditava ainda suas leis, tudo era \u00abordem e beleza\u00bb, mesmo matar para viver, mesmo estar doente, mesmo morrer<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"A. Lindbergh, Lorsque les singes hurleurs se tairont, Presses de la Cit\u00e9,\u00a0(...)\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>As presas s\u00e3o raramente apresentadas como indiv\u00edduos. Quando isso acontece, \u00e9 para melhor colocar em evid\u00eancia o car\u00e1ter ao mesmo tempo excessivamente cruel e intoc\u00e1vel da preda\u00e7\u00e3o: s\u00e3o as atividades interiores de um outro Reino, particularmente b\u00e1rbaro, claro, mas ainda mais sagrado e dentro do qual n\u00e3o devemos intervir.<\/p>\n<p>Se \u00e9 exclu\u00eddo que intervenhamos, o humanismo ordin\u00e1rio nos convida a nos divertirmos com o espet\u00e1culo que a \u00abNatureza\u00bb nos oferece:<\/p>\n<blockquote><p>Quando perseguido por um leopardo marinho, o ping\u00fcim sobe at\u00e9 a superf\u00edcie com uma velocidade incr\u00edvel antes de se projetar a 2 metros acima da \u00e1gua. \u00c9 um espet\u00e1culo maravilhoso.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Em alguns instantes, o elefantinho, aterrorizado vai cair, mortalmente ferido pela leoa que est\u00e1 colada em suas costas. Desta vez, a fera mordeu o filhote cruelmente, na garganta e na boca, mas a v\u00edtima ainda respira pela tromba. Sua agonia ser\u00e1 longa e dificilmente suport\u00e1vel para os fot\u00f3grafos.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>\u00c9 o bal\u00e9 da morte, com sua crueldade magn\u00edfica.<\/p><\/blockquote>\n<p>Somente podemos achar magn\u00edfico o espet\u00e1culo da morte e do sofrimento (alheios) se nos colocamos fora da situa\u00e7\u00e3o. Ou nos encontr\u00e1vamos incapazes de intervir, ou, como no caso citado, um tipo de imperativo <i>religioso<\/i> de \u00abrespeito\u00bb pela Natureza nos ordena que fiquemos passivos. A Ordem \u00e9 uma ordem. A preda\u00e7\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo de que a Ordem reina perfeitamente, com uma dureza de ferro: \u00abo Equil\u00edbrio natural\u00bb tira sua exist\u00eancia do fato de n\u00e3o deixar que nenhuma compaix\u00e3o a influencie a favor desta gazela que corre sem f\u00f4lego diante da fera. Al\u00e9m do mais, quanto mais injusta a Ordem, mais \u00e9 considerada como sendo uma Ordem. As \u00abcoisas\u00bb s\u00e3o ordenadas, arrumadas, quando est\u00e3o arranjadas em um n\u00edvel de onde n\u00e3o devem ser retiradas. O sofrimento que \u00e9 necess\u00e1rio semear para manter a ordem, para manter cada um em sua categoria (ou faz\u00ea-lo entrar em sua categoria), d\u00e1 a medida da absoluta necessidade que esta ordem encarna<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh5\" class=\"spip_note\" title=\"Creio que os adeptos dos regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o preferiam a repress\u00e3o\u00a0(...)\" href=\"#nb5\" rel=\"footnote\">5<\/a>]<\/span>: \u00c9 necess\u00e1rio que as coisas tenham um sentido, n\u00e3o \u00e9? Vendo um n\u00e3o humano se fazer predar, temos a impress\u00e3o de assimilar a Natureza em a\u00e7\u00e3o, ou a chance rara de contemplar a Ordem natural cumprir sua obra. A Natureza \u00e9, para os humanistas contempor\u00e2neos, o que o Destino era aos olhos dos gregos antigos, e o espet\u00e1culo da preda\u00e7\u00e3o n\u00e3o humana desperta em n\u00f3s sentimentos similares aos que a trag\u00e9dia antiga inspirava. A preda\u00e7\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo por excel\u00eancia da ordem natural. Como \u00e9 exaltante achar a Natureza t\u00e3o organizada e ordenada, t\u00e3o... equilibrada!<\/p>\n<p>Este respeito pela Natureza\/preda\u00e7\u00e3o nos conduz a levarmos em conta apenas os interesses do mais fortes, e os da v\u00edtima s\u00e3o ignorados. Como vimos, os humanos se identificam quase sempre com o predador, e n\u00e3o com a presa. Recusar intervir significa que estamos do lado do predador. Sempre a funcionalidade (ou a utilidade para a totalidade \u2013 caso trate-se de uma Sociedade ou da Natureza) \u00e9 colocada como sendo mais importante para impedir qualquer revolta contra o sofrimento: a ordem do Todo prima sobre o indiv\u00edduo sens\u00edvel e seus interesses. O respeito pela Natureza \u00e9 apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o particular do respeito \u2013 onipresente \u2013 (porque o mais forte) e do que existe (porque existente).<\/p>\n<p>O respeito dos equil\u00edbrios, das tradi\u00e7\u00f5es e das hierarquias \u2013 independentemente do que elas implicam para os seres sens\u00edveis que nelas est\u00e3o inseridos \u2013 evoca bem as m\u00edsticas da extrema-direita, as m\u00edsticas da Ordem. As divis\u00f5es pol\u00edticas s\u00e3o freq\u00fcentemente mais falsas do que possamos imaginar, e afinidades profundas unem, sobre esse assunto, os pensamentos humanistas\/naturalistas, sejam eles de direita, esquerda ou ecologistas.<\/p>\n<h3>Os outros predadores n\u00e3o s\u00e3o comidos<\/h3>\n<p>No teatro imagin\u00e1rio da preda\u00e7\u00e3o, presas e predadores representam pap\u00e9is. Natural e facilmente n\u00f3s nos identificamos com os segundos, eles mesmos identificados por sua vez com os dominantes humanos da \u00e9poca feudal: \u00abrei da selva\u00bb, \u00abimperador das neves\u00bb, \u00absenhor dos c\u00e9us\u00bb, \u00abmajestade dos mares\u00bb... os predadores s\u00e3o nobres, de uma nobreza da esp\u00e9cie, e possuem uma dignidade que suas presas n\u00e3o possuem (desqualificadas por serem fracas, pelo simples fato de serem v\u00edtimas). Fora os peixes, n\u00e3o comemos os outros predadores. Al\u00e9m disso, n\u00f3s os distinguimos cuidadosamente dos carniceiros, como as hienas, que merecem apenas nosso desprezo. Em nenhuma civiliza\u00e7\u00e3o humana os animais encontrados mortos s\u00e3o comidos. Sem d\u00favida isso lembraria demais os carniceiros, estes animais que aproveitam sem m\u00e9rito algum a morte dos outros. Por outro lado, como \u00e9 gratificante identificarmo-nos com a for\u00e7a, a grandeza daqueles que matam, que presidem a morte<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh6\" class=\"spip_note\" title=\"David Olivier, \u00abLe go\u00fbt et le meurtre\u00bb, CA n\u00b09, janvier 1994.\" href=\"#nb6\" rel=\"footnote\">6<\/a>]<\/span>! O humano deseja ser predador e, a justo t\u00edtulo, sabe respeitar seus semelhantes, seus rivais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh7\" class=\"spip_note\" title=\"ARAP (Amis des Renards et Autres Puants) \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o especializada de\u00a0(...)\" href=\"#nb7\" rel=\"footnote\">7<\/a>]<\/span>: ele os mata (se poss\u00edvel em um combate truculento, \u00abde modo leal\u00bb, como fazemos com algu\u00e9m que estimamos, que consideramos como um igual), mas ele n\u00e3o os come. Comer algu\u00e9m, pelo menos em nossa civiliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 trat\u00e1-lo como um animal, como \u00abcarne sobre dois p\u00e9s\u00bb, \u00e9 desvaloriz\u00e1-lo ao extremo. Engol\u00ed-lo equivale a rebaix\u00e1-lo. A que categoria? \u00c0 categoria do n\u00e3o humano mais desprez\u00edvel, aquele que serve para virar carne, que apenas tem interesse como mat\u00e9ria bruta. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 canibalismo, nem o consumo de predadores. Na maioria das civiliza\u00e7\u00f5es, a carne dos indiv\u00edduos das esp\u00e9cies predadoras \u00e9 reputada impura, ou muito dura, ou muito forte, ou n\u00e3o comest\u00edvel... Se \u00e0s vezes acontece que um predador seja comido, trata-se de um ritual destinado \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a.<\/p>\n<h2>A domina\u00e7\u00e3o legitimada pela preda\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Se a preda\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o admirada e evocada, \u00e9 porque ocupa um lugar capital em nosso imagin\u00e1rio. Designada como representante privilegiada da \u00abOrdem natural\u00bb, ela contribui para legitimar diferentes tipos de domina\u00e7\u00f5es ou de sistemas sociais desiguais, dentre os quais, em primeiro lugar, evidentemente, o especismo.<\/p>\n<p>Eis alguns exemplos:<\/p>\n<h3>Preda\u00e7\u00e3o e carne<\/h3>\n<blockquote><p>... nem o mais apaixonado defensor dos animais, nem o vegan mais obstinado, nem o zo\u00f3filo mais convencido, pensaram exigir do le\u00e3o ou do tigre que estes se tornem vegetarianos. Por que ent\u00e3o desejar, com obstina\u00e7\u00e3o, isso do homem? Por que o vegan recusa para ele mesmo e seus iguais a carne do animal morto, enquanto alimenta com carne seu c\u00e3o e seu gato?<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>...<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Muitas pessoas reconhecem simplesmente, e sem digress\u00f5es, a necessidade para o homem, de comer animais. Pois existem esp\u00e9cies herb\u00edvoras, carn\u00edvoras ou on\u00edvoras, dentre as quais est\u00e1 a esp\u00e9cie humana; tal \u00e9 seu patrim\u00f4nio gen\u00e9tico, sua hist\u00f3ria e seu destino. Para as esp\u00e9cies carn\u00edvoras e on\u00edvoras, \u00e9 normal, natural e inevit\u00e1vel de matarem-se entre si para subsistirem, como \u00e9 leg\u00edtimo , al\u00e9m disso, que nos defendamos uns dos outros. Tal afirma\u00e7\u00e3o ap\u00f3ia-se essencialmente na fatalidade biol\u00f3gica que faz do homem um comedor de carne<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh8\" class=\"spip_note\" title=\"Jean-Marie Bourre (Diretor de pesquisa do INSERM e especialista em\u00a0(...)\" href=\"#nb8\" rel=\"footnote\">8<\/a>]<\/span>...<\/p><\/blockquote>\n<p>A preda\u00e7\u00e3o serve ent\u00e3o, em primeiro lugar, para legitimar a preda\u00e7\u00e3o humana. Certo, mas n\u00e3o a consuma\u00e7\u00e3o de humanos pois o canibalismo \u00e9 certamente o ato que assusta e impressiona de forma profunda o humanismo: n\u00e3o h\u00e1 nada de mais degradante para nossa humanidade comum do que comer um outro ser humano!<\/p>\n<h3>Preda\u00e7\u00e3o, dignidade humana e beefsteak<\/h3>\n<p>Visto a nobreza que confere-se \u00e0 preda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 surpreendente que a eminente dignidade que dizem ter sido conquistada pelo homem ao longo da evolu\u00e7\u00e3o (ao longo do processo de \u201chominiza\u00e7\u00e3o\u201d, como gostamos de dizer) tenha vindo em ultima inst\u00e2ncia\u2026 de seu comportamento de predador.<\/p>\n<p>Tema presente tamb\u00e9m em F. Engels:<\/p>\n<blockquote><p>... Do mesmo modo que o costume de comer vegetais misturados \u00e0 carne fez dos gatos e c\u00e3es selvagens os servidores do homem, da mesma maneira, o costume de aliar a carne aos vegetais contribuiu essencialmente para dar ao homem em forma\u00e7\u00e3o a for\u00e7a f\u00edsica e a independ\u00eancia (...) O homem se tornou homem devido ao regime carn\u00edvoro<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh9\" class=\"spip_note\" title=\"Friedrich Engels, \u00abO papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem\u00bb\u00a0(...)\" href=\"#nb9\" rel=\"footnote\">9<\/a>]<\/span>...<\/p><\/blockquote>\n<p>E tamb\u00e9m em J. M. Bourre, nosso cientista pr\u00f3-carne j\u00e1 citado:<\/p>\n<blockquote><p>No reino animal, a atividade da ca\u00e7a e da preda\u00e7\u00e3o estando ligada a performances intelectuais superiores, podemos deduzir que o homem, ap\u00f3s o chipanz\u00e9, ao longo da evolu\u00e7\u00e3o, se tornou uma esp\u00e9cie superiormente inteligente pelo fato de ter se transformado em ca\u00e7ador, e que, comportamentalmente, ele se assemelha aos carn\u00edvoros em muitos pontos. (...) \u00c9 totalmente evidente que, no mundo vivo atual, as esp\u00e9cies carn\u00edvoras s\u00e3o mais \u2018inteligentes\u2019 do que as herb\u00edvoras. Este chamado \u00e0 finalidade carn\u00edvora da esp\u00e9cie humana \u00e9 uma conseq\u00fc\u00eancia, uma passagem obrigat\u00f3ria, uma necessidade, uma obriga\u00e7\u00e3o ardente, para perenizar o corpo, o c\u00e9rebro e o esp\u00edrito<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh10\" class=\"spip_note\" title=\"J. M. Bourre, op. cit., pp. 240-241; sua primeira frase \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o\u00a0(...)\" href=\"#nb10\" rel=\"footnote\">10<\/a>]<\/span>!<\/p><\/blockquote>\n<p>Suponhamos que admit\u00edssemos uma tal \u00abobriga\u00e7\u00e3o ardente\u00bb (!) de sermos inteligentes, mas enxergo mal no que o fato de mastigar um salame possa representar uma t\u00e3o grande gin\u00e1stica mental! Mas se um cientista o diz...<\/p>\n<h3>Carne e domina\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p>Desta l\u00f3gica cotidiana que declara que a humanidade\/virilidade tenha se tornado dominante e digna de reinar ao se tornar predadora, induz-se logicamente a glorifica\u00e7\u00e3o da carne como fator de domina\u00e7\u00e3o no seio da pr\u00f3pria humanidade; pois os homens verdadeiros comem carne, enquanto os vegetarianos s\u00e3o legumes efeminados:<\/p>\n<blockquote><p>\u2026 os que comem carne sempre dominaram os que n\u00e3o comiam, pois a estes \u00faltimos faltava a \u00abdin\u00e2mica agressividade mental\u00bb. (...) Para Rodale, os carn\u00edvoros s\u00e3o os dominadores, assim como os lobos e as raposas, e os vegetarianos estariam submissos a eles, como os coelhos domesticados<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh11\" class=\"spip_note\" title=\"J. I. Rodale, System for mental power and natural health, USA, 1967, citado\u00a0(...)\" href=\"#nb11\" rel=\"footnote\">11<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>At\u00e9 uma \u00e9poca recente, o consumo de carne era usado para simbolizar rela\u00e7\u00f5es de poder:<\/p>\n<blockquote><p>Os chefes sempre tiveram uma alimenta\u00e7\u00e3o diferenciada da dos escravos. Os que conquistam, que comandam e que combatem se alimentam sobretudo com carnes e bebidas fermentadas, enquanto que os pac\u00edficos, os fracos, os passivos, se contentam com leite, legumes, frutos e cereais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh12\" class=\"spip_note\" title=\"Alexis Carrel, L\u2019Homme, cet inconnu, \u00e9d. Plon, 1935; citado por Coeurde\u00a0(...)\" href=\"#nb12\" rel=\"footnote\">12<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Atualmente tais alega\u00e7\u00f5es parecem um pouco for\u00e7adas: as rela\u00e7\u00f5es sociais se transformaram e a express\u00e3o destes restos de ideologia feudal parece agora datada, exceto em alguns meios da extrema direita. Apesar disso, trata-se da formula\u00e7\u00e3o de um subtendido social que retorna com for\u00e7a, n\u00e3o somente vindo da extrema direita, mas tamb\u00e9m dos antifascistas satisfeitos desde que a alimenta\u00e7\u00e3o carn\u00edvora \u00e9 questionada: \u00abPaz, amor, liberdade, legumes\u00bb diziam as pessoas para ridicularizarem os antiespecistas<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh13\" class=\"spip_note\" title=\"\u00abN\u00f3s n\u00e3o comemos antiespecistas para n\u00e3o matar animais\u00bb, R\u00e9flex n\u00b040, oct.\u00a0(...)\" href=\"#nb13\" rel=\"footnote\">13<\/a>]<\/span>. \u00abGuerra, \u00f3dio, coer\u00e7\u00e3o, carne\u00bb, por outro lado, define relativamente bem a realidade do patriarcalismo e, infelizmente n\u00e3o \u00e9 tido como rid\u00edculo. Seria isso que os antifascistas viris desejam?<\/p>\n<p>Com efeito, ainda em nossos dias a maior parte dos homens come carne, os mais pobres desejam comer ainda mais, para assim ficarem persuadidos de seu status social... nos dois casos, trata-se, de prefer\u00eancia, do consumo da carne vermelha, que possui um simbolismo forte de viol\u00eancia e de domina\u00e7\u00e3o<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh14\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. mon \u00abLa consommation de viande en France: contradictions actuelles\u00bb,\u00a0(...)\" href=\"#nb14\" rel=\"footnote\">14<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>\u00c0 domina\u00e7\u00e3o geralmente \u00e9 associada a vol\u00fapia do bom vivant; recusar comer carne, evoca penit\u00eancia, a mortifica\u00e7\u00e3o, a abstin\u00eancia: os vegetarianos s\u00e3o quase sempre descritos como seres tristonhos, asc\u00e9ticos, m\u00edsticos (a abstin\u00eancia), magricelas, nervosos, amorfos (legumes), femininos ou afeminados, passivos... eles n\u00e3o dominam a morte e se assemelham mais aos \u00ablixos doentios\u00bb que s\u00e3o os animais ca\u00e7ados.<\/p>\n<p>Efetivamente, os dominantes se apropriam dos s\u00edmbolos de domina\u00e7\u00e3o: o consumo de carne, o uso de pele, de couro... Em nossas sociedades, \u00e9 geralmente o homem, o \u00abchefe da fam\u00edlia\u00bb que corta a carne antes de servir a refei\u00e7\u00e3o...<\/p>\n<blockquote><p>Imaginamos sempre os grandes banquetes vitorianos, com o macho dominante celebrando o corte do rosbife, a mulher dominante servindo os legumes e a fam\u00edlia enorme reunida ao redor de uma mesa sobre a qual tudo est\u00e1 em ordem<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh15\" class=\"spip_note\" title=\"Peter Farb e Georges Armelagos, Anthropologie des pratiques alimentaires,\u00a0(...)\" href=\"#nb15\" rel=\"footnote\">15<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Talvez tenha-se notado que ao longo deste artigo eu falei progressivamente mais do Homem do que do Humano: com efeito, este car\u00e1ter predador da humanidade \u00e9, acima de tudo, encarnada pelos seres masculinos. Em todas as civiliza\u00e7\u00f5es as mulheres s\u00e3o dissuadidas de praticar a ca\u00e7a, pelo menos nas ca\u00e7as onde o sangue seja derramado<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh16\" class=\"spip_note\" title=\"Alain Testart, \u00abEssai sur les fondements de la division sexuelle du travail\u00a0(...)\" href=\"#nb16\" rel=\"footnote\">16<\/a>]<\/span>. E bem freq\u00fcentemente, elas tamb\u00e9m s\u00e3o exclu\u00eddas do consumo da carne<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh17\" class=\"spip_note\" title=\"A tese da origem do poder masculino a partir do controle do alimento de\u00a0(...)\" href=\"#nb17\" rel=\"footnote\">17<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<h3>Preda\u00e7\u00e3o e sexismo<\/h3>\n<p>Desde o fim do Antigo Regime e do aparecimento do humanismo, a preda\u00e7\u00e3o n\u00e3o serve mais aos potentes para legitimarem suas guerras nem aos grupos de bandidos para legitimarem seus roubos. Agora, as viol\u00eancias f\u00edsicas entre os humanos parecem ser classificadas dentro do \u201cnatural\u201d. Hoje em dia, a preda\u00e7\u00e3o serve essencialmente de refer\u00eancia ideol\u00f3gica para nossa viol\u00eancia contra os n\u00e3o-humanos.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 not\u00e1vel que as rela\u00e7\u00f5es de preda\u00e7\u00e3o humanos\/animais sirvam ainda e sempre de quadro de refer\u00eancia consagrada para o relacionamento entre homens\/mulheres; j\u00e1 notamos que, quando imaginamos o humano predador, pensamos em uma figura masculina. Para dizer a verdade, em nossa mitologia especista\/sexista, as mulheres n\u00e3o s\u00e3o predadoras<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh18\" class=\"spip_note\" title=\"Lembremo-nos, por exemplo, do sentimento de estranheza que sentimos quando\u00a0(...)\" href=\"#nb18\" rel=\"footnote\">18<\/a>]<\/span>, bem ao contr\u00e1rio, elas s\u00e3o presas no seio das rela\u00e7\u00f5es sociais do g\u00eanero. \u00c9 muito comum, por exemplo, que cartazes de festas estudantis apresentem fotos de um lobo humanizado na Tex Avery, que lambe os bei\u00e7os ao ver uma mocinha bonita; Georges Moustaqui cantava \u00abos amigos de Georges ca\u00e7am as mo\u00e7as nos parques\u00bb. Um homem que paquera uma mulher, \u00e9 um homem que ca\u00e7a, etc. Trata-se realmente de um clich\u00ea do nosso imagin\u00e1rio. E as agress\u00f5es e o medo continuam sendo a realidade comum das mulheres...<\/p>\n<h3>Preda\u00e7\u00e3o e liberalismo<\/h3>\n<p>Um outro uso ideol\u00f3gico que \u00e9 feito da preda\u00e7\u00e3o e da refer\u00eancia \u00e0 \u00abordem das coisas\u00bb consiste a legitimar o capitalismo como transcri\u00e7\u00e3o na ordem do social da luta de \u00abtodos contra todos\u00bb que existiria no seio da Natureza. E ainda bem mais, como Nossa M\u00e3e Natureza funciona atrav\u00e9s da preda\u00e7\u00e3o e da morte \u2013 mas nos permite assim de existirmos \u2013 o capitalismo e, geralmente a vida em sociedade implica, infelizmente, que haja perdedores. Sem d\u00favida \u00e9 necess\u00e1rio que compreendamos que n\u00f3s somos os sobreviventes no seio destes sistemas impiedosos; devemos, para sobreviver, continuar sendo c\u00famplices e calar nosso desejo de solidariedade. N\u00e3o h\u00e1 alternativa poss\u00edvel, pois trata-se do sistema em seu conjunto. Ele foi criado assim, acreditar o contr\u00e1rio seria puro idealismo (irrealismo) e levaria ao caos.<\/p>\n<p>Felizmente, neste terr\u00edvel quadro, uma luz: aqueles que sofrem e sucumbem ao longo do caminho n\u00e3o sofrem inutilmente, eles se sacrificam para que o Todo continue a caminhar, quer dizer, e em \u00faltima an\u00e1lise, para n\u00f3s. Finalmente, tanta mis\u00e9ria trabalha de maneira escondida (mas de modo percept\u00edvel para quem quer enxergar) para a realiza\u00e7\u00e3o de um Bem superior:<\/p>\n<blockquote><p>Ainda que exista uma variedade imensa de criaturas e que cada indiv\u00edduo pare\u00e7a agir como para si pr\u00f3prio, e ter em vista seus objetivos pessoais; entretanto... todos juntos... conspiram, neste caso, para a for\u00e7a ou a comodidade, e para a beleza, a harmonia ou a perfei\u00e7\u00e3o do todo; e, contribuem, de uma certa maneira, em um certo grau, para a vantagem e a felicidade uns dos outros<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh19\" class=\"spip_note\" title=\"Citado por Keith Thomas, Dans le jardin de la nature, La Mutation des\u00a0(...)\" href=\"#nb19\" rel=\"footnote\">19<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Este elogio da preda\u00e7\u00e3o data de 1745 e \u00e9 contempor\u00e2neo dos primeiros discursos \u00e9tico-pol\u00edticos de justifica\u00e7\u00e3o do liberalismo: se deixarmos cada um vagar de acordo com sua vontade, disso resultar\u00e1 o melhor para a comunidade\/totalidade, quer dizer, mais ou menos diretamente para cada um. \u00c9 a \u00abm\u00e3o invis\u00edvel\u00bb (Adam Smith: <i>Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre a natureza e as causas da riqueza das na\u00e7\u00f5es<\/i>) que regula espontaneamente as coisas levando em conta o melhor interesse de todos. Que se trate do elogio liberal do capitalismo e da economia de mercado, ou do discurso a gloria da \u00abharmonia natural\u00bb, em ambos os casos insiste-se massivamente nos benef\u00edcios do jogo dos interesses privados (individuais), concorr\u00eancia econ\u00f4mica em um caso, preda\u00e7\u00e3o no outro, e esquecemos facilmente alguns de seus inconvenientes.<\/p>\n<p>Aparentemente, o discurso do liberalismo \u00e9 constru\u00eddo de acordo com o mesmo modelo que o da preda\u00e7\u00e3o. Nos dois casos coloca-se em evid\u00eancia sobretudo o interesse do Todo, Natureza ou Sociedade, sem definir o que poderia ser este interesse.<\/p>\n<p>Mas, ao examinarmos de forma mais atenta, creio que h\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre as duas afirma\u00e7\u00f5es: o discurso liberal \u00e9 uma justificativa e se refere ao Bem Comum para legitimar a liberdade individual, que \u00e9 essencial. Aos olhos do humanismo, os humanos s\u00e3o considerados como indiv\u00edduos e seres livres, n\u00e3o o esque\u00e7amos. O discurso sobre a preda\u00e7\u00e3o, por outro lado, n\u00e3o \u00e9 uma justificativa (porque a Natureza n\u00e3o tem que se justificar) e visa, sobretudo, demonstrar que a individualidade dos animais \u00e9 uma ilus\u00e3o, que quando acreditamos que eles procuram um benef\u00edcio pessoal, isso acontece para o maior benef\u00edcio, que \u00e9 o funcionamento do Todo. Ao contr\u00e1rio, os n\u00e3o-humanos analisados dentro da ideologia naturalista, seriam apenas pe\u00e7as n\u00e3o individualizadas e naturalmente determinadas para contribuir \u00e0 harmonia do Todo.<\/p>\n<h2>O especismo, um colosso de argila?<\/h2>\n<p>No presente artigo, repeti temas que j\u00e1 tinham sido abordados antes. Entretanto, h\u00e1 ainda muito a ser dito. Isso me parece necess\u00e1rio, por causa da import\u00e2ncia do tabu que deve ser quebrado. \u00c9 necess\u00e1rio que nos seja mostrado a que ponto a vis\u00e3o que temos \u00abespontaneamente\u00bb sobre a preda\u00e7\u00e3o \u00e9, na verdade, uma percep\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, e em que vis\u00e3o do mundo ela se integra e se impregna de sentido.<\/p>\n<p>O \u00abdiscurso sobre a Natureza\u00bb diz livremente sobre seres infinitamente desprezados o que ningu\u00e9m ousaria expressar abertamente e em voz alta sobre os seres humanos \u2013 mas o que cada um pensa (com for\u00e7a) e em sil\u00eancio: a for\u00e7a da hierarquia, o respeito pelo mais poderoso, o desprezo pelos fracos e perdedores, a rela\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o m\u00edstica \u00e0 \u00abordem das coisas\u00bb desigual... O modo como o humanismo representa \u00aba Natureza\u00bb tamb\u00e9m desnuda a ideologia c\u00f4moda mas bem real de uma sociedade fundada sobre domina\u00e7\u00f5es (das quais recusa, com artif\u00edcios, admitir a exist\u00eancia).<\/p>\n<p>O especismo, ou naturalismo humanista, \u00e9 uma \u00abideologia total\u00bb, no sentido em que coloniza praticamente todos os aspectos de nossa vis\u00e3o de mundo: toda nossa civiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 constru\u00edda sobre o pedestal de nossa domina\u00e7\u00e3o sobre os outros animais.<\/p>\n<p>Hoje em dia este pedestal est\u00e1 rachando e isso mostra que o colosso \u00e9 feito de argila; somos cada vez mais numerosos a afirmar, como Th\u00e9odore Monod, no dia 9 de abril de 1997, no programa <i>La Marche du Si\u00e8cle<\/i>:<\/p>\n<blockquote><p>Sonho com o fim das guerras, e n\u00e3o apenas daquelas que os humanos travam entre si; sonho com o fim das guerras que os homens engajam contra os outros animais, e sonho tamb\u00e9m com o fim das guerras que os animais travam entre si.<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. meu artigo \u00abL\u2019Animal, l\u2019Homme, la Nature, la Soci\u00e9t\u00e9... et moi dans tout \u00e7a?\u00bb no folheto <i>Nous ne mangeons pas de viande pour ne pas tuer d\u2019animaux<\/i>, 1992. Cf. igualmente de minha autoria <a class=\"spip_in broken_link\" href=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/ecrire\/?exec=article&amp;id_article=79\">\u00abDe l\u2019appropriation... \u00e0 l\u2019id\u00e9e de Nature\u00bb<\/a>, <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> n\u00b011, d\u00e9cembre 1994.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. Y. Bonnardel, <a class=\"spip_in broken_link\" href=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/ecrire\/?exec=article&amp;id_article=103\">\u00abL\u2019Apartheid des esp\u00e8ces\u00bb<\/a>, <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> n\u00b014, d\u00e9cembre 1996.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. D. Olivier, <a class=\"spip_in broken_link\" href=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/ecrire\/?exec=article&amp;id_article=107\">\u00abLa Nature ne choisit pas\u00bb<\/a>, <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> n\u00b014, d\u00e9cembre 1996.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span>A. Lindbergh, <i>Lorsque les singes hurleurs se tairont<\/i>, Presses de la Cit\u00e9, 1976, p. 152.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb5\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 5\" href=\"#nh5\" rev=\"footnote\">5<\/a>]\u00a0<\/span>Creio que os adeptos dos regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o preferiam a repress\u00e3o unicamente para fazerem reinar <i>realmente<\/i> a ordem (social), mas tamb\u00e9m para satisfazerem sua busca m\u00edstica da Ordem: para melhor faz\u00ea-la reinar <i>simbolicamente<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb6\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 6\" href=\"#nh6\" rev=\"footnote\">6<\/a>]\u00a0<\/span>David Olivier, <a class=\"spip_in broken_link\" href=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/ecrire\/?exec=article&amp;id_article=66\">\u00abLe go\u00fbt et le meurtre\u00bb<\/a>, <i>CA<\/i> n\u00b09, janvier 1994.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb7\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 7\" href=\"#nh7\" rev=\"footnote\">7<\/a>]\u00a0<\/span>ARAP (Amis des Renards et Autres Puants) \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o especializada de prote\u00e7\u00e3o dos pequenos predadores, que simula a sociedade unindo os humanos aos \u00aboutros\u00bb predadores. Os ca\u00e7adores utilizam o mesmo esquema, mas para defender o direito de ca\u00e7arem. Os dois grupos fizeram campanhas de adesivos muito parecidas: uma raposa diz: \u00abN\u00e3o atire, eu sou um ca\u00e7ador como voc\u00ea\u00bb (ARAP), uma outra raposa afirma \u00abA ca\u00e7a \u00e9 algo natural!\u00bb (Chasse-Nature-Environnement). Ca\u00e7adores e ecologistas comungam da mesma cren\u00e7a da exist\u00eancia de uma ordem natural, da qual a preda\u00e7\u00e3o seria a pe\u00e7a principal.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb8\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 8\" href=\"#nh8\" rev=\"footnote\">8<\/a>]\u00a0<\/span>Jean-Marie Bourre (Diretor de pesquisa do INSERM e especialista em neuro-biologia e em propaganda para a carne), <i>De l\u2019animal \u00e0 l\u2019assiette<\/i>, \u00e9d. Odile Jacob, avril 1993, p. 233. Como nesta cita\u00e7\u00e3o, suas frases n\u00e3o significam muita coisa por si pr\u00f3prias, e seus coment\u00e1rios valem o quanto pesam em termos de besteiras especistas.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb9\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 9\" href=\"#nh9\" rev=\"footnote\">9<\/a>]\u00a0<\/span>Friedrich Engels, \u00abO papel do trabalho na transforma\u00e7\u00e3o do macaco em homem\u00bb (1876), in <i>Dialectique de la nature<\/i> citado em \u00abCarnivorisme, hygi\u00e9nisme et \u00eatre humain\u00bb (pequeno texto m\u00edstico naturalista traduzido em franc\u00eas por F. Bochet) de Flaviano Pizzi, in <i>Emergenza<\/i> n\u00b01, avril-ao\u00fbt 1980.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb10\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 10\" href=\"#nh10\" rev=\"footnote\">10<\/a>]\u00a0<\/span>J. M. Bourre, <i>op. cit.<\/i>, pp. 240-241; sua primeira frase \u00e9 a repeti\u00e7\u00e3o id\u00eantica de uma frase de Chapouthier (membro da Liga Francesa pelos Direitos dos Animais, promotor da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Animal) em <i>Au bon vouloir de l\u2019homme, l\u2019animal<\/i>, Deno\u00ebl, 1990, p. 153. Bourre em seguida explicita de forma desajeitada o que Chapouthier tinha preferido deixar impl\u00edcito...<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb11\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 11\" href=\"#nh11\" rev=\"footnote\">11<\/a>]\u00a0<\/span>J. I. Rodale, <i>System for mental power and natural health<\/i>, USA, 1967, citado em \u00abCarnivorisme...\u00bb, <i>op. cit.<\/i> Rodale ele tamb\u00e9m sustentava a tese que os carn\u00edvoros s\u00e3o mais inteligentes... Ora, para o humanismo, a intelig\u00eancia \u00e9 signo de superioridade ontol\u00f3gica.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb12\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 12\" href=\"#nh12\" rev=\"footnote\">12<\/a>]\u00a0<\/span>Alexis Carrel, <i>L\u2019Homme, cet inconnu<\/i>, \u00e9d. Plon, 1935; citado por Coeurde Richard, \u00abVoyage en Lep\u00e9nie\u00bb, revue <i>Silence<\/i>, n. 158, octobre 1992.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb13\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 13\" href=\"#nh13\" rev=\"footnote\">13<\/a>]\u00a0<\/span>\u00abN\u00f3s n\u00e3o comemos antiespecistas para n\u00e3o matar animais\u00bb, <i>R\u00e9flex<\/i> n\u00b040, oct. 1993.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb14\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 14\" href=\"#nh14\" rev=\"footnote\">14<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. mon <a class=\"spip_in broken_link\" href=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/ecrire\/?exec=article&amp;id_article=97\">\u00abLa consommation de viande en France: contradictions actuelles\u00bb<\/a>, <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> n.13, d\u00e9cembre 1995.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb15\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 15\" href=\"#nh15\" rev=\"footnote\">15<\/a>]\u00a0<\/span>Peter Farb e Georges Armelagos, <i>Anthropologie des pratiques alimentaires<\/i>, Deno\u00ebl, 1985, p. 235. O narrador encontra aqui espontaneamente refer\u00eancias impl\u00edcitas \u00e0 preda\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um vocabul\u00e1rio geralmente usado para os n\u00e3o-humanos \u00abmacho dominante\u00bb \u00e9 a biologiza\u00e7\u00e3o\/etologiza\u00e7\u00e3o do \u00abchefe de fam\u00edlia\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb16\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 16\" href=\"#nh16\" rev=\"footnote\">16<\/a>]\u00a0<\/span>Alain Testart, \u00abEssai sur les fondements de la division sexuelle du travail chez les chasseurs cueilleurs\u00bb, <i>Cahiers de l\u2019Homme<\/i>, \u00e9d. de l\u2019EHESS, Paris, 1986, p. 89.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb17\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 17\" href=\"#nh17\" rev=\"footnote\">17<\/a>]\u00a0<\/span>A tese da origem do poder masculino a partir do controle do alimento de origem animal foi exposta por Friedl Ernestine, \u00abSociety and Sex Roles\u00bb (\u00abSociedade e pap\u00e9is sexuais\u00bb), em <i>Human Nature<\/i>, vol. 1, n\u00b04, 1978; citado por Farb et Armelagos, op. cit.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb18\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 18\" href=\"#nh18\" rev=\"footnote\">18<\/a>]\u00a0<\/span>Lembremo-nos, por exemplo, do sentimento de estranheza que sentimos quando tomamos conhecimento que s\u00e3o as leoas que ca\u00e7am e n\u00e3o os le\u00f5es. Mas tudo entrou na ordem (natural) de nossos pressupostos sexistas quando ficamos sabendo que os le\u00f5es comem antes. As f\u00eameas devem esperar, juntamente com os filhotes, at\u00e9 que o macho esteja satisfeito. Ainda que n\u00e3o cacem, continuam sendo os dominantes.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb19\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 19\" href=\"#nh19\" rev=\"footnote\">19<\/a>]\u00a0<\/span>Citado por Keith Thomas, <i>Dans le jardin de la nature, La Mutation des sensibilit\u00e9s en Angleterre \u00e0 l\u2019\u00e9poque moderne<\/i> (1500-1800), \u00e9d. Gallimard, 1985.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os humanos sentem respeito, admira\u00e7\u00e3o e uma grande fascina\u00e7\u00e3o pelos predadores. 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