{"id":1463,"date":"1996-12-09T19:18:11","date_gmt":"1996-12-09T18:18:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1463&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T19:20:52","modified_gmt":"2016-05-01T17:20:52","slug":"a-natureza-nao-escolhearticle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/a-natureza-nao-escolhearticle\/","title":{"rendered":"A natureza n\u00e3o escolhe"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<h3>\u00abDei a este princ\u00edpio o nome de sele\u00e7\u00e3o natural<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Charles Darwin, A Origem das esp\u00e9cies], p. 107 (A Descoberta, 1980, trad. E.\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>\u00bb<\/h3>\n<p>A ades\u00e3o \u00e0 palavra do Mestre pode ser \u00e0s vezes uma trai\u00e7\u00e3o de seu esp\u00edrito, do sentido da sua obra, uma vez que o dito Mestre, procedendo em termos de inova\u00e7\u00e3o e defrontando-se com mentalidades inicialmente hostis, escolhe com freq\u00fc\u00eancia suas palavras pelo menos tanto por suas qualidades pedag\u00f3gicas, conciliat\u00f3rias, de transi\u00e7\u00e3o, quanto por sua clareza. Isto \u00e9 muito particularmente verdadeiro a respeito de Darwin, em quem se encontra, no mais alto grau, uma mistura de aud\u00e1cia e de prud\u00eancia \u2013 como o ilustra, por exemplo, sua constante retic\u00eancia no sentido de declarar publicamente a sua irreligi\u00e3o, no entanto consciente e assegurada.<\/p>\n<p>Se for poss\u00edvel extrair um sentido maior, central, da obra de Darwin, \u00e9 o seguinte: para explicar a diversidade da vida, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio apelar nem \u00e0s inten\u00e7\u00f5es de um criador \u2013 a uma cria\u00e7\u00e3o divina \u2013 nem \u00e0s inten\u00e7\u00f5es de uma for\u00e7a quase-divina, a Natureza, nem a um finalismo inerente \u00e0s pr\u00f3prias formas vivas, a uma \u00abentel\u00e9quia\u00bb, segundo a concep\u00e7\u00e3o dos evolucionistas lamarckianos. \u00c9 esta a raz\u00e3o pela qual o darwinismo, que, sem implicar necessariamente a inexist\u00eancia de Deus, minava uma grande parte das bases positivas da cren\u00e7a, foi combatido encarni\u00e7adamente e continua a ser combatido, em larga medida, pelo campo religioso.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Darwin, portanto, pensamos poder explicar o aparecimento e a evolu\u00e7\u00e3o da vida sem finalismo, sem sentido preestabelecido \u2013 o que n\u00e3o quer dizer que o sentido n\u00e3o existe no mundo. O sentido existe em <i>n\u00f3s<\/i> \u2013 em n\u00f3s, os seres sens\u00edveis, que damos um sentido \u00e0s coisas atrav\u00e9s de nossos desejos e nossos prazeres e que aparecemos como produtos de mecanismos evolutivos que, esses sim, n\u00e3o t\u00eam sentido. <i>N\u00f3s<\/i> queremos, mas nada quis que quis\u00e9ssemos. Queremos livremente, sem dever obedecer a um criador que nos ditaria uma natureza, um dever-ser, um dever-querer.<\/p>\n<p>N\u00f3s queremos, mas nada quis que quis\u00e9ssemos. Isto deveria estar claro, desde Darwin; ou, pelo menos, deveria estar claro que \u00e9 poss\u00edvel pensar assim, j\u00e1 que \u00e9 a\u00ed que reside o sentido da obra de Darwin, obra \u00e0 qual a grande maioria dos cientistas se refere. Entretanto, a partir do momento em que se interroga esses cientistas sobre o darwinismo, depara-se com palavras cujo efeito global \u00e9 de anular o darwinismo; palavras que nos reconduzem diretamente ao finalismo, a antes de Darwin, \u00e0 \u00e9poca em que Darwin estava lutando por essas id\u00e9ias quase sozinho. Particularmente, ao se perguntar aos bi\u00f3logos de hoje como n\u00f3s, os animais, aparecemos, eles respondem, retomando as palavras do pr\u00f3prio Darwin, que a natureza agiu por <i>sele\u00e7\u00e3o natural<\/i>.<\/p>\n<p>Deveria ser poss\u00edvel <i>falar<\/i> em biologia sem finalismo. Mas a persist\u00eancia, a onipresen\u00e7a de uma terminologia finalista permanece ainda hoje um problema maior, apesar do darwinismo alardeado de quase todos os bi\u00f3logos. J\u00e1 tratei do essencialismo inerente ao uso da palavra \u00abesp\u00e9cie<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"\u00abAs esp\u00e9cies tamb\u00e9m n\u00e3o existem\u00bb, Cahiers antisp\u00e9cistes n\u00b011 (dez.\u00a0(...)\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span>\u00bb e me estenderei longamente aqui sobre o finalismo desta express\u00e3o central da \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb; para fazer perceber a onipresen\u00e7a sufocante do finalismo, darei, entretanto, primeiramente alguns outros exemplos.<\/p>\n<p>N\u00f3s mal nos damos conta do finalismo por detr\u00e1s das nossas palavras. Dizemos e ouvimos, sem pestanejar, frases como \u00abas TRELETTES (*) se acasalam em fevereiro, para que seus filhotes nas\u00e7am em maio e gozem de dias bonitos\u00bb. Mas as TRELETTES t\u00eam por acaso a mais remota id\u00e9ia da dura\u00e7\u00e3o da sua gesta\u00e7\u00e3o? O pensamento comum, que quando isso lhe conv\u00e9m, nega todo o sentimento e toda a intelig\u00eancia aos n\u00e3o-humanos, lhes concede, \u00e0s vezes, pelo contr\u00e1rio, capacidades de c\u00e1lculo e de predi\u00e7\u00e3o, assim como inten\u00e7\u00f5es totalmente inveross\u00edmeis. \u00c9 que, de fato, esse pensamento comum, especista, nega a\u00ed ainda a realidade individual dos n\u00e3o-humanos; ele diz \u00abas TRELETTES\u00bb, mas de fato pensa \u00aba esp\u00e9cie TRELETTE\u00bb, \u00abo finalismo natural em sua tradu\u00e7\u00e3o TRELETTE\u00bb. As TRELETTES individuais n\u00e3o existem para ele sen\u00e3o como representantes<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"Para mim tamb\u00e9m, ali\u00e1s: pois eu inventei as \u00abTRELETTES\u00bb. Eu teria podido tomar\u00a0(...)\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>O finalismo tamb\u00e9m est\u00e1 sujeito \u00e0 linguagem funcionalista. Dir-se-\u00e1, por exemplo, \u00abos espinhos permitem \u00e0 planta defender-se contra os p\u00e1ssaros\u00bb. Mas o verbo \u00abpermitir\u00bb implica uma vontade por parte da planta: ela gostaria de se defender; a realidade lhe op\u00f5e obst\u00e1culos; os espinhos lhe <i>permitem<\/i> levant\u00e1-los, eles s\u00e3o para ela um meio para um fim. A planta quer <i>se defender<\/i>, defender a sua vida; a sua vida \u00e9 um valor para ela.<\/p>\n<p>Sabe-se, desde Darwin, ou se deveria saber, que as coisas n\u00e3o se passam desta forma; ou, pelo menos, que h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o mais simples, que permite poupar a atribui\u00e7\u00e3o, a priori pouco veross\u00edmil, de uma vontade, de uma consci\u00eancia, \u00e0 planta. Pode-se supor que, em certo momento, certas plantas tiveram, por alguma raz\u00e3o, alguma coisa que se assemelhava a espinhos; como da\u00ed resultava que os p\u00e1ssaros as comiam menos, elas produziram mais sementes, e pouco a pouco se espalharam, enquanto outras, que n\u00e3o tinham espinhos, produziam menos sementes e n\u00e3o deixaram mais descendentes. Dentre as primeiras, as que tinham os espinhos maiores ou mais duros, elas pr\u00f3prias foram menos comidas pelos p\u00e1ssaros, e, portanto, pelo mesmo mecanismo, as plantas de espinhos grandes e duros se generalizaram.<\/p>\n<p>Tal \u00e9 o mecanismo descrito por Darwin; para exp\u00f4-lo, tentei eliminar rigorosamente toda e qualquer express\u00e3o finalista. Se eu n\u00e3o tivesse feito este esfor\u00e7o, eu teria dito, por exemplo, como todo o mundo: \u00ab...como isso <i>protegia<\/i> essas plantas dos <i>ataques<\/i> dos p\u00e1ssaros, elas tiveram mais <i>sucesso<\/i> reprodutivo e levaram <i>a melhor<\/i> sobre as suas <i>concorrentes<\/i>\u00bb; eu teria renegado pelo menos cinco vezes o car\u00e1ter mec\u00e2nico que eu tinha justamente come\u00e7ado a p\u00f4r em evid\u00eancia!<\/p>\n<p>Trata-se de uma fatalidade da l\u00edngua? Acho que \u00e9 sobretudo o sinal da nossa dificuldade, da nossa retic\u00eancia, no sentido de integrar <i>verdadeiramente<\/i> o darwinismo, mais de um s\u00e9culo ap\u00f3s <i>A Origem das esp\u00e9cies<\/i>, e isto apesar da ades\u00e3o alardeada da maioria dos bi\u00f3logos... \u00e0 <i>palavra<\/i> do Mestre.<\/p>\n<h3>O finalismo (mal)disfar\u00e7ado da express\u00e3o \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb<\/h3>\n<p>Todo o mundo se lembra de que Darwin usou a express\u00e3o \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb, mas poucos se recordam de que ele s\u00f3 a justificou por analogia: \u00abDei a este princ\u00edpio (...) o nome de sele\u00e7\u00e3o natural, para indicar as rela\u00e7\u00f5es dessa sele\u00e7\u00e3o com a que o homem pode realizar<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"Ibid.\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>\u00bb. Ela est\u00e1 marcada pelo seu curso intelectual, pois \u00e9 em grande parte atrav\u00e9s do estudo da sele\u00e7\u00e3o praticada pelos criadores em rela\u00e7\u00e3o aos animais dom\u00e9sticos que ele chegou \u00e0 sua teoria. Ela est\u00e1, portanto, marcada por um per\u00edodo em que Darwin ainda n\u00e3o era darwiniano. Ali\u00e1s, ela n\u00e3o satisfez tanto assim nem o pr\u00f3prio Darwin, que acrescenta imediatamente que uma outra express\u00e3o teria sido mais exata. Mas ela satisfez todo o mundo <i>ap\u00f3s<\/i> Darwin. Preferiu-se se dar por satisfeito com ela.<\/p>\n<p>Analisemos, a partir de um exemplo, o que \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>1. Eu debulhei ervilhas e acumulei-as numa saladeira. Fino gourmet, eu gostaria, no entanto, de rejeitar as mais farinhentas.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>2. Eu sei que as ervilhas mais farinhentas s\u00e3o tamb\u00e9m, geralmente, as mais gra\u00fadas. Eu as escolho, portanto, e s\u00f3 conservo as menores. Posso escolh\u00ea-las manualmente ou com uma peneira, pouco importa; o essencial \u00e9 que tenho um <i>objetivo<\/i> de sele\u00e7\u00e3o \u2013 o car\u00e1ter n\u00e3o-farinhento \u2013 e um crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o, o tamanho. Eu seleciono as ervilhas em fun\u00e7\u00e3o do crit\u00e9rio e tendo em vista o objetivo.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>3. Eu obtenho, no final das contas, um bom prato de ervilhas tenras, mesmo que algumas dentre elas, talvez, apesar do seu pequeno tamanho, acabem se revelando farinhentas.<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 coincid\u00eancia entre o objetivo de sele\u00e7\u00e3o e o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o. O objetivo de sele\u00e7\u00e3o (o paladar) \u00e9 <i>meu<\/i> objetivo, resulta dos desejos e interesses de um ser sens\u00edvel. J\u00e1 o crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o (o tamanho) \u00e9 diretamente material, podendo ser posto em pr\u00e1tica de forma inteiramente mec\u00e2nica (peneira). Eu quis que ele fosse a tradu\u00e7\u00e3o material mais fiel poss\u00edvel do objetivo de sele\u00e7\u00e3o (\u00abeu sei que as ervilhas mais farinhentas s\u00e3o tamb\u00e9m, geralmente, as mais gra\u00fadas\u00bb); mas \u00e9 bem poss\u00edvel que permane\u00e7a um descompasso. A sele\u00e7\u00e3o se pode enganar, ou mais exatamente, <i>eu<\/i> posso me enganar, ao escolher o meu crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vejamos um outro exemplo, em que n\u00e3o h\u00e1 <i>verdadeira<\/i> sele\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Uma erup\u00e7\u00e3o vulc\u00e2nica de tipo explosivo projeta imensos blocos nos arredores da cratera. Uma vez acalmados os poderes do inferno, uma equipe de vulcanologistas se dirige ao local e observa certa grada\u00e7\u00e3o no tamanho dos blocos; quanto maior o distanciamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 goela do vulc\u00e3o, tanto menos gra\u00fados eles s\u00e3o. Talvez isso lhes pare\u00e7a bem natural, talvez eles\/elas arrisquem uma explica\u00e7\u00e3o f\u00edsica, baseada, por exemplo, na rela\u00e7\u00e3o entre a for\u00e7a exercida sobre um bloco, proporcional \u00e0 sua se\u00e7\u00e3o, e sua massa, proporcional a seu volume. No caminho de volta, no entanto, a expedi\u00e7\u00e3o encontra um bloco particularmente gra\u00fado longe da cratera. Os cientistas anotam este fato em seus livros de apontamentos, e se perguntam como far\u00e3o para ajust\u00e1-lo \u00e0 sua explica\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ningu\u00e9m, contudo, pensa que o deus Vulc\u00e3o cometeu um erro. Nem mesmo ocorreu ao esp\u00edrito dos vulcanologistas a id\u00e9ia de que algu\u00e9m tenha tentado escolher os blocos. Alguma coisa se passou, que teve por resultado certa reparti\u00e7\u00e3o dos blocos; sendo o fen\u00f4meno complexo, a reparti\u00e7\u00e3o resultante tamb\u00e9m o \u00e9, mesmo que, num primeiro momento, se possa dizer, para simplificar, que os blocos mais gra\u00fados foram lan\u00e7ados menos longe. O resultado n\u00e3o pode ser comparado com algum objetivo. O processo n\u00e3o podia se enganar, pois enganar-se, \u00e9 sempre em rela\u00e7\u00e3o a alguma coisa que se <i>teria<\/i> querido. O processo n\u00e3o \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o; ele \u00e9 o que \u00e9. Ele n\u00e3o pode iludir as for\u00e7as que o puseram em andamento; ele pode, no m\u00e1ximo, iludir os vulcanologistas.  Assim, para que um processo seja uma sele\u00e7\u00e3o, n\u00e3o basta que ele seja um processo que produz certo resultado; \u00e9 preciso que haja uma finalidade, um objetivo de sele\u00e7\u00e3o, do qual o processo n\u00e3o passa da realiza\u00e7\u00e3o. Ora, eu o disse, a contribui\u00e7\u00e3o central da obra de Darwin reside na explica\u00e7\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o por um processo mec\u00e2nico, destitu\u00eddo de finalidade; \u00e9, portanto, impr\u00f3prio, at\u00e9 mesmo contradit\u00f3rio, conservar a express\u00e3o \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb.<\/p>\n<p>Eu disse que Darwin tinha escolhido esta express\u00e3o por analogia. \u00c9 que o processo que ela designa assemelha-se muito, n\u00e3o a uma sele\u00e7\u00e3o em geral, mas \u00e0 dos criadores:<\/p>\n<blockquote><p>Um criador quer vacas que d\u00eaem muito leite. Ele sabe que, de modo geral, as crias tendem a parecer-se com os seus pais. Ele conservar\u00e1, portanto, as crias f\u00eameas nascidas das vacas mais produtivas; as outras, ele as enviar\u00e1 ao matadouro<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh5\" class=\"spip_note\" title=\"Eu simplifico, certamente, ao n\u00e3o fazer intervir, por exemplo, tamb\u00e9m o pai;\u00a0(...)\" href=\"#nb5\" rel=\"footnote\">5<\/a>]<\/span>. Com efeito, dentre as crias f\u00eameas que ele conservou, muitas lhe dar\u00e3o satisfa\u00e7\u00e3o, algumas at\u00e9 mesmo mais do que a sua m\u00e3e; algumas, em compensa\u00e7\u00e3o, decepcion\u00e1-lo-\u00e3o. Dessas \u00faltimas, ele eliminar\u00e1 as crias.<\/p><\/blockquote>\n<p>O criador tem, assim, um objetivo de sele\u00e7\u00e3o (a quantidade de leite que as crias f\u00eameas dar\u00e3o), donde ele extrai um crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o (a quantidade de leite produzida pela m\u00e3e). Trata-se, portanto, de uma verdadeira sele\u00e7\u00e3o, de um processo conclu\u00eddo. Mas qual \u00e9 a analogia entre esse processo e aquele que ele chamou de \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb?<\/p>\n<p>Para v\u00ea-lo, \u00e9 preciso voltar-se para o aspecto positivo da teoria darwiniana, para os seus postulados falsific\u00e1veis<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh6\" class=\"spip_note\" title=\"Fasific\u00e1vel = que pode ser posto \u00e0 prova dos fatos, que pode a priori ver-se\u00a0(...)\" href=\"#nb6\" rel=\"footnote\">6<\/a>]<\/span>. Vou tentar enunci\u00e1-los aqui:<\/p>\n<blockquote><p>G1. Os caracteres dos seres vivos geralmente se transmitem aos seus descendentes<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh7\" class=\"spip_note\" title=\"A distin\u00e7\u00e3o entre caracteres adquiridos e caracteres herdados n\u00e3o interfere\u00a0(...)\" href=\"#nb7\" rel=\"footnote\">7<\/a>]<\/span>; existe, entretanto, certa parcela de variabilidade, os descendentes jamais se parecem exatamente com os seus pais. Pelo menos uma parte dessa variabilidade \u00e9, ela mesma, transmiss\u00edvel, isto \u00e9, num indiv\u00edduo, um car\u00e1ter, mesmo novo, pode ser transmitido aos seus descendentes.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>G2. Pelo menos uma parte dessa variabilidade transmiss\u00edvel \u00e9 aleat\u00f3ria, ou seja, a sua ocorr\u00eancia independe de toda e qualquer finalidade.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>G3. Existem casos em que a variabilidade transmiss\u00edvel aleat\u00f3ria influi, em determinado ambiente, no n\u00famero m\u00e9dio de descendentes do indiv\u00edduo (mais exatamente: sobre a esperan\u00e7a matem\u00e1tica desse n\u00famero). Se o ambiente permanecer o mesmo, esses caracteres tender\u00e3o a ver a sua freq\u00fc\u00eancia na popula\u00e7\u00e3o aumentar ou diminuir, na medida em que eles aumentem ou reduzam esse n\u00famero m\u00e9dio de descendentes.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>G4. Este processo \u00e9 suficiente para explicar a evolu\u00e7\u00e3o e a transforma\u00e7\u00e3o das formas vivas no curso da hist\u00f3ria da terra.<\/p><\/blockquote>\n<p>A semelhan\u00e7a entre a sele\u00e7\u00e3o do criador e a \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb \u00e9 grande:<\/p>\n<blockquote><p>E1. As crias f\u00eameas das vacas muito produtivas s\u00e3o elas pr\u00f3prias geralmente muito produtivas; o criador sabe, entretanto, que n\u00e3o esta n\u00e3o \u00e9 uma regra absolutamente fi\u00e1vel: existe uma parcela de variabilidade. Al\u00e9m disso, \u00e0s vezes esta \u00e9 transmiss\u00edvel, raz\u00e3o pela qual o criador considerar\u00e1, antes de mais nada, as qualidades da m\u00e3e, mais do que as da av\u00f3 (isto \u00e9, levar\u00e1 em conta caracteres rec\u00e9m-aparecidos), para decidir se conservar\u00e1 ou mandar\u00e1 matar as crias f\u00eameas.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>E2. O criador sabe de que m\u00e3es ele optou por conservar as crias f\u00eameas, mas ele tamb\u00e9m sabe que ele n\u00e3o controla os caracteres exatos dessas crias f\u00eameas. Talvez ele tenha sorte, talvez n\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>E3. O criador proceder\u00e1 sistematicamente de maneira que as vacas mais produtivas, estando a\u00ed inclu\u00eddas aquelas em que essa produtividade \u00e9 um car\u00e1ter novo (n\u00e3o-herdado da sua m\u00e3e), tenham mais descendentes (n\u00e3o-destinadas rapidamente ao matadouro). Como os criadores agem assim h\u00e1 s\u00e9culos, as vacas tornam-se cada vez mais produtivas.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>E4. Parece plaus\u00edvel que este processo possa explicar a n\u00edtida diferen\u00e7a que se observa entre os animais dom\u00e9sticos e as formas selvagens mais pr\u00f3ximas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Assim, o paralelo se estende aos quatro pontos que pus em evid\u00eancia. Compreende-se, nestas condi\u00e7\u00f5es, que Darwin tenha querido lembrar a pr\u00e1tica dos criadores no t\u00edtulo da sua teoria. De fato, a sele\u00e7\u00e3o dos criadores E1 a E4 aparece como um simples caso particular do processo geral G1 a G4, constituindo os objetivos do criador um caso particular de meio ambiente, no qual uma variabilidade transmiss\u00edvel aleat\u00f3ria influi no n\u00famero m\u00e9dio de descendentes do indiv\u00edduo (pontos G3 e E3). Simplesmente, o criador age com inten\u00e7\u00e3o, fazendo do processo uma verdadeira sele\u00e7\u00e3o. O erro de Darwin foi de retomar, para designar o caso geral, um termo que s\u00f3 se aplica ao caso particular.<\/p>\n<p>Isto foi bastante l\u00f3gico de sua parte, tanto mais que este \u00e9 um procedimento corrente na l\u00edngua. Em franc\u00eas se diz \u00ablimoger [=despedir] algu\u00e9m\u00bb desde que certos generais, eu creio, foram enviados, em reforma for\u00e7ada, para Limoges. Ent\u00e3o, sim, \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb \u00e9 uma boa f\u00f3rmula, sob a condi\u00e7\u00e3o de ser compreendida neste sentido.<\/p>\n<p>Infelizmente, isto s\u00f3 permaneceu uma f\u00f3rmula. Tudo se passa como se, hoje em dia, os\/as que falam de \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb acreditassem nisso tanto quanto se elas\/eles pensassem que todos os empregados despedidos se reencontram em Limoges. Eis uma descri\u00e7\u00e3o da \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb, tal como ela \u00e9 percebida, ainda e sempre:<\/p>\n<blockquote><p>A fim de promover certo n\u00famero de qualidades \u2013 for\u00e7a, rapidez, intelig\u00eancia, beleza, etc.\u00a0-, a natureza realiza um processo de sele\u00e7\u00e3o, gra\u00e7as ao qual ela elimina \u00abos fracos, os d\u00e9beis mentais, os disformes\u00bb, como diz A. Lindbergh<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh8\" class=\"spip_note\" title=\"Alika Lindbergh, citado no texto de Yves Bonnardel deste mesmo n\u00famero dos\u00a0(...)\" href=\"#nb8\" rel=\"footnote\">8<\/a>]<\/span>. Colocando, por exemplo, um instinto de competi\u00e7\u00e3o sexual nos cervos machos, ela leva estes \u00faltimos a se enfrentarem, obtendo assim que os mais fortes se reproduzam mais e suplantem os fracos, os d\u00e9beis mentais, etc.<\/p><\/blockquote>\n<p>Para ver a presen\u00e7a, em tal descri\u00e7\u00e3o, da disjun\u00e7\u00e3o crit\u00e9rio\/objetivo de sele\u00e7\u00e3o, basta imaginar que um cervo aprenda a \u00abtrapacear\u00bb; que lhe seja dado o meio, por exemplo, de untar a extremidade de suas galhadas com uma subst\u00e2ncia t\u00f3xica que neutralize os seus advers\u00e1rios ao primeiro contato. Esse cervo, por mais franzino e cambaleante que ele possa ser, vencer\u00e1 todos os combates e deixar\u00e1 um grande n\u00famero de descendentes igualmente \u00abdisformes\u00bb. Ele passar\u00e1 no <i>crit\u00e9rio<\/i> de sele\u00e7\u00e3o \u2013 a vit\u00f3ria nos combates\u00a0-, ainda que ele n\u00e3o satisfa\u00e7a o <i>objetivo<\/i> de sele\u00e7\u00e3o \u2013 a for\u00e7a. Ele ter\u00e1 <i>trapaceado<\/i>, dir-se-\u00e1, porque ele n\u00e3o ter\u00e1 obedecido \u00e0s regras da competi\u00e7\u00e3o que a Natureza tinha institu\u00eddo \u00abpara que ven\u00e7a o melhor\u00bb. \u00c9, portanto, que, no pensamento comum, o melhor n\u00e3o \u00e9, <i>por defini\u00e7\u00e3o<\/i>, aquele que vence; h\u00e1 um melhor a priori, correspondente ao objetivo de sele\u00e7\u00e3o, e um vencedor, correspondente ao crit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Dir-se-\u00e1 que o meu exemplo \u00e9 artificial; como \u00e9 que um cervo pode aprender a trapacear? \u00c9, no entanto, a \u00abtrapa\u00e7a\u00bb que explica, em boa parte, o desprezo que os bi\u00f3logos (e quase todo o mundo, de fato) exprimem, \u00e0s vezes abertamente, por uma grande quantidade de seres, aos quais eles aplicam o belo nome de \u00abparasitas<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh9\" class=\"spip_note\" title=\"Haveria a dizer sobre o emprego do termo \u00abparasita\u00bb, em oposi\u00e7\u00e3o a \u00abpredador\u00bb.\u00a0(...)\" href=\"#nb9\" rel=\"footnote\">9<\/a>]<\/span>\u00bb:<\/p>\n<blockquote><p>Um pre\u00e7o foi pago no curso da evolu\u00e7\u00e3o por esta proeza em perversidade. O estigma do parasita est\u00e1 sobre <i>Teleutomyrmex<\/i> [variedade de formigas pequenas, parasitas de outras formigas; vivem nos ninhos das outras formigas, pelas quais s\u00e3o alimentadas at\u00e9 se reproduzir]; o seu corpo \u00e9 fraco e degenerado<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh10\" class=\"spip_note\" title=\"B. H\u00f6lldobler e E.O. Wilson, Voyage chez les fourmis (Viagem ao reino das\u00a0(...)\" href=\"#nb10\" rel=\"footnote\">10<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Outro exemplo de \u00ablogro\u00bb: os pobres, os sem-teto, as desempregadas humanas, os \u00abfracos, os d\u00e9beis mentais, os disformes\u00bb, que \u00abnenhuma sele\u00e7\u00e3o natural elimina\u00bb. N\u00f3s os \u00abconservamos ciumentamente em vida\u00bb, \u00ab\u00e9 assim for\u00e7osamente em civiliza\u00e7\u00f5es como a nossa\u00bb; mas A. Lindbergh, que fala assim<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh11\" class=\"spip_note\" title=\"Mesma fonte.\" href=\"#nb11\" rel=\"footnote\">11<\/a>]<\/span>, \u00e9, por outro lado, \u00abum adepto incondicional da sele\u00e7\u00e3o natural, pois a Natureza n\u00e3o pode se enganar\u00bb. N\u00e3o pode se enganar... Bela certeza, mas que mostra bem que para A. Lindbergh, como de resto para todo o mundo<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh12\" class=\"spip_note\" title=\"A. Lindbergh \u00e9 de extrema direita, isto \u00e9, ela diz bem alto aquilo que,\u00a0(...)\" href=\"#nb12\" rel=\"footnote\">12<\/a>]<\/span>, \u00e9 ao menos conceptualmente imagin\u00e1vel que a Natureza se engane. Ela n\u00e3o diz \u00abn\u00e3o tem sentido dizer que a Natureza se engana\u00bb; ela diz que a Natureza \u00e9 bastante s\u00e1bia para que o seu crit\u00e9rio de sele\u00e7\u00e3o corresponda perfeitamente ao seu objetivo de sele\u00e7\u00e3o. Salvo quando interv\u00e9m a \u00abciviliza\u00e7\u00e3o\u00bb, o Homem, o art\u00edfice: \u00e9 isso que permite o logro dos fracos, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Seria necess\u00e1rio elaborar um hist\u00f3rico do darwinismo at\u00e9 os nossos dias, um hist\u00f3rico da recupera\u00e7\u00e3o, imediata, do darwinismo pela direita, atrav\u00e9s do \u00abdarwinismo social\u00bb. A esquerda se tem mobilizado muito contra isso, sobre o tema de \u00abn\u00e3o \u00e9 igual, os humanos s\u00e3o humanos, n\u00e3o s\u00e3o animais\u00bb. Ela teria feito melhor, dizendo, simplesmente, \u00abo darwinismo social n\u00e3o \u00e9 darwinismo. Isso n\u00e3o tem nada a ver\u00bb. Ela teria podido, para isso, come\u00e7ar mostrando que a \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb n\u00e3o \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o. Mas ela n\u00e3o o fez, ela perdeu uma boa ocasi\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao darwinismo, porque ela tamb\u00e9m estava \u00abatolada\u00bb no finalismo, no naturalismo, que ela n\u00e3o queria abandonar, porque ela era especista<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh13\" class=\"spip_note\" title=\"Ela o \u00e9 ainda, maci\u00e7amente... ainda que alguns progressos comecem a se fazer\u00a0(...)\" href=\"#nb13\" rel=\"footnote\">13<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Charles Darwin, <i>A Origem das esp\u00e9cies], p. 107 (A Descoberta, 1980, trad. E. Barbier; a primeira edi\u00e7\u00e3o de <i>The Origin of Species<\/i> data de 1859).<\/i><\/p>\n<p><i> <\/i><\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>\u00abAs esp\u00e9cies tamb\u00e9m n\u00e3o existem\u00bb, <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> n\u00b011 (dez. 1994).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>Para mim tamb\u00e9m, ali\u00e1s: pois eu inventei as \u00abTRELETTES\u00bb. Eu teria podido tomar qualquer animal.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span><i>Ibid.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb5\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 5\" href=\"#nh5\" rev=\"footnote\">5<\/a>]\u00a0<\/span>Eu simplifico, certamente, ao n\u00e3o fazer intervir, por exemplo, tamb\u00e9m o pai; mas isso n\u00e3o altera nada no fundo do processo. Procederei da mesma forma em outros exemplos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb6\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 6\" href=\"#nh6\" rev=\"footnote\">6<\/a>]\u00a0<\/span>Fasific\u00e1vel = que pode ser posto \u00e0 prova dos fatos, que pode a priori ver-se contradito (falsificado) pelos fatos (crit\u00e9rio de cientificidade de Popper). Foi dito que o darwinismo n\u00e3o era falsific\u00e1vel; mas \u00e9 porque se polarizou sobre certas formula\u00e7\u00f5es criptofinalistas do darwinismo!<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb7\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 7\" href=\"#nh7\" rev=\"footnote\">7<\/a>]\u00a0<\/span>A distin\u00e7\u00e3o entre caracteres adquiridos e caracteres herdados n\u00e3o interfere necessariamente aqui; esta quest\u00e3o n\u00e3o estava, ali\u00e1s, claramente resolvida na \u00e9poca de Darwin.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb8\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 8\" href=\"#nh8\" rev=\"footnote\">8<\/a>]\u00a0<\/span>Alika Lindbergh, citado no texto de Yves Bonnardel deste mesmo n\u00famero dos <i>Cahiers<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb9\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 9\" href=\"#nh9\" rev=\"footnote\">9<\/a>]\u00a0<\/span>Haveria a dizer sobre o emprego do termo \u00abparasita\u00bb, em oposi\u00e7\u00e3o a \u00abpredador\u00bb. O predador \u00e9 um nobre; o le\u00e3o \u00e9 o rei da selva. No que o parasita \u00e9 menos nobre do que o predador? \u00c9 que ele engana. Ele \u00e9 menor do que a sua presa. Em lugar de enfrent\u00e1-la em combate singular, lealmente (\u00abcomo um homem\u00bb, estou tentado a escrever!), como o lobo face ao coelho (!), ele a ataca dissimuladamente, por tr\u00e1s, aninhando-se em seus rec\u00f4nditos para sugar-lhe o sangue. Geralmente ele n\u00e3o mata a sua presa, ele seria bem incapaz disso, mesquinho e degenerado como \u00e9; ou ent\u00e3o, se ele a mata, \u00e9 submergindo-a sob a grande quantidade.<\/p>\n<p>Faz-se muito hoje em dia para a reintrodu\u00e7\u00e3o dos lobos e outros linces nas zonas em que esses animais desapareceram. Em contrapartida, eu n\u00e3o ouvi dizer que B. Bardot militasse pela reintrodu\u00e7\u00e3o de tal ou tal esp\u00e9cie de pulga ou de solit\u00e1ria que anteriormente atacava os melharucos ou os coelhos, mas que desapareceu. Talvez n\u00e3o existam; mas se existissem, duvido que o desaparecimento de tais \u00abparasitas\u00bb fosse sentido como um mal.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb10\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 10\" href=\"#nh10\" rev=\"footnote\">10<\/a>]\u00a0<\/span>B. H\u00f6lldobler e E.O. Wilson, <i>Voyage chez les fourmis (Viagem ao reino das formigas)<\/i>, \u00e9d. du Seuil, 1996, p. 143.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb11\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 11\" href=\"#nh11\" rev=\"footnote\">11<\/a>]\u00a0<\/span>Mesma fonte.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb12\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 12\" href=\"#nh12\" rev=\"footnote\">12<\/a>]\u00a0<\/span>A. Lindbergh \u00e9 de extrema direita, isto \u00e9, ela diz bem alto aquilo que, infelizmente, quase todo o mundo pensa bem baixinho.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb13\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 13\" href=\"#nh13\" rev=\"footnote\">13<\/a>]\u00a0<\/span>Ela o \u00e9 ainda, maci\u00e7amente... ainda que alguns progressos comecem a se fazer sentir.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abDei a este princ\u00edpio o nome de sele\u00e7\u00e3o natural\u00a0[1]\u00bb A ades\u00e3o \u00e0 palavra do Mestre pode ser \u00e0s vezes uma trai\u00e7\u00e3o de seu esp\u00edrito, do sentido da sua obra, uma vez que o dito Mestre, procedendo em termos de inova\u00e7\u00e3o e defrontando-se com mentalidades inicialmente hostis, escolhe com freq\u00fc\u00eancia suas palavras pelo menos tanto por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[211],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v14.9 - 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