{"id":1460,"date":"2006-08-25T19:14:35","date_gmt":"2006-08-25T17:14:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1460&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2018-11-21T17:51:01","modified_gmt":"2018-11-21T16:51:01","slug":"contra-o-apartheid-das-especies","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/","title":{"rendered":"Contra o apartheid das esp\u00e9cies"},"content":{"rendered":"<p>Minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma que S.F. Sapontzis argumenta em detalhe<span id='easy-footnote-1-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-1-1460' title='Artigo citado.'><sup>1<\/sup><\/a><\/span>: eu considero como justo, ajudar todo indiv\u00edduo que precise a menos, evidentemente, que o rem\u00e9dio seja pior do que a doen\u00e7a. Considero justo tentar modificar um estado de fato (uma sociedade ou um ecossistema) no sentido de um maior bem estar global dos seres implicados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Creio que uma tal decis\u00e3o desencadeie debates por, pelo menos, duas raz\u00f5es:<\/p>\n<p>- Ela parece implicar no fim das contas ,um dom\u00ednio e uma gest\u00e3o total da \u00abNatureza\u00bb e da vida de seus habitantes, enquanto que os humanos dos pa\u00edses desenvolvidos apreciem, hoje em dia, nesta \u00abNatureza\u00bb, a imagem do que eles n\u00e3o encontram mais em suas pr\u00f3prias vidas, submetidas a um fort\u00edssimo controle social: a n\u00e3o domestica\u00e7\u00e3o, o car\u00e1ter livre e selvagem de comportamentos n\u00e3o limitados por artif\u00edcios ou inibi\u00e7\u00f5es sociais... Por outro lado, identificando-se facilmente apenas com os predadores, estas pessoas idealizam uma imagem paradis\u00edaca da \u00abNatureza\u00bb, imagem ut\u00f3pica e ilus\u00f3ria, digamos de passagem.<\/p>\n<p>- Mas sobretudo, h\u00e1 um forte car\u00e1ter religioso associado \u00e0 id\u00e9ia de \u00abNatureza\u00bb que a faz parecer intoc\u00e1vel. Questionar a \u00abOrdem Natural\u00bb, n\u00e3o mais se manter \u00e0 dist\u00e2ncia habitual e respeitosa. Conceber a reforma dessa \u00abOrdem Natural\u00bb! Ai ai ai! Ainda mais hoje em dia, pois para v\u00e1rias pessoas \u00aba M\u00e3e Natureza\u00bb substituiu Deus e lhe atribu\u00edmos, ao mesmo tempo, o papel de v\u00edtima da \u00abviol\u00eancia humana<span id='easy-footnote-2-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-2-1460' title='&lt;i&gt;Cf.&lt;\/i&gt; Cl\u00e9ment Rosset, &lt;i&gt;L\u2019Anti-Nature&lt;\/i&gt;, coll. Quadrige, P.U.F., 1973 (livro indispens\u00e1vel, cr\u00edtica radical do naturalismo); Robert Lenoble, &lt;i&gt;Esquisse d\u2019une histoire de l\u2019id\u00e9e de Nature&lt;\/i&gt;, Albin Michel, 1969; Keith Thomas, &lt;i&gt;Dans le jardin de la Nature: la mutation des sensibilit\u00e9s en Angleterre \u00e0 l\u2019\u00e9poque moderne (1500-1800)&lt;\/i&gt;, NRF, Gallimard, 1985.'><sup>2<\/sup><\/a><\/span>\u00bb.<\/p>\n<div class=\"image image-legende-right\">\n<p>\u00ab\u00c9 natural!\u00bb: podemos dizer a mesma coisa sobre o infantic\u00eddio (le\u00f5es, gorilas, por ex) ou sobre o c\u00e2ncer (todos os vertebrados), a menos que o \u00abnatural\u00bb queira dizer \u00abque existe h\u00e1 milh\u00f5es de anos\u00bb. O que n\u00e3o implica que seja bom. E vemos dificilmente porque seria algo bom para os n\u00e3o humanos se n\u00e3o o \u00e9 para os humanos. Adesivo do \u00abComit\u00e9 national d'information chasse-nature\u00bb (\u00abComit\u00ea nacional de informa\u00e7\u00e3o da ca\u00e7a e da natureza\u00bb).<\/p>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<p>O questionamento da preda\u00e7\u00e3o \u00e9 apresentado de forma caricatural, como se tratasse instantaneamente de intervir nos ecossistemas sem ter os meios de matar todos os predadores... enquanto n\u00f3s nunca afirmamos dispor atualmente de solu\u00e7\u00f5es globais ou particulares para a preda\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o sejam ainda piores do que o mal da preda\u00e7\u00e3o. Uma boa compara\u00e7\u00e3o que j\u00e1 foi feita<span id='easy-footnote-3-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-3-1460' title='D. Olivier, \u00abPourquoi je ne suis pas \u00e9cologiste\u00bb (Por que eu n\u00e3o sou ecologista), &lt;i&gt;CA&lt;\/i&gt; n\u00b07, juin 1993, p. 5 \u00e0 13.'><sup>3<\/sup><\/a><\/span> me parece ser aquela sobre a Aids: neste caso tamb\u00e9m n\u00e3o encontramos at\u00e9 hoje a solu\u00e7\u00e3o global, radical, mas j\u00e1 \u00e9 necess\u00e1rio nos pronunciarmos contra a aids, \u00e9 necess\u00e1rio nos opormos contra as pessoas que enxergam nessa doen\u00e7a uma justa puni\u00e7\u00e3o de Deus: de um lado porque tais posi\u00e7\u00f5es possuem em si pr\u00f3prias, um impacto ideol\u00f3gico importante e por outro lado, porque ao nos posicionarmos contra a aids, procuramos combat\u00ea-la cada vez que isso \u00e9 poss\u00edvel, ainda que nossos esfor\u00e7os possam surtir poucos efeitos \u2013 cada pessoa que \u00e9 salva conta.<\/p>\n<h2>Uma luta <i>poss\u00edvel<\/i><\/h2>\n<p>Hoje em dia, o questionamento que podemos fazer sobre a preda\u00e7\u00e3o continua sendo mais te\u00f3rico que pr\u00e1tico, pois, sem contar com os c\u00e3es e os gatos vegetarianos e os camundongos que foram tirados de certas garras, os meios de a\u00e7\u00e3o s\u00e3o limitados e o conhecimento das conseq\u00fc\u00eancias a longo termo \u00e9 insuficiente. Mas tal \u00e9 a dificuldade inerente a todo projeto de mudan\u00e7a radical. Assim, por exemplo, os mesmos problemas aparecem quando o capitalismo \u00e9 questionado, assim como quando questionamos todo conjunto infinitamente complexo das rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas que o fundamentam. O capitalismo existe e funciona e nos permite sobreviver \u2013 pelo menos a maioria de n\u00f3s. N\u00e3o possu\u00edmos uma solu\u00e7\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 pronta e sabemos que existem rem\u00e9dios piores que a doen\u00e7a. Podemos tentar aqui e l\u00e1 nos opor a algumas de suas engrenagens, seja em uma f\u00e1brica ou no Chiapas (M\u00e9xico). Podemos tentar imaginar e mesmo construir, localmente e parcialmente, outras formas de rela\u00e7\u00f5es interindividuais. Podemos convocar as pessoas de boa vontade a lutarem e refletirem sobre a maneira de trocarmos o capitalismo <i>por algo que seja melhor<\/i>.<\/p>\n<p>A preda\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um problema complexo, que n\u00e3o podemos isolar de todo o conjunto formado por outras quest\u00f5es: demogr\u00e1ficas (superpopula\u00e7\u00e3o), sanit\u00e1rias (epidemias), de qualidade de vida em geral (meio ambiente), ou seja, a longo termo, evolutivas (estoque gen\u00e9tico). Assim como o capitalismo ou qualquer outro sistema social cuja transforma\u00e7\u00e3o somente pode ocorrer a partir de debates e tentativas, a preda\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser abordada com uma vara de cond\u00e3o. Somente quando a reflex\u00e3o e a discuss\u00e3o se tornarem poss\u00edveis dentro da sociedade \u00e9 que surgir\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es \u2013 ainda que estas sejam de pouca amplitude: pois o problema da preda\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve necessariamente em termos de tudo ou nada.<\/p>\n<p>Com efeito, ao examinarmos <i>a<\/i> preda\u00e7\u00e3o, podemos ficar com os bra\u00e7os cruzados, paralisados com a grandeza do fen\u00f4meno. Aconteceria o mesmo com a medicina se, ao inv\u00e9s de atacar as doen\u00e7as e procurar curar ou abrandar as doen\u00e7as reais que ocorrem, ficasse obcecada com a impossibilidade de vencer todas as doen\u00e7as, ou com o terror de intervir no curso \u00abnatural\u00bb das coisas, de ir contra Deus ou a Natureza. Da mesma maneira, desde que nos liberamos do respeito paralisante da \u00abordem natural\u00bb, torna-se poss\u00edvel come\u00e7armos a refletir sobre as preda\u00e7\u00f5es, sobre os in\u00fameros tipos de preda\u00e7\u00e3o, a distinguirmos os casos mais graves \u2013 por exemplo, o das hienas que dilaceram suas v\u00edtimas vivas, impondo-lhes um sofrimento imenso \u2013 e aqueles que s\u00e3o menos graves ou que n\u00e3o o s\u00e3o \u2013 como a preda\u00e7\u00e3o dos insetos se, como algumas pessoas pensam, eles n\u00e3o s\u00e3o sens\u00edveis \u2013 e a distinguir entre os casos relativamente f\u00e1ceis a serem resolvidos \u2013 como o caso dos lobos em rela\u00e7\u00e3o aos cervos \u2013 daqueles que parecem fora de nosso alcance \u2013 como a preda\u00e7\u00e3o de inumer\u00e1veis peixes no oceano; isso tudo procurando considerar, antes de cada interven\u00e7\u00e3o, o conjunto das conseq\u00fc\u00eancias previs\u00edveis, assim como na medicina antes de prescrevermos um rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, materialmente \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7armos a progredir na pr\u00e1tica e <i>reduzirmos<\/i> a preda\u00e7\u00e3o, sem que seja necess\u00e1rio termos estabelecido, anteriormente, a possibilidade de varrermos da Terra <i>todos<\/i> os tipos de preda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Liberalismo, Estado-provid\u00eancia, ou revolu\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n<p>Uma analogia entre sociedade humana e \u00abNatureza\u00bb permite pensar tr\u00eas grandes tipos diferentes de rea\u00e7\u00f5es, imagin\u00e1veis face \u00e0 preda\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>- \u00abLaisser faire\u00bb, o slogan do liberalismo hoje em dia triunfante, corresponde tamb\u00e9m \u00e0 atitude que os humanos sempre tiveram frente \u00e0s rela\u00e7\u00f5es entre os n\u00e3o-humanos (exceto, por exemplo, quando um predador entra em concorr\u00eancia por uma \u00abca\u00e7a\u00bb). A insist\u00eancia sobre o direito \u00e0 livre determina\u00e7\u00e3o individual, sobretudo a dos indiv\u00edduos dominantes, tem a vantagem \u2013 para estes- de lhes evitar ter que intervir nos neg\u00f3cios alheios. Sabemos, entretanto, que a liberdade formal mascara com freq\u00fc\u00eancia um ambiente real, onde a \u00ablei da selva\u00bb permite, aos melhores colocados, comer os outros. Por outro lado, esta op\u00e7\u00e3o concede um valor supremo \u00e0 liberdade, ponto que mereceria pelo menos uma discuss\u00e3o rigorosa; h\u00e1 muitas chances que certos valores caros \u00e0 maior parte dos humanos, como os sentimentos de dignidade, de liberdade, de autonomia, de responsabilidade, de individualidade, de identidade, etc, o sejam bem menos para muitos outros animais.<\/p>\n<p>- A op\u00e7\u00e3o oposta lembra sobretudo o \u00abEstado providencial\u00bb, ampliado pelo recente \u00abdireito de inger\u00eancia humanit\u00e1rio\u00bb. \u00c9 ent\u00e3o um direito e um dever de intervir no desenrolar dos acontecimentos, tanto e quanto for poss\u00edvel: n\u00e3o revolucionando o mundo mas, <i>administrando<\/i>-o da melhor forma, pouco a pouco. Podemos ent\u00e3o come\u00e7ar a luta contra a preda\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de interven\u00e7\u00f5es limitadas, nos casos mais urgentes. \u00c9 verdade que esta atitude pressup\u00f5e s\u00e9rios problemas pol\u00edticos: sabemos que as interven\u00e7\u00f5es \u00abpaternalistas\u00bb s\u00e3o, freq\u00fcentemente, a oportunidade para aqueles e aquelas que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de poder, socorrer outros impondo seus pr\u00f3prios interesses e dominando atrav\u00e9s de sua ajuda<span id='easy-footnote-4-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-4-1460' title='As inger\u00eancias humanit\u00e1rias servem freq\u00fcentemente de \u00e1libi a interven\u00e7\u00f5es militares que possuem finalidades pouco filantr\u00f3picas; o Estado providencial \u00e9 tamb\u00e9m uma ferramenta de domina\u00e7\u00e3o; enfim, se a \u00abprote\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia\u00bb protege em alguns casos crian\u00e7as de conseq\u00fc\u00eancias \u00ababusivas\u00bb da domina\u00e7\u00e3o que lhes \u00e9 imposta, ela permite melhor (com boa consci\u00eancia) manter as crian\u00e7as sob tutela e controle permanentes, e de submet\u00ea-las ao que \u00abn\u00f3s\u00bb (a sociedade em seu conjunto) esperamos delas.'><sup>4<\/sup><\/a><\/span>. Entretanto, vemos mal quais interesses \u00abprivados\u00bb os humanos poderiam encontrar ao intervir para preverem ou aliviarem as doen\u00e7as, as fomes, as preda\u00e7\u00f5es, etc? A n\u00e3o ser o interesse de se sentirem moralmente superiores, o que n\u00e3o \u00e9 algo diretamente nefasto.<\/p>\n<p>- Enfim, a terceira solu\u00e7\u00e3o \u00abproposta\u00bb que tenta ultrapassar a oposi\u00e7\u00e3o entre as duas precedentes corresponde, para continuar na analogia, ao projeto de mudan\u00e7a revolucion\u00e1rio das sociedades humanas: a esperan\u00e7a ou a vontade de deixar cada um livre, sem correr riscos, sem amea\u00e7ar os outros em suas condi\u00e7\u00f5es de vida e de liberdade, ao mudarmos as estruturas sociais de forma adequada. Mas a analogia revolucion\u00e1ria implica, no caso da \u00abNatureza\u00bb, uma modifica\u00e7\u00e3o total de tudo que existe na Terra. Infelizmente n\u00e3o vemos hoje em dia nem a sombra da possibilidade desta realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso da preda\u00e7\u00e3o, a segunda op\u00e7\u00e3o e a terceira seriam mais ainda impens\u00e1veis enquanto as sociedades humanas continuem sendo sociedades de explora\u00e7\u00e3o, de opress\u00e3o e de domina\u00e7\u00e3o. Atualmente as posi\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas, quaisquer que sejam, n\u00e3o podem ter repercuss\u00f5es concretas bem limitadas: pois mesmo quando possamos imaginar solu\u00e7\u00f5es particulares e circunscritas para melhorar o destino dos animais selvagens, somos poucos a querer aplic\u00e1-las e continuaremos no mesmo ponto enquanto os seres humanos, que ainda praticam a preda\u00e7\u00e3o sobre um n\u00famero incalcul\u00e1vel de indiv\u00edduos que est\u00e3o sob seu jugo, continuarem especistas<span id='easy-footnote-5-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-5-1460' title='Em um livro de fic\u00e7\u00e3o cientifica, &lt;i&gt;Demain les chiens&lt;\/i&gt; de Clifford D. Sidmak, s\u00e3o os cachorros que, daqui a alguns milhares de anos refletir\u00e3o sobre o problema e, finalmente, o resolver\u00e3o!'><sup>5<\/sup><\/a><\/span>. E por que estes seres humanos gastariam uma energia importante para regular problemas que n\u00e3o lhes afetam de forma alguma? Somente se motiva\u00e7\u00f5es de altru\u00edsmo, o desejo de ajudar e fazer o bem, se tornassem as motiva\u00e7\u00f5es de suas rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Hoje em dia o que \u00e9 importante \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica e ideol\u00f3gica do debate, pelo que este pode mudar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa percep\u00e7\u00e3o dos outros animais, ao nos ajudar a consider\u00e1-los <i>verdadeiramente<\/i> como indiv\u00edduos cujos interesses <i>realmente<\/i> devam ser levados em conta: atrav\u00e9s do ataque frontal, que o debate pode ocasionar,contra a ideologia naturalista e especista.<\/p>\n<h2>O que \u00e9 o naturalismo?<\/h2>\n<p>O que criticamos em particular na ecologia e em geral, no naturalismo, \u00e9 o fato de somente considerarem a vontade dos humanos de verem a \u00abNatureza\u00bb se perpetuar tal como ela \u00e9, sem se preocupar com os interesses dos indiv\u00edduos que s\u00e3o os mais tocados.<\/p>\n<p>O naturalismo enxerga o mundo como sendo uma totalidade submissa a uma \u00abordem natural\u00bb onde tudo tem um lugar que \u00e9 seu verdadeiro lugar, onde tudo est\u00e1 em ordem. Cada coisa \u00abnatural\u00bb possui ent\u00e3o em si uma natureza particular, que \u00e9 considerada como um tipo de programa\u00e7\u00e3o interna, para ficar em seu lugar e cumprir bem sua fun\u00e7\u00e3o no meio do Todo. A natureza (com n min\u00fasculo) de uma coisa \u00e9 ent\u00e3o aquilo que a Natureza (com um grande N) lhe dita para que seja realizada a \u00abharmonia\u00bb de todas as coisas entre si. Por ser vista como uma totalidade, esta \u00abNatureza\u00bb recebe um valor infinitamente superior ao valor que \u00e9 concedido a cada um de seus mecanismos. De repente a \u00abnatureza\u00bb de cada um de seus mecanismos, por ser express\u00e3o da Natureza, torna-se uma coisa essencial e fundamental que n\u00e3o deve ser pervertida sob pena de subvertermos a ordem do mundo ocasionando o caos.<\/p>\n<p>Reconhecemos sem fazer esfor\u00e7o, nesta descri\u00e7\u00e3o do naturalismo, uma varia\u00e7\u00e3o sobre os grandes temas e mitos fundamentais de todas as religi\u00f5es. Com efeito, a rela\u00e7\u00e3o dos humanos com essa ordem imagin\u00e1ria \u00e9 de tipo religioso: a \u00abNatureza\u00bb \u00e9 sacralizada, imaginamos suas inten\u00e7\u00f5es ou a personalizamos. Tal \u00abordem natural\u00bb \u00e9 geralmente uma proje\u00e7\u00e3o de nosso pr\u00f3prio sistema social (ou daquele que desejar\u00edamos instaurar) e os conceitos que os humanos tiveram dessa ordem variaram ao longo dos s\u00e9culos. Assim, falamos mais facilmente hoje em dia do \u00abequil\u00edbrio natural\u00bb do que da \u00abordem natural\u00bb: pois a tend\u00eancia que domina atualmente \u00e9 mais ligada \u00e0 id\u00e9ia de democracia e participa\u00e7\u00e3o do que ligada ao fascismo declarado. Uma tend\u00eancia mais pr\u00f3xima da economia liberal do que de uma planifica\u00e7\u00e3o do Estado. Mas se o tipo de ordem modifica, a ordem continua, quer dizer, a venera\u00e7\u00e3o que os humanos t\u00eam por ela continua existindo. Toda coisa que dizemos ser \u00abnatural\u00bb \u00e9 pressuposta como <i>pertencente<\/i> \u00e0 \u00abordem natural\u00bb, e consideramos que existe apenas por e para esta totalidade. As coisas \u00abnaturais\u00bb, quaisquer que sejam, encontram-se todas em um plano de igualdade: o pardal, a grama, a pedra, cada um ocupa seu lugar, concorre, ao seu modo, para o bom desenvolvimento do todo e ser\u00e1 apenas percebido dentro deste esquema.<span id='easy-footnote-6-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-6-1460' title='&lt;i&gt;Cf.&lt;\/i&gt; \u00abL\u2019homme, l\u2019Animal, la Nature, la Soci\u00e9t\u00e9...\u00bb no folheto: &lt;i&gt;Nous ne mangeons pas de viande pour ne pas tuer d\u2019animaux&lt;\/i&gt;.'><sup>6<\/sup><\/a><\/span>. Seus interesses eventuais existem apenas com a condi\u00e7\u00e3o de serem a tradu\u00e7\u00e3o daqueles da Ordem, porque s\u00f3 estes s\u00e3o tidos como verdadeiros. Se porventura parecem transgredir, ser\u00e3o negados como <i>verdadeiros<\/i> interesses (desejos \u00abcontr\u00e1rios \u00e0 natureza\u00bb: pervertidos, degenerados...). Ou bem, na honor\u00e1vel inten\u00e7\u00e3o de reabilit\u00e1-los, mostraremos que eles se integram, <i>apesar de tudo<\/i>, ao Grande Projeto<span id='easy-footnote-7-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-7-1460' title='A homossexualidade era claramente considerada como uma pervers\u00e3o no inicio deste s\u00e9culo; hoje em dia, encontramos nela \u00abfun\u00e7\u00f5es naturais\u00bb.'><sup>7<\/sup><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Ora, este discurso sobre os animais no seio da \u00abNatureza\u00bb encontra um paralelo perfeito em certos discursos pol\u00edticos, que proclamam um tipo de sociedade particular: onde os interesses dos indiv\u00edduos, inclusive suas vidas, s\u00e3o importantes apenas na medida em que v\u00e3o no sentido da boa teoria da maquinaria social onde, com efeito, o valor dos indiv\u00edduos \u00e9 puramente relativo ao da Ordem Social, este conjunto ao qual pertencem de corpo e alma, que os compreende e os transcende, onde \u00e9 necess\u00e1rio que eles estejam e continuem imersos e dos quais s\u00e3o apenas os mecanismos. Esses discursos pol\u00edticos s\u00e3o discursos totalit\u00e1rios, fascistas, nazistas, stalinianos, etc (se os democratas tamb\u00e9m consideram \u00abnecess\u00e1rio\u00bb terem o poder social sobre os indiv\u00edduos, quer dizer, a exist\u00eancia de uma <i>ordem<\/i> social, seus <i>discursos<\/i> acentuam mais a liberdade da pessoa do que sua sujei\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria \u00e0 totalidade).<\/p>\n<p>O discurso naturalista \u00e9 explicitamente totalit\u00e1rio pelo fato de se colocar do ponto de vista de uma totalidade abstrata de seus componentes, ao mesmo tempo em que \u00e9 visto como representante destes mesmos componentes. Ser\u00e1 necess\u00e1rio sacrificar os interesses de certos indiv\u00edduos, ou mesmo de todos para que a \u00abNatureza\u00bb (como a sociedade nas ideologias sociais) caminhe harmoniosamente. O sofrimento de alguns n\u00e3o importa, pois apenas a totalidade \u00e9 que existe e conta realmente. N\u00e3o conclu\u00edmos que dever\u00edamos refletir como viver de outra maneira e melhor. O sofrimento e a morte de alguns s\u00e3o neutralizados, transcendidos e sublimados por sua pretensa fun\u00e7\u00e3o no seio da tal entidade sublime e transcendente que \u00e9 o Tudo.<\/p>\n<p>Isso fica particularmente claro quando invocamos os famosos \u00abequil\u00edbrios\u00bb, que s\u00e3o mencionados em termos explicitamente m\u00edsticos, como \u00e9 o caso aqui:<\/p>\n<blockquote><p>... tudo o que a moral humana reprova com for\u00e7a, a injusti\u00e7a, a desigualdade, a crueldade, n\u00e3o tem nenhum sentido para o animal. Para o animal a finalidade parece bem diferente: em primeiro lugar \u00e9 a sobreviv\u00eancia, sobreviv\u00eancia individual e depois a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie. Talvez o animal esteja programado para melhor saborear o equil\u00edbrio na Terra do que todas as esp\u00e9cies vivas em fun\u00e7\u00e3o de um destino mais vasto<span id='easy-footnote-8-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-8-1460' title='Jean Hamburger, &lt;i&gt;L\u2019Homme et les hommes&lt;\/i&gt;, \u00e9d. Flammarion, 1976, p. 105; segue um exemplo de \u00abregula\u00e7\u00e3o natural\u00bb pela preda\u00e7\u00e3o que, associada a seus fantasmas de programa\u00e7\u00e3o e de finalidade, n\u00e3o significam nada mais do que o famoso \u00abeles s\u00e3o feitos para se comer entre si, para serem comidos\u00bb. O autor \u00e9 um cientista conhecido e n\u00e3o \u00e9 sem interesse encontrar em sua obra a famosa cren\u00e7a naturalista de que as coisas respondem a uma fun\u00e7\u00e3o,a um destino, vasto ou derris\u00f3rio, a um programa, e possuem um sentido.'><sup>8<\/sup><\/a><\/span>,<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou tentando apresent\u00e1-los de modo racional, dando-lhes uma roupagem p\u00e1lida e cientifica:<\/p>\n<blockquote><p>As zonas \u00famidas formam ent\u00e3o um meio bem equilibrado, onde cada esp\u00e9cie representa seu papel. Se algumas proliferam \u00e9 para alimentar outras, predadoras. Este ciclo t\u00e3o bem ordenado da Natureza<span id='easy-footnote-9-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-9-1460' title='\u00abLa vie agit\u00e9e des eaux dormantes\u00bb, em &lt;i&gt;\u00c7a m\u2019int\u00e9resse&lt;\/i&gt; n\u00b016, juin 1982, p. 50.'><sup>9<\/sup><\/a><\/span>...<\/p><\/blockquote>\n<h2>A preda\u00e7\u00e3o como \u00faltimo recurso<br \/>\nao servi\u00e7o do bem comum?<\/h2>\n<p>Uma outra maneira de recusarmos levar em conta os interesses individuais dos animais, encontra-se na velha id\u00e9ia de que a Natureza atrav\u00e9s da \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb produz seres superiormente sens\u00edveis, dotados de hedonismo; na perspectiva de uma felicidade geral sempre crescente; seria necess\u00e1rio ent\u00e3o n\u00e3o tocarmos na sele\u00e7\u00e3o natural, que opera atrav\u00e9s de epidemias, fomes ou preda\u00e7\u00f5es<span id='easy-footnote-10-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-10-1460' title='Este discurso lembra o de Kant, relativo \u00e0s sociedades humanas: a Ordem natural, ao nos for\u00e7ar a concorr\u00eancia, nos imp\u00f5e um cont\u00ednuo progresso material e espiritual, e o mundo no qual vivemos \u00e9 assim, &lt;i&gt;no fim das contas&lt;\/i&gt;, o melhor dos mundos poss\u00edveis... &lt;i&gt;Cf.&lt;\/i&gt; A bem naturalista e muito humanista &lt;i&gt;Id\u00e9ia de uma hist\u00f3ria universal do ponto de vista cosmo-pol\u00edtico&lt;\/i&gt;.'><sup>10<\/sup><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Talvez a \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb represente verdadeiramente um papel no aparecimento de novos indiv\u00edduos mais sens\u00edveis (ent\u00e3o vistos como sendo mais eficazes em termos de sensibilidade). Para dizer a verdade, vemos mal como ter certeza disso. Mas o que nos permite avaliar que estas eventuais apari\u00e7\u00f5es novas, valham bem a monstruosa carnificina cotidiana, o que permite decidir que a balan\u00e7a deva se inclinar a favor destes futuros super animais, em detrimento dos animais bem concretos que sofrem e morrem atualmente?<\/p>\n<p>Que nos perguntemos, por que n\u00e3o? Mas que respondamos com seguran\u00e7a sem nenhuma prova tang\u00edvel, isso \u00e9 algo surpreendente. Trata-se, neste caso, ainda mais uma vez, de tentarmos atribuir uma fun\u00e7\u00e3o aos animais, de fazer deles novos meios para alcan\u00e7armos um fim que deva transcend\u00ea-los. Eles seriam ent\u00e3o sacrificados sobre o altar da Evolu\u00e7\u00e3o, cada cad\u00e1ver suplementar marcaria uma etapa da Longa Caminhada em dire\u00e7\u00e3o ao Melhor.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia n\u00e3o \u00e9 nova:<\/p>\n<blockquote><p>Karl Marx ia criticar Charles Darwin porque este representa o estado natural do reino animal, como aquele da livre concorr\u00eancia e porque ele enxerga entre os animais e as plantas, sua pr\u00f3pria sociedade inglesa, \u00abcom sua divis\u00e3o do trabalho, sua competi\u00e7\u00e3o, a abertura de novos mercados, as \u00abinven\u00e7\u00f5es\u00bb e a \u00abluta pela exist\u00eancia\u00bb malthusiana\u00bb. Ao descrever as formas mais ferozes da concorr\u00eancia, como sendo da ordem natural das coisas, Darwin segue a tradi\u00e7\u00e3o de todos os autores que o precederam e que alegaram que as classes inferiores devem aceitar de bom grado, uma vida dif\u00edcil, pois a natureza lhes assegura que tudo tende para o melhor. <i>Ele mostra que a fome e a morte s\u00e3o meios que asseguram a produ\u00e7\u00e3o ininterrupta de animais superiores<\/i>, durante este tempo, \u00abnenhum medo \u00e9 sentido, a morte \u00e9 geralmente r\u00e1pida e os vigorosos, os que possuem uma boa sa\u00fade, os que s\u00e3o alegres, sobrevivem e se multiplicam<span id='easy-footnote-11-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-11-1460' title='Keith Thomas, &lt;i&gt;op. cit.&lt;\/i&gt;, p. 115; os it\u00e1licos s\u00e3o meus.'><sup>11<\/sup><\/a><\/span>\u00bb.<\/p><\/blockquote>\n<p>Com efeito, encontramos freq\u00fcentemente este discurso ainda hoje:<\/p>\n<blockquote><p>Jamais eu impedi um animal predador de pegar um p\u00e1ssaro,um rato ou uma lebre, jamais fiquei indignado ao ver uma serpente comer um pequeno mam\u00edfero: a natureza os fez predadores, eles a obedecem. Eu nunca os impedi pois, al\u00e9m do respeito que sentimos pela natureza, Scott e eu observamos o modo fulminante como o predador mata sua presa.<\/p><\/blockquote>\n<p>e:<\/p>\n<blockquote><p>Sou um adepto incondicional da sele\u00e7\u00e3o natural, pois a Natureza n\u00e3o pode se enganar<span id='easy-footnote-12-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-12-1460' title='A. Lindberg, &lt;i&gt;ibid.&lt;\/i&gt;, pp. 192 e 167; como se a morte fosse sempre r\u00e1pida! Seria muito bom e seria efetivamente necess\u00e1rio que existisse uma \u00abNatureza\u00bb bem intencionada para que reinasse tal \u00abharmonia\u00bb!'><sup>12<\/sup><\/a><\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>O discurso chega \u00e0 mesma conclus\u00e3o, seja ele imediatamente m\u00edstico ou camuflado com um verniz cientifico como aquele de Darwin. Pois a Natureza, se \u00e9 inflex\u00edvel (ela \u00e9 uma ordem!): ela \u00e9 tamb\u00e9m harmonia, n\u00e3o o esque\u00e7amos. Os naturalistas procuram legitimar a ordem, ficando em paz com suas consci\u00eancias.<\/p>\n<div class=\"encadre\">A fim de contestarmos a vis\u00e3o de mundo totalit\u00e1ria e fascista que \u00e9 a vis\u00e3o que cada um de n\u00f3s tem em nossa sociedade fundamentalmente naturalista e para reafirmarmos a import\u00e2ncia dos interesses dos n\u00e3o-humanos justamente onde a ideologia dominante a nega com a maior for\u00e7a, que \u00e9 importante analisarmos especialmente o tema da preda\u00e7\u00e3o.A preda\u00e7\u00e3o, mais do que a fome, a doen\u00e7a ou a superpopula\u00e7\u00e3o, aparece para os seres humanos como a marca por excel\u00eancia da subordina\u00e7\u00e3o\/afilia\u00e7\u00e3o dos outros animais \u00e0 Ordem Natural, \u00e0 Totalidade, porque \u00e9 o melhor exemplo do pre\u00e7o que eles pagam; \u00e9, pelo menos, o exemplo que mais faz trabalhar nosso imagin\u00e1rio. Assim sendo, a preda\u00e7\u00e3o \u00e9 o melhor s\u00edmbolo desta Ordem Natural \u00e0 qual n\u00f3s, animais humanos, supostamente escapamos gra\u00e7as \u00e0 nossa vontade moral e aos nossos Direitos: se alguns sentem nostalgia por uma Natureza onde cada um tinha seu lugar e vivia em harmonia com os outros e com o Todo, e desejam, em um desejo de fus\u00e3o m\u00edstica reencontrar essa Natureza, a maior parte das pessoas prefere prosaicamente saborear a posi\u00e7\u00e3o de privilegiados, pelo fato de serem humanos, e desejam que os outros animais continuem a se fazerem predar e parecerem imersos em uma \u00abNatureza\u00bb de onde os humanos e super predadores teriam sa\u00eddo.<\/p>\n<p>Se em vez de nos questionarem sobre os outros males naturais, as pessoas preferem nos perguntar sobre a quest\u00e3o da preda\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque sabem que n\u00f3s mesmos n\u00e3o a praticamos. Se, como n\u00f3s pensamos, a alimenta\u00e7\u00e3o carn\u00edvora \u00e9 o s\u00edmbolo fundamental da supremacia humana, a refer\u00eancia pr\u00e1tica central da domina\u00e7\u00e3o especista, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 surpreendente que a preda\u00e7\u00e3o natural seja objeto de um tabu t\u00e3o resistente e continue incritic\u00e1vel. Ela \u00e9 an\u00e1loga, na Ordem Natural, do nosso consumo de animais na ordem da sociedade, e ela parece ser a \u00faltima justificativa. O que tamb\u00e9m acontece, como mostra a situa\u00e7\u00e3o seguinte, com outras formas de explora\u00e7\u00e3o dos n\u00e3o humanos:<\/p>\n<blockquote><p>O importante, \u00e9 que os pesquisadores se conscientizem que podemos tratar um animal de outra maneira. N\u00f3s queremos inculcar a no\u00e7\u00e3o de respeito do animal. O animal \u00e9 necess\u00e1rio para a pesquisa cient\u00edfica, da mesma maneira que a lebre \u00e9 necess\u00e1ria para a sobreviv\u00eancia da raposa. A esp\u00e9cie humana luta utilizando as outras esp\u00e9cies.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><i>Jean-Claude Nou\u00ebt<\/i><span id='easy-footnote-13-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-13-1460' title='Professor da faculdade de medicina (Paris - VI), vice presidente da Liga Francesa pelos direitos do Animal (fundada por Alfred Kastler, prix Nobel); citado por Lea di Cecco, \u00abExp\u00e9rimentation&amp;nbsp;: peut-on se passer des animaux&amp;nbsp;?\u00bb, em &lt;i&gt;Science et Avenir&lt;\/i&gt; n\u00b0511, setembro de 1989, p. 35. Sobre esta Liga profundamente especista, podemos ler meu \u00abDroits de l\u2019Animal, &quot;version fran\u00e7aise&quot;\u00bb (\u00abDireitos do animal, &quot;vers\u00e3o francesa&quot;\u00bb), &lt;i&gt;Cahiers antisp\u00e9cistes&lt;\/i&gt; n\u00b02, janvier de 1992, assim como meu &lt;a class=&quot;spip_in&quot; href=&quot;http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pour-un-monde-sans-respect\/&quot;&gt;\u00abPour un monde sans respect\u00bb&lt;\/a&gt; (\u00abPor um mundo sem respeito\u00bb), &lt;i&gt;Cahiers antisp\u00e9cistes&lt;\/i&gt; n\u00b010, setembro de 1994.&lt;\/p&gt;\n&lt;p&gt;Cito aqui voluntariamente uma pessoa que, como A. Lindberg, C. Elsen e muitas outras, lutam &lt;i&gt;por&lt;\/i&gt; uma melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida dos animais, mas &lt;i&gt;contra&lt;\/i&gt; a supress\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o e do estatuto inferior que a ela est\u00e1 ligada. \u00c9 dif\u00edcil saber se elas utilizam a refer\u00eancia feita \u00e0 \u00abNatureza\u00bb e \u00e0 exist\u00eancia da preda\u00e7\u00e3o para justificar seu ponto de vista especista, ou, ao contr\u00e1rio, se elas s\u00e3o incapazes de sair do pr\u00f3prio especismo pois est\u00e3o coladas ao naturalismo - e \u00e0 id\u00e9ia de que os animais fazem parte desta \u00abNatureza\u00bb, e est\u00e3o entregues a \u00absuas leis\u00bb (das quais a preda\u00e7\u00e3o \u00e9 o emblema).'><sup>13<\/sup><\/a><\/span><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<h2>O naturalismo e as domina\u00e7\u00f5es intra-humanas<\/h2>\n<p>O discurso que prega que, os interesses de certos indiv\u00edduos, somente s\u00e3o importantes em fun\u00e7\u00e3o de sua utilidade por outra coisa do que para si mesmos, \u00e9 o discurso t\u00edpico de todas as formas de domina\u00e7\u00f5es<span id='easy-footnote-14-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-14-1460' title='...inclusive a domina\u00e7\u00e3o dos mais velhos, dos adultos sobre as crian\u00e7as, na qual tudo se refere ao que eles ser\u00e3o no futuro, e \u00e9 adiado em nome dos interesses socialmente supostos, do futuro adulto que eles ser\u00e3o um dia.'><sup>14<\/sup><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>O efeito principal deste tipo de discurso, que \u00e9 tamb\u00e9m seu fim e sua fun\u00e7\u00e3o, \u00e9 o de negar a import\u00e2ncia de seu pr\u00f3prio interesse, que aparece necessariamente derris\u00f3rio e rid\u00edculo, de ser sempre associado\/comparado com um \u00abinteresse\u00bb superior, o mais freq\u00fcentemente grandioso e sagrado: o interesse da \u00abNatureza\u00bb por exemplo, ou da \u00abHumanidade\u00bb, ou de qualquer outra no\u00e7\u00e3o sacralizada.<\/p>\n<p>Com efeito, todas as domina\u00e7\u00f5es intra-humanas, tendem a centralizar os dominados a uma rela\u00e7\u00e3o de pertencer \u00e0 \u00abNatureza\u00bb. Esta \u00abordem\u00bb, \u00e9 o reino da funcionalidade, do determinismo, do valor relativo a outra coisa do que a si pr\u00f3prio, quer dizer, da n\u00e3o-individualidade. Os dominantes,ao contrario, s\u00e3o vistos como totalmente pertencentes \u00e0 \u00abHumanidade\u00bb,quer dizer, pertencem ao reino da autonomia, da liberdade, do valor em si, da individualidade, etc<span id='easy-footnote-15-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-15-1460' title='&lt;i&gt;Cf.&lt;\/i&gt; Y. Bonnardel, \u00abDe l\u2019appropriation... \u00e0 l\u2019id\u00e9e de Nature\u00bb, em &lt;i&gt;Cahiers antisp\u00e9cistes&lt;\/i&gt; n\u00b011, artigo que apresenta uma tese de Colette Guillaumin, (&lt;i&gt;Sexe, Race, Pratiques du pouvoir et id\u00e9e de Nature&lt;\/i&gt;, \u00e9d. Tierces, 1992) ampliando uma an\u00e1lise sobre o especismo.'><sup>15<\/sup><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Os testemunhos pululam de acordo com as fantasias das sociedades e das \u00e9pocas, sobre a \u00abnaturalidade\u00bb dos escravos, das mulheres, das crian\u00e7as, dos animais, mas tamb\u00e9m do povo, dos loucos, dos marginais, dos criminosos, dos homossexuais e, l\u00f3gico, tamb\u00e9m dos negros e dos povos colonizados. Seu lugar natural, na ordem natural, corresponde sempre \u00e0 fun\u00e7\u00e3o e ao lugar que lhes \u00e9 destinado socialmente; se os dominantes s\u00e3o livres<span id='easy-footnote-16-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-16-1460' title='&lt;i&gt;Cf.&lt;\/i&gt; Y. Bonnardel, &lt;i&gt;Une libert\u00e9 qui subjugue&lt;\/i&gt;, livreto editado pelo autor, novembro de 1994.'><sup>16<\/sup><\/a><\/span>, os outros, seres naturais, s\u00e3o ao contrario, programados pela \u00abNatureza\u00bb para continuarem no mesmo lugar, geralmente para a gl\u00f3ria da harmonia mundial.<\/p>\n<p>Isso significa que as domina\u00e7\u00f5es sempre foram percebidas como sendo algo natural, como fazendo parte da Ordem natural das coisas: todas as domina\u00e7\u00f5es \u00abpr\u00e9 capitalistas<span id='easy-footnote-17-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-17-1460' title='A sociedade capitalista tira, ao contrario, uma grande legitimidade ideol\u00f3gica ao se colocar como produto da atividade e da vontade dos humanos e, justamente, n\u00e3o da \u00abNatureza\u00bb e, ao se opor radicalmente a liberdade humana e instintos naturais. &lt;i&gt;Cf.&lt;\/i&gt; Broch. cit.'><sup>17<\/sup><\/a><\/span>\u00bb foram legitimadas por uma divindade ou pela Ordem natural e n\u00e3o devem ser questionadas, pois isso poderia provocar o caos. Assim sendo, a escravid\u00e3o foi sempre considerada como uma institui\u00e7\u00e3o natural. Da\u00ed uma feminista contempor\u00e2nea notou que, consideramos ainda o patriarcalismo, como um \u00abequil\u00edbrio\u00bb e como uma \u00abordem natural<span id='easy-footnote-18-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-18-1460' title='Amy, \u00abSous les cerisiers...\u00bb, na revista &lt;i&gt;Marie pas Claire&lt;\/i&gt;, n\u00b08, maio de 1996: \u00ab...a raz\u00e3o pela qual vemos em todos os lugares um \u00f3dio imenso dirigido aos gays, \u00e0s l\u00e9sbicas e aos bissexuais \u00e9 devido ao fato que estes amea\u00e7am a estabilidade, o assim dito equil\u00edbrio do patriarcado. O fato de existirem nega o que alguns gostam de chamar \u00aba ordem natural da sociedade patriarcal\u00bb. Observa\u00e7\u00e3o: \u00e9 por isso, como n\u00f3s j\u00e1 salientamos, fala-se muito da homossexualidade em termos de pervers\u00e3o ou de degeneresc\u00eancia...'><sup>18<\/sup><\/a><\/span>\u00bb.<\/p>\n<p>Por isso praticamente todos os movimentos reacion\u00e1rios fazem apelo ao naturalismo para manterem ou restabelecerem a ordem. Ou para legitimar o patriarcado, ou para justificar o racismo, o eugenismo, a monarquia, a guerra<span id='easy-footnote-19-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-19-1460' title='\u00ab... Ent\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dominar o medo e transformar a noite angustiante em c\u00famplice. Todos os sentidos em alerta, o chefe dirige seus homens, tanto com seu instinto quanto com sua ci\u00eancia militar. Ele sabe onde quer ir e sabe se a estrada est\u00e1 livre. O chefe se torna ca\u00e7ador, encontrando um instinto animal primordial\u00bb. Artigo \u00abLes commandos de chasse en Alg\u00e9rie\u00bb (As tropas de ca\u00e7a na Arg\u00e9lia) em um fasc\u00edculo semanal de dezembro de 1985 em &lt;i&gt;Troupes d\u2019\u00e9lite&lt;\/i&gt; (\u00e9d. Atlas).'><sup>19<\/sup><\/a><\/span> ou a volta das \u00abhierarquias naturais\u00bb, ou para combater a liberdade moral, a homossexualidade, a perda do masculino e do feminino...<\/p>\n<p>Os dominantes se referem maquinalmente \u00e0 \u00abNatureza\u00bb como argumento para cimentarem a ordem social e justificarem seu car\u00e1ter de desigualdade:<\/p>\n<blockquote><p>Se isso acontece automaticamente em civiliza\u00e7\u00f5es como as nossas, onde nenhuma sele\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o elimina os fracos, os d\u00e9beis mentais, os deformados, que deixamos viver, existe na natureza uma \u00abinjusti\u00e7a\u00bb, uma desigualdade entre os seres sem a qual (desigualdade) a vida seria imposs\u00edvel<span id='easy-footnote-20-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-20-1460' title='A. Lindbergh, militante da defesa animal e do Fronte Nacional, &lt;i&gt;op. cit.&lt;\/i&gt;, p. 107.'><sup>20<\/sup><\/a><\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>A conclus\u00e3o \u00abnatural\u00bb \u00e9, \u00abcada um em seu lugar\u00bb encontra naturalmente a solu\u00e7\u00e3o nos animais, pois a \u00abNatureza\u00bb age diretamente neles (a \u2018natureza\u2019 deles lhes dita diretamente a posi\u00e7\u00e3o que devem ocupar), mas que ocorre com os humanos somente se eles se tornarem \u00absubmissos\u00bb e usarem a liberdade que t\u00eam de forma \u00absadia\u00bb, aprendendo a ficar no lugar que devem, dentro da hierarquia social, agora invocada tamb\u00e9m como sendo algo natural:<\/p>\n<blockquote><p>... ele era um bom chefe, um verdadeiro chefe, como um rei deveria sempre ser, como eles foram nas idades onde a natureza nos ditava ainda suas leis e tudo era \u00abordem e beleza\u00bb, mesmo matar para viver, mesmo ficar doente, mesmo morrer<span id='easy-footnote-21-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-21-1460' title='&lt;i&gt;Ibid.&lt;\/i&gt;, p. 152.'><sup>21<\/sup><\/a><\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>O ser humano s\u00e1bio \u00e9 aquele que, colocando-se de acordo com a ordem fundamental, sabe minimizar a falta da natureza na vida em sociedade:<\/p>\n<blockquote><p>A reparti\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de um Pa\u00eds em diferentes classes, n\u00e3o \u00e9 o efeito de uma coincid\u00eancia nem de conven\u00e7\u00f5es sociais, ela possui uma base biol\u00f3gica profunda. \u00c9 preciso que cada um ocupe seu lugar natural. A presen\u00e7a de grupos estrangeiros indesej\u00e1veis do ponto de vista biol\u00f3gico, \u00e9 um perigo certo para a popula\u00e7\u00e3o francesa<span id='easy-footnote-22-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-22-1460' title='Alexis Carrel, f\u00e9vrier 1943, cit\u00e9 par Richard C\u0153urde em \u00abVoyage en Lep\u00e9nie&amp;nbsp;: extr\u00eame-droite et \u00e9cologie\u00bb, &lt;i&gt;Silence&lt;\/i&gt; n\u00b0158, octobre 1992.'><sup>22<\/sup><\/a><\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>e:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o h\u00e1 sobreviv\u00eancia poss\u00edvel se o Ocidente n\u00e3o encontrar as fontes da ordem natural<span id='easy-footnote-23-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-23-1460' title='Jean-Marie Le Pen, &lt;i&gt;Les fran\u00e7ais d\u2019abord&lt;\/i&gt;, \u00e9d. Car\u00e8re\/Lafont, 1984, citado por R. Coeurde, &lt;i&gt;ibid.&lt;\/i&gt;'><sup>23<\/sup><\/a><\/span>...<\/p><\/blockquote>\n<h2>Humanismo, naturalismo, mesma moeda!<\/h2>\n<p>O naturalismo \u00e9 fundamentalmente, como vemos, a ideologia do respeito da ordem e das domina\u00e7\u00f5es; se seu papel come\u00e7a a ser conhecido e compreendido no tocante ao racismo, ou ao sexismo, ele passa sistematicamente desapercebido quando \u00e9 relativo ao especismo; este parece algo t\u00e3o natural! As melhores cr\u00edticas geralmente n\u00e3o pensaram um segundo, que suas an\u00e1lises pudessem tamb\u00e9m se aplicar aos outros animais: os humanistas atacaram ao longo dos s\u00e9culos e da evolu\u00e7\u00e3o social, a id\u00e9ia que os humanos pudessem participar da ordem da \u00abNatureza\u00bb, mas essa cr\u00edtica quase sempre parou nas fronteiras da humanidade. Simplesmente chegamos ao ponto onde h\u00e1 uma ordem humana, social, reino da liberdade e da individualidade,e uma ordem n\u00e3o humana, natural, reino do determinismo e da funcionalidade. Agora todos os humanos fazem tendencialmente parte do primeiro grupo, todos os n\u00e3o humanos s\u00e3o irrevogavelmente relegados ao segundo. Pelo menos \u00e9 simples.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica t\u00edpica, fundamental, atrav\u00e9s da oposi\u00e7\u00e3o milenar entre \u00abNatureza\u00bb e \u00abHumanidade\u00bb, estes dois conceitos sendo puros produtos ideol\u00f3gicos e imagin\u00e1rios de um mundo fundado em domina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 esta cis\u00e3o do mundo em \u00abHumanidade\u00bb e \u00abNatureza\u00bb que devemos questionar, n\u00e3o como as pessoas que desejariam recolocar os humanos na Ordem natural, mas suprimindo estes conceitos e em particular, a id\u00e9ia de que existe uma Ordem natural. Somente com esta condi\u00e7\u00e3o, poder\u00e3o ser levados em conta, os interesses dos outros animais por si pr\u00f3prios. Poder\u00edamos por acaso imaginar que a luta contra o racismo ou o sexismo, pudesse ter progredido se os Negros ou as Mulheres continuassem sendo vistos como seres que fizessem parte de uma Ordem natural, da qual os brancos tivessem escapado?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por perceber os animais como pertencentes \u00e0 \u00abNatureza\u00bb, os humanos t\u00eam a impress\u00e3o que os n\u00e3o humanos n\u00e3o intervem a favor ou contra o destino das coisas como o faz a humanidade. Acreditam que os animais n\u00e3o humanos est\u00e3o e continuam imersos dentro, s\u00e3o prisioneiros disso, s\u00e3o obrigados a sofrer isso e \u2013 magn\u00edfica camuflagem da realidade- (\u2013 sem realmente sofrerem, pois s\u00e3o vistos como adaptados pela natureza - a Natureza \u00e9 t\u00e3o harmoniosa-).<\/p>\n<p>\u00c9 normal que se eu dou import\u00e2ncia \u00e0 vida de algu\u00e9m e que por outro lado, n\u00e3o possuo nenhum sentimento religioso, eu n\u00e3o o deixarei se tornar uma presa da \u00abNatureza\u00bb (quer dizer, do acaso das circunst\u00e2ncias) mas procurarei intervir. Mas, com rela\u00e7\u00e3o aos n\u00e3o-humanos, os humanos reagem freq\u00fcentemente de forma diferente, mesmo nos casos onde eles\/elas os amam. Assim sendo, se muitas pessoas n\u00e3o cuidam de \u00abseus\u00bb animais de companhia quando estes adoecem, n\u00e3o \u00e9 apenas pelo fato de serem avarentos, mas tamb\u00e9m pelo fato do animal e de sua doen\u00e7a serem vistos como origin\u00e1rios do mesmo mundo, a \u00abNatureza\u00bb, e intervir seria se infiltrar nesta outra ordem que n\u00e3o \u00e9 a nossa, nos neg\u00f3cios interiores de uma outra na\u00e7\u00e3o. Uma ordem da fatalidade e do destino (e paradoxalmente sempre, da harmonia); que seria perigoso subverter, desequilibrar, ao se intrometer nela.<\/p>\n<p>Spinoza criticava j\u00e1 no s\u00e9culo XVII a vis\u00e3o segundo a qual, a \u00abHumanidade\u00bb seria como um Imp\u00e9rio dentro de um Imp\u00e9rio (a \u00abNatureza\u00bb), o reino da liberdade no seio do reino do determinismo. Mas, com efeito, os humanos distinguem bem dois mundos, \u00abHumanidade\u00bb e \u00abNatureza\u00bb, mas justapostos, existindo lado a lado, em intera\u00e7\u00e3o. Eles\/ elas os colocam como sendo duas Ordens diferentes, como duas na\u00e7\u00f5es que mantenham um com\u00e9rcio, mas que estejam separadas por um fosso. De acordo com isso, \u00e9 preciso que as vacas sejam bem guardadas: os animais devem continuar na \u00abNatureza\u00bb, para obedecerem \u00e0 natureza e preencherem sua voca\u00e7\u00e3o natural, e os humanos devem continuar humanos e continuar obedecendo \u00e0 sua humanidade, \u00e0 sua liberdade, dignidade: \u00e0 sua grande id\u00e9ia de si pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Esta cis\u00e3o ideol\u00f3gica nos impede de imaginarmos uma solu\u00e7\u00e3o ao problema da preda\u00e7\u00e3o, nos impede de pensar que os n\u00e3o humanos, possam ter direito ao progresso, possam avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a um maior bem estar ao qual aspiram os humanos. Ela imp\u00f5e o desenvolvimento separado, o <i>apartheid das esp\u00e9cies<\/i>: de um lado,a \u00absele\u00e7\u00e3o natural\u00bb, a \u00ablei da selva\u00bb e do outro, as exig\u00eancias de justi\u00e7a. Entretanto, qualquer solu\u00e7\u00e3o ao problema da preda\u00e7\u00e3o seria desej\u00e1vel, desde que n\u00e3o suscitasse problemas maiores do que aqueles que aliviaria, do ponto de vista dos principais interessados: mesmo um mundo controlado e administrado de A \u00e0 Z pelos humanos seria um progresso, se esse mundo fosse por causa disso, mais agrad\u00e1vel de se viver para seus habitantes, do que o mundo atual. E, efetivamente, sobre qual outro crit\u00e9rio poder\u00edamos seriamente julgar isso? Um tal mundo talvez perderia muito em termos de liberdade, em imprevisibilidade, em autonomia, em poesia, mas o que \u00abn\u00f3s\u00bb humanos perder\u00edamos em uma tal empreitada, se confrontado com o tanto que outros seres teriam a ganhar?!<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o contra a divis\u00e3o ideol\u00f3gica do mundo em duas Ordens, que deve se levantar o anti-especismo, contra o apartheid das esp\u00e9cies que da\u00ed \u00e9 resultante.<\/p>\n<h2>Ecologia e libera\u00e7\u00e3o animal<\/h2>\n<p>Falamos freq\u00fcentemente nos <i>Cadernos anti-especistas<\/i>, de nossa posi\u00e7\u00e3o face aos movimentos progressistas humanistas. Mas nunca abordamos a quest\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es que podem ter os movimentos ecologista e anti-especista.<\/p>\n<p>Em que medida os valores e as vis\u00f5es do mundo que veiculam estes dois movimentos, s\u00e3o compat\u00edveis? E, uma pergunta diferente, em que medida eles podem ser aliados no mesmo terreno?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Primeiro ponto, o n\u00edvel ideol\u00f3gico: o anti-especismo se preocupa com a sobreviv\u00eancia e o bem estar dos indiv\u00edduos, o que n\u00e3o \u00e9 o caso da ecologia \u2013 quando esta forja faz\u00ea-lo, \u00e9 porque os indiv\u00edduos em quest\u00e3o s\u00e3o dotados de caracter\u00edsticas que t\u00eam a ver com suas vidas apenas de modo acidental, como o fato dos ursos, das baleias, ou dos lobos de pertencerem a uma esp\u00e9cie em via de extin\u00e7\u00e3o e, de fazerem positivamente relevo e serem s\u00edmbolos no imagin\u00e1rio dos humanos<span id='easy-footnote-24-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-24-1460' title='Um dia escutei dois ecologistas lamentarem com indigna\u00e7\u00e3o, o fato de um campon\u00eas cortar \u00e1rvores magn\u00edficas, que eram t\u00e3o grandes e t\u00e3o belas, depois passaram a conversar com grande entusiasmo sobre a pesca: que belo peixe um deles tinha pescado (e matado) e como era enorme!'><sup>24<\/sup><\/a><\/span>. A ecologia adota e refor\u00e7a valores naturalistas: a \u00abNatureza\u00bb \u00e9 um valor em si,n\u00e3o deve ser tocada, ou tudo pode desmoronar: \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o \u00abdeep-ecologista\u00bb, partilhada pouco ou bastante pela grande maioria. Ou ela guarda os valores humanistas: a \u00abNatureza\u00bb \u00e9 nosso meio ambiente (\u00e9 \u00abnossa\u00bb), e \u00e9, como tal, um capital (financeiro, cultural, est\u00e9tico) que n\u00e3o devemos dissipar, mas preservar e fazermos frutificar, em vez de consumirmos sem julgar e destruirmos: esta \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o dos meio ambientalistas. A \u00abNatureza\u00bb \u00e9 ent\u00e3o, um patrim\u00f4nio que devemos restaurar como fazemos com os antigos pr\u00e9dios carregados de hist\u00f3ria, ou que devemos salvar como os museus salvam e colocam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, as obras de arte (\u00e9 o que s\u00e3o as reservas naturais). Claro que isto se completa com o fato de levar em conta que o futuro da humanidade seja tribut\u00e1rio de um meio ambiente n\u00e3o demasiadamente patog\u00eanico<span id='easy-footnote-25-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-25-1460' title='O meio ambientalismo humanista \u00e9 a ideologia e a posi\u00e7\u00e3o oficial dos poderes nacionais ou internacionais: em 1969, as Na\u00e7\u00f5es-unidas e a Uni\u00e3o internacional pela Conserva\u00e7\u00e3o da Natureza definiram a \u00abconserva\u00e7\u00e3o\u00bb como sendo a \u00abutiliza\u00e7\u00e3o racional do meio ambiente permitindo atingir a mais alta qualidade de vida poss\u00edvel para a humanidade\u00bb.'><sup>25<\/sup><\/a><\/span>.<\/p>\n<p>Egoc\u00eantrica ou antropoc\u00eantrica, a ecologia continua sendo fundamentalmente especista<span id='easy-footnote-26-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-26-1460' title='Alguns deep-ecologistas param de ser especistas quando come\u00e7am tamb\u00e9m a desvalorizar os interesses dos indiv\u00edduos humanos, em detrimento do interesse de \u00abNossa M\u00e3e, a Terra\u00bb: infelizmente!'><sup>26<\/sup><\/a><\/span>, seja situando os n\u00e3o humanos como partes da \u00abNatureza\u00bb, ou ao lhes incluir na no\u00e7\u00e3o de meio ambiente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma vez que a constata\u00e7\u00e3o das diverg\u00eancias pol\u00edticas foi feita, ser\u00e1 que converg\u00eancias de ordem pr\u00e1tica seriam poss\u00edveis?<\/p>\n<p>O bem estar dos seres sens\u00edveis precisa de um meio ambiente que lhes seja adaptado, e a crise \u00abecol\u00f3gica\u00bb atual implica um n\u00famero incomensur\u00e1vel de animais dos quais quase nada ou nada sabemos, justamente porque eles n\u00e3o s\u00e3o nossos comensais. Bilh\u00f5es de seres sens\u00edveis v\u00eam suas condi\u00e7\u00f5es de vida serem deterioradas, seu meio ambiente habitual desaparecer, a alimenta\u00e7\u00e3o faltar. N\u00e3o \u00e9 a \u00abNatureza\u00bb que \u00e9 v\u00edtima das chuvas \u00e1cidas que desertificam centenas de lagos, de irradia\u00e7\u00f5es que contaminaram vastos territ\u00f3rios (Tchernobyl), dos automobilistas, dos desflorestamentos, das repetidas polui\u00e7\u00f5es marinhas, dos inseticidas; as v\u00edtimas s\u00e3o indiv\u00edduos concretos, que n\u00e3o vemos esfomeados, envenenados, asfixiados (os peixes e demais animais nos lagos), irradiados, e que por isso, continuam abstratos em nosso imagin\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o creio de forma alguma, que a \u00abNatureza\u00bb seja o meio ambiente ideal para a maioria dos indiv\u00edduos da maior parte das esp\u00e9cies. Por exemplo, h\u00e1 chances que \u00abnossas\u00bb galinhas, vacas, cabras que est\u00e3o em \u00abnossos\u00bb pastos tenham uma exist\u00eancia mais tranq\u00fcila e alegre do que suas ancestrais selvagens que viveram quando os predadores pululavam: com exce\u00e7\u00e3o do fato que ser\u00e3o, no fim das contas, mortas, elas s\u00e3o muitas vezes protegidas, est\u00e3o em lugar seguro, cuidadas, alimentadas, etc. Mas se um animal selvagem n\u00e3o est\u00e1 necessariamente em um para\u00edso nesta terra, acontece que \u00abpoluir<span id='easy-footnote-27-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-27-1460' title='O termo \u00abpoluir\u00bb tem conota\u00e7\u00f5es quase-m\u00edsticas, e n\u00e3o \u00e9 um erro se o utilizamos para falar das interfer\u00eancias das atividades propriamente humanas com o resto do mundo: a \u00abNatureza\u00bb \u00e9 suposta como sendo feminina, virgem, v\u00edtima, agredida por uma Humanidade viril que a polui, sujando-a, tirando sua pureza e desnaturando-a. Nos encontramos aqui em plena mitologia patriarcal.'><sup>27<\/sup><\/a><\/span>\u00bb seu meio ambiente, \u00e9 uma maneira de torn\u00e1-lo ainda mais perigoso (produtos nocivos) ou menos adaptado (desaparecimento ou diminui\u00e7\u00e3o de certos alimentos) e ent\u00e3o, de reduzir seu bem estar<span id='easy-footnote-28-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-28-1460' title='Ainda que... As \u00abpolui\u00e7\u00f5es\u00bb favore\u00e7am freq\u00fcentemente alguns, ao desfavorecerem outros: Exemplo: os pesticidas, ainda que os insetos n\u00e3o fossem capazes de sofrer, causam provavelmente, por efeito indireto, situa\u00e7\u00f5es atrozes\u00bb. Mas, por outro lado, por causa de sua utiliza\u00e7\u00e3o, as aves de rapina tendem a desaparecer: seus ovos simplesmente n\u00e3o eclodem. O sofrimento destas aves parece se limitar a uma eventual frustra\u00e7\u00e3o de n\u00e3o ter filhotes enquanto, por outro lado, suas presas potenciais estar\u00e3o mais tranq\u00fcilas.'><sup>28<\/sup><\/a><\/span>. Do mesmo modo, os perigos ligados ao nuclear, aos autom\u00f3veis, etc, tamb\u00e9m o atingem; eis terrenos de a\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es em comum que temos com os ecologistas.<\/p>\n<p>Por outro lado, pode haver diverg\u00eancia e oposi\u00e7\u00e3o, quando estes \u00faltimos querem reintroduzir predadores ou presas, se isso vai no sentido de um maior sofrimento geral. Ou se eles\/elas querem conservar um ecossistema particularmente catastr\u00f3fico (por exemplo, o exemplo j\u00e1 dado das hienas que estra\u00e7alham suas presas ainda vivas...) em nome do \u00abisso \u00e9 algo natural!\u00bb. E, <i>se<\/i> um dia, encontrarmos os meios de intervir em grande escala, \u00e9 claro que as diverg\u00eancias se aprofundar\u00e3o e se tornar\u00e3o verdadeiros antagonismos pr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Mas, por enquanto, o problema relativo a uma alian\u00e7a atual sobre as lutas pr\u00e1ticas, nas quais a ecologia e a libera\u00e7\u00e3o animal possam se unir (como a luta contra as polui\u00e7\u00f5es dos rios ou a quest\u00e3o nuclear) \u00e9 um problema de ordem ideol\u00f3gica: n\u00f3s temos uma vis\u00e3o nova do mundo, ultra minorit\u00e1ria e muito mal aceita; como podemos evitar que essa vis\u00e3o n\u00e3o seja devorada dentro do naturalismo comum, mas que, ao contr\u00e1rio ela se destaque e apare\u00e7a claramente?<\/p>\n<p>Uma das mensagens que devemos divulgar \u00e9 que: podem existir diverg\u00eancias entre os interesses dos indiv\u00edduos n\u00e3o-humanos e os interesses que atribu\u00edmos abusivamente ao \u00abSistema\u00bb, ao \u00abTodo\u00bb (\u00abNatureza\u00bb). Mostrar que os animais s\u00e3o indiv\u00edduos que possuem interesses <i>pr\u00f3prios<\/i>. Mas como difundir esse tipo de mensagem em uma luta pelo meio ambiente? Ainda que a margem de interven\u00e7\u00e3o seja particularmente estreita, se quisermos que o anti-especismo seja compreendido precisamente, ainda persiste a possibilidade de refazermos um discurso puramente ecologista, dizendo que \u00abnosso\u00bb meio ambiente desempenha um papel fundamental em \u00abnosso\u00bb bem estar; mas, claro que, incluindo explicitamente os seres sens\u00edveis n\u00e3o humanos neste \u00abn\u00f3s\u00bb \/\u00abnosso\u00bb. E n\u00e3o hesitemos em insistir que se a vida dos animais j\u00e1 \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil (doen\u00e7as, preda\u00e7\u00e3o, procura de alimenta\u00e7\u00e3o, problemas diversos de rela\u00e7\u00f5es, etc.) n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio incluir que s\u00e3o geralmente mais vulner\u00e1veis que os humanos (pois t\u00eam menos possibilidades de dominar o meio ambiente onde vivem). Um discurso onde a no\u00e7\u00e3o de meio ambiente venha quebrar a tradicional dicotomia \u00abNatureza\u00bb\/ \u00abHumanidade\u00bb (o que n\u00e3o torna o discurso ecol\u00f3gico antropoc\u00eantrico, pois a no\u00e7\u00e3o de meio ambiente toca, recupera a no\u00e7\u00e3o de \u00abNatureza\u00bb), de um lado colocando todos os seres sens\u00edveis na categoria daqueles que precisam de um meio ambiente adaptado e de uma certa qualidade de vida, e de outro lado n\u00e3o hesitando, quando for poss\u00edvel, incluir os humanos na no\u00e7\u00e3o do meio ambiente: as atividades humanas e os produtos destas atividades s\u00e3o uma parte de nosso meio ambiente, assim como o dos outros animais \u2013 da mesma maneira daquilo que chamamos \u00abNatureza\u00bb.<\/p>\n<h2>Luta pr\u00e1tica e luta te\u00f3rica<\/h2>\n<p>Para certas pessoas, talvez tudo isso poder\u00e1 parecer bem abstrato, e sem d\u00favida ser\u00e1 invocada a urg\u00eancia que h\u00e1 de se fazer uma interven\u00e7\u00e3o que evite as destrui\u00e7\u00f5es dos ecossistemas. Isso com o pressentimento de que as diverg\u00eancias de id\u00e9ias paralisariam inutilmente as a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que consideramos t\u00e3o importante atacarmos: a id\u00e9ia de Natureza, este \u00abfantasma\u00bb naturalista. Acreditamos que, por enquanto, a luta ocorre no campo das id\u00e9ias; e que ela durar\u00e1 dec\u00eanios e que apenas poder\u00e1 tirar sua for\u00e7a da justi\u00e7a e da precis\u00e3o das teorias e das an\u00e1lises que possamos elaborar. N\u00e3o \u00e9 o tempo de darmos a isso uma conota\u00e7\u00e3o <i>pol\u00edtica<\/i> para agirmos concretamente (salvar alguns coelhos ou ratos): hoje, as a\u00e7\u00f5es devem ter como finalidade essencial, a divulga\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias e desta nova vis\u00e3o que queremos dar sobre os animais: as a\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o um fim em si mas, antes de tudo, um meio a servi\u00e7o de nossas id\u00e9ias. A prioridade n\u00e3o \u00e9 a pr\u00e1tica pela pr\u00e1tica, mas sim a propaga\u00e7\u00e3o de nosso ponto de vista, que passa pelas an\u00e1lises pol\u00edticas e teorias morais, cujas a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, atualmente devem ser os trampolins<span id='easy-footnote-29-1460' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#easy-footnote-bottom-29-1460' title='David Olivier, \u00abLes humains sont des animaux\u00bb, nos &lt;i&gt;Cahiers antisp\u00e9cistes&lt;\/i&gt; n\u00b09 de janeiro de 1994.'><sup>29<\/sup><\/a><\/span>. Por isso atribu\u00edmos tanta import\u00e2ncia \u00e0 cr\u00edtica ideol\u00f3gica e cultural do especismo e, em particular, do naturalismo; \u00e9 por isso que \u00e9 t\u00e3o importante nos distanciarmos do ecologismo, critic\u00e1-lo, colocarmos em evid\u00eancia o que nos distingue e nos op\u00f5e a ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensamos que a cr\u00edtica, porque atualmente divida ao inv\u00e9s de conciliar, deva esperar dias melhores: a cr\u00edtica contra a ecologia, por exemplo, nunca impediu os anti-especistas de lutarem contra a energia nuclear ou os carros, etc. Com certeza, a quest\u00e3o da preda\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos rochedos mais perigosos sobre o qual a libera\u00e7\u00e3o animal corre o risco de escorregar, justamente porque ela (a quest\u00e3o da preda\u00e7\u00e3o) afronta diretamente a ideologia dominante em um ponto extremamente sens\u00edvel, mas naufragareamos mais cedo ou mais tarde, se ignorarmos este perigo e n\u00e3o formos capazes de aceitar o desafio.<\/p>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma que S.F. Sapontzis argumenta em detalhe: eu considero como justo, ajudar todo indiv\u00edduo que precise a menos, evidentemente, que o rem\u00e9dio seja pior do que a doen\u00e7a. Considero justo tentar modificar um estado de fato (uma sociedade ou um ecossistema) no sentido de um maior bem estar global dos seres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[211],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v14.9 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Contra o apartheid das esp\u00e9cies - Les Cahiers antisp\u00e9cistes<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Contra o apartheid das esp\u00e9cies - Les Cahiers antisp\u00e9cistes\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 a mesma que S.F. Sapontzis argumenta em detalhe: eu considero como justo, ajudar todo indiv\u00edduo que precise a menos, evidentemente, que o rem\u00e9dio seja pior do que a doen\u00e7a. Considero justo tentar modificar um estado de fato (uma sociedade ou um ecossistema) no sentido de um maior bem estar global dos seres [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Les Cahiers antisp\u00e9cistes\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2006-08-25T17:14:35+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2018-11-21T16:51:01+00:00\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/#website\",\"url\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/\",\"name\":\"Les Cahiers antisp\\u00e9cistes\",\"description\":\"R\\u00e9flexion et action pour l&#039;\\u00e9galit\\u00e9 animale\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/?s={search_term_string}\",\"query-input\":\"required name=search_term_string\"}],\"inLanguage\":\"pt-PT\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/#webpage\",\"url\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/\",\"name\":\"Contra o apartheid das esp\\u00e9cies - Les Cahiers antisp\\u00e9cistes\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/#website\"},\"datePublished\":\"2006-08-25T17:14:35+00:00\",\"dateModified\":\"2018-11-21T16:51:01+00:00\",\"author\":{\"@id\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/#\/schema\/person\/562932d067b6d8629e5317a7f5ff3355\"},\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/contra-o-apartheid-das-especies\/\"]}]},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/#\/schema\/person\/562932d067b6d8629e5317a7f5ff3355\",\"name\":\"Yves Bonnardel\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"@id\":\"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/#personlogo\",\"inLanguage\":\"pt-PT\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/94b0a5634701ff473bcf5cbb73c39ad1?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"Yves Bonnardel\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1460\/"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post\/"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12\/"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments\/?post=1460"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1460\/revisions\/"}],"predecessor-version":[{"id":2452,"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1460\/revisions\/2452\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/?parent=1460"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories\/?post=1460"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags\/?post=1460"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}