{"id":1450,"date":"2006-12-01T18:57:09","date_gmt":"2006-12-01T17:57:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1450&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T19:09:34","modified_gmt":"2016-05-01T17:09:34","slug":"o-consumo-de-carne-na-franca-contradicoes-atuais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/o-consumo-de-carne-na-franca-contradicoes-atuais\/","title":{"rendered":"O consumo de carne na Fran\u00e7a: contradi\u00e7\u00f5es atuais"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p>A \u00e9poca atual assiste ao crescimento da sensibilidade geral da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos animais. Numerosos comportamentos mudam, mais ou menos lenta, mas infalivelmente. Sobretudo no que concerne ao consumo de carne. Mas, como se ver\u00e1, isso lamentavelmente n\u00e3o significa, de modo algum, uma melhora da sorte da esmagadora maioria dos animais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Referir-se, por exemplo, ao artigo de E. Reus,  \u00ab&nbsp;Vie, mort et\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Na nossa civiliza\u00e7\u00e3o, a carne tem sido, desde sempre, o alimento por excel\u00eancia, aquele que d\u00e1 for\u00e7a e sa\u00fade, e que refei\u00e7\u00e3o alguma digna deste nome saberia dispensar (a palavra carne, <i>vivanda<\/i>, designava originalmente todo e qualquer alimento, tudo o que faz viver). E a carne, a verdadeira, a bem viril, era, simbolicamente, a carne vermelha. E o resto...<\/p>\n<p>Entretanto, desde aproximadamente uma d\u00e9cada, o consumo de carne vermelha est\u00e1 estagnado ou regride\u00a0: \u00ab\u00a0O <i>steak<\/i> perde terreno: de tr\u00eas anos para c\u00e1, o consumo de carne est\u00e1 estagnado, sobretudo de carne bovina<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"Marc Traverson,  \u00ab&nbsp;La Fibre verte&nbsp;\u00bb, [ \u00ab&nbsp;A Fibra verde&nbsp;\u00bb], Le Point, 25 de abril\u00a0(...)\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span>\u00a0\u00bb. A tal ponto, que isso est\u00e1 inquietando os industriais da \u00ab\u00a0fieira do boi\u00a0\u00bb, que lan\u00e7aram recentemente uma gigantesca campanha publicit\u00e1ria que se vale de todos os meios e tem os mais variados objetivos. O CIV (Centro de Informa\u00e7\u00e3o das Carnes) difunde um livrinho destinado \u00e0s crian\u00e7as, com hist\u00f3rias em quadrinhos de Popeye, charada etc., intitulado \u00ab\u00a0Mais ferro para tornar mais forte\u00a0\u00bb, assim como dois folhetos, intitulados \u00ab\u00a0O boi europeu de qualidade: a carne, um patrim\u00f4nio que constr\u00f3i a vida<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"As suas publicidades podem ser encomendadas gratuitamente ao CIV (Centro de\u00a0(...)\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span>.\u00a0\u00bb Neste ano, essas pe\u00e7as publicit\u00e1rias foram maci\u00e7amente difundidas nos trens de grande velocidade, nos consult\u00f3rios m\u00e9dicos... Outras pe\u00e7as publicit\u00e1rias do CIV (\u00ab\u00a0A carne, fonte natural de ferro&nbsp;\u00bb) apareceram por diversas vezes em <i>TV Mag<\/i> [Revista da TV] e <i>Science &amp; Vie<\/i> <i>Ci\u00eancia &amp; Vida<\/i> e, sem d\u00favida, em muitas outras revistas e jornais. Todas, qualquer que seja o p\u00fablico visado, alegam um discurso diet\u00e9tico.<\/p>\n<h3 class=\"spip\">Por que as carnes vermelhas?<\/h3>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o classifica tradicionalmente as carnes de animais em quatro categorias: as carnes negras, vermelhas e brancas, e \u00ab\u00a0o\u00a0\u00bb peixe. Escapam a esta classifica\u00e7\u00e3o certas carnes de estatuto particular, como a dos porcos, carac\u00f3is, r\u00e3s e \u00ab\u00a0frutos do mar\u00a0\u00bb\u00a0; n\u00e3o falarei delas aqui.<\/p>\n<p>Essas carnes s\u00e3o hierarquizadas e portadoras de simb\u00f3licas diferentes, do mesmo modo que os animais que fornecem, contra a sua vontade, a sua mat\u00e9ria:<\/p>\n<ul>\n<li>As carnes negras s\u00e3o as de certas ca\u00e7as (muito particularmente do javali), e s\u00e3o consideradas como muito \u00ab\u00a0fortes\u00a0\u00bb, possuindo um forte gosto de \u00ab\u00a0selvagem\u00a0\u00bb: s\u00e3o carnes de conota\u00e7\u00e3o extremamente viril<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"Bertrand Hell,  \u00ab&nbsp;Le sauvage consomm\u00e9&nbsp;\u00bb [O selvagem consumado], revista Terrain\u00a0(...)\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>.<\/li>\n<li>As carnes vermelhas s\u00e3o essencialmente as dos grandes mam\u00edferos terrestres dom\u00e9sticos (bois, cavalos...) ou selvagens (cervos, gamos...). Esses animais simbolizam geralmente a for\u00e7a (\u00ab\u00a0Que vigor que tem o boi!\u00a0\u00bb), a nobreza, a virilidade, e, em quase todas as civiliza\u00e7\u00f5es, s\u00e3o os homens que os criam e os matam.As carnes vermelhas (-sangue) e negras (-sangue) s\u00e3o as que causam o mais forte sentimento de domina\u00e7\u00e3o: por um lado, pela sua cor, evocat\u00f3ria da viol\u00eancia que presidiu \u00e0 sua produ\u00e7\u00e3o, e por outro lado, porque os animais que, no caso, pagam o pato, s\u00e3o justamente aqueles com os quais a gente (e sobretudo os homens) vai se identificar com mais facilidade: animais selvagens, livres, ou animais grandes, imponentes. Se tiver de haver no consumidor um desgosto pelo sentimento de domina\u00e7\u00e3o, ou pela evoca\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, ele se concentrar\u00e1, assim, primeiramente, nas carnes negras e vermelhas - e sobretudo nestas \u00faltimas, sendo o das carnes negras um consumo marginal.<\/li>\n<li>As carnes brancas (aves dom\u00e9sticas, coelhos e, eventualmente, de maneira for\u00e7ada, bezerros...) constituem a carne de animais pequenos, ou de filhotes de animais, tanto uns como os outros geralmente identificados com as mulheres. A met\u00e1fora fundamental da  \u00ab&nbsp;mulher\u00a0\u00bb \u00e9, com efeito, a ave dom\u00e9stica<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh5\" class=\"spip_note\" title=\"Marina Yaguello, Les mots et les femmes As palavras e as mulheres, ed.\u00a0(...)\" href=\"#nb5\" rel=\"footnote\">5<\/a>]<\/span>. Entre os gregos antigos, tal como em outras civiliza\u00e7\u00f5es (entre as quais a nossa, de muitas maneiras), as mulheres est\u00e3o exclu\u00eddas da cria\u00e7\u00e3o para a obten\u00e7\u00e3o da carne de animais, exceto aves dom\u00e9sticas, coelhos e, eventualmente, cabras, e do consumo da carnes dos mesmos<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh6\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. (sob a dire\u00e7\u00e3o de) G. Duby e M. Perrot, Histoire des femmes Hist\u00f3ria das\u00a0(...)\" href=\"#nb6\" rel=\"footnote\">6<\/a>]<\/span>. Essas carnes brancas simbolizam menos marcadamente a domina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente porque a sua cor n\u00e3o evoca o sangue, mas tamb\u00e9m porque os animais correspondentes, de menor porte e menos onerosos (e, portanto, mais comuns) e menos perigosos por ocasi\u00e3o de sua matan\u00e7a, s\u00e3o menos valorizados.<\/li>\n<li>A carne dos peixes, por fim, n\u00e3o evoca sen\u00e3o de leve a viol\u00eancia, e quase n\u00e3o d\u00e1 guarida a um sentimento de domina\u00e7\u00e3o\/valoriza\u00e7\u00e3o para aquele que os come, salvo, e em menor medida, no que se refere aos peixes carn\u00edvoros (predadores), como as solhas, salm\u00f5es (de carne rosada), trutas, tubar\u00f5es ou peixes-espadas. Isso a tal ponto, que muitas vezes as pessoas que deixaram de consumir as outras carnes continuam a comer os peixes, como se estes \u00faltimos n\u00e3o estivessem sujeitos \u00e0 opress\u00e3o, ao sofrimento e \u00e0 morte da mesma forma que os animais terrestres de sangue quente.<\/li>\n<\/ul>\n<h3 class=\"spip\">Pequeno aparte sobre \u00ab\u00a0o\u00a0\u00bb peixe:<\/h3>\n<p>Permito-me aqui uma digress\u00e3o referente ao estatuto \u00e0 parte dos peixes, que tamb\u00e9m nos esclarecer\u00e1 um pouco sobre esse sentimento de domina\u00e7\u00e3o: creio que se d\u00e1 um grande passo em termos de compreens\u00e3o, ao considerar que n\u00f3s n\u00e3o conhecemos os peixes, nem a sua vida, nem o seu ambiente de vida, n\u00f3s quase n\u00e3o os vemos evoluir, n\u00e3o os ouvimos gritar, n\u00e3o temos a priori nenhum meio de comunicar-nos com eles e, portanto, de atribuir-lhes um lugar de sujeito ou de interlocutor (mesmo que seja somente no nosso imagin\u00e1rio); eles permanecem a priori objetos nas representa\u00e7\u00f5es e nos sentimentos que temos deles: eles s\u00e3o totalmente diferentes de n\u00f3s. Eles \u00ab\u00a0n\u00e3o t\u00eam nenhuma semelhan\u00e7a conosco, nenhuma sociedade, eles nos s\u00e3o totalmente estranhos, n\u00f3s n\u00e3o obtemos nenhum servi\u00e7o deles, e tampouco qualquer utilidade durante a sua vida, mal eles saem da \u00e1gua e j\u00e1 morrem por si mesmos... se se lhes tira esse resto de vida eles n\u00e3o d\u00e3o nenhum grito... e o pouco de sangue que eles espalham n\u00e3o \u00e9 capaz de despertar piedade em n\u00f3s<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh7\" class=\"spip_note\" title=\"Delamare, Trait\u00e9 de la police Tratado da pol\u00edcia, M. Brunet ed., Paris, 1719,\u00a0(...)\" href=\"#nb7\" rel=\"footnote\">7<\/a>]<\/span>.\u00a0\u00bb<\/p>\n<p>O peixe \u00e9, assim, simbolicamente, objeto, n\u00e3o de uma matan\u00e7a, mas de uma simples colheita (\u00ab\u00a0A sua pr\u00f3pria morte \u00e9 passiva e n\u00e3o requer sen\u00e3o uma interven\u00e7\u00e3o humana muito fraca, que esvazia todo o ato sacrificial<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh8\" class=\"spip_note\" title=\"Laurence B\u00e9rard,  \u00ab&nbsp;O Consumo de peixe na Fran\u00e7a: prescri\u00e7\u00f5es alimentares com a\u00a0(...)\" href=\"#nb8\" rel=\"footnote\">8<\/a>]<\/span>.\u00a0\u00bb). Ele aparece no imagin\u00e1rio dos seres humanos por demais advent\u00edcio para dar guarida, pelo vi\u00e9s da viol\u00eancia do exterm\u00ednio, a um real sentimento de domina\u00e7\u00e3o. Este \u00faltimo implica sentir uma proximidade, uma rela\u00e7\u00e3o e uma comunidade de destino, condi\u00e7\u00e3o preliminar necess\u00e1ria \u00e0 <i>distin\u00e7\u00e3o<\/i> que o ato de domina\u00e7\u00e3o estabelece: o outro \u00e9 inferiorizado, depreciado pelo ato de viol\u00eancia, e o matador\/comedor \u00e9 superiorizado, diferenciado, distinguido, valorizado pelo mesmo. Ao contr\u00e1rio dos peixes, \u00e9 precisamente o que se passa com os animais terrestres, de sangue quente, capazes de fugir, de manifestar o seu medo, de se debater...<\/p>\n<p>Consequentemente, os peixes praticamente n\u00e3o constituem um alimento nobre; a Quaresma outrora n\u00e3o era vivida positivamente, \u00e9 o m\u00ednimo que se pode dizer! Tratava-se de um tema popular, como d\u00e1 testemunho disso uma par\u00f3dia medieval dos cantares de gesta, \u00ab\u00a0A Batalha da Quaresma e do Carnal<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh9\" class=\"spip_note\" title=\"\u00c9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo e o objeto de um quadro de Brueghel, o Velho.\" href=\"#nb9\" rel=\"footnote\">9<\/a>]<\/span>\u00a0\u00bb. E isso, n\u00e3o somente porque a alimenta\u00e7\u00e3o era ent\u00e3o mais problem\u00e1tica do que hoje. Nos dias normais, os peixes, vendidos fumados, salgados e curados ao fumeiro, defumados, ou salgados nos mercados, permaneciam como alimento de pobres. Nos dias de jejum, os ricos e dominantes compravam peixes vivos (pelo frescor, ou para poder mat\u00e1-los?); ou ent\u00e3o, tentavam de contornar os interditos religiosos, comendo \u00ab\u00a0bichos aqu\u00e1ticos\u00a0\u00bb: aves aqu\u00e1ticas (patos...), r\u00e3s, tartarugas, e mesmo... castores<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh10\" class=\"spip_note\" title=\" \u00ab&nbsp;As patas traseiras do castor s\u00e3o espalmadas e a sua cauda parece a certos\u00a0(...)\" href=\"#nb10\" rel=\"footnote\">10<\/a>]<\/span>! No conjunto, comia-se pouco peixe fora dos dias de Quaresma e de jejum<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh11\" class=\"spip_note\" title=\"L. Stauff, Ravitaillement et alimentation en Provence aux XIVe et XVe\u00a0(...)\" href=\"#nb11\" rel=\"footnote\">11<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>J\u00e1 entre os gregos, os peixes, ainda que muito apreciados, n\u00e3o eram considerados como carne. Isso parece ter permanecido como regra durante a Antiguidade, e, \u00ab\u00a0n\u00e3o foi, na verdade, sen\u00e3o ap\u00f3s a institui\u00e7\u00e3o do cristianismo que a pesca fez progressos. Ela n\u00e3o havia passado de uma profiss\u00e3o vil, abandonada \u00e0s m\u00e3os de escravos: a necessidade de satisfazer os dias de abstin\u00eancia converteu-a numa profiss\u00e3o necess\u00e1ria<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh12\" class=\"spip_note\" title=\"No\u00ebl de la Marini\u00e8re, Histoire g\u00e9n\u00e9rale des p\u00eaches anciennes et modernes\u00a0(...)\" href=\"#nb12\" rel=\"footnote\">12<\/a>]<\/span>.\u00a0\u00bb<\/p>\n<p>Necess\u00e1ria, se diz, mas de pouco prest\u00edgio por isso: contrariamente \u00e0 ca\u00e7a, \u00ab\u00a0ela era considerada [por volta do fim da Idade M\u00e9dia] antes como uma atividade econ\u00f4mica (pesca com rede nos rios e drenagem peri\u00f3dica dos lagos); o senhor, que detinha o respectivo monop\u00f3lio, ter-se-ia rebaixado se ele mesmo a tivesse exercido<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh13\" class=\"spip_note\" title=\"Philippe Salvadori,  \u00ab&nbsp;La Chasse, une passion fran\u00e7aise&nbsp;\u00bb [A Ca\u00e7a, uma paix\u00e3o\u00a0(...)\" href=\"#nb13\" rel=\"footnote\">13<\/a>]<\/span>.\u00a0\u00bb Em compensa\u00e7\u00e3o, ele se reservava inteiramente o direito da ca\u00e7a, valorizando a si mesmo, e s\u00edmbolo de sua domina\u00e7\u00e3o sobre os outros animais, sobre as suas terras e sobre os outros humanos.<\/p>\n<p><span class=\"spip_document_6 spip_documents spip_documents_center\"> <img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/IMG\/squelettes\/documents\/zigoui.gif\" alt=\"\" width=\"103\" height=\"11\" \/><\/span><\/p>\n<p>Este r\u00e1pido hist\u00f3rico, e a breve an\u00e1lise que dele apresento, d\u00e3o a explica\u00e7\u00e3o de um fato que, de outro modo, pode parecer incompreens\u00edvel: as pessoas que deixam de comer carne, ou se recusam a faz\u00ea-lo, rejeitam com frequ\u00eancia, antes de mais nada, a carne vermelha, depois, eventualmente, a carne branca, e enfim (nem sempre) os peixes; isso sobretudo quando a rejei\u00e7\u00e3o parte de um desgosto (isto \u00e9, de bases n\u00e3o-formuladas e impensadas, e do qual, no ambiente social atual, bem frequentemente se prefere que elas continuem sendo<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh14\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. David Olivier, \u00ab&nbsp;&quot;C\u2019est horrible.&quot;&nbsp;\u00bb, [\u00c9 horr\u00edvel], Cahiers antisp\u00e9cistes\u00a0(...)\" href=\"#nb14\" rel=\"footnote\">14<\/a>]<\/span>).<\/p>\n<p>O sentimento da viol\u00eancia (notadamente engendrado pela vis\u00e3o do sangue) e os sentimentos de domina\u00e7\u00e3o est\u00e3o muito ligados. N\u00e3o \u00e9, entretanto, a mesma coisa, e n\u00e3o \u00e9 evidente que, ao deixarem de comer carne vermelha, os nossos contempor\u00e2neos estejam reagindo realmente contra a domina\u00e7\u00e3o imposta aos outros animais. Em compensa\u00e7\u00e3o, creio que \u00e9 muito veross\u00edmil que eles reagem contra o espet\u00e1culo da viol\u00eancia, que eles acham insuport\u00e1vel enquanto tal: ent\u00e3o \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o com os interesses dos n\u00e3o-humanos, mas com a sua pr\u00f3pria integridade emocional, que os motiva.<\/p>\n<h3 class=\"spip\">Evitar o espet\u00e1culo da viol\u00eancia e da morte...<\/h3>\n<blockquote><p>Nos dias atuais, a crueza, o prazer que proporciona o aniquilamento e o sofrimento de outrem, o sentimento de satisfa\u00e7\u00e3o que nos proporciona a nossa superioridade f\u00edsica, s\u00e3o submetidos a um controle social severo e ancorado na organiza\u00e7\u00e3o estatal. Todas essas formas de prazer que v\u00eam contrabalan\u00e7ar, na nossa \u00e9poca, amea\u00e7as de desprazer, n\u00e3o se exteriorizam mais sen\u00e3o de uma maneira indireta, ou \u2013 o que na origem vem a dar no mesmo \u2013 refinada. (...) A vida na sociedade medieval sugeria uma atitude oposta: a rapina, a luta, a ca\u00e7a aos homens e aos animais faziam parte das necessidades da exist\u00eancia e estavam inscritas nas pr\u00f3prias estruturas da sociedade. E \u00e9 perfeitamente normal ver os fortes e os poderosos cont\u00e1-las tamb\u00e9m entre os prazeres da vida<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh15\" class=\"spip_note\" title=\"Norbert Elias, La Civilisation des moeurs A Civiliza\u00e7\u00e3o dos costumes, ed.\u00a0(...)\" href=\"#nb15\" rel=\"footnote\">15<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas da rela\u00e7\u00e3o social capitalista \u00e9 tender a substituir as antigas rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia entre pessoas (amo\/escravo, senhor\/servo, marido\/mulher, pais\/crian\u00e7a...) por uma rela\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduos de um tipo mais abstrato, mediada pelo dinheiro: n\u00f3s n\u00e3o mantemos mais o outro diretamente sob a nossa depend\u00eancia e o nosso arb\u00edtrio, o poder que exercemos contra o mesmo n\u00e3o \u00e9 mais direto, mas vem dos vint\u00e9ns de que dispomos, isto \u00e9, no fim das contas, da nossa posi\u00e7\u00e3o num sistema social geral.<\/p>\n<p>Consequentemente, a viol\u00eancia <i>corporal<\/i> entre indiv\u00edduos, ligada, em grande parte, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia pessoal, tende a desaparecer, e se propaga, ao contr\u00e1rio, lentamente, desde o s\u00e9culo XVI, uma sensibilidade cada vez mais forte \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do corpo do outro: sensibilidade de recusa da viol\u00eancia interindividual, f\u00edsica, e mesmo psicol\u00f3gica<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh16\" class=\"spip_note\" title=\"Em compensa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia do pr\u00f3prio sistema social \u00e9 calada, impl\u00edcito\u00a0(...)\" href=\"#nb16\" rel=\"footnote\">16<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p><span class=\"spip_document_6 spip_documents spip_documents_center\"> <img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/IMG\/squelettes\/documents\/zigoui.gif\" alt=\"\" width=\"103\" height=\"11\" \/><\/span><\/p>\n<p>Com efeito, com o desenvolvimento do capitalismo e da ideologia\/sentimento humanista a que ele est\u00e1 associada\/o, \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o ao corpo em seu conjunto, ao seu pr\u00f3prio, como ao dos outros, que se transformou profundamente ao longo de uma evolu\u00e7\u00e3o que se estende por quatro s\u00e9culos e que ainda est\u00e1 em a\u00e7\u00e3o: evoquemos o desaparecimento progressivo dos castigos corporais, a aboli\u00e7\u00e3o da tortura no seio da humanidade, o desaparecimento da pena de morte, a privatiza\u00e7\u00e3o do corpo (as \u00ab\u00a0fun\u00e7\u00f5es animais\u00a0\u00bb, as \u00ab\u00a0necessidades naturais\u00a0\u00bb, as secre\u00e7\u00f5es corporais, etc., s\u00e3o doravante redirecionadas \u00e0 esfera privada). Tudo o que, na rela\u00e7\u00e3o com o corpo humano, podia \u00ab\u00a0atacar a dignidade humana\u00a0\u00bb, apresentando-se \u00ab\u00a0degradante\u00a0\u00bb, \u00ab\u00a0animal\u00a0\u00bb (pulsional, por exemplo) acabou por ser recusado: recusa doravante de atacar um humano em seu corpo, recusa tamb\u00e9m dos humanos de deixar ver a sua \u00ab\u00a0animalidade\u00a0\u00bb. Esta evolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m teve consequ\u00eancias nada desprez\u00edveis no que se refere \u00e0 <i>sensibilidade<\/i> ao corpo dos outros animais; e, notadamente,<\/p>\n<blockquote><p>...a maneira de apresentar a carne evoluiu muito entre a Idade M\u00e9dia e a \u00e9poca moderna. A linha desta mudan\u00e7a \u00e9 muito instrutiva: nas camadas superiores da sociedade medieval, levavam-se \u00e0 mesa animais inteiros ou enormes por\u00e7\u00f5es de carne. Era o modo habitual de servir os peixes, as aves \u2013 \u00e0s vezes com as suas penas \u2013 as lebres, carneiros e vitelos. A ca\u00e7a gra\u00fada, os porcos e os bois eram assados por inteiro no espeto. O animal era trinchado sobre a mesa. (...) Mas, pouco a pouco, a vis\u00e3o do desmembramento passou a ser sentida como penosa. O desmembramento como tal n\u00e3o podia ser suprimido, j\u00e1 que \u00e9 realmente necess\u00e1rio cortar em partes o animal que se quer comer. Mas o que ofende a sensibilidade \u00e9 relegado aos bastidores, longe da vida social. Especialistas se encarregam disso na loja ou na cozinha. (...) A orienta\u00e7\u00e3o desta evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o conseguiria deixar margem \u00e0 mais \u00ednfima d\u00favida: ainda que a norma da separa\u00e7\u00e3o considerasse a vista de um animal morto e seu desmembramento sobre a mesa como agrad\u00e1veis ou, pelo menos, como de nenhum modo desagrad\u00e1veis, a evolu\u00e7\u00e3o se orienta no sentido de uma outra norma, que postula que se esque\u00e7a, tanto quanto poss\u00edvel, que um prato de carne tem alguma rela\u00e7\u00e3o com um animal morto. Uma boa parte dos nossos pratos de carne s\u00e3o preparados e cortados de tal maneira, que ao degust\u00e1-los, dificilmente se leva em conta a sua proveni\u00eancia<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh17\" class=\"spip_note\" title=\"N. Elias, op. cit., pp. 168, 169, 173, 171 e 172.\" href=\"#nb17\" rel=\"footnote\">17<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>... sem p\u00f4r em d\u00favida a domina\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Hoje em dia existe claramente uma forte tend\u00eancia no sentido de neutralizar as carnes, a fim de que elas n\u00e3o lembrem em demasia o animal concreto, tal como ele era quando ainda vivia, ou tal como era o seu cad\u00e1ver antes de ser trinchado. Procura-se, portanto, mascarar efetivamente a realidade: os chamados \u00ab\u00a0locais de matan\u00e7a\u00a0\u00bb ( \u00ab&nbsp;tueries&nbsp;\u00bb, no original franc\u00eas, antigo nome que se dava na Fran\u00e7a aos matadouros, ou  \u00ab&nbsp;locais de abate&nbsp;\u00bb, mudan\u00e7a por si s\u00f3 significativa) desapareceram das cidades desde o s\u00e9culo passado, a carne evoca cada vez menos o animal, evitam-se as fotos de cria\u00e7\u00f5es intensivas, etc.<\/p>\n<p>Mas os comerciantes de carne, magarefes ou supermercados raramente se esquecem de nos recordar, por outro lado, o <i>que \u00e9<\/i> a carne: fotos de animais de mortic\u00ednio, desenhos de animais que sorriem ao passante para convid\u00e1-lo a com\u00ea-los, pe\u00e7as publicit\u00e1rias muito expl\u00edcitas, etc.; se a viol\u00eancia est\u00e1 mascarada, se o concreto da vida e da morte est\u00e1 obliterado (n\u00e3o h\u00e1 odores, n\u00e3o h\u00e1 formas, cada vez menos ossos...), um e outro s\u00e3o sempre redestilados ao consumidor, mas sob uma forma puramente positiva em termos emocionais. \u00c9 que n\u00e3o se trata, por isso, de esquecer que o que se come n\u00e3o \u00e9 um banal legume: \u00e9 de fato um animal! Que viveu (ao ar livre, se se acredita nas pe\u00e7as publicit\u00e1rias, como um verdadeiro animal!), e que foi morto inteiramente de prop\u00f3sito para n\u00f3s.<\/p>\n<p>De fato, a evolu\u00e7\u00e3o que tende a neutralizar as carnes \u00e9 lenta e n\u00e3o se faz sem contradi\u00e7\u00f5es; a maior parte dos magarefes e supermercados n\u00e3o hesitam, ainda hoje, em p\u00f4r em destaque o vermelho sangrento de sua mercadoria. E as primeiras tentativas de neutraliza\u00e7\u00e3o, devidas, na verdade, a uma evolu\u00e7\u00e3o da distribui\u00e7\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o dos imperativos da economia de mercado, foram dif\u00edceis: quando a carne come\u00e7ou a ser vendida nos supermercados na forma de auto-servi\u00e7o, ou seja, sem a presen\u00e7a de um a\u00e7ougueiro, em condi\u00e7\u00f5es que a banalizavam, tornando-a semelhante a qualquer outra mercadoria, no come\u00e7o foi um fracasso: o que, n\u00e3o se vai mais comprar a carne do produtor, no campo, ou ao menos do a\u00e7ougueiro, e sim, num lugar neutro, onde ela \u00e9 um g\u00eanero como qualquer outro?<\/p>\n<blockquote><p>Nos anos 50, a institui\u00e7\u00e3o de novos filmes e pel\u00edculas, cujas caracter\u00edsticas permitem retardar a degrada\u00e7\u00e3o da carne dividida em unidades-consumidor, representou uma etapa importante em dire\u00e7\u00e3o a uma nova forma de venda: o auto-servi\u00e7o. A partir de 1952, experi\u00eancias realizadas em Paris pela Sociedade Prisunic, abastecida por um matadouro industrial do Centro da Fran\u00e7a, foram um fracasso. Elas foram retomadas sobre novas bases em 1956\/57 e, desde ent\u00e3o, a f\u00f3rmula progrediu nas [lojas de grande e m\u00e9dia superf\u00edcies]. (...) Como j\u00e1 foi visto, at\u00e9 o fim do s\u00e9culo XIX, a carne era vendida ao consumidor sob uma forma pouco elaborada, muitas vezes com ossos, e pouco depurada. (...) No come\u00e7o, o consumidor era bastante reticente em rela\u00e7\u00e3o a esse [novo] sistema de venda, pois em seu esp\u00edrito era uma \u00ab\u00a0outra\u00a0\u00bb carne que lhe estava sendo proposta. As duas concep\u00e7\u00f5es da venda da carne existem atualmente: a dita tradicional, implicando a interven\u00e7\u00e3o direta de um vendedor, e a outra, em forma de auto-servi\u00e7o, que deixa ao consumidor a responsabilidade pela sua escolha<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh18\" class=\"spip_note\" title=\"Jean Billault, Escola Superior dos Of\u00edcios da Carne,  \u00ab&nbsp;L\u2019\u00c9volution du m\u00e9tier de\u00a0(...)\" href=\"#nb18\" rel=\"footnote\">18<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Creio que seja, entre outras coisas, o car\u00e1ter \u00ab\u00a0gratuito\u00a0\u00bb (absolutamente sup\u00e9rfluo em termos fisiol\u00f3gicos) da carnificina para a carne que lhe confere secretamente o atrativo. \u00c9 que em caso algum n\u00e3o se afirma t\u00e3o claramente o fosso que separa \u00ab\u00a0o Homem\u00a0\u00bb do \u00ab\u00a0Animal\u00a0\u00bb, e a inferioridade deste \u00faltimo; pois o que o afirma na pr\u00e1tica \u00e9 justamente a diferen\u00e7a de considera\u00e7\u00e3o dispensada a uns e a outros, a diferen\u00e7a de tratamento que da\u00ed decorre t\u00e3o concretamente.<\/p>\n<p>Os humanos s\u00e3o respeitados, e acima de tudo a sua vida, dita sagrada, e se, \u00ab\u00a0acessoriamente\u00a0\u00bb, se puder ser induzido a mat\u00e1-los ou maltrat\u00e1-los, isto n\u00e3o pode ser sen\u00e3o por um interesse \u00ab\u00a0consequente\u00a0\u00bb (guerra, heran\u00e7a, roubo, ci\u00fame...)<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh19\" class=\"spip_note\" title=\"Um interesse consequente \u00e9 um interesse socialmente reconhecido. Numa\u00a0(...)\" href=\"#nb19\" rel=\"footnote\">19<\/a>]<\/span>. Se um humano mata um outro por prazer ou por qualquer outra raz\u00e3o julgada insuficiente, ele se tornar\u00e1 um \u00ab\u00a0caso patol\u00f3gico\u00a0\u00bb. Neste contexto, a \u00ab\u00a0raz\u00e3o insuficiente\u00a0\u00bb e, particularmente, a busca do prazer de matar ou de fazer sofrer deixa de ser uma raz\u00e3o, para tornar-se uma desraz\u00e3o. O homicida \u00e9 ent\u00e3o expulso da Humanidade (como Bokassa, Hitler ou Issei Sagawa, ele \u00e9 qualificado de monstruoso, de desumano) por haver <i>aviltado<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh20\" class=\"spip_note\" title=\"Etimologicamente: avaler = engolir: fazer descer (pela garganta); ravaler:\u00a0(...)\" href=\"#nb20\" rel=\"footnote\">20<\/a>]<\/span> a sua v\u00edtima - e, portanto, todos os humanos \u2013 \u00e0 categoria de uma besta, ao t\u00ea-la tratado, n\u00e3o somente <i>como<\/i> uma besta, mas <i>na qualidade de<\/i> besta.<\/p>\n<p>Pois para os humanos o atributo dos animais \u00e9 de n\u00e3o existir sen\u00e3o para o uso ou o prazer humano. E a carne, n\u00e3o possuindo qualquer car\u00e1ter de necessidade<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh21\" class=\"spip_note\" title=\"Muitas pessoas conhecem humanos que n\u00e3o comem carne, mas dizem, assim mesmo,\u00a0(...)\" href=\"#nb21\" rel=\"footnote\">21<\/a>]<\/span>, \u00e9 a pr\u00f3pria afirma\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica disso. Trata-se de utilizar o animal e, o que \u00e9 melhor, para o nosso exclusivo prazer (isto \u00e9, \u00ab\u00a0gratuitamente\u00a0\u00bb).<\/p>\n<p>Quanto a mat\u00e1-lo, \u00e9 uma outra hist\u00f3ria. \u00c9 que ter deleite no pr\u00f3prio ato de matar pode muito bem levar ao desfrute de matar um humano. Pode muito bem levar ao fato de o exterm\u00ednio de um humano passar, de um meio, a ter, tamb\u00e9m ele, uma finalidade em si (sadismo, crueldade). Ora, o que \u00e9 pr\u00f3prio do humano deve ser de ser morto por dever social ou moral, por necessidade (e h\u00e1 grada\u00e7\u00f5es na necessidade) ou por paix\u00e3o (\u00e9 por isso que a premedita\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mal vista) e n\u00e3o poderia entrar em cogita\u00e7\u00e3o a possibilidade de isso tornar\u2013se um \u00ab\u00a0ato gratuito\u00a0\u00bb. N\u00e3o \u00e9 por acaso que na nossa civiliza\u00e7\u00e3o a Igreja e os moralistas n\u00e3o t\u00eam cessado de exortar as suas ovelhas a n\u00e3o tratar os animais com crueldade: o humano, este se respeita, este tem uma dignidade, que o paternalismo benevolente est\u00e1 l\u00e1 para adular.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, que haja desfrute em matar o animal, sem que haja desfrute em matar, sem que seja o pr\u00f3prio ato de matar que se torne fonte de prazer, independentemente de quem se mata. E esse mesmo sentimento de prazer, s\u00e1dico, ser\u00e1 progressivamente rejeitado, cada vez em maior grau: certamente ser\u00e1 conservado o exterm\u00ednio, mas doravante ser\u00e1 necess\u00e1rio que ele se efetue cada vez mais mecanicamente, com economia de emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 o s\u00e9culo <small>XIX<\/small>, matavam-se os animais na rua, no centro de um c\u00edrculo de basbaques, e o sangue escorria por regos ao longo das cal\u00e7adas, enquanto toda a rua desfrutava dos gritos de agonia. Foi sob Bonaparte que se come\u00e7ou a centralizar o exterm\u00ednio nos matadouros, depois a empurrar estes \u00faltimos \u00e0 periferia das cidades, primeiramente em Paris, depois pouco a pouco em toda a parte (salvo nos campos, onde o afastamento \u00e9 imposs\u00edvel); isto a pretexto de higiene (m\u00e9dica e... moral). Com o crescimento do humanismo e com a industrializa\u00e7\u00e3o geral da sociedade, o exterm\u00ednio se profissionalizou (e, gra\u00e7as tamb\u00e9m \u00e0 divis\u00e3o do trabalho, se neutralizou) e os profissionais se acharam isolados da popula\u00e7\u00e3o, longe dos centros das cidades. Se os humanos continuam a desfrutar do exterm\u00ednio do animal, n\u00e3o \u00e9 mais que simbolicamente, de maneira mais abstrata, continuando a com\u00ea-lo, mas sem mais mat\u00e1-lo por si mesmos.<\/p>\n<p><span class=\"spip_document_6 spip_documents spip_documents_center\"> <img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/IMG\/squelettes\/documents\/zigoui.gif\" alt=\"\" width=\"103\" height=\"11\" \/><\/span><\/p>\n<p>\u00c9 o que exprime o soci\u00f3logo especista Paul Yonnet, ao falar da sensibilidade moderna que est\u00e1 na origem das associa\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o animal:<\/p>\n<blockquote><p>Ser\u00e1 que aqueles - numerosos - que prometem mil mortes aos toureiros, s\u00e3o por isso vegetarianos? Absolutamente. Eles comem carne bovina (...) O essencial para esses carn\u00edvoros hip\u00f3critas \u00e9 n\u00e3o assistir \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da morte, fazer desaparecer a cena do exterm\u00ednio animal, onde se exibe a rela\u00e7\u00e3o de natureza, que \u00e9 ecol\u00f3gica, que v\u00ea uns dependendo dos outros, uns comedores, os outros comidos. A zoofilia joga sobre o seu ganho: a urbaniza\u00e7\u00e3o e a divis\u00e3o do trabalho fazem, com efeito, com que o habitante das cidades n\u00e3o crie nem mate mais ele pr\u00f3prio os animais que come. Os zo\u00f3filos interiorizaram este desaparecimento da proximidade do exterm\u00ednio animal alimentar e, transformando este constrangimento social da vida urbana em conquista volunt\u00e1ria da consci\u00eancia humana, reclamam sua extens\u00e3o aos teatros em que subsiste a simboliza\u00e7\u00e3o daquilo que nos une aos animais e nos diferencia dos mesmos. (...) Ao final do processo zoof\u00edlico, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico vegetariano a mais. Pois a quest\u00e3o est\u00e1 em outra parte: \u00e9 a do desaparecimento da morte animal agora e j\u00e1 marginalizada<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh22\" class=\"spip_note\" title=\"Paul Yonnet,  \u00ab&nbsp;La voix de son chien&nbsp;\u00bb [A voz de seu c\u00e3o], L\u2019Express O Expresso\u00a0(...)\" href=\"#nb22\" rel=\"footnote\">22<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>\u00c9 instrutivo, mas no final das contas muito assombroso, reencontrar sob a pena de um soci\u00f3logo a refer\u00eancia \u00e0 \u00ab\u00a0rela\u00e7\u00e3o de natureza, ecol\u00f3gica\u00a0\u00bb, \u00e0 preda\u00e7\u00e3o, para legitimar os fen\u00f4menos, profundamente sociais, por\u00e9m, que s\u00e3o a apropria\u00e7\u00e3o dos animais e a domina\u00e7\u00e3o brutal sobre eles; mas, quanto ao resto, sua an\u00e1lise me parece justa: a institui\u00e7\u00e3o do mortic\u00ednio \u00e9, sem tirar nem p\u00f4r, a pr\u00e1tica simb\u00f3lica central que p\u00f5e em cena a nossa superioridade em rela\u00e7\u00e3o aos outros animais. O que \u00e9 que  \u00ab&nbsp;nos une aos animais&nbsp;\u00bb\u00a0? O fato de eles experimentarem sensa\u00e7\u00f5es, terem interesses, serem mortais. O que \u00e9 que \u00ab\u00a0nos diferencia deles\u00a0\u00bb? O fato de sermos \u00ab\u00a0n\u00f3s\u00a0\u00bb (a Humanidade) que os comemos, que \u00ab\u00a0os mantemos sujeitos a n\u00f3s\u00a0\u00bb.<\/p>\n<p>E a sensibilidade moderna p\u00f5e mais em d\u00favida o sadismo ou o que o evoca (viol\u00eancia), que a necessidade da domina\u00e7\u00e3o. Nossos contempor\u00e2neos gostam de conservar uma doce imagem de si pr\u00f3prios.<\/p>\n<p>Cria\u00e7\u00f5es industriais: a domina\u00e7\u00e3o torna-se demasiado abstrata, \u00e9 preciso reconcretiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>A natureza maci\u00e7a do exterm\u00ednio, por si s\u00f3, afeta-a de um car\u00e1ter violento: mesmo que n\u00e3o se d\u00ea vaz\u00e3o a nenhuma brutalidade, os bichos s\u00e3o ali os objetos indiferenciados de uma transforma\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria. N\u00e3o se trata, como no sacrif\u00edcio grego (D\u00e9tienne\/Vernant, 1979), de pedir a cada animal uma apar\u00eancia de consentimento, que lhe confere alguma exist\u00eancia social e faz de seu sangue o sinal distintivo de um contrato. Na matan\u00e7a maci\u00e7a, os animais est\u00e3o como se j\u00e1 estivessem mortos, a sua vida pr\u00f3pria abolida pelo seu n\u00famero, de maneira que a aus\u00eancia de viol\u00eancia real, tratando-os como coisas - \u00ab\u00a0sem c\u00f3lera e sem \u00f3dio, como um carniceiro\u00a0\u00bb, escreve Baudelaire\u00a0-, aparece ela pr\u00f3pria como viol\u00eancia, menos vis\u00edvel e, por isso, mais tem\u00edvel. \u00c9 sem d\u00favida por esta raz\u00e3o tamb\u00e9m que o sangue derramado nos matadouros tem uma conota\u00e7\u00e3o mais pesada de morte do que, por exemplo, o sangue do porco ou do carneiro que se mata para o consumo dom\u00e9stico. Entre \u00ab\u00a0matar o porco\u00a0\u00bb e sangrar porcos em s\u00e9rie, a quantidade abre um abismo: os dois exterm\u00ednios n\u00e3o s\u00e3o, decididamente, da mesma natureza<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh23\" class=\"spip_note\" title=\"No\u00eblie Viall\u00e8s, Le Sang et la chair, les abattoirs des pays de l\u2019Adour O\u00a0(...)\" href=\"#nb23\" rel=\"footnote\">23<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Segundo N. Viall\u00e8s, \u00e9 justamente porque o \u00ab\u00a0contrato simb\u00f3lico com o animal\u00a0\u00bb est\u00e1 rompido pela matan\u00e7a em massa, que se procura recuper\u00e1-lo, sem muito sucesso, pela humaniza\u00e7\u00e3o do exterm\u00ednio<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh24\" class=\"spip_note\" title=\"N. Viall\u00e8s, op. cit., pp. 129 a 135.\" href=\"#nb24\" rel=\"footnote\">24<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>E vive-se efetivamente numa \u00e9poca que quer matar \u00ab\u00a0humanamente\u00a0\u00bb, e que considera, al\u00e9m disso, desde algumas d\u00e9cadas, que os bons tratamentos produzem a boa carne\u00a0: a evolu\u00e7\u00e3o \u00e9 espetacular, quando se recorda que, na hist\u00f3ria da nossa civiliza\u00e7\u00e3o (e, sem d\u00favida, das outras, como a China ou o Jap\u00e3o), \u00e9 sempre o discurso inverso que reinou: a carne de um animal \u00e9 tanto melhor quanto mais ele tenha sofrido, quanto mais a sua agonia tenha durado<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh25\" class=\"spip_note\" title=\"David Olivier,  \u00ab&nbsp;Le go\u00fbt et le meurtre&nbsp;\u00bb [O gosto e o exterm\u00ednio], Cahiers\u00a0(...)\" href=\"#nb25\" rel=\"footnote\">25<\/a>]<\/span>. Hoje em dia, a defesa animal insiste muito nas \u00ab\u00a0toxinas\u00a0\u00bb produzidas pelo animal estressado, sofredor, angustiado ou aterrorizado, e que ser\u00e3o reencontradas em sua carne \u2013 um argumento que \u00e9, ali\u00e1s, ao proceder de pessoas que se sup\u00f5e que se preocupem com a sorte dos animais, particularmente obsceno! E, efetivamente, a CEMAGREF<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh26\" class=\"spip_note\" title=\"Centro nacional da Maquinaria Agr\u00edcola, da Engenharia rural, das \u00c1guas e\u00a0(...)\" href=\"#nb26\" rel=\"footnote\">26<\/a>]<\/span>, por exemplo, observa que \u00abser\u00e1 preciso levar em conta o conjunto destas observa\u00e7\u00f5es para reduzir a dor infligida aos animais e suas consequ\u00eancias para a qualidade da carne.\u00bb<\/p>\n<p>Mas voltemos a esse famoso \u00abcontrato simb\u00f3lico com o animal\u00bb, cujo desaparecimento acarreta a consci\u00eancia pesada dos humanos comedores de carne; ele \u00e9 bem <i>simb\u00f3lico<\/i>, isto \u00e9, puramente formal, n\u00e3o se dirigindo sen\u00e3o \u00e0 consci\u00eancia dos dominantes. A viol\u00eancia interindividual para com o animal desapareceu, o exterm\u00ednio n\u00e3o \u00e9 mais \u00abassumido\u00bb por aquele que se tornou o mero consumidor do mesmo, o comandit\u00e1rio \u00e0 dist\u00e2ncia: a rela\u00e7\u00e3o de exterm\u00ednio tornou-se (para os humanos especistas, e de maneira nenhuma para os animais envolvidos) terrivelmente abstrata.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o est\u00e1 longe o tempo em que os animais, se eles eram bem apropriados como hoje, o eram de uma maneira muito mais concreta, por todo o mundo. Cada um degolava por si mesmo o seu pr\u00f3prio porco, ou arrancava um olho \u00e0 sua galinha, mantendo-a pendurada por uma pata, para esvazi\u00e1-la de seu sangue. Al\u00e9m disso, utilizava-se a for\u00e7a de trabalho de certos animais, da mesma forma que a de outros humanos ou a sua pr\u00f3pria. A proximidade humano\/animal, cujo desaparecimento \u00e9 t\u00e3o deplorado hoje em dia, era efetivamente maior.<\/p>\n<p>Essa proximidade conferia uma subst\u00e2ncia, um significado simb\u00f3lico claro ao exterm\u00ednio, gerava sentimentos inteiros. Hoje em dia, as condi\u00e7\u00f5es do exterm\u00ednio e, a montante dele, da \u00abprodu\u00e7\u00e3o\u00bb, tornam esses sentimentos contradit\u00f3rios, e o sentido do ato, menos imediato. Pois o animal em bateria quase n\u00e3o evoca mais o humano, nem mesmo o animal. Tratado como simples mat\u00e9ria, ele se torna simples mat\u00e9ria no nosso imagin\u00e1rio; o que fazia o seu charme e o seu valor, a saber, a sua semelhan\u00e7a com os humanos e o seu car\u00e1ter n\u00e3o-humano ao mesmo tempo, se apaga e, por conseguinte, se reduz at\u00e9 desaparecer a vol\u00fapia de mastigar carne. Quando se mata, em condi\u00e7\u00f5es industriais, um animal que nada viveu daquilo que no nosso imagin\u00e1rio faz um animal, um \u00abverdadeiro\u00bb, n\u00e3o se sente mais que se mata um animal; sua carne n\u00e3o mais evoca grande coisa para n\u00f3s. Se o grande atrativo do exterm\u00ednio \u00e9 a encena\u00e7\u00e3o \u00ab\u00a0do que nos une e que nos separa\u00a0\u00bb do animal, a encena\u00e7\u00e3o de sua desvaloriza\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de seu exterm\u00ednio, ent\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es modernas de produ\u00e7\u00e3o da carne amea\u00e7am abolir esta motiva\u00e7\u00e3o. E deixam por l\u00e1 mesmo o campo livre para a m\u00e1 consci\u00eancia, refor\u00e7ada pelo fato de que aquilo que os animais envolvidos sofrem \u00e9 ainda pior do que antes.<\/p>\n<p>Quando hoje em dia piedosos esp\u00edritos se revoltam contra a cria\u00e7\u00e3o concentracion\u00e1ria \u2013 sem deixar, por isso, de consumir os seus produtos, e ainda menos de p\u00f4r mais uma vez em d\u00favida o especismo\u00a0-, tenho o sentimento de que eles, com bastante frequ\u00eancia, nada mais fazem sen\u00e3o revoltar-se contra a atual falta de ganho em termos de desfrute, a dessubstancializa\u00e7\u00e3o da carne. E o desfrute simb\u00f3lico desaparecendo, resta o mal-estar...<\/p>\n<p>Mas a m\u00e1 consci\u00eancia, por si s\u00f3, \u00e9 raramente que nos leva a tornar a abordar a quest\u00e3o real de uma domina\u00e7\u00e3o. Ela nos impele muito mais a reencontrar um estado de domina\u00e7\u00e3o sem culpabilidade, sem mal-estar. \u00c9 o que exprimem, na minha opini\u00e3o, essas exorta\u00e7\u00f5es a criar e matar o animal por si mesmo, \u00ab\u00a0olhando-o nos olhos\u00a0\u00bb, exorta\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em toda a parte e em todas as bocas, e que, olhando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 idade de ouro do passado, n\u00e3o aspiram a mais do que restabelecer a proximidade, a reconcretizar a domina\u00e7\u00e3o. Recentemente, num congresso de sociologia aplicada, sobre os novos gostos alimentares dos franceses, uma das pesquisadoras declarou (notadamente com refer\u00eancia aos procedimentos de castra\u00e7\u00e3o dos frangos de Bresse) que era preciso reatar os la\u00e7os com a tradi\u00e7\u00e3o e a barb\u00e1rie (<i>sic<\/i>\u00a0!) para reencontrar os favores do consumidor! Trata-se de reencontrar, de forma fantasm\u00e1tica, com os certificados de propriedades agr\u00edcolas, por exemplo, um animal real, feito de sangue, de carne e de vida, de uma vida correspondente ao nosso imagin\u00e1rio tradicional, de uma vida \u00ab\u00a0natural\u00a0\u00bb, \u00ab\u00a0harmoniosamente\u00a0\u00bb integrada a essa \u00ab\u00a0ordem natural das coisas\u00a0\u00bb, t\u00e3o cara ao cora\u00e7\u00e3o dos dominantes.<\/p>\n<p>Quem, hoje em dia, n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0s cria\u00e7\u00f5es industriais? Quem n\u00e3o desejaria o retorno a explora\u00e7\u00f5es de propriedades agr\u00edcolas de porte humano? A uma domina\u00e7\u00e3o \u00ab\u00a0de rosto humano\u00a0\u00bb\u00a0? A oposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o virulenta (mas puramente verbal) \u00e0s cria\u00e7\u00f5es industriais e concentracion\u00e1rias n\u00e3o traduz muito uma preocupa\u00e7\u00e3o real com a sorte dos porcos, ou das galinhas, em quest\u00e3o. Ela \u00e9, antes, uma revolta contra a \u00ab\u00a0viola\u00e7\u00e3o da natureza\u00a0\u00bb que se considera serem essas cria\u00e7\u00f5es, e contra a falta de ganho em termos de desfrute que elas geram.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o das sensibilidades se reveste de raz\u00f5es diet\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Os prim\u00f3rdios da idade moderna viram, assim, nascer sentimentos que deviam, em seguida, tornar cada vez mais dif\u00edcil aos homens acomodar-se aos m\u00e9todos impiedosos que haviam assegurado a domina\u00e7\u00e3o da sua esp\u00e9cie. Por um lado, eles viram aumentar de forma incalcul\u00e1vel o conforto e o bem-estar ou a felicidade f\u00edsica dos seres humanos; por outro, eles compreenderam que outras formas de vida animada eram exploradas sem piedade. Foi assim que as sensibilidades novas e as bases materiais da sociedade humana foram se opondo cada vez mais. Uma mistura de compromissos e de dissimula\u00e7\u00e3o permitiu at\u00e9 aqui que n\u00e3o se resolvesse completamente este conflito. Mas n\u00e3o se pode sempre recorrer a subterf\u00fagios, e com muita certeza a quest\u00e3o ser\u00e1 recolocada. Essa quest\u00e3o constitui uma das contradi\u00e7\u00f5es sobre as quais se pode dizer que a civiliza\u00e7\u00e3o moderna repousa<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh27\" class=\"spip_note\" title=\"Keith Thomas, Dans le jardin de la nature, La Mutation des sensibilit\u00e9s en\u00a0(...)\" href=\"#nb27\" rel=\"footnote\">27<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>Faz bem uma d\u00e9cada que se processa uma importante muta\u00e7\u00e3o das prefer\u00eancias alimentares: como vimos, pela primeira vez na hist\u00f3ria ocidental, as carnes valorizadas perdem terreno (e valor): menos carnes vermelhas, mais carnes brancas e peixe. Esta evolu\u00e7\u00e3o me parece estar ligada \u00e0 mudan\u00e7a das sensibilidades diante da viol\u00eancia, da rela\u00e7\u00e3o com os animais e a domina\u00e7\u00e3o; mas ela n\u00e3o se afirma como tal, recusa-se a tomar consci\u00eancia de si mesma, e se legitima, pelo contr\u00e1rio, atrav\u00e9s de um discurso de ordem m\u00e9dica, diet\u00e9tica:<\/p>\n<blockquote><p>... reduzam o seu consumo de gorduras animais vis\u00edveis (toucinho, manteiga, creme), e ocultas (alimentos fritos, pratos com molho, bolos, queijo, charcutaria). Substituam o leite integral pelo leite desnatado, as carnes gordas (boi) pelas carnes magras (aves) (...). Consumam peixe uma a duas vezes por semana, e todo dia frutas, legumes, cereais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh28\" class=\"spip_note\" title=\"M.-L. Moinet,  \u00ab&nbsp;Paradoxe: nos amies les graisses&nbsp;\u00bb [Paradoxo: as nossas\u00a0(...)\" href=\"#nb28\" rel=\"footnote\">28<\/a>]<\/span>...<\/p><\/blockquote>\n<p>Os argumentos invocados s\u00e3o puramente diet\u00e9ticos, mas salta aos olhos o quanto eles respeitam a ordem simb\u00f3lica das carnes. \u00c9 que faz dois s\u00e9culos que o discurso m\u00e9dico e sanitarista tem substitu\u00eddo com bastante frequ\u00eancia os discursos morais, pol\u00edticos e sociais, para justificar diversas evolu\u00e7\u00f5es: masturba\u00e7\u00e3o reputada como geradora de patologias f\u00edsicas e mentais, matadouros e cemit\u00e9rios afastados das cidades por motivos de higiene, etc.<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh29\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. N. Elias, op. cit., e Michel Foucault, Histoire de la folie \u00e0 l\u2019\u00e2ge\u00a0(...)\" href=\"#nb29\" rel=\"footnote\">29<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<h3 class=\"spip\">O futuro da carne: a \u00ab\u00a0estrat\u00e9gia diet\u00e9tica\u00a0\u00bb\u00a0?<\/h3>\n<p>Considerando-se o desenvolvimento deste discurso diet\u00e9tico, os industriais da carne s\u00e3o levados a lutar no mesmo campo, para tentar, sen\u00e3o desenvolver o seu mercado, pelo menos mant\u00ea-lo:<\/p>\n<blockquote><p>Dos diferentes aspectos sob os quais se pode considerar a carne, as caracter\u00edsticas nutricionais n\u00e3o foram levadas em conta sen\u00e3o bastante tardiamente e constituem um dom\u00ednio ainda mal explorado cient\u00edfica e economicamente, o qual, para alguns, s\u00f3 tem um interesse menor.Isto \u00e9 de se lamentar, pois o valor nutricional das carnes e os problemas que ela coloca provavelmente assumir\u00e3o no futuro uma import\u00e2ncia crescente. (...)<\/p>\n<p>As carnes (...) encerram, em quantidades not\u00e1veis, nutrimentos muito importantes (...). O seu perfil geral (...) aparenta-os com produtos <i>diet\u00e9ticos<\/i> e, quanto \u00e0s carnes totalmente preparadas das diferentes esp\u00e9cies, a sua inclus\u00e3o no grupo dos <i>produtos hipocal\u00f3ricos<\/i> justifica-se mesmo plenamente<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh30\" class=\"spip_note\" title=\"B. L. Dumont, do Laborat\u00f3rio de Pesquisas sobre a Carne do INRA (Institut\u00a0(...)\" href=\"#nb30\" rel=\"footnote\">30<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Tal \u00e9 o discurso que desenvolvem os profissionais da carne. Mas se, como eu penso, atr\u00e1s do discurso diet\u00e9tico se oculta uma evolu\u00e7\u00e3o das sensibilidades diante da viol\u00eancia, pode-se pensar que esta propaganda n\u00e3o ter\u00e1, no final das contas, sen\u00e3o um sucesso mitigado.<\/p>\n<p>E, com efeito, a ind\u00fastria agroalimentar deposita igualmente grandes esperan\u00e7as numa carne de um tipo novo, emocionalmente ainda mais neutro:<\/p>\n<blockquote><p>Agora se considera a possibilidade de modificar a forma de apresenta\u00e7\u00e3o das carnes, oferecendo ao p\u00fablico produtos obtidos - a partir de carnes previamente desestruturadas - por <i>reestrutura\u00e7\u00e3o<\/i>, de maneira a conferir-lhes novas propriedades de textura, e tamb\u00e9m uma apresenta\u00e7\u00e3o geral que corresponda \u00e0s novas necessidades dos consumidores<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh31\" class=\"spip_note\" title=\"B. L. Dumont,  \u00ab&nbsp;Relations entre la d\u00e9coupe bouch\u00e8re et la structure de la\u00a0(...)\" href=\"#nb31\" rel=\"footnote\">31<\/a>]<\/span>....\u00c9 assim que recentemente foram colocadas no mercado carnes que poder\u00edamos chamar \u00ab\u00a0do 3\u00b0 tipo\u00a0\u00bb. Trata-se de pe\u00e7as obtidas por reconstitui\u00e7\u00e3o de m\u00fasculos desestruturados segundo uma t\u00e9cnica especial. Essa desestrutura\u00e7\u00e3o tem por finalidade a produ\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de \u00ab\u00a0min\u00e9rios\u00a0\u00bb de carne, isto \u00e9, de uma mat\u00e9ria-prima apta a ser apresentada de diferentes maneiras<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh32\" class=\"spip_note\" title=\"Jean Billault, artigo citado, p. 66.\" href=\"#nb32\" rel=\"footnote\">32<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>Essas carnes, desembara\u00e7adas de tudo o que ainda pode lembrar o animal, os ossos, os nervos, etc., formam \u00ab\u00a0por\u00e7\u00f5es homog\u00eaneas\u00a0\u00bb, isto \u00e9, inidentific\u00e1veis<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh33\" class=\"spip_note\" title=\"Tradicionalmente, a carne de cavalo \u00e9 apresentada de maneira muito\u00a0(...)\" href=\"#nb33\" rel=\"footnote\">33<\/a>]<\/span>. Pode-se logicamente pensar que esses \u00ab\u00a0novos produtos\u00a0\u00bb, que n\u00e3o mais conservar\u00e3o muito da carne a n\u00e3o ser a origem animal, v\u00e3o ainda acentuar as contradi\u00e7\u00f5es no esp\u00edrito do consumidor: o seu car\u00e1ter \u00ab\u00a0desencarnado\u00a0\u00bb, por assim dizer, aplanar\u00e1, sem d\u00favida, os sentimentos de desgosto num primeiro tempo, mas tamb\u00e9m aumentar\u00e1, de forma geral, o mal-estar referente aos produtos compostos de carne.<\/p>\n<p>Resultado dos desdobramentos: a situa\u00e7\u00e3o atual causa ainda mais mortes e sofrimentos do que outrora.<\/p>\n<blockquote><p>O setor dos produtos carnados passa, desde algum tempo, por um per\u00edodo dif\u00edcil, pois a carne n\u00e3o tem mais absolutamente a imagem que ela tinha num passado ainda pr\u00f3ximo. Contudo, esta evolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 irrevers\u00edvel, como se pode constatar por certos ind\u00edcios, tais como: provid\u00eancias de qualidade tomadas pelos diferentes agentes da sequ\u00eancia de pessoas envolvidas; interven\u00e7\u00f5es para desbanalizar o produto carne; desenvolvimento da comunica\u00e7\u00e3o; renova\u00e7\u00e3o do interesse pelo aut\u00eantico e a tradi\u00e7\u00e3o<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh34\" class=\"spip_note\" title=\"Jean Billault, artigo citado, p. 65.\" href=\"#nb34\" rel=\"footnote\">34<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>O ensinamento a ser da\u00ed extra\u00eddo \u00e9, pois, que as estrat\u00e9gias que s\u00e3o atualmente elaboradas nos laborat\u00f3rios da profiss\u00e3o v\u00e3o diversificar-se enormemente, para responder de diferentes modos ao mal-estar. Alguns v\u00e3o continuar a explorar o fil\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o, com pe\u00e7as publicit\u00e1rias do tipo \u00ab\u00a0Que for\u00e7a tem o boi!\u00a0\u00bb, ou \u00ab\u00a0S\u00e3o sempre os mesmos que degustam!\u00a0\u00bb; assim, o reagrupamento interprofissional Viande Suisse afixou recentemente grandes pain\u00e9is representando um peda\u00e7o de carne vermelha, intitulados: \u00ab\u00a0Deixe de moleza. Coma disto!\u00a0\u00bb. Mas outras estrat\u00e9gias visam, pelo contr\u00e1rio, a tra\u00e7ar uma linha sobre o car\u00e1ter simb\u00f3lico da carne, destacando os seus aspectos macios, diet\u00e9ticos. E se desenvolvem tamb\u00e9m carnes nas quais nada mais permite reconhecer o animal, cujo sangue inteiro, toda a corporalidade foi evacuada: com as prote\u00ednas animais reestruturadas n\u00e3o permanecer\u00e1 nada do que atualmente motiva com frequencia a rejei\u00e7\u00e3o das carnes, se n\u00e3o \u00e9, infelizmente, o sofrimento e a morte daquele de quem era a carne.<\/p>\n<p>\u00c9, portanto, bem poss\u00edvel que, num futuro pr\u00f3ximo, o n\u00famero dos \u00ab\u00a0desertores da alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 base de carne\u00a0\u00bb, fundamentando-se num \u00e1libi diet\u00e9tico, ou nessa sensibilidade que n\u00e3o ousa dizer o seu nome e se vincula unicamente aos s\u00edmbolos da viol\u00eancia e da domina\u00e7\u00e3o, deixe de crescer: essa simbologia em breve se ter\u00e1 tornado, por um lado, ainda mais sutil e et\u00e9rea, menos identific\u00e1vel e discern\u00edvel (por an\u00e1lise ou por sentimento) do que \u00e9 hoje. Em compensa\u00e7\u00e3o, eu apostaria efetivamente que o mal-estar diante da alimenta\u00e7\u00e3o \u00e0 base de carne continuar\u00e1 a se desenvolver, e assumir\u00e1 formas cada vez mais conscientes.<\/p>\n<p>Isso deve refor\u00e7ar-nos em nossa determina\u00e7\u00e3o de dar a m\u00e1xima \u00eanfase \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica e a uma cr\u00edtica global, pol\u00edtica, coerente, da domina\u00e7\u00e3o especista: al\u00e9m de ela ser a \u00fanica em que n\u00f3s (antiespecistas) nos reconhecemos<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh35\" class=\"spip_note\" title=\"Com, no entanto, a argumenta\u00e7\u00e3o referente \u00e0 fome no mundo, argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica\u00a0(...)\" href=\"#nb35\" rel=\"footnote\">35<\/a>]<\/span>, talvez seja em breve tamb\u00e9m a \u00fanica capaz de influir nas pessoas, se \u00e9 que, ali\u00e1s, as outras alguma vez tenham tido reais consequ\u00eancias ben\u00e9ficas para os n\u00e3o-humanos.<\/p>\n<p>Pois deve estar claro que a situa\u00e7\u00e3o atual dos n\u00e3o-humanos piora quantitativamente, consequ\u00eancia paradoxal do mal-estar contempor\u00e2neo a prop\u00f3sito da viol\u00eancia especista: \u00ab\u00a0A produ\u00e7\u00e3o mundial de carne (em toneladas) aumenta em 71% entre 1970 e 1990, o n\u00famero de animais mortos, bem mais, uma vez que s\u00e3o as esp\u00e9cies de pequeno porte que experimentam o crescimento mais intenso (+ 137% para a tonelagem de carne de aves)<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh36\" class=\"spip_note\" title=\"E. Reus, artigo citado.\" href=\"#nb36\" rel=\"footnote\">36<\/a>]<\/span>.\u00a0\u00bb<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o das pessoas permanece centrada nelas mesmas, em seus pr\u00f3prios sentimentos de humanos dominantes, independentemente da realidade dos dominados; a parte das carnes vermelhas no consumo diminui, a das carnes brancas e do peixe aumenta; o s\u00edmbolo da viol\u00eancia diminui, a viol\u00eancia aumenta. A carne de um boi pode alimentar um humano durante um ano, enquanto a de um frango durante dois dias; mas que importa ao consumidor em termos de imagem de si mesmo: a carne bovina <i>tem a apar\u00eancia<\/i> mais violenta. A evolu\u00e7\u00e3o atual, que no momento permanece mais no plano da simb\u00f3lica do que no da considera\u00e7\u00e3o dos interesses dos animais n\u00e3o-humanos, da recusa consciente e conscientizada da domina\u00e7\u00e3o e da explora\u00e7\u00e3o, tem, finalmente, por atroz consequ\u00eancia, o aumento do n\u00famero de v\u00edtimas.<\/p>\n<p><span class=\"spip_document_6 spip_documents spip_documents_center\"> <img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/IMG\/squelettes\/documents\/zigoui.gif\" alt=\"\" width=\"103\" height=\"11\" \/><\/span><\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o \u00e9, sem d\u00favida, o efeito do acaso se s\u00f3 hoje o movimento pela igualdade animal nasceu e se desenvolve (um pouco): \u00e9 o fruto de contradi\u00e7\u00f5es em andamento desde alguns dec\u00eanios nas nossas rela\u00e7\u00f5es com os outros animais, e do desejo de superar estas \u00faltimas, e o mal-estar que elas geram, por uma reconsidera\u00e7\u00e3o radical. Mas esta estrat\u00e9gia de ruptura com a ordem atual permanece espontaneamente muito minorit\u00e1ria. O antiespecismo deve desenvolver modos de a\u00e7\u00e3o que ponham em xeque a nossa pr\u00f3pria consci\u00eancia espont\u00e2nea das coisas, espontaneamente uma consci\u00eancia de dominantes: enquanto eles n\u00e3o fizerem estourar o quadro das representa\u00e7\u00f5es mentais ligadas \u00e0 domina\u00e7\u00e3o, enquanto eles n\u00e3o atacarem esta \u00faltima em profundidade, estaremos nos arriscando a nos afundarmos em vias que nada t\u00eam a ver com os interesses reais dos animais.<\/p>\n<p>Assim, acho importante dar \u00eanfase \u00e0 sorte desses animais abandonados pela nossa sensibilidade e o nosso imagin\u00e1rio, que s\u00e3o os peixes e as \u00ab\u00a0aves\u00a0\u00bb\u00a0; esta demarca\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sensibilidade comum torna certamente dif\u00edcil um sucesso r\u00e1pido, mas pode permitir-nos exacerbar as contradi\u00e7\u00f5es em andamento na popula\u00e7\u00e3o e, assim espero, precipitar as tomadas de consci\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_ps\">\n<div class=\"label\">P.-S.<\/div>\n<div class=\"ps\" dir=\"ltr\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<div class=\"label\">Notes<\/div>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Referir-se, por exemplo, ao artigo de E. Reus, <a class=\"spip_in\" href=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/vie-mort-et-transfiguration-de-la-bete-a-viande\/\"> \u00ab&nbsp;Vie, mort et transfiguration de la b\u00eate \u00e0 viande&nbsp;\u00bb<\/a> [\u00ab\u00a0Vida, morte e transfigura\u00e7\u00e3o do animal em carne\u00a0\u00bb], p\u00e1gina 7 deste n\u00famero dos <i>Cahiers<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>Marc Traverson, \u00ab\u00a0La Fibre verte\u00a0\u00bb, [\u00ab\u00a0A Fibra verde\u00a0\u00bb], <i>Le Point<\/i>, 25 de abril de 1992. \u00c9 significativo o fato de que o <i>steak<\/i> tenha sido adotado pelo jornalista como representativo da carne em geral. Ali\u00e1s, o artigo n\u00e3o \u00e9 muito brilhante.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>As suas publicidades podem ser encomendadas gratuitamente ao CIV (Centro de Informa\u00e7\u00e3o das Carnes), 64 rue Taitbout, 75009 Paris.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span>Bertrand Hell, \u00ab\u00a0Le sauvage consomm\u00e9\u00a0\u00bb [O selvagem consumado], revista <i>Terrain<\/i> n\u00b0 10, abril de 1988, pp. 74 a 85.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb5\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 5\" href=\"#nh5\" rev=\"footnote\">5<\/a>]\u00a0<\/span>Marina Yaguello, <i>Les mots et les femmes<\/i> <i>As palavras e as mulheres<\/i>, ed. Payot, 1987, cap. \u00ab\u00a0La Langue du m\u00e9pris\u00a0\u00bb [A L\u00edngua do desprezo].<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb6\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 6\" href=\"#nh6\" rev=\"footnote\">6<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. (sob a dire\u00e7\u00e3o de) G. Duby e M.\u00a0Perrot, <i>Histoire des femmes<\/i> <i>Hist\u00f3ria das mulheres<\/i>, ed. Plon, 1991, t. 1, <i>L\u2019Antiquit\u00e9<\/i> <i>A Antiguidade<\/i>, e notadamente\u00a0: nota 36, p. 536, p. 270, p. 287. As mulheres do s\u00e9culo <small>XVIII<\/small>, sujeitas aos \u00ab\u00a0vapores\u00a0\u00bb, devem beber tisanas ou suco de frango (Philippe Perrot, <i>Le corps f\u00e9minin<\/i> <i>O corpo feminino<\/i>, s\u00e9culos <small>XVIII<\/small>-<small>XIX<\/small>, ed. Seuil, 1984, p. 84). Em contrapartida, \u00e9 bem conhecido o fato de que os homens, ao quererem virilizar-se ou recuperar a sa\u00fade, deviam, no s\u00e9culo <small>XIX<\/small>, beber sangue de boi, se poss\u00edvel no pr\u00f3prio matadouro. Por outro lado, aprende-se que no s\u00e9culo passado, \u00ab\u00a0desde o nascimento, as meninas s\u00e3o menos bem acolhidas; conscientemente ou n\u00e3o, elas s\u00e3o negligenciadas. Um preconceito tenaz, do qual Michelet se faz o eco, retira as carnes, sobretudo as carnes vermelhas, da alimenta\u00e7\u00e3o das mesmas.\u00a0\u00bb (Yvonne Kniebiehler, \u00ab\u00a0Corps et coeurs\u00a0\u00bb [Corpos e cora\u00e7\u00f5es], <i>Histoire des femmes<\/i> <i>Hist\u00f3ria das mulheres<\/i>, t. 4, p. 360).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb7\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 7\" href=\"#nh7\" rev=\"footnote\">7<\/a>]\u00a0<\/span>Delamare, <i>Trait\u00e9 de la police<\/i> <i>Tratado da pol\u00edcia<\/i>, M.\u00a0Brunet ed., Paris, 1719, t. 3; citado por L. B\u00e9rard (cf. abaixo).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb8\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 8\" href=\"#nh8\" rev=\"footnote\">8<\/a>]\u00a0<\/span>Laurence B\u00e9rard, \u00ab\u00a0O Consumo de peixe na Fran\u00e7a: prescri\u00e7\u00f5es alimentares com a preponder\u00e2ncia da carpa\u00a0\u00bb, revista <i>Antropozool\u00f3gica<\/i>, 2\u00b0 n\u00famero especial de 1988: \u00ab\u00a0O animal na alimenta\u00e7\u00e3o humana: os crit\u00e9rios de escolha\u00a0\u00bb, atas da confer\u00eancia internacional de Li\u00e8ge, 26-29 de novembro de 1986.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb9\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 9\" href=\"#nh9\" rev=\"footnote\">9<\/a>]\u00a0<\/span>\u00c9 tamb\u00e9m o t\u00edtulo e o objeto de um quadro de Brueghel, o Velho.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb10\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 10\" href=\"#nh10\" rev=\"footnote\">10<\/a>]\u00a0<\/span>\u00ab\u00a0As patas traseiras do castor s\u00e3o espalmadas e a sua cauda parece a certos autores recoberta de escamas, \u00e0 semelhan\u00e7a de um peixe. (...) tendo em vista a impossibilidade de resolver o debate sobre a sua natureza [terrestre ou aqu\u00e1tica], ele foi cortado em dois. Se a parte dianteira desse animal permaneceu efetivamente carne aos olhos da Igreja, as patas traseiras e a cauda assemelham-se \u00e0 carne de peixe, constituindo, portanto, iguarias de Quaresma altamente apreciadas (...) Mais uma vez, a ast\u00facia das pr\u00e1ticas levou vantagem sobre os rigores da doutrina.\u00a0\u00bb Bruno Lauriaux, <i>Manger l\u2019impur, animaux et interdits alimentaires durant le Haut Moyen-Age<\/i> <i>Comer o impuro, animais e interditos alimentares durante a Alta Idade M\u00e9dia<\/i>, 1986, pp. 79 e 87 (n\u00e3o consigo encontrar as refer\u00eancias completas).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb11\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 11\" href=\"#nh11\" rev=\"footnote\">11<\/a>]\u00a0<\/span>L. Stauff, <i>Ravitaillement et alimentation en Provence aux XIVe et XVe si\u00e8cles<\/i> <i>Abastecimento e alimenta\u00e7\u00e3o na Proven\u00e7a nos s\u00e9culos XIV e XV<\/i>, ed. Mouton, Paris, 1970.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb12\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 12\" href=\"#nh12\" rev=\"footnote\">12<\/a>]\u00a0<\/span>No\u00ebl de la Marini\u00e8re, <i>Histoire g\u00e9n\u00e9rale des p\u00eaches anciennes et modernes<\/i> <i>Hist\u00f3ria geral das pescas antigas e modernas<\/i>, Imp. Royale, Paris, 1815, citado por L. B\u00e9rard, <i>op. cit.<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb13\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 13\" href=\"#nh13\" rev=\"footnote\">13<\/a>]\u00a0<\/span>Philippe Salvadori, \u00ab\u00a0La Chasse, une passion fran\u00e7aise\u00a0\u00bb [A Ca\u00e7a, uma paix\u00e3o francesa], revista <i>L\u2019Histoire<\/i> <i>A Hist\u00f3ria<\/i>, n\u00b0 152, fevereiro de 1992, p. 53.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb14\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 14\" href=\"#nh14\" rev=\"footnote\">14<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. David Olivier,<a class=\"spip_in\" href=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/cest-horrible\/\"> \u00ab&nbsp;\"C\u2019est horrible.\"&nbsp;\u00bb<\/a>, [\u00c9 horr\u00edvel], <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> <i>Cadernos antiespecistas<\/i> n\u00b0 6, mar\u00e7o de 1993.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb15\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 15\" href=\"#nh15\" rev=\"footnote\">15<\/a>]\u00a0<\/span>Norbert Elias, <i>La Civilisation des moeurs<\/i> <i>A Civiliza\u00e7\u00e3o dos costumes<\/i>, ed. Calman-L\u00e9vy, col. Presses-pocket, 1989 [1939], p. 281; o autor d\u00e1 diversos exemplos de uma vol\u00fapia de massacre ent\u00e3o perfeitamente admitida.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb16\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 16\" href=\"#nh16\" rev=\"footnote\">16<\/a>]\u00a0<\/span>Em compensa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia do pr\u00f3prio sistema social \u00e9 calada, impl\u00edcito n\u00e3o-formulado, ali\u00e1s n\u00e3o-sentido, n\u00e3o-vivido: aplicando-se a todos, impessoal, \u00e9 a viol\u00eancia de uma situa\u00e7\u00e3o a que n\u00e3o se pode atribuir responsabilidade\/culpabilidade individual: \u00e9 como se apont\u00e1-la com o dedo n\u00e3o oferecesse mais sa\u00eddas, nem psicol\u00f3gica (n\u00e3o existe mais o mal e, portanto, nem a possibilidade de odiar, nem de se vingar), nem pr\u00e1tica (n\u00e3o h\u00e1 mais possibilidade de intervir individualmente nas coisas).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb17\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 17\" href=\"#nh17\" rev=\"footnote\">17<\/a>]\u00a0<\/span>N. Elias, <i>op. cit.<\/i>, pp. 168, 169, 173, 171 e 172.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb18\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 18\" href=\"#nh18\" rev=\"footnote\">18<\/a>]\u00a0<\/span>Jean Billault, Escola Superior dos Of\u00edcios da Carne, \u00ab\u00a0L\u2019\u00c9volution du m\u00e9tier de boucher\u00a0\u00bb [A Evolu\u00e7\u00e3o do of\u00edcio de a\u00e7ougueiro], em <i>L\u2019Homme et la viande<\/i> <i>O Homem e a carne<\/i>, boletim n\u00b0 48 da Sociedade de Etnozootecnia, 1992, pp. 60, 61 e 65.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb19\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 19\" href=\"#nh19\" rev=\"footnote\">19<\/a>]\u00a0<\/span>Um interesse consequente \u00e9 um interesse socialmente reconhecido. Numa sociedade fundamentada na propriedade privada, um interesse consequente ter\u00e1 com frequ\u00eancia a ver com uma reivindica\u00e7\u00e3o de propriedade.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb20\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 20\" href=\"#nh20\" rev=\"footnote\">20<\/a>]\u00a0<\/span>Etimologicamente: <i>avaler<\/i>\u00a0<i>= engolir<\/i>: fazer descer (pela garganta); <i>ravaler<\/i>: <i>= tornar a engolir<\/i>; fazer descer (na estima).<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb21\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 21\" href=\"#nh21\" rev=\"footnote\">21<\/a>]\u00a0<\/span>Muitas pessoas conhecem humanos que n\u00e3o comem carne, mas dizem, assim mesmo, que ela \u00e9 \u00ab\u00a0vital\u00a0\u00bb. Talvez eles creiam cr\u00ea-lo? Trata-se, provavelmente, do jogo de uma m\u00e1 consci\u00eancia que se recusa a tomar consci\u00eancia de si mesma.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb22\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 22\" href=\"#nh22\" rev=\"footnote\">22<\/a>]\u00a0<\/span>Paul Yonnet, \u00ab\u00a0La voix de son chien\u00a0\u00bb [A voz de seu c\u00e3o], <i>L\u2019Express<\/i> <i>O Expresso<\/i> de 19-25 de janeiro de 1990.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb23\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 23\" href=\"#nh23\" rev=\"footnote\">23<\/a>]\u00a0<\/span>No\u00eblie Viall\u00e8s, <i>Le Sang et la chair, les abattoirs des pays de l\u2019Adour<\/i> <i>O Sangue e a carne, os matadouros das regi\u00f5es do (Rio) Adour<\/i>, ed. de la Maison des Sciences de l\u2019Homme [da Casa das Ci\u00eancias do Homem], col. Etnologia de Fran\u00e7a, Paris, 1987, p. 83.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb24\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 24\" href=\"#nh24\" rev=\"footnote\">24<\/a>]\u00a0<\/span>N. Viall\u00e8s, <i>op. cit.<\/i>, pp. 129 a 135.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb25\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 25\" href=\"#nh25\" rev=\"footnote\">25<\/a>]\u00a0<\/span>David Olivier, <a class=\"spip_in\" href=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/le-gout-et-le-meurtre\/\"> \u00ab&nbsp;Le go\u00fbt et le meurtre&nbsp;\u00bb<\/a> [O gosto e o exterm\u00ednio], <i>Cahiers antisp\u00e9cistes<\/i> <i>Cadernos antiespecistas<\/i> n\u00b0 9, jan. de 1994, pp. 8 a 15.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb26\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 26\" href=\"#nh26\" rev=\"footnote\">26<\/a>]\u00a0<\/span>Centro nacional da Maquinaria Agr\u00edcola, da Engenharia rural, das \u00c1guas e Florestas, divis\u00e3o Tecnologia da carne, agrupamento de Clermont-Ferrand, boletim n\u00b0 9, 1982, p. 99; citado por Viall\u00e8s, <i>op. cit.<\/i>, p. 74.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb27\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 27\" href=\"#nh27\" rev=\"footnote\">27<\/a>]\u00a0<\/span>Keith Thomas, <i>Dans le jardin de la nature, La Mutation des sensibilit\u00e9s en Angleterre \u00e0 l\u2019\u00e9poque moderne<\/i> <i>No jardim da natureza, a Muta\u00e7\u00e3o das sensibilidades na Inglaterra na \u00e9poca moderna<\/i> (1500-1800), ed. Gallimard, 1985, p. 393.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb28\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 28\" href=\"#nh28\" rev=\"footnote\">28<\/a>]\u00a0<\/span>M.-L. Moinet, \u00ab\u00a0Paradoxe: nos amies les graisses\u00a0\u00bb [Paradoxo: as nossas amigas gorduras], <i>Science et Vie<\/i> <i>Ci\u00eancia e Vida<\/i> n\u00b0 932, maio de 1995, p. 75.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb29\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 29\" href=\"#nh29\" rev=\"footnote\">29<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. N. Elias, <i>op. cit.<\/i>, e Michel Foucault, <i>Histoire de la folie \u00e0 l\u2019\u00e2ge classique<\/i> <i>Hist\u00f3ria da loucura na idade cl\u00e1ssica<\/i>, U.G.E. (Union G\u00e9n\u00e9rale d\u2019Edition = Uni\u00e3o Geral de Edi\u00e7\u00e3o), col. 10\/18, 1964, ou ent\u00e3o, ainda a sua volumosa <i>Histoire de la sexualit\u00e9<\/i> <i>Hist\u00f3ria da sexualidade<\/i>. E tamb\u00e9m, Michel Vovelle, <i>Mourir autrefois, Attitudes collectives devant la mort aux <small>XVII<\/small><sup>e<\/sup> et <small>XVIII<\/small><sup>e<\/sup> si\u00e8cles<\/i> <i>Morrer antigamente, Atitudes coletivas diante da morte nos s\u00e9culos <small>XVII<\/small> e <small>XVIII<\/small><\/i>, ed. Gallimard\/Julliard, 1974.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb30\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 30\" href=\"#nh30\" rev=\"footnote\">30<\/a>]\u00a0<\/span>B. L. Dumont, do Laborat\u00f3rio de Pesquisas sobre a Carne do INRA (Institut Scientifique de Recherche Agronomique = Instituto Cient\u00edfico de Pesquisa Agron\u00f4mica), \u00ab\u00a0La Gestion de la valeur nutritionnelle des viandes\u00a0\u00bb [A Gest\u00e3o do valor nutricional das carnes], em <i>L\u2019Homme et la viande<\/i> <i>O Homem e a carne<\/i>, boletim n\u00b0 48 da Sociedade de Etnozootecnia, 1992, pp. 1, 6, 8 e 9.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb31\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 31\" href=\"#nh31\" rev=\"footnote\">31<\/a>]\u00a0<\/span>B. L. Dumont, \u00ab\u00a0Relations entre la d\u00e9coupe bouch\u00e8re et la structure de la musculature\u00a0\u00bb [Rela\u00e7\u00f5es entre o corte sanguin\u00e1rio e a estrutura da musculatura], revista <i>Anthropozoologica<\/i>, n\u00famero especial de 1987\u00a0: \u00ab\u00a0La d\u00e9coupe et le partage du corps \u00e0 travers le temps et l\u2019espace\u00a0\u00bb [O corte e a partilha do corpo atrav\u00e9s do tempo e do espa\u00e7o ], pp. 9 a 17.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb32\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 32\" href=\"#nh32\" rev=\"footnote\">32<\/a>]\u00a0<\/span>Jean Billault, artigo citado, p. 66.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb33\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 33\" href=\"#nh33\" rev=\"footnote\">33<\/a>]\u00a0<\/span>Tradicionalmente, a carne de cavalo \u00e9 apresentada de maneira muito particular: \u00ab\u00a0Nenhuma carne \u00e9 t\u00e3o desprovida de ossos e de \"nervos\" (aponeuroses), de alus\u00f5es ao corpo do qual ela prov\u00e9m.\u00a0\u00bb N. Viall\u00e8s, \u00ab\u00a0Le jeu des d\u00e9coupes\u00a0\u00bb [O jogo dos cortes], <i>Boletim de Etnozootecnia<\/i> n\u00b0 48, 1992, pp. 52 e 53. Cf. tamb\u00e9m e sobretudo F. Poplin, \u00ab\u00a0Le cheval, viande honteuse\u00a0\u00bb [O cavalo, carne vergonhosa], mesmo boletim, pp. 23 e 34.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb34\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 34\" href=\"#nh34\" rev=\"footnote\">34<\/a>]\u00a0<\/span>Jean Billault, artigo citado, p. 65.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb35\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 35\" href=\"#nh35\" rev=\"footnote\">35<\/a>]\u00a0<\/span>Com, no entanto, a argumenta\u00e7\u00e3o referente \u00e0 fome no mundo, argumenta\u00e7\u00e3o \u00e9tica com a qual estamos de acordo. Se n\u00e3o insistimos nesta consequ\u00eancia indireta da alimenta\u00e7\u00e3o maci\u00e7a \u00e0 base de carne dos pa\u00edses dominantes, \u00e9 porque <i>n\u00e3o \u00e9 o assunto<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb36\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 36\" href=\"#nh36\" rev=\"footnote\">36<\/a>]\u00a0<\/span>E. Reus, <a class=\"spip_in\" href=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/vie-mort-et-transfiguration-de-la-bete-a-viande\/\">artigo citado<\/a>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e9poca atual assiste ao crescimento da sensibilidade geral da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos animais. Numerosos comportamentos mudam, mais ou menos lenta, mas infalivelmente. Sobretudo no que concerne ao consumo de carne. Mas, como se ver\u00e1, isso lamentavelmente n\u00e3o significa, de modo algum, uma melhora da sorte da esmagadora maioria dos animais\u00a0[1]. 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