{"id":1439,"date":"2006-11-09T18:27:41","date_gmt":"2006-11-09T17:27:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1439&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T18:31:16","modified_gmt":"2016-05-01T16:31:16","slug":"o-paladar-e-o-assassinato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/o-paladar-e-o-assassinato\/","title":{"rendered":"O paladar e o assassinato"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<h2>\u00abCadavres exquis\u00bb<\/h2>\n<p>Existe um jogo que se chama em franc\u00eas \u00abcadavres exquis\u00bb (tradu\u00e7\u00e3o literal: \u00abcad\u00e1veres suculentos\u00bb). Disseram-me que foram os surrealistas que o batizaram assim. Este jogo faz com que a pessoa elabore poemas por meio do uso de seq\u00fc\u00eancias incontroladas de palavras, e os surrealistas adoravam esse tipo de coincid\u00eancias muitas vezes impressionantes. Com certeza, durante uma partida apareceu a express\u00e3o \u00abcadavres exquis\u00bb; e ela foi ent\u00e3o guardada para denominar o jogo. Essa seq\u00fc\u00eancia foi um caso fortuito, mas n\u00e3o foi uma coincid\u00eancia o fato de o nome ter sido guardado para designar o jogo. Pois parece que ela impressionava particularmente, aparecendo como o t\u00edpico am\u00e1lgama que apenas a coincid\u00eancia e o destino poderiam ousar fazer; como o estranho, o absurdo total, como algo inimagin\u00e1vel dentro do qual apenas descuidadamente poder\u00edamos pisar. Imagino que tenha sido talvez \u00e0 mesa que os surrealistas ficaram extasiados por causa da capacidade do jogo de produzir estranhezas jamais vistas, e se perguntaram, apesar de tudo: \u00abcadavres exquis\u00bb (cad\u00e1veres suculentos), estando assentados \u00e0 mesa, ser\u00e1 que isso n\u00e3o lhes sugeriria alguma outra coisa? A psican\u00e1lise diz que o estranho \u00e9 freq\u00fcentemente o comum \u2013 o \u00abd\u00e9j\u00e0 vu\u00bb \u2013, mas que comum? Vemos t\u00e3o raramente cad\u00e1veres! Ele \u00e9 excelente, este frango \u2013 sim, raramente, e ainda menos os cad\u00e1veres suculentos \u2013 e, entretanto, isso me lembra algo \u2013 eu n\u00e3o vejo o qu\u00ea, d\u00ea-me uma asa; poder\u00edamos denominar assim o jogo, \u00abcadavres exquis\u00bb (cad\u00e1veres suculentos).<\/p>\n<h2>Os inocentes com as m\u00e3os encharcadas de sangue<\/h2>\n<p>Assim ent\u00e3o, a express\u00e3o que foi usada e considerada para designar a coisa estranha, designa literalmente objetos cotidianos: os corpos mortos dos animais n\u00e3o-humanos que, em nossa cultura, formam a base indispens\u00e1vel de toda cozinha. H\u00e1 algo semelhante a um hiato: as pessoas sabem o que comem? A literatura pr\u00f3-vegetariana sugere com freq\u00fc\u00eancia que o consumidor de carne n\u00e3o seria culpado, mas uma v\u00edtima. Tudo seria feito para lhe esconder o que \u00e9 a carne, para lhe mascarar sua real natureza, para evacuar as \u00abconota\u00e7\u00f5es negativas\u00bb da morte e do sofrimento. Assim, os abatedouros, como as pessoas nos contam, foram deslocados para fora das cidades; e, hoje, a carne \u00e9 vendida dentro de embalagens asseptizadas, nas se\u00e7\u00f5es dos supermercados. O consumidor seria assim o inocente enganado pelo capitalismo, pelo tecnocrata, pelo McDonald, pelo pecuarista<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Assim um folheto da organiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica \u00abAnimal Aid\u00bb apresenta ao p\u00fablico, em\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>.<\/p>\n<p>A finalidade de apresentar as coisas desse modo parece ser a de desculpabilizar o consumidor; pois, paradoxalmente, os sentimentos de culpabilidade sobre um ato podem muito bem levar \u00e0 sua <i>repeti\u00e7\u00e3o<\/i>. Cada bife ingerido pelo carn\u00edvoro o anestesia, e forma uma mensagem que ele manda a si pr\u00f3prio: \u00abn\u00e3o pode ser algo de ruim, pois o refa\u00e7o\u00bb. Ao contr\u00e1rio, se ele se conscientiza da gravidade de seus atos, encontra-se confrontado ao seu passado e deve assumi-lo para poder justific\u00e1-lo. Infelizmente, \u00e9 dif\u00edcil acreditar na inoc\u00eancia do consumidor se nos limitamos a condenar apenas alguns aspectos particulares do consumo de carne (como o sofrimento suplementar infligido pela pecu\u00e1ria industrial, a superalimenta\u00e7\u00e3o dos gansos ou o abate ritualizado) e de justificar assim implicitamente o princ\u00edpio mesmo de matar o outro para com\u00ea-lo, a partir da constata\u00e7\u00e3o de que ele n\u00e3o seja um ser humano. \u00c9 dif\u00edcil acreditar na inoc\u00eancia do consumidor, \u00e9 dif\u00edcil acreditar que coma carne porque o governo ou o sindicato dos a\u00e7ougueiros lhe escondam que se trata de um animal morto. Pessoalmente, por exemplo, quando eu comia carne, eu j\u00e1 sabia o que era e n\u00e3o acho que fui o \u00fanico neste caso. Uma inoc\u00eancia que leva cotidianamente quase todas as pessoas a contemplar, escolher, manipular, cortar, colocar na boca, mastigar e engolir peda\u00e7os de animais mortos para isso, e a fazer dessa pr\u00e1tica alimentar o centro de discuss\u00f5es gastron\u00f4micas cotidianas, sobre as del\u00edcias maiores ou menores das diferentes partes dos cad\u00e1veres \u2013 essa inoc\u00eancia a\u00ed tem motivos para nos deixarem c\u00e9ticos.<br class=\"autobr\" \/> A realidade cotidiana da propaganda e da apresenta\u00e7\u00e3o comercial da carne contradiz a tese da inoc\u00eancia e ap\u00f3ia a da inten\u00e7\u00e3o. A publicidade encarrega-se de lembrar a todos a origem da carne, o animal bem vivo (\u00abQue vigor tem o boi!\u00bb), mesmo se isso \u00e9 feito de forma estilizada. Os a\u00e7ougues s\u00e3o decorados com desenhos de animais sorridentes; nas latas de atum, os peixes sorriem para atrair o cliente. \u00abMatamos\u00bb \u00abFazemos churrascadas ap\u00f3s matarmos os leit\u00f5es\u00bb isso \u00e9 o s\u00edmbolo da alegria popular que pode ser encontrada na express\u00e3o agressiva do \u00abvai ser uma festa total\u00bb. O supermercado franc\u00eas \u00abCasino\u00bb lan\u00e7ou uma propaganda com duas p\u00e1ginas coloridas bem expl\u00edcitas: \u00ab8 dias para os amadores, estamos festejando o leit\u00e3o\u00bb, com a foto de uma cabe\u00e7a no meio, p\u00e9s, rabos, sangue (chouri\u00e7o) etc. \u00abNo Natal, s\u00e3o sempre os mesmos que brindam!\u00bb, dizia uma outra propaganda, com a foto de uma lagosta. A marca de vinho \u00abVieux Papes\u00bb apresenta a garrafa de vinho tinto sobre um fundo de cor dominante vermelho-sangue e diversos peda\u00e7os de animais mortos com seus pesco\u00e7os dependurados e ca\u00eddos em segundo plano. Em v\u00e1rias peixarias e restaurantes, animais aqu\u00e1ticos vivos ficam dentro de aqu\u00e1rios e podem ser escolhidos na hora pelo consumidor. Com certeza, os abatedouros (assim como outras ind\u00fastrias) deixaram os centros das cidades, mas isso n\u00e3o impede que o primeiro a\u00e7ougue situado perto de minha casa exiba, atr\u00e1s do guich\u00ea, uma foto enorme dos antigos abatedouros de Lyon, mostrando centenas de bois reunidos para esperar a morte. Assim, os clientes que esperam n\u00e3o esquecer\u00e3o o que vieram buscar.<\/p>\n<h2>Assassinatos por h\u00e1bito?<\/h2>\n<p>Disseram-me que se os humanos insistem tanto em comerem carne, seria porque isso \u00e9 um h\u00e1bito humano. E tamb\u00e9m porque gostam do gosto. Mas o que vale esse tipo de explica\u00e7\u00f5es? A for\u00e7a do h\u00e1bito existe sempre, mas \u00e9 muito vari\u00e1vel. Para que ela possa explicar a perpetua\u00e7\u00e3o do consumo da carne \u2013 de in\u00edcio j\u00e1 deixa de lado a quest\u00e3o da origem da carne \u2013, seria necess\u00e1rio explicar por que ela tem for\u00e7a suficiente para se opor \u00e0s raz\u00f5es que podemos ter para pararmos de comer carne. E tais raz\u00f5es existem. Claro, muitas pessoas s\u00e3o pouco sens\u00edveis ao sofrimento dos animais n\u00e3o-humanos. Inclusive militantes das associa\u00e7\u00f5es de defesa animal s\u00e3o geralmente carn\u00edvoros, freq\u00fcentemente com ostenta\u00e7\u00e3o. Ainda mais, a carne custa caro para os humanos, pois sua fabrica\u00e7\u00e3o implica a pilhagem do Terceiro Mundo e diversas conseq\u00fc\u00eancias ecol\u00f3gicas nefastas. Assim, para o consumidor individual mesmo, a quem a carne custa em dinheiro \u2013 mais do que um regime vegetariano custaria \u2013 e custa tamb\u00e9m muitas vezes em sa\u00fade, o grande consumo praticado pelas pessoas representa um papel conhecido na etiologia das doen\u00e7as cardiovasculares e dos c\u00e2nceres intestinais. Temos de explicar que o h\u00e1bito \u00e9 <i>bastante forte<\/i> para que os humanos prefiram n\u00e3o causar sofrimentos aos n\u00e3o-humanos e n\u00e3o mat\u00e1-los, privar outros humanos de alimento, causar degrada\u00e7\u00f5es em seu pr\u00f3prio meio ambiente, gastar dinheiro e colocar sua pr\u00f3pria sa\u00fade ou mesmo vida pessoal em perigo... \u00e1 mudar o \u00abh\u00e1bito\u00bb. E este comportamento estranho n\u00e3o \u00e9 de apenas um nem o de alguns, mas o da maioria: em nossa sociedade, \u00e9 o comportamento de quase todos.<\/p>\n<h2>O gosto do assassinato<\/h2>\n<p>As pessoas dizem que o h\u00e1bito em quest\u00e3o \u00e9 o do paladar (gosto), que \u00e9 sempre particularmente forte. Podemos, entretanto, questionar: a priva\u00e7\u00e3o de doces (freq\u00fcentemente considerados muito saborosos) ou do queijo ou dos ovos ou de legumes seria sentida de forma t\u00e3o brutal como a priva\u00e7\u00e3o da carne? H\u00e1 pessoas que viajam, mudam de pa\u00edses e tamb\u00e9m de alimenta\u00e7\u00e3o; se nos lugares que elas visitam, elas encontram uma alimenta\u00e7\u00e3o da qual n\u00e3o gostam, elas reclamam quando voltam para casa \u2013 \u00abcomo a gente come mal naquele pa\u00eds\u00bb \u2013, mas raramente como se reclamassem de uma priva\u00e7\u00e3o: elas teriam gostado que uma boa culin\u00e1ria diferente tivesse substitu\u00eddo aquela com a qual est\u00e3o acostumadas, e ficaram decepcionadas n\u00e3o pelo fato da culin\u00e1ria ser diferente, mas porque a julgaram ruim; as pessoas estimam que o alimento que t\u00eam o h\u00e1bito de comer <i>poderia ter<\/i> sido substitu\u00eddo por algo de bom. Se no pa\u00eds em quest\u00e3o n\u00e3o lhes foi servida carne, ou se foi servida pouca carne, as pessoas dir\u00e3o que faltou algo: elas estimam instantaneamente que apenas a carne pode substituir a carne; que qualquer tipo de carne, mesmo com um gosto novo, pode substituir as carnes com as quais est\u00e3o acostumadas. Se consideramos que \u00e9 o h\u00e1bito gustativo que leva as pessoas a n\u00e3o conseguirem se livrar da carne, \u00e9 necess\u00e1rio explicar que todos os tipos de carne, do polvo ao cordeiro, passando pelas dobradinhas, t\u00eam um gosto particular em comum, e que este gosto, mais do que qualquer outro, \u00e9 muito atraente e potente, refor\u00e7ando o argumento de que se privar dele cria esta forte sensa\u00e7\u00e3o de priva\u00e7\u00e3o. Encontrar um tal gosto comum e estimar sua pot\u00eancia pode parecer em uma primeira abordagem algo dif\u00edcil, pois, segundo dizem, o gosto faz parte das coisas que n\u00e3o podemos discutir. Se par\u00e1ssemos aqui a discuss\u00e3o, a simples explica\u00e7\u00e3o pelo h\u00e1bito do gosto n\u00e3o levaria a lugar nenhum.<br class=\"autobr\" \/> Eu penso que a argumenta\u00e7\u00e3o do carnivorismo pelo gosto \u00e9 justa, por\u00e9m insuficiente. Pois o gosto\/paladar, contrariamente ao que as pessoas pensam, pode ser explicado. Certamente h\u00e1 algumas prefer\u00eancias gustativas simples que existem fora da influ\u00eancia cultural; por exemplo, descobriu-se que os beb\u00eas de todos os pa\u00edses gostam mais dos sabores adocicados do que dos amargos. Todavia, cada um conhece o papel essencial que as influ\u00eancias culturais desempenham neste assunto. Vemos o adulto apreciar o sabor amargo do caf\u00e9 e o picante da pimenta ou do whisky. A percep\u00e7\u00e3o do paladar depende de fatores m\u00faltiplos. O que chamamos \u00abpaladar\u00bb \u00e9 classicamente considerado pelos fisiologistas como a combina\u00e7\u00e3o do que a l\u00edngua e o olfato percebem. Na realidade, o olfato predomina. A l\u00edngua percebe apenas o sabor a\u00e7ucarado, o salgado, o \u00e1cido e o amargo, dos quais nenhuma combina\u00e7\u00e3o pode recriar a rica variedade que apreciamos ao longo de uma refei\u00e7\u00e3o. Quando estamos gripados, achamos as coisas sem gosto, e notemos bem o fato de que, na gripe, somente o olfato est\u00e1 afetado. J\u00e1 se discorreu muito sobre o car\u00e1ter eminentemente emocional do olfato e, em um senso mais amplo, do paladar. Se o gosto da carne \u00e9 atrativo e potente, o olfato desempenha um papel importante: para a l\u00edngua, a carne \u00e9 apenas vagamente salgada. E o olfato \u00e9 insepar\u00e1vel da emo\u00e7\u00e3o.<br class=\"autobr\" \/> De fato, como eu j\u00e1 notei, entram tamb\u00e9m em jogo as sensa\u00e7\u00f5es como a acidez, a textura, a audi\u00e7\u00e3o (o barulho das batatas chips), a vis\u00e3o etc. Quando degustamos um iogurte colorido com o sabor de framboesas, temos a sensa\u00e7\u00e3o perfeita de reconhecermos o gosto da framboesa; por\u00e9m, se tivermos os olhos fechados, n\u00e3o saberemos mais se ele \u00e9 de framboesa ou de banana. Um mesmo sabor ser\u00e1 percebido como agrad\u00e1vel ou desagrad\u00e1vel se prov\u00e9m de um queijo ou de p\u00e9s com chul\u00e9. A emo\u00e7\u00e3o do paladar e do olfato \u00e9 insepar\u00e1vel do que sabemos de sua origem.<br class=\"autobr\" \/> Minha m\u00e3e nos servia, com freq\u00fc\u00eancia, espaguetes com molho de tomate quando eu era jovem e ainda n\u00e3o tinha (segundo minha mem\u00f3ria) nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o. Sempre foi o prato que eu mais apreciei. O gosto do molho de tomate me faz sempre pensar nos espaguetes, e reciprocamente. Para mim, ent\u00e3o, espaguetes e molho de tomate t\u00eam um s\u00f3 gosto. Entretanto, talvez eles n\u00e3o tenham nenhuma subst\u00e2ncia odorizante em comum; \u00e9 a experi\u00eancia emotiva, pela qual, espaguetes e molho de tomate s\u00e3o associados, que determina como eu os percebo, juntos ou separados, e que faz que eu tenha, para os dois, em meu c\u00e9rebro, apenas uma regi\u00e3o com a etiqueta \u00abgosto de espaguete molho de tomate\u00bb e ligada \u00e0s lembran\u00e7as correspondentes.<br class=\"autobr\" \/> Eu penso que essa atra\u00e7\u00e3o gustativa espec\u00edfica que a carne exerce \u2013 atra\u00e7\u00e3o em grande parte respons\u00e1vel pelo que a cada segundo a humanidade faz a uma infinidade de seres sens\u00edveis na pecu\u00e1ria, nos abatedouros e nas redes de pesca \u2013, implica que as carnes, todas as carnes, t\u00eam algo em comum de atraente. O gosto \u00e9 reputado subjetivo, misterioso, inexplic\u00e1vel. Eu penso, ao contr\u00e1rio, que o gosto \u00e9 algo l\u00edmpido. Para saber que gosto as carnes t\u00eam em comum, \u00e9 necess\u00e1rio procurar o que, justamente, objetivamente, elas t\u00eam em comum. E essa coisa \u2013 que se encontra nas codornas que fritamos, no salame, no c\u00e9rebro do carneiro e no siri \u2013, o \u00fanico denominador comum objetivo destas subst\u00e2ncias, o que todas t\u00eam e que nenhuma outra tem, \u00e9 o fato de ser o corpo morto de um ser anteriormente vivo e sens\u00edvel, que foi morto em nome da vontade que temos de com\u00ea-lo.<br class=\"autobr\" \/> Ningu\u00e9m pode negar que a vida de um ser e sua morte, tem reverbera\u00e7\u00f5es emocionais profundas. E a aprova\u00e7\u00e3o que a sociedade exprime ao fato de distribuir essa morte \u00e0 vontade, n\u00e3o pode ser algo indiferente para ningu\u00e9m. Todas as carnes t\u00eam em comum o assassinato, todas elas evocam a mesma emo\u00e7\u00e3o e s\u00e3o percebidas como tendo fundamentalmente o mesmo gosto. Existe apenas uma \u00fanica regi\u00e3o cerebral para o gosto da carne, cuja etiqueta \u00e9 \u00abo gosto do assassinato\u00bb.<\/p>\n<h2>Assassinatos suculentos<\/h2>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o nos diz que quanto maior for o sofrimento infligido ao animal, melhor ser\u00e1 sua carne. Isso se aplica n\u00e3o apenas aos gatos e c\u00e3es coreanos, mortos lentamente por enforcamento, mas tamb\u00e9m aos frangos freq\u00fcentemente depenados vivos em nossos restaurantes, com essa mesma finalidade.  Keith Thomas, em seu livro <i>Dans le jardin de la nature<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"Editora Gallimard, 1985, pp. 122 e 123.\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span>, descreve o abate na Inglaterra no s\u00e9culo XVI:<\/p>\n<blockquote><p>Para tornar a carne mais branca, abre-se a garganta dos bezerros e dos cordeiros, de forma que o sangue escorra bem; depois fecha-se a ferida e deixa-se o animal sobreviver ainda um dia.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ele cita assim uma receita comum para matar os leit\u00f5es na mesma \u00e9poca:<\/p>\n<blockquote><p>\u00abDepois de ter sido bem engordado, enfie bem fundo um fac\u00e3o em um de seus flancos e deixe o animal correr com o fac\u00e3o at\u00e9 que morra; ou atormente-o gentilmente com c\u00e3es amorda\u00e7ados.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>E, assim como indica um dos personagens de um romance ingl\u00eas do s\u00e9culo XIX<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"Jude the Obscure, romance de T. Hardy, citado por Keith Thomas.\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span>, ainda sobre os leit\u00f5es:<\/p>\n<blockquote><p> \u00ab&nbsp;(...) a carne deve ser bem sangrada, e por isso \u00e9 necess\u00e1rio que o animal morra lentamente (...) eu fui criado em uma fazenda e conhe\u00e7o bem o processo. Um bom a\u00e7ougueiro deve fazer o animal sangrar durante muito tempo. Ele deve demorar pelo menos de 8 a 10 minutos para morrer.\u00bb<\/p><\/blockquote>\n<p>Todo mundo sabe como \u00e9 fabricado o \u00abfoie gras\u00bb. Entretanto, n\u00e3o s\u00e3o pessoas selvagens que comem isso, mas pessoas, justamente consideradas \u00abrefinadas, civilizadas\u00bb. O sofrimento aqui, mais uma vez, confere valor e prest\u00edgio. Quanto ao caviar, \u00e9 extra\u00eddo do ventre dos esturj\u00f5es, sem anestesia. Hoje em dia, a pecu\u00e1ria intensiva gera muitos sofrimentos. Com efeito, trata-se simplesmente da continuidade de utiliza\u00e7\u00e3o dos m\u00e9todos das tradi\u00e7\u00f5es antigas, como nota Keith Thomas. Por exemplo, no s\u00e9culo XVII, \u00abcria-se especialmente os cordeiros do Dorset aprisionando-os em min\u00fasculas cabanas escuras para serem servidos no Natal, sobre a mesa dos nobres e dos burgueses\u00bb. E, se os bezerros hoje em dia s\u00e3o sistematicamente criados em s\u00e9rie e particularmente maltratados (priva\u00e7\u00e3o de fibras e de ferro), \u00e9 para que suas carnes fiquem p\u00e1lidas e valham mais. \u00c9 verdade que o inverso tamb\u00e9m existe: assim, a pecu\u00e1ria industrial adquiriu, em nossos dias, a reputa\u00e7\u00e3o de tornar a carne insossa. Mas exatamente neste caso existe a falsa id\u00e9ia (que \u00e9 muito difundida) de que os animais criados assim estariam t\u00e3o desnaturados que n\u00e3o sofreriam mais; pois seriam apenas como simples m\u00e1quinas. De tanto torturar a v\u00edtima, ela se torna insens\u00edvel. Na cabe\u00e7a de muitas pessoas, hoje em dia, apenas o bezerro \u00abque cresceu mamando na m\u00e3e\u00bb, tem algo a lamentar quando \u00e9 morto para nos dar uma carne saborosa.  Assim, o sofrimento e o bom gosto da carne ainda coincidem. Eu penso, entretanto, que perder\u00edamos muito tempo ao procurarmos avaliar, mediante an\u00e1lise dessa qu\u00edmica, como o sofrimento melhora ainda mais o sabor da carne. Finalmente, torturar e matar \u00e9 um pouco a mesma coisa. O sofrimento n\u00e3o \u00e9 um produto qu\u00edmico, mas ele confere mais gosto e emo\u00e7\u00e3o. E, se a pessoa gosta do paladar, da emo\u00e7\u00e3o da carne, ent\u00e3o o gosto e a emo\u00e7\u00e3o da carne bem sofrida ser\u00e3o ainda melhores.<\/p>\n<h2>Por que tanto \u00f3dio?<\/h2>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o que acabo de fazer sobre as motiva\u00e7\u00f5es dos carn\u00edvoros parece fazer deles monstros sedentos de sangue. Isso \u00e9 plaus\u00edvel? Eu mesmo comi carne durante v\u00e1rios anos, e n\u00e3o tenho a impress\u00e3o de ter sido, naquela \u00e9poca, bem diferente, psicologicamente, do que sou hoje em dia. Ao contr\u00e1rio de hoje em dia, ser\u00e1 que eu era atra\u00eddo pelo assassinato, pela viol\u00eancia e pela tortura?<br class=\"autobr\" \/> Talvez essa n\u00e3o seja a boa pergunta. Atra\u00eddos pelo assassinato, pela viol\u00eancia, pela tortura, praticamente todos n\u00f3s o somos. N\u00e3o \u00e9 bem clara a raz\u00e3o \u2013 isso tem a ver, talvez, com a ang\u00fastia de nossa pr\u00f3pria morte<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"Se o assassinato \u00e9 t\u00e3o atraente, talvez seja porque matar \u00e9 uma vit\u00f3ria sobre\u00a0(...)\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>. De toda forma, essa tend\u00eancia \u00e0 <i>Schadenfreude<\/i> parece ser algo quase universal<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh5\" class=\"spip_note\" title=\"O assassinato atrai mas tamb\u00e9m pode causar repulsa. H\u00e1 muitas pessoas que\u00a0(...)\" href=\"#nb5\" rel=\"footnote\">5<\/a>]<\/span>. Temos um prazer intenso em olhar um filme de horror, em jogar jogos de guerra, em ler a hist\u00f3ria do Terceiro Reich. Por outro lado, o sentimento de domina\u00e7\u00e3o que proporciona a opress\u00e3o do outro, n\u00e3o possui apenas uma dimens\u00e3o individual no caso da carne. Parece que a sociedade toda ainda n\u00e3o aprendeu a se definir a n\u00e3o ser como estando <i>contra<\/i> o outro, e agora que a igualdade dos humanos foi reconhecida (pelo menos em princ\u00edpio), este outro somente pode ser um n\u00e3o-humano. Comendo a carne que est\u00e1 no meio da mesa, cada um se assegura sobre sua pr\u00f3pria qualidade de dominante, sobre seu lugar entre seus pr\u00f3ximos e no seio da sociedade que lhe outorgou este poder de matar. Mesmo o mais pobre mendigo pode comprar uma latinha de sardinhas e ter\u00e1 seu peda\u00e7o de peru de Natal nos \u00abRestos du C\u0153ur\u00bb<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh6\" class=\"spip_note\" title=\"Poderemos enriquecer este tema com a leitura de: Nick Fiddes, Meat&nbsp;: A\u00a0(...)\" href=\"#nb6\" rel=\"footnote\">6<\/a>]<\/span>.<br class=\"autobr\" \/> O prazer de matar e de fazer sofrer na imagina\u00e7\u00e3o, a satisfa\u00e7\u00e3o que tiramos de uma domina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, s\u00e3o essencialmente os mesmos que podemos sentir ao fazer realmente essas coisas. A diferen\u00e7a capital n\u00e3o est\u00e1 no n\u00edvel do que sente o agente, mas no n\u00edvel da v\u00edtima \u2013 no primeiro caso, n\u00e3o h\u00e1 v\u00edtima; no segundo, h\u00e1. No primeiro caso, n\u00e3o h\u00e1 por que se abster, salvo se acharmos esse tipo de imagina\u00e7\u00e3o pouco est\u00e9tica, ou doentia para o car\u00e1ter. No segundo caso, h\u00e1 fortes raz\u00f5es, \u00e9ticas, para nos abstermos: o sofrimento das v\u00edtimas. Tudo acontece como se os humanos, ao comerem os animais, n\u00e3o notassem que se trata de horrores realmente perpetrados. Ou melhor: no n\u00edvel est\u00e9tico o sofrimento e a morte do n\u00e3o-humano s\u00e3o anulados, n\u00e3o sendo percebido como <i>reais<\/i>, perdendo ent\u00e3o todo valor. Quando eu comia carne, eu n\u00e3o me sentia mais sanguin\u00e1rio do que um menino que brinca de guerreiro: levar em conta a \u00e9tica com rela\u00e7\u00e3o aos animais nem me passava pela cabe\u00e7a. \u00c9 o que o psic\u00f3logo americano Don Barnes denomina como \u00abcegueira \u00e9tica condicionada<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh7\" class=\"spip_note\" title=\"Citado por Peter Singer em La Lib\u00e9ration animale, p. 120.\" href=\"#nb7\" rel=\"footnote\">7<\/a>]<\/span>\u00bb: sempre que levarmos em considera\u00e7\u00e3o \u00e9tica os n\u00e3o-humanos, isto implica conseq\u00fc\u00eancias desagrad\u00e1veis. Significa reconhecer o horror do que fizemos, e parar de faz\u00ea-lo, renunciando assim aos prazeres que t\u00ednhamos e adotando uma posi\u00e7\u00e3o social embara\u00e7osa \u2013 e se encontrar inibido.<\/p>\n<h2>Cad\u00e1veres injustos<\/h2>\n<p>Pedir aos humanos que deixem de consumir carne \u00e9, <i>em apar\u00eancia<\/i>, pedir-lhes pouca coisa. Em apar\u00eancia \u00e9 quase nada pedir, pois, mesmo que sejam alheios aos interesses dos animais, os humanos aparentemente t\u00eam quase interesse em parar de com\u00ea-los. Parece admiss\u00edvel para quase todos que seja poss\u00edvel modificar sua alimenta\u00e7\u00e3o por causa de sua sa\u00fade ou por causa do Terceiro Mundo. Pedir aos humanos que deixem de comer carne por causa dos interesses dos animais, \u00e9 pedir, no m\u00e1ximo, que levem <i>um pouquinho<\/i> em conta estes interesses.<\/p>\n<p>Seria j\u00e1 muito bom se, conseguindo que as pessoas levassem um pouquinho mais em conta os interesses dos n\u00e3o-humanos, consegu\u00edssemos fazer com que n\u00e3o mais comessem carne. Infelizmente, <i>na realidade<\/i>, o consumo de carne \u00e9, para os humanos, de uma import\u00e2ncia cultural central. \u00c9 pedir-lhes <i>muito<\/i> que parem de com\u00ea-la. Essa \u00e9 uma armadilha dentro da qual muitos militantes (pela libera\u00e7\u00e3o animal) se encontram presos. Partindo da igualdade de considera\u00e7\u00e3o que devemos ter com rela\u00e7\u00e3o aos interesses de todos os indiv\u00edduos, n\u00f3s militamos contra a pr\u00e1tica especista central que \u00e9 o consumo da carne; mas como isso parece ser uma exig\u00eancia fraca, extra\u00edda de argumentos fracos e at\u00e9 mesmo de ordem puramente privada (a sa\u00fade, a simpatia pelos animais), a mensagem forte \u2013 a igualdade animal \u2013 se perde pelo caminho. Temos grandes dificuldades em transmitir nossa mensagem sob esse argumento percebido como sendo fraco.<br class=\"autobr\" \/> Devido \u00e0 fraqueza da mensagem veiculada por nossa milit\u00e2ncia pr\u00f3-vegetariana \u2013 e convenhamos que os interesses dos animais merecem <i>um pouquinho mais<\/i> de aten\u00e7\u00e3o e pondera\u00e7\u00e3o\u2013 o p\u00fablico, a partir do momento que imagina realmente parar de comer carne, encontra-se confrontado com seu <i>forte<\/i> interesse em continuar com essa pr\u00e1tica. O carn\u00edvoro pode at\u00e9 ocultar o sentimento de estar de acordo conosco \u2013 ele estaria de acordo apenas se, como podem sugerir as apar\u00eancias, fosse f\u00e1cil n\u00e3o comer carne. Simplesmente ele tem a impress\u00e3o que n\u00f3s nos enganamos sobre ele: o carn\u00edvoro <i>gosta demais<\/i> de carne; para ele seria um esfor\u00e7o <i>imenso<\/i> n\u00e3o mais com\u00ea-la. Ent\u00e3o, candidamente ele nos aprova: \u00abvoc\u00ea tem raz\u00e3o, continue\u00bb; mas o vegetarianismo n\u00e3o \u00e9 para ele. <br class=\"autobr\" \/> A tenta\u00e7\u00e3o de exaltar quanto \u00e9 f\u00e1cil e agrad\u00e1vel ser vegetariano, e ben\u00e9fico para a sa\u00fade, apenas refor\u00e7a a armadilha. Dever\u00edamos, ao contr\u00e1rio, ent\u00e3o, para expressar nossa mensagem, dizermos como \u00e9 <i>dif\u00edcil<\/i> ser vegetariano? Eu acho, claro, que \u00e9 bom explicar, pois muitas pessoas ainda n\u00e3o sabem, que viver sem carne \u00e9 <i>poss\u00edvel<\/i>, e que isso tamb\u00e9m n\u00e3o exige nenhuma aten\u00e7\u00e3o particular para a sa\u00fade \u2013 \u00absubstituir\u00bb as \u00abprote\u00ednas animais<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh8\" class=\"spip_note\" title=\"Para a alimenta\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a vegana, como para qualquer outra crian\u00e7a, \u00e9\u00a0(...)\" href=\"#nb8\" rel=\"footnote\">8<\/a>]<\/span>\u00bb n\u00e3o exige nenhuma gin\u00e1stica complicada. Mas temos de deixar claro que sabemos que a carne \u00e9 importante para as pessoas. Devemos lhes dizer que sabemos que lhes pedimos muito; que sabemos que lhes pedimos para abandonar uma pr\u00e1tica que est\u00e1 inserida no centro de suas rela\u00e7\u00f5es com a sociedade, com seus familiares e consigo mesmo, e com sua pr\u00f3pria morte. N\u00f3s lhes pedimos isso porque, ainda que os cad\u00e1veres que eles consumam sejam suculentos, as conseq\u00fc\u00eancias deste consumo s\u00e3o horr\u00edveis. E porque mesmo que tal pr\u00e1tica traga prazer e seguran\u00e7a, parar \u00e9 a \u00fanica escolha <i>justa<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Assim um folheto da organiza\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica \u00abAnimal Aid\u00bb apresenta ao p\u00fablico, em paralelo, em duas p\u00e1ginas: \u00abo que n\u00f3s lhes fazemos\u00bb (pecu\u00e1ria industrial etc.) e \u00abo que fazem com voc\u00eas\u00bb (carne com horm\u00f4nios etc.). Fora o \u00abn\u00f3s\u00bb que sem d\u00favida deveria ser enforcado, o resto se torna v\u00edtima inocente.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>Editora Gallimard, 1985, pp. 122 e 123.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span><i>Jude the Obscure<\/i>, romance de T. Hardy, citado por Keith Thomas.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span>Se o assassinato \u00e9 t\u00e3o atraente, talvez seja porque matar \u00e9 uma vit\u00f3ria sobre a morte \u2013 limitada, com certeza \u2013, mas todas as vit\u00f3rias o s\u00e3o. Ao matar, n\u00f3s encomendamos a morte, n\u00f3s somos os mestres; n\u00f3s escolhemos a que hora ela chega, e mesmo quando se trata de um animal da pecu\u00e1ria, n\u00f3s \u00e9 que decidimos que ele morrer\u00e1: pois sem nossa vontade de assass\u00ednio, este animal nunca teria existido. O fato de estarmos perto da morte, nos d\u00e1 a impress\u00e3o de conquist\u00e1-la e domin\u00e1-la. <br class=\"autobr\" \/> A mesa farta, a boa vida, \u00e9 a carne, a festa, o lugar onde esquecemos a morte ao coloc\u00e1-la no centro da mesa. E para este ser que matamos, que ocupa o lugar de honra, sentimos como se tamb\u00e9m fosse a festa, pois sua carne, consumida, se tornar\u00e1 for\u00e7as vivas. O vegetariano, ao contr\u00e1rio, tem uma apar\u00eancia de ser algu\u00e9m tristonho, que espera passivamente a morte, que a sofrer\u00e1 sem nunca t\u00ea-la praticado.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb5\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 5\" href=\"#nh5\" rev=\"footnote\">5<\/a>]\u00a0<\/span>O assassinato atrai mas tamb\u00e9m pode causar repulsa. H\u00e1 muitas pessoas que sentem nojo da carne. Isso n\u00e3o contradiz minhas afirma\u00e7\u00f5es: aqui, ainda, o gosto atribu\u00eddo \u00e0 carne est\u00e1 ligado ao ato que a produz. Globalmente est\u00e1 claro que \u00e9 geralmente a atra\u00e7\u00e3o por este gosto que domina.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb6\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 6\" href=\"#nh6\" rev=\"footnote\">6<\/a>]\u00a0<\/span>Poderemos enriquecer este tema com a leitura de: Nick Fiddes, <i>Meat&nbsp;: A Natural Symbol<\/i>, editora Routledge, Londres, 1991.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb7\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 7\" href=\"#nh7\" rev=\"footnote\">7<\/a>]\u00a0<\/span>Citado por Peter Singer em <i>La Lib\u00e9ration animale<\/i>, p. 120.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb8\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 8\" href=\"#nh8\" rev=\"footnote\">8<\/a>]\u00a0<\/span>Para a alimenta\u00e7\u00e3o de uma crian\u00e7a vegana, como para qualquer outra crian\u00e7a, \u00e9 bom consultar um pediatra.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abCadavres exquis\u00bb Existe um jogo que se chama em franc\u00eas \u00abcadavres exquis\u00bb (tradu\u00e7\u00e3o literal: \u00abcad\u00e1veres suculentos\u00bb). 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