{"id":1433,"date":"2006-11-09T18:19:28","date_gmt":"2006-11-09T17:19:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1433&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T18:22:33","modified_gmt":"2016-05-01T16:22:33","slug":"porque-nao-sou-ecologista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/porque-nao-sou-ecologista\/","title":{"rendered":"Porque eu n\u00e3o sou ecologista"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p>Em geral, parece-me que os ecologistas divinizam a natureza e, ao mesmo tempo, fazem dela uma id\u00e9ia med\u00edocre e petrificada.<\/p>\n<p>Surpreende-me ver como poucos participantes de movimentos alternativos na Fran\u00e7a deram o passo e pararam de consumir carne. Comer carne \u00e9 ordenar o abate de um ser sens\u00edvel que vive e que d\u00e1 todo valor ao \u00fanico bem que a que ele pode dar; ao \u00fanico bem que ele possui: sua vida.<\/p>\n<p>Eu me oponho aos ecologistas pois, para eles, a raposa que come a lebre \u00e9 algo bom, enquanto isso preservar o \u00abequil\u00edbrio natural\u00bb, enquanto eu, vejo o sofrimento da lebre. Para achar isso \u00abbom\u00bb \u00e9 preciso ter o esp\u00edrito fechado e ser cego para n\u00e3o notar o que na realidade isso representa. Os ecologistas somente enxergam na natureza as <i>esp\u00e9cies<\/i>; sem a interven\u00e7\u00e3o do homem, estas esp\u00e9cies variam pouco, pelo menos visivelmente falando; a impress\u00e3o de estabilidade que da\u00ed resulta proporciona um vago sentimento de repouso, de seguran\u00e7a; e eles falam ent\u00e3o de <i>harmonia da natureza<\/i>.<\/p>\n<p>A tortura \u00e9 permanente na Am\u00e9rica Latina, e por causa disso seria ela harmoniosa? Os ecologistas acham bom que a raposa mate a lebre porque isso preserva uma ordem. A tortura tamb\u00e9m preserva uma ordem.<\/p>\n<p>Jean Dorst, naturalista renomado:<\/p>\n<blockquote><p>Aqueles que desejam abolir a ca\u00e7a freq\u00fcentemente n\u00e3o t\u00eam muita consci\u00eancia do fio estreito que une a vida e a morte. \u00c9 ent\u00e3o necess\u00e1rio julgar sem nenhum sentimentalismo a ca\u00e7a e consider\u00e1-la como uma atividade \u00abnormal\u00bb e como a explora\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de um capital natural para o benef\u00edcio e a satisfa\u00e7\u00e3o esportiva do homem<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Citado em Que choisir?, n\u00famero especial \u00abWeek-ends, vacances&nbsp;: \u00e9clatez-vous\u00bb,\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>.<\/p><\/blockquote>\n<p>.<\/p>\n<p>V\u00e1rios ecologistas pensam assim. Entretanto esta atitude mostra um imenso desprezo pelo citado <i>sentimentalismo<\/i>; quer dizer, contra a compaix\u00e3o por seres que nos s\u00e3o pr\u00f3ximos, pois acreditam que devemos fechar os olhos para os sofrimentos daqueles que denominamos \u00abanimais\u00bb; enquanto que a l\u00f3gica cient\u00edfica, assim como o simples bom senso, insistem que n\u00f3s tamb\u00e9m sejamos denominados como animais.<\/p>\n<p>Freq\u00fcentemente, os ecologistas n\u00e3o gostam da ca\u00e7a. Geralmente, e eu tenho certeza, por causa da antipatia que sentem pelo prazer de matar. Mas quando o confronto ocorre, apenas um ponto \u00e9 questionado: os ca\u00e7adores degradam ou n\u00e3o a natureza? A simpatia pelos animais \u00e9 colocada em surdina, como se este sentimento causasse vergonha. Assim, certos ecologistas tornam-se aliados com os \u00abbons\u00bb ca\u00e7adores ou, com maior freq\u00fc\u00eancia, com os pescadores (essas pessoas pac\u00edficas que, depois de terem furado uma minhoca qualquer, um bicho inferior, sufocam o peixe que ainda treme e rasgam a carne de suas goelas). Para os ecologistas, s\u00e3o \u00abbons\u00bb ca\u00e7adores ou pescadores, quando preservam o equil\u00edbrio natural.<\/p>\n<div class=\"image\"><img src=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/wp-content\/uploads\/IMG\/squelettes\/documents\/pou1-2.gif\" alt=\"Image\" \/><\/div>\n<p class=\"legende\">Este cartaz, que apresenta uma raposa segurando um camundongo entre os dentes \u00e9 obra dos \u00abAmis des Renards et Autres Puants\u00bb (ARAP \u2013 Amigos das raposas e outros fedorentos), ou seja, ecologistas que se apresentam como \u00abamigos\u00bb de (certos) animais. Com a finalidade de incitar os ca\u00e7adores (humanos) a n\u00e3o mais matarem as raposas, a ARAP sa\u00fada cada um deles \u00abque protege a natureza e respeita os outros ca\u00e7adores\u00bb. A id\u00e9ia de que a preda\u00e7\u00e3o poderia ser uma realidade <i>funesta<\/i> nem lhes passa pela cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"legende\">Antes pelo contr\u00e1rio, os ecologistas s\u00e3o, freq\u00fcentemente, fascinados pela preda\u00e7\u00e3o. Os animais com os quais mais se preocupam s\u00e3o os predadores (raposas, lobos, linces, aves de rapina...). \u00c9 raro que um programa na TV, sobre a natureza, n\u00e3o mostre cenas sangrentas \u2013 mas t\u00e3o belas \u2013 de le\u00f5es ca\u00e7ando gazelas. Os manuais de ecologia privilegiam o estudo das \u00abcadeias tr\u00f3ficas\u00bb \u2013 enquanto que os animais fazem outras coisas al\u00e9m de se alimentarem.<\/p>\n<h2>O \u00abequil\u00edbrio natural\u00bb<\/h2>\n<p><i>Preservar, equil\u00edbrio, natural<\/i>: o credo ecologista. Mas, imaginem, a \u00abnatureza\u00bb nunca foi equilibrada:<\/p>\n<p>a) A natureza \u00e9 o todo, a realidade. <i>Homo sapiens<\/i> faz parte da natureza. O cimento armado, o carro, as centrais nucleares, tudo \u00e9 natural.<\/p>\n<p>Se o homem tem, sem d\u00favida, e em um sentido mal definido, uma intelig\u00eancia superior a todas as outras formas de vida, \u00e9 uma particularidade natural. A lebre corre mais, o ser humano raciocina melhor, e, caso ele destrua o planeta, nada mais seria do que o resultado da evolu\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o altera nada da nossa capacidade de escolha. Podemos ser contra os autom\u00f3veis, as centrais nucleares e o consumo de carne n\u00e3o pelo fato de eles n\u00e3o serem \u00abnaturais\u00bb mas por causa do sofrimento e da morte que provocam. Fa\u00e7o parte da natureza e qualquer escolha que eu fizer ser\u00e1 instantaneamente natural. A natureza n\u00e3o me dita as minhas escolhas.<\/p>\n<p>Quando digo que somos animais, eu n\u00e3o evoco uma \u00abparte animal\u00bb que existe em n\u00f3s. N\u00f3s <i>somos<\/i> 100% animais. Tamb\u00e9m somos 100% humanos. E isso n\u00e3o faz 200%, assim como se eu disser que a \u00e1gua \u00e9 100% um l\u00edquido e a 100% um composto de hidrog\u00eanio.<\/p>\n<p>b) A natureza, com o homem ou sem ele, n\u00e3o \u00e9 equilibrada. Ela \u00e9 o reino da harmonia <i>e<\/i> da disson\u00e2ncia, da continuidade <i>e<\/i> das transforma\u00e7\u00f5es lentas ou catastr\u00f3ficas, da mem\u00f3ria e da inova\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 o reino da adapta\u00e7\u00e3o <i>e<\/i> da inadapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todo ser vivo pluricelular morre um dia. Um \u00f3rg\u00e3o minado pelo tempo para de funcionar, o organismo se envenena com suas pr\u00f3prias toxinas, os pulm\u00f5es param, os \u00f3rg\u00e3os sufocam; os m\u00fasculos ficam sem oxig\u00eanio e produzem \u00e1cido l\u00e1tico. Para sobreviver. Que bela adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o. Tudo morre na ruptura do equil\u00edbrio, o p\u00e2nico. O sangue da lebre estra\u00e7alhada pela raposa tenta coagular para curar as chagas de uma pele que est\u00e1 sendo digerida. Onde est\u00e1 a harmonia?<\/p>\n<p>A \u00abM\u00e3e Natureza\u00bb, que tudo prev\u00ea, n\u00e3o previu nada para a morte. Salvo a exce\u00e7\u00e3o de que, o que acontece a um animal quando ele morre, n\u00e3o tem nenhuma influ\u00eancia no futuro de sua esp\u00e9cie. Ao longo do tempo n\u00e3o ocorreu nenhuma adapta\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica a esta situa\u00e7\u00e3o. Como um animal morre, isso n\u00e3o interessa mais \u00e0 \u00abM\u00e3e Natureza\u00bb, que, entretanto, previu a morte em sua <i>ordem<\/i>. Que ele se vire, em seu sofrimento ou na tranq\u00fcilidade, o importante \u00e9 que morra, pois n\u00e3o serve mais para nada!<\/p>\n<p>A harmonia, para a lebre, se encontra talvez em suas longas patas traseiras que lhe permitem, com freq\u00fc\u00eancia, escapar da raposa. Mas a sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie da raposa ao longo das eras atesta os limites desta harmonia.<\/p>\n<p>A adapta\u00e7\u00e3o dos animais a seu meio ambiente \u00e9 bem relativa. No ver\u00e3o as andorinhas v\u00eam para a Fran\u00e7a a fim de comerem insetos voadores, faz calor e o ar \u00e9 seco. Mas, quando chove durante vinte dias sem parar? Elas n\u00e3o conseguem se alimentar e morrem aos milhares. Seus filhotes tamb\u00e9m, de qualquer maneira, mesmo em condi\u00e7\u00f5es \u00abnormais\u00bb, poucos s\u00e3o os destinados a sobreviverem mais que alguns meses.<\/p>\n<p>As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o um fen\u00f4meno constante. As glacia\u00e7\u00f5es do quatern\u00e1rio destru\u00edram grande parte das esp\u00e9cies de plantas e animais europeus.<\/p>\n<p>Diferentes tipos de plantas crescem em solos e sob climas diferentes. A agricultura \u00aborg\u00e2nica\u00bb deseja \u00abrespeitar a natureza\u00bb, oferecendo a cada planta suas \u00abcondi\u00e7\u00f5es naturais\u00bb. Com efeito, na natureza, raras s\u00e3o as plantas que crescem em suas \"condi\u00e7\u00f5es ideais\". Elas crescem l\u00e1 onde podem, at\u00e9 o extremo limite das regi\u00f5es onde podem sobreviver. As plantas raqu\u00edticas e defeituosas s\u00e3o um fato da natureza. Al\u00e9m disso, a no\u00e7\u00e3o de \u00abcondi\u00e7\u00f5es ideais\u00bb n\u00e3o faz sentido. Fundamentalmente, um cactos tem tanta necessidade de \u00e1gua quanto qualquer outra planta. Ele n\u00e3o \u00e9 \u00abbem adaptado\u00bb ao deserto, ele \u00e9 <i>menos mal adaptado<\/i> do que outras, e ele se instalou no deserto por causa da menor concorr\u00eancia que a\u00ed encontra. Em segundo lugar, ele pode ter perdido suas defesas, contra, por exemplo, os mofos, pouco virulentos em meio seco; o resultado \u00e9 uma planta que sofre permanentemente de sede e \u00e9 incapaz de viver em meio \u00famido. Um inadaptado por natureza.<\/p>\n<p>A natureza, \u00e9 a inova\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Na Inglaterra, as raposas, expulsas dos campos, se instalaram nas cidades. Nos campos, elas cavavam tocas. Na cidade, elas se viram. Voc\u00ea acha que o instinto que lhes levava a cavar tocas tenha desaparecido? Para sobreviver, elas v\u00e3o <i>contra<\/i> seus instintos. A primeira causa de mortalidade \u00e9, massivamente, o atropelamento por carros. A esp\u00e9cie prolifera? V\u00e1 ver a harmonia, v\u00e1 olhar os cad\u00e1veres esmagados (n\u00e3o \u00e9 preciso ir longe, aqui na Fran\u00e7a temos os pombos e os gatos)!<\/p>\n<p>O homem destr\u00f3i a fauna e a flora; h\u00e1, se n\u00e3o me engano, uma esp\u00e9cie a menos por dia. Fen\u00f4meno novo, escandaloso, contra a natureza? Quando a deriva dos continentes uniu a Am\u00e9rica do Norte \u00e0 do Sul, uma boa parte da fauna sul americana foi exterminada pelos predadores vindos do norte, que ela n\u00e3o conhecia. Fen\u00f4meno talvez detest\u00e1vel, mas antinatural?<\/p>\n<p>A natureza evolui indo contra o natural. As raposas e os ratos nas cidades, as vacas homossexuais, os p\u00e1ssaros ingleses que tiram as tampas das garrafas de leite deixadas pelo leiteiro, s\u00e3o antinaturais. A lebre que corre para escapar da morte tamb\u00e9m vai contra sua pregui\u00e7a, contra a parte de sua natureza que \u00e9 hostil ao esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Tenho dores nas costas, porque os ancestrais do homem agiram \u00abantinaturalmente\u00bb e ficaram em p\u00e9.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o nego inteiramente a harmonia natural. Ela existe pela for\u00e7a das coisas. Os peixes possuem br\u00f4nquios, e vivem debaixo da \u00e1gua. \u00c9 bom, \u00e9 adaptado, \u00e9 harmonioso, mas essa harmonia n\u00e3o me conduz a nada. Nenhum animal \u00abobedece\u00bb \u00e0 natureza. Se ele tem instintos \u00e9 porque ele \u00e9 assim, ele n\u00e3o <i>obedece<\/i> a seus instintos. N\u00e3o h\u00e1 um deus-peixe que comande o indiv\u00edduo peixe. A natureza n\u00e3o obedece \u00e0 natureza, ela \u00e9 a natureza.<\/p>\n<h2>As leis naturais<\/h2>\n<div class=\"image\"><img src=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/wp-content\/uploads\/IMG\/squelettes\/documents\/pou2-2.gif\" alt=\"Image\" \/><\/div>\n<p>Eu n\u00e3o nego as especificidades do <i>Homo sapiens<\/i>, pois \u00e9 uma <i>esp\u00e9cie<\/i>. Elas s\u00e3o para mim coisa importante. Eu posso ir contra meus instintos, contra uma parte de mim mesmo. Eu posso escolher. Eu creio que todo ser vivo escolhe, em um sentido, pois nele h\u00e1 contradi\u00e7\u00f5es. Mas o homem o faz de modo mais claro. Amarrar-me a um deus-natureza, seria <i>tamb\u00e9m<\/i> ir contra minha natureza.<\/p>\n<p>Gosto muito da natureza, quer dizer, da realidade. Amo a vida, que faz parte desta realidade, amo o prazer e a felicidade e tamb\u00e9m amo a felicidade alheia. Para mim o porco \u00e9 um animal totalmente simp\u00e1tico. \u00c9 insuport\u00e1vel pensar o que fazem com esses seres enquanto s\u00e3o criados e nos abatedouros. Que desperd\u00edcio! Que inconsci\u00eancia reduzir um ser sens\u00edvel a peda\u00e7os de carne! E isso pelo pequeno prazer de comer carne!<\/p>\n<p>Para mim isso \u00e9 escandaloso, se eu achar ou n\u00e3o o animal simp\u00e1tico, se ele for ou n\u00e3o inteligente, bonito ou n\u00e3o; eu n\u00e3o reduzo a natureza a minhas simples afinidades pessoais.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o acredito nos vegetarianos que dizem que comer carne n\u00e3o \u00e9 algo natural. Parece-me prov\u00e1vel que o homem, atrav\u00e9s da evolu\u00e7\u00e3o, tornou-se adaptado para com\u00ea-la. Isso n\u00e3o muda nada, pois podemos viver muito bem sem comer carne.<\/p>\n<p>Eu amo muito a natureza, amo o que ela traz: a vida, o prazer, e n\u00e3o gosto do que ela tira: o sofrimento, a morte. Eu amo os gatos e os ratos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o gosto da ca\u00e7a porque n\u00e3o gosto que matem as perdizes. \u00abSentimentalismo\u00bb, diz Jean Dorst? N\u00e3o, mas a consci\u00eancia do valor da alegria da vida da perdiz.<\/p>\n<p>Tenho plena consci\u00eancia da exist\u00eancia da morte. Quanto ao \u00abfio estreito\u00bb entre a vida e a morte do qual fala Jean Dorst, com uma conota\u00e7\u00e3o um pouco m\u00edstica, realmente eu n\u00e3o o vejo, eu apenas constato que todo ser vivo pluricelular morre um dia, eu lamento, mas at\u00e9 hoje eu n\u00e3o posso fazer nada contra isso. Assim como n\u00e3o posso fazer muito contra a fome no mundo. A fome \u00e9, talvez natural, mas n\u00e3o vou, por causa disso, pegar um fuzil para matar quatro ou cinco etiopianos para meu benef\u00edcio e minha satisfa\u00e7\u00e3o esportiva. Este benef\u00edcio e esta satisfa\u00e7\u00e3o esportiva s\u00e3o coisas bem s\u00e9rias, aos olhos de Jean Dorst. Eu n\u00e3o as desprezo, todo prazer para mim \u00e9 algo s\u00e9rio. Mas que desprezo ele e tantas pessoas<br class=\"autobr\" \/> mostram em rela\u00e7\u00e3o a tudo que n\u00e3o corresponde a uma atividade humana produtiva, institucionaliz\u00e1vel, econ\u00f4mica! Sentimentalismo! Jean Dorst \u00e9 um homem s\u00e9rio. Um general tamb\u00e9m e o soldado que n\u00e3o quer matar o soldado \u00abinimigo\u00bb demonstra sentimentalismo.<\/p>\n<p>Jean Dorst tem raz\u00e3o ao dizer que a ca\u00e7a \u00e9 uma atividade normal. A preda\u00e7\u00e3o e o c\u00e2ncer tamb\u00e9m \u2013 mesmo se o fato desagrada aos m\u00edsticos da natureza \u2013 existem h\u00e1 milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sou ecologista, porque n\u00e3o estou de acordo com a preserva\u00e7\u00e3o do \u00abequil\u00edbrio natural\u00bb. Eu j\u00e1 disse que n\u00e3o acredito, como eles, neste equil\u00edbrio. E acredito que o que existe \u00e9 bom, mas desejo que seja ainda melhor. Aqueles que t\u00eam um c\u00e2ncer desejam viver, mesmo se vivendo podemos ter um c\u00e2ncer.<\/p>\n<h2>Um problema de \u00e9tica<\/h2>\n<p>Se vivermos sem questionar muito as coisas, podemos criar uma \u00e9tica simples, mesmo que ela n\u00e3o se fundamente em nada. A \u00e9tica pode ser a de ir \u00e0 missa e de voltar para casa para dormir tranq\u00fcilamente. Pode ser a de seguir as leis, a de ser um bom comerciante e de vender as laranjas da \u00c1frica do Sul sem roubar os fregueses. Pode ser a de tentar seguir as \u00ableis da natureza\u00bb, depois de t\u00ea-las inventado, assim como criamos Deus.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho uma \u00e9tica simples. Minha \u00e9tica \u00e9 baseada na busca da felicidade, no fato de evitar a infelicidade. Eu creio que esta \u00e9 a \u00fanica base s\u00e9ria para uma \u00e9tica. Mas n\u00e3o sei muito bem o que \u00e9 a felicidade ou a infelicidade. Sei claramente que estas palavras t\u00eam um sentido para mim e os outros humanos, e n\u00e3o duvido que tamb\u00e9m tenham para as vacas e os peixes. Acho que t\u00eam tamb\u00e9m um sentido para as lagostas e os insetos, e n\u00e3o sei se t\u00eam para as plantas.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil ter uma \u00e9tica que, em vez de questionar as coisas dif\u00edceis a serem mudadas, decide classific\u00e1-las como sendo \u00abboas\u00bb. A minha moral, eu quero consider\u00e1-la como constru\u00edda sobre coisas reais; a alegria e o sofrimento s\u00e3o para mim coisas reais, como a \u00e1gua ou as pedras, mesmo que a f\u00edsica atual n\u00e3o as conhe\u00e7a. Eu n\u00e3o quero, ent\u00e3o, por conven\u00e7\u00e3o, classificar qualquer coisinha de \u00abboa\u00bb. E isso implica tamb\u00e9m o fato de viver na inconst\u00e2ncia, na inseguran\u00e7a \u00e9tica. \u00c9 bom o fato de matar uma cobra, para salvar um grande n\u00famero de r\u00e3s? Mas as r\u00e3s comem tantos insetos... Estes \u00faltimos se devoram entre si ou fazem mal para as plantas. Eu n\u00e3o sei se elas sofrem, se elas t\u00eam dores quando se sufocam reciprocamente, se envenenam, fazem sombras umas para as outras. Em muitos casos, eu n\u00e3o sei dizer o que \u00e9 justo. Ou ent\u00e3o, o que \u00e9 justo \u00e9 muito dif\u00edcil de ser assumido: a cada passo que dou, arrisco de matar formigas. Talvez eu deveria suicidar-me para salvar as formigas? N\u00e3o o farei.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o impede que existam coisas simples que possamos fazer. N\u00e3o comer carne \u00e9 uma delas. Mas em minha incoer\u00eancia infal\u00edvel, aceito a cr\u00edtica dos comedores de carne que freq\u00fcentemente me perguntam \u00abMas voc\u00ea come as plantas, elas tamb\u00e9m s\u00e3o seres vivos\u00bb e isso sempre dito por pessoas que n\u00e3o se preocupam nem um pouco com o destino dos animais e das plantas. \u00c9 verdade que \u00e9 muito mais f\u00e1cil, muito mais coerente ser 100% canalha do que um canalha pela metade.<\/p>\n<p>Pergunto-me como \u00e9 poss\u00edvel que com uma \u00e9tica baseada na \u00abordem natural das coisas\u00bb, \u00aba harmonia sendo resultante da competi\u00e7\u00e3o e da sele\u00e7\u00e3o\u00bb, a maior parte dos ecologistas seja de esquerda, socialmente progressista. A ecologia \u00e0 moda de P\u00e9tain, \u00e0 moda de Hitler me parecem mais l\u00f3gicas. Um(a) ecologista homossexual escutar\u00e1 freq\u00fcentemente o coment\u00e1rio: \u00abmas... a homossexualidade, \u00e9 algo contra a natureza!\u00bb Alguns responder\u00e3o que o homem, n\u00e3o \u00e9 como a natureza; pois ela continua, em seu esp\u00edrito, sendo o campo do imobilismo, das \u00ableis naturais\u00bb \u00e0s quais \u00e9 necess\u00e1rio obedecer, um campo finalmente muito pobre, onde a liberdade n\u00e3o existe, apesar de sua diversidade impressionante.<\/p>\n<p>Quando eu renuncio a criticar algu\u00e9m \u00e9 que, no fim das contas, o desprezo. A gente se pergunta se os ecologistas respeitam a natureza ou se est\u00e3o sobre seu dom\u00ednio. N\u00e3o renunciei a criticar a natureza. Eu a estimo muito mais do que a maior parte dos ecologistas.<\/p>\n<p>Em geral, os ecologistas s\u00e3o progressistas, mas sua adora\u00e7\u00e3o pela natureza deixa tra\u00e7os profundos. Sem falar da tend\u00eancia <i>deep ecology<\/i> (\u00abecologia profunda\u00bb), pela qual (eu acho) a Fran\u00e7a foi pouco atingida (\u00e9 a ecologia que acha que devemos deixar os etiopianos morrer em nome do equil\u00edbrio natural), basta examinarmos o tratamento dado \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o pelo programa do partido Verde franc\u00eas \u00ablamentando\u00bb (eles s\u00e3o contra a abertura das fronteiras, e isso por raz\u00f5es sociais, econ\u00f4micas, etc.). Podemos logicamente deduzir que eles seriam a favor das expuls\u00f5es das pessoas que entraram no territ\u00f3rio, a favor dos controles de passaporte e da \u00abcarte de s\u00e9jour\u00bb (documento que controla e permite os estrangeiros viverem e trabalharem em solo franc\u00eas), etc. Tudo isso, porque, s\u00e3o servis \u00e0s \u00ableis sociais\u00bb, \u00e0s \u00ableis da economia\u00bb, n\u00e3o enxergam que nada pode justificar a discrimina\u00e7\u00e3o das pessoas por causa do lugar onde estas nasceram. Chegam a afirmar que desejam esta proibi\u00e7\u00e3o visando o bem das pessoas, assim como um n\u00famero da revista <i>La Hulotte<\/i> qualifica n\u00e3o sei mais qual m\u00e9dico predador pela sua v\u00edtima, sem parecer estar consciente do cinismo que isso representa.<\/p>\n<p>\u2026Os ecologistas est\u00e3o cegos no n\u00edvel humano por causa das \u00ableis da sociedade\u00bb assim como est\u00e3o cegos por causa das \u00ableis da natureza\u00bb.<\/p>\n<h2>Possibilidades de a\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Na Inglaterra h\u00e1 mais de tr\u00eas milh\u00f5es de vegetarianos. Pelo que eu saiba <i>Silence<\/i> nunca falou disso. Uma boa parte dessas pessoas t\u00eam como motiva\u00e7\u00e3o principal recusar a viol\u00eancia cometida contra os animais. Os movimentos alternativos franceses acham natural falar de convivialidade, de outras rela\u00e7\u00f5es humanas, imaginando friamente que, em uma sociedade ideal cada um mataria seu leit\u00e3o, crescido de forma org\u00e2nica e descentralizada. Enquanto isso, eles comem bezerros criados em ind\u00fastrias, ainda que continuem sens\u00edveis ao problema dos horm\u00f4nios, pois poderiam amea\u00e7ar a sa\u00fade, ou ainda compram seus coelhos org\u00e2nicos na cooperativa org\u00e2nica da esquina.<\/p>\n<p>Na Inglaterra e na Am\u00e9rica do Norte h\u00e1 poderosos movimentos de anti-vivissec\u00e7\u00e3o, h\u00e1 a ALF (Animal Liberation Front), e grupo anti-vivissec\u00e7\u00e3o. A imprensa alternativa francesa se desinteressa completamente deste assunto. Entretanto parece que um pequeno movimento come\u00e7a a se desenvolver na Fran\u00e7a: o FLA, e o grupo que recentemente liberou os c\u00e3es da INSA de Lyon tamb\u00e9m existe.<\/p>\n<p>O sofrimento que o homem imp\u00f5e aos animais \u00e9, tamb\u00e9m, com efeito, a vivissec\u00e7\u00e3o, esta tortura cotidiana que acontece nos laborat\u00f3rios. Sou contra, mesmo quando ela traz um benef\u00edcio real ao homem. Se me demonstrassem que atrav\u00e9s do sacrif\u00edcio de um gato poder\u00edamos salvar milh\u00f5es de pessoas da AIDS, eu hesitaria, sem d\u00favida; mas n\u00e3o \u00e9 nisso que o problema se baseia. Sem falarmos da experimenta\u00e7\u00e3o militar (os testes feitos com os gazes de combate), que \u00e9 f\u00e1cil de ser condenada, constato que todas as experimenta\u00e7\u00f5es feitas com animais s\u00e3o feitas para a conveni\u00eancia e o benef\u00edcio dos humanos; se eles querem um tal medicamento anti-cancer\u00edgeno, porque seria anormal que assumam o risco de test\u00e1-lo em si pr\u00f3prios? Se os seres humanos est\u00e3o suficientemente motivados em ter um ado\u00e7ante artificial para suas bebidas gasosas, por que n\u00e3o arriscam um pouco sua pr\u00f3pria sa\u00fade, sua pr\u00f3pria pele para obt\u00ea-lo? Em vez de condenar \u00e0 morte e ao sofrimento os camundongos que, a priori, n\u00e3o t\u00eam nenhuma vontade de se entupir de ciclamato. Eu n\u00e3o nego o car\u00e1ter de v\u00e1rias experimenta\u00e7\u00f5es humanas, freq\u00fcentemente realizadas sem o consentimento do outro, mas como podemos achar menos escandaloso o sacrif\u00edcio cotidiano de milh\u00f5es de animais por grandes ou pequenas causas que nada t\u00eam a ver com suas vidas, e que s\u00e3o feitos com experimenta\u00e7\u00f5es covardes, encorajadas por um p\u00fablico covarde que n\u00e3o ousaria sofrer nem mesmo dez por cento do que imp\u00f5e a outros seres.<\/p>\n<h2>As barreiras que tranq\u00fcilizam<\/h2>\n<p>Talvez voc\u00eas tenham compreendido: coloco no mesmo n\u00edvel a vida de um ser humano e a de um animal. A vida humana, para mim, n\u00e3o possui nada de particularmente sagrado\u2026 Nada mais, em todo caso, do que o prazer de beber uma bebida com g\u00e1s. A vida \u00e9 feita de pequenos e grandes prazeres e desgostos e, arriscamos nossa vida e tamb\u00e9m a dos outros porque consideramos mais c\u00f4modo andarmos de carro. Arriscamos nossa vida pelo prazer de fumar. Mas colocar no mesmo n\u00edvel a vida de um animal e de um ser humano! Que esc\u00e2ndalo!<\/p>\n<p>Na verdade, temos medo. Este \u00abcar\u00e1ter sagrado\u00bb da vida humana aparece como uma conquista, uma garantia contra o nazismo, contra a \u00abeutan\u00e1sia\u00bb imposta, contra as execu\u00e7\u00f5es, etc. Que garantia eficaz! O autom\u00f3vel: 11000 mortos por ano na Fran\u00e7a, freq\u00fcentemente v\u00edtimas completas de uma escolha que outros fizeram por puro utilitarismo. No tempo de guerra, este \u00abcar\u00e1ter sagrado\u00bb parece, de repente, ser relativizado. Sem falar das fomes mais ou menos programadas e que at\u00e9 deixam as pessoas bem indiferentes.<\/p>\n<p>A \u00abnova direita\u00bb francesa teve problemas em parecer como a campe\u00e3 da liberdade de pensamento, face \u00e0 quantidade de bagatelas \u00e0s quais as pessoas \u00abda esquerda\u00bb se fixam com desconfian\u00e7a. Ao revisionismo responde-se com uma tentativa de proibir examinar contraditoriamente \u00e0 hist\u00f3ria; \u00e0 tortura pro\u00edbe-se o exame dos direitos dos homens... \u00c0 vivissec\u00e7\u00e3o alguns respondem acenando com os \u00abdireitos dos animais\u00bb, no\u00e7\u00e3o absurda, n\u00e3o apenas porque a id\u00e9ia de direito me parece ela mesma absurda \u2013 eu n\u00e3o vou discutir isso aqui \u2013 mas, enquanto acharmos normal que a raposa coma a lebre, em que consiste o direito da lebre? Alguns esbo\u00e7os dos \u00abdireitos dos animais\u00bb lhes proporcionam o direito de serem abatidos humanamente!<\/p>\n<p>Para explicar porque sou contra o nazismo ou o racismo, preciso de mais palavras do que se eu lan\u00e7asse um slogan sobre o \u00abcar\u00e1ter sagrado da vida humana\u00bb. Minha explica\u00e7\u00e3o parecer\u00e1 talvez mais longa e mais complicada, talvez menos evidente. Azar. Mas qual foi a efic\u00e1cia do tabu que lan\u00e7amos sobre o racismo durante anos? Hoje em dia este tabu cai por terra. Se ele limitou ou atrasou os estragos, melhor ainda, mas parece-me sobretudo que tenha evitado \u00e0s pessoas \u00abda esquerda\u00bb de refletirem.<\/p>\n<p>A distin\u00e7\u00e3o fundamental que fazemos entre os homens e os outros animais tranq\u00fciliza. Cada um em seu devido lugar nesta sociedade, cada um \u00e9 reconhecido, tem sua carta de identidade, \u00e9 protegido pela lei. Presume-se que essas leis garantem que nem mesmo o pior mendigo seja tratado como um c\u00e3o. A seguran\u00e7a trazida pelas normas sociais, tem, apesar das apar\u00eancias, pouco a ver com a seguran\u00e7a f\u00edsica. Temos mais medo, em nossa sociedade, de nos tornarmos fora da lei, de perdermos a \u00abseguran\u00e7a social\u00bb, ou a aposentadoria, do que morrer dentro das normas em um hospital. Se as pessoas t\u00eam mais medo de serem atacadas na rua do que morrerem em um acidente de carro, \u00e9 porque t\u00eam medo de se encontrarem face a face com algu\u00e9m que n\u00e3o respeita as normas, e de n\u00e3o saberem como devem se comportar nesse caso.<\/p>\n<p>Devemos aceitar viver na inseguran\u00e7a intelectual e \u00e9tica. N\u00e3o por prazer, mas porque o mundo \u00e9 cruel e desconhecido e porque devemos ser honestos. Atualmente n\u00e3o tenho nenhum ideal imagin\u00e1vel a propor. O fim do capitalismo, uma sociedade igualit\u00e1ria, convivial, mesmo que habitada unicamente por vegetarianos, isso n\u00e3o significa muito para mim enquanto no reino animal existirem lebres mortas por raposas.<\/p>\n<h2>A boa consci\u00eancia ecol\u00f3gica<\/h2>\n<p>Face \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente pelo homem, os ecologistas se agarram ao mito da preserva\u00e7\u00e3o da M\u00e3e Natureza. Eu fico revoltado com o exterm\u00ednio das raposas; isso pode parecer contradit\u00f3rio com minha revolta contra o que as raposas fazem com as lebres. E aqui tenho um problema que n\u00e3o sei resolver. E tenho muitos outros, mais dif\u00edceis ainda. Porque eu deveria, pelo fato de chamar um problema um problema, ter a capacidade de propor uma solu\u00e7\u00e3o, se poss\u00edvel imediatamente? Ningu\u00e9m ainda conseguiu a cura para a Aids, isso n\u00e3o impede que sejamos conscientes que a aids \u00e9 um problema e que procuremos solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas isso amedronta. Se vamos contra a ordem da natureza, at\u00e9 onde chegaremos? Por medo, decidimos que a natureza \u00e9 o bem. Por defini\u00e7\u00e3o. Minha atitude \u00e9 realmente perigosa, tenho a consci\u00eancia disso. N\u00e3o quero transformar o universo em um mundo planificado, regrado pelo homem. A alimenta\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica para as raposas, a contracep\u00e7\u00e3o para as lebres, esse tipo de id\u00e9ia me agrada apenas pela metade. Tenho um problema que n\u00e3o sei resolver e tenho poucas chances de encontrar uma solu\u00e7\u00e3o, ainda que te\u00f3rica, enquanto eu for (quase) o \u00fanico a procur\u00e1-la.<\/p>\n<p>A diviniza\u00e7\u00e3o da natureza me parece n\u00e3o apenas est\u00e9ril, mas algo tamb\u00e9m um pouco c\u00ednico. Poucos ecologistas \u00abseguem\u00bb a natureza quando isso lhes atrapalha pessoalmente. Preservar a natureza \u00e9 uma boa pedida, mas fazer-se predar por um le\u00e3o, n\u00e3o, muito obrigado! Isso \u00e9 bom para as gazelas. Pois a esp\u00e9cie delas sobrevive apesar de tudo. Mas, um ecologista a menos, ser\u00e1 que isso colocaria em perigo a esp\u00e9cie humana?<\/p>\n<p>A preserva\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies, sob uma apar\u00eancia de sabedoria-profunda-ligada-ao-cosmo, freq\u00fcentemente esconde uma simples e dura atitude utilit\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza. Nenhuma compaix\u00e3o pela gazela que \u00e9 um animal bonito a se observar, sendo apenas necess\u00e1rio se assegurar que sempre existam outras. Jean Dorst o diz claramente: a natureza \u00e9 um capital de divers\u00f5es para o homem. \u00c9 necess\u00e1rio preservar os passarinhos: eles protegem nossas colheitas contra os insetos. Abaixo as centrais nucleares: seus lixos passam na cadeia alimentar e atrav\u00e9s dela at\u00e9 n\u00f3s. Ningu\u00e9m pensou em evacuar os coelhos que viviam ao redor de Chernobyl, condenados a uma morte terr\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00abO ser humano em primeiro lugar\u00bb dizem os ecologistas, os poderes p\u00fablicos, quase todas as pessoas. Na Inglaterra, isso recebeu um nome: trata-se do \u00abespecismo\u00bb (<i>speciesism<\/i>), como \u00abracismo\u00bb ou \u00absexismo\u00bb.<\/p>\n<h2>Uma outra compreens\u00e3o da natureza<\/h2>\n<div class=\"image\"><img src=\"http:\/\/localhost\/cahiers\/IMG\/squelettes\/documents\/pou3-2.gif\" alt=\"Image\" \/><\/div>\n<p>Acredito, e isso \u00e9 algo pessoal, que a natureza, quer dizer, a realidade, tem um sentido, ou mesmo v\u00e1rios sentidos. E o sentido que me parece importante, \u00e9 o desejo t\u00e3o amplamente difuso de aproveitar a vida. Este desejo deve representar um papel na evolu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o se confunde, nem de longe, com a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie. Os cervos que se masturbam contra as \u00e1rvores n\u00e3o est\u00e3o buscando preservar a esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>O \u00fanico respeito que tenho pela natureza, e este respeito \u00e9 grande, \u00e9 o respeito deste desejo de saborear a vida. Isso implica problemas. Mas eu creio que \u00e9 dirigir-se, se n\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o da natureza, pelo menos em uma de suas dire\u00e7\u00f5es. A \u00fanica que me interessa.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Citado em <i>Que choisir?<\/i>, n\u00famero especial \u00abWeek-ends, vacances&nbsp;: \u00e9clatez-vous\u00bb, \u00e9t\u00e9 1985, rubrique \u00abChasse\u00bb.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em geral, parece-me que os ecologistas divinizam a natureza e, ao mesmo tempo, fazem dela uma id\u00e9ia med\u00edocre e petrificada. 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