{"id":1416,"date":"1996-12-06T15:44:27","date_gmt":"1996-12-06T14:44:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1416&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T15:49:13","modified_gmt":"2016-05-01T13:49:13","slug":"o-e-o-especismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/o-e-o-especismo\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o especismo?"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<h2>Um pouco de vocabul\u00e1rio<\/h2>\n<p><strong>Especismo<\/strong>: o especismo est\u00e1 para a esp\u00e9cie assim como o racismo est\u00e1 para a ra\u00e7a e o sexismo est\u00e1 para o sexo: uma discrimina\u00e7\u00e3o baseada na esp\u00e9cie, quase sempre a favor dos integrantes da esp\u00e9cie humana (<i>Homo sapiens<\/i>).<\/p>\n<p>Animais: a linguagem n\u00e3o \u00e9 neutra e a nossa l\u00edngua comum chama de \u00abanimais\u00bb todos os animais exceto os seres humanos, pondo assim uma barreira entre seres t\u00e3o pr\u00f3ximos quanto um homem e um gorila, e colocando no mesmo saco um gorila e uma ostra. De acordo com o uso cient\u00edfico, amplamente justificado, chamarei de \u00abanimais\u00bb todos os animais, humanos ou n\u00e3o, e de \u00abanimais n\u00e3o humanos\u00bb os que n\u00e3o tiveram a honra de ser \u00abbem nascidos\u00bb.<\/p>\n<h2>A minha posi\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<blockquote><p>Sustento que n\u00e3o pode haver nenhuma raz\u00e3o \u2014 com exce\u00e7\u00e3o do desejo ego\u00edsta de preservar os privil\u00e9gios do grupo explorador \u2014 de evitarmos estender o princ\u00edpio fundamental da igualdade de considera\u00e7\u00e3o dos interesses aos membros de outras esp\u00e9cies.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><i>Peter Singer, <\/i>Animal Liberation<i>, 1975<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Tradu\u00e7\u00e3o francesa: La Lib\u00e9ration animale, publicada por Grasset, mar\u00e7o de\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span><\/p><\/blockquote>\n<p><i>\u00c9 preciso ser anti-especista? Bem, \u00e9 preciso ser anti-racista? \u00c9 evidente que sim? N\u00e3o \u00e9 evidente para todo mundo; e n\u00e3o parece que todos os anti-racistas sejam anti-racistas pela mesma raz\u00e3o. A minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9 que o anti-racismo n\u00e3o se justifica porque (quase) todos os seres humanos sejam igualmente inteligentes, nem porque tenham linguagem articulada, nem porque sejam sociais etc.; o anti-racismo e o anti-especismo se justificam porque um ser senciente e oprimido sofre e que o sofrimento e o bem-estar de todos os seres sencientes, ou seja, suscet\u00edveis de sofrer ou de serem felizes, t\u00eam a mesma import\u00e2ncia e devem, conseq\u00fcentemente, ser levados em conta com peso id\u00eantico.<\/i><\/p>\n<p>Sou t\u00e3o \u00abdefensor dos animais\u00bb quanto aqueles que lutavam contra a escravid\u00e3o dos negros eram \u00abdefensores de pretos\u00bb, como os racistas os chamavam; defendo os animais oprimidos, humanos ou n\u00e3o, n\u00e3o por capricho, n\u00e3o por voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o porque eu \u00abame os animais\u00bb como outros \u00abamam as flores\u00bb; defendo os animais e, especificamente, os animais n\u00e3o humanos porque a minha inten\u00e7\u00e3o \u00e9 defender todos os seres sencientes, sejam quais forem; porque o \u00fanico crit\u00e9rio que justifica levar em conta os interesses de um ser \u00e9 que ele tenha interesses e porque, como explicarei no pr\u00f3ximo IRL, o fen\u00f4meno da sensibilidade limita-se aparentemente aos animais, sendo que as plantas n\u00e3o teriam sensa\u00e7\u00f5es nem interesses. A minha oposi\u00e7\u00e3o ao especismo \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o a uma ideologia que serve para justificar o sofrimento ign\u00f3bil e a morte que a quase totalidade dos humanos infligem sabidamente, deliberadamente, quotidianamente, a milhares de seres t\u00e3o sencientes quanto eles.<\/p>\n<h2>Racismo e especismo<\/h2>\n<p>Os argumentos racistas, na maioria dos casos, n\u00e3o passam de maus pretextos; mas isso n\u00e3o nos dispensa de examin\u00e1-los. N\u00e3o basta denunciar os racistas malvados; n\u00e3o sendo poss\u00edvel suprimi-los, \u00e9 preciso convencer. Al\u00e9m disso, no caso do especismo o papel de malvado \u00e9 de quase todos os humanos, que usam os mesmos argumentos que os racistas para justificar a supremacia que atribuem a si mesmos.<br class=\"autobr\" \/> O racismo e o especismo s\u00e3o ideologias estreitamente interligadas e a sua semelhan\u00e7a seria evidente para todos se n\u00e3o fosse porque exatamente os anti-racistas s\u00e3o, na maior parte, especistas e, portanto, t\u00eam grande interesse em n\u00e3o perceb\u00ea-lo. A vontade que t\u00eam de combater o racismo sem p\u00f4r em perigo o especismo leva-os a querer defender a todo custo posi\u00e7\u00f5es indefens\u00e1veis que apresentam, contudo, como essenciais para o anti-racismo. Como para eles a id\u00e9ia da igualdade dos animais \u00e9 impens\u00e1vel, \u00e9 <i>contra os outros animais<\/i> que querem basear a igualdade humana.<\/p>\n<div class=\"encadre\">\n<table id=\"lesfrancaisdabord\">\n<tbody>\n<tr>\n<th>Os franceses primeiro!<\/th>\n<th>Os humanos primeiro!<\/th>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Deus deu a superioridade aos brancos.<\/td>\n<td>Deus deu a superioridade aos humanos.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Alimentamos e protegemos os negros.<\/td>\n<td>Alimentamos e protegemos os animais.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Os negros s\u00e3o menos sens\u00edveis do que n\u00f3s.<\/td>\n<td>Os animais n\u00e3o sabem que sofrem.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Os negros d\u00e3o pouco valor \u00e0 vida.<\/td>\n<td>Os animais n\u00e3o sabem que vamos mat\u00e1-los.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Os negros s\u00e3o crian\u00e7as grandes.<\/td>\n<td>Os animais s\u00f3 agem por instinto.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Os ind\u00edgenas guerreiam entre si.<\/td>\n<td>Os animais comem-se entre si.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Os negros parecem todos uns com os outros.<\/td>\n<td>Os animais n\u00e3o t\u00eam personalidade.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Racista, eu? Eu tenho um amigo negro.<\/td>\n<td>Eu amo os animais, n\u00e3o como carne de cavalo.<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Bater na mulher \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pessoal.<\/td>\n<td>Comer carne \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o pessoal.<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<h2>O que \u00e9 o racismo?<\/h2>\n<p>Quando o anti-racista fala desta igualdade humana, o que quer dizer? Na matem\u00e1tica, dizemos \u00abPau = Jean\u00bb se s\u00e3o dois nomes para a mesma pessoa. N\u00e3o se trata disso. Os negros e os brancos em geral n\u00e3o s\u00e3o iguais na cor da pele, j\u00e1 que exatamente ela \u00e9 que \u00e9 diferente. A igualdade de que fala o anti-racista se op\u00f5e \u00e0 desigualdade de <i>tratamento<\/i> de que alguns s\u00e3o v\u00edtimas por causa da cor da sua pele.<\/p>\n<p>Mas a pr\u00f3pria express\u00e3o \u00abdesigualdade de tratamento\u00bb n\u00e3o \u00e9 suficientemente clara. Se eu fosse m\u00e9dico, talvez tratasse de forma diferente negros e brancos: como a pele negra absorve menos sol, os negros de um determinado pa\u00eds arriscam-se menos a ter c\u00e2ncer de pele. Constatar isso n\u00e3o \u00e9 racismo, assim como n\u00e3o seria, se fosse o caso, constatar que uma certa cor de pele s\u00f3 tem vantagens sobre outra. O anti-racismo n\u00e3o pode basear-se sobre a hip\u00f3tese arriscada da distribui\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria dos favores da \u00abM\u00e3e Natureza\u00bb entre os seus \u00abfilhos\u00bb, porque este tipo de hip\u00f3tese, como veremos, n\u00e3o tem raz\u00e3o nenhuma para ser verdadeira e, na maioria dos casos, \u00e9 falsa.<\/p>\n<p>Por outro lado, seria racista com toda a certeza, atribuir mais ou menos import\u00e2ncia aos <i>interesses<\/i> \u2014 \u00e0 sa\u00fade, por exemplo \u2014 dos negros do que \u00e0 dos brancos. Seria racista dizer: a cor da pele de um ser justifica desfavorec\u00ea-lo, ou seja, <i>dar menos import\u00e2ncia aos seus interesses<\/i>.<\/p>\n<p>Se fosse esta a posi\u00e7\u00e3o dos racistas, se s\u00f3 se baseasse na cor da pele, seria f\u00e1cil de contradizer; mas n\u00e3o \u00e9 assim. Li uma hist\u00f3ria, h\u00e1 alguns anos, sobre uma branca negra sul-africana. Uma doen\u00e7a deixara toda negra a pele desta senhora branca. A vergonha diante dos vizinhos! Foi necess\u00e1rio, para que pudesse subir no \u00f4nibus dos brancos etc., que as autoridades lhe dessem uma carteira especial atestando que, embora fosse negra, ela era branca.<\/p>\n<p>Portanto, para os racistas, n\u00e3o \u00e9 a cor da pele que justifica a discrimina\u00e7\u00e3o. Neste caso, o que justifica a discrimina\u00e7\u00e3o? O que ent\u00e3o diz o racismo? Para contra<i>dizer<\/i> uma ideologia \u00e9 preciso que ela seja <i>dita<\/i>; e o poder da ideologia racista deve muito, sem d\u00favida, ao fato de que nunca \u00e9 verdadeiramente <i>dita<\/i>, e portanto nunca verdadeiramente <i>contradita<\/i>.<\/p>\n<h2>O que \u00e9 um negro?<\/h2>\n<p>Para o racismo \u00e9 muito importante que a fronteira que tra\u00e7a o deixe do lado bom definitivamente. A ra\u00e7a \u00e9 um bom crit\u00e9rio para isso, j\u00e1 que quem nasce branco fica branco, salvo casos excepcionais. Mas ter uma fronteira n\u00e3o basta, \u00e9 preciso ainda que a defini\u00e7\u00e3o desta fronteira pare\u00e7a justificar a discrimina\u00e7\u00e3o. A cor da pele \u00e9 um crit\u00e9rio fr\u00e1gil demais; \u00e9 preciso dar subst\u00e2ncia, dar espessura \u00e0 pr\u00f3pria id\u00e9ia de ra\u00e7a. Um negro deve ser negro at\u00e9 os ossos. A ra\u00e7a de um indiv\u00edduo deve ser percebida como a sua verdade profunda, como a sua <i>natureza<\/i>. Negro ou branco, um negro nascido de negros tem de ser um negro. De <i>sangue<\/i> negro. O racista n\u00e3o justifica a discrimina\u00e7\u00e3o pela cor da pele. Ele fala da cor, mas na verdade, para ele, importa a <i>natureza<\/i>, da qual a cor n\u00e3o passa de <i>sinal<\/i>.<\/p>\n<p>Se o racismo se baseasse em diferen\u00e7as reais, a sua intensidade seria proporcional \u00e0 intensidade delas; mas a viol\u00eancia do anti-semitismo nazista mostra o contr\u00e1rio. A quase inexist\u00eancia de diferen\u00e7as vis\u00edveis entre judeus e \u00abarianos\u00bb era simplesmente um sinal a mais, o sinal da duplicidade dos judeus. Os nazistas, ao falar do \u00abnariz judeu\u00bb, n\u00e3o falavam da \u00abforma de nariz que os judeus apresentam com mais freq\u00fc\u00eancia que os outros\u00bb; o \u00abnariz judeu\u00bb n\u00e3o era simplesmente o nariz dos judeus, era o nariz que sinalizava a ess\u00eancia judia, e era esta ess\u00eancia, esta natureza que, aos olhos dos nazistas, justificava o homic\u00eddio.<\/p>\n<p>Dizem tamb\u00e9m que o rei \u00e9 rei porque tem uma coroa sobre a cabe\u00e7a, sabendo que muitas vezes ele n\u00e3o a usa e que n\u00e3o \u00e9 por causa dela que ele \u00e9 rei; para o monarquista, o rei \u00e9 rei porque \u00e9 de sangue real, de natureza real; a coroa \u00e9 s\u00f3 um sinal.<\/p>\n<p>Quem quer que possa ser sinal de uma natureza pode ser interpretado como tal. \u00c9 por isso que as discuss\u00f5es com os racistas s\u00e3o t\u00e3o frustrantes. O racista n\u00e3o se d\u00e1 ao trabalho de examinar e produzir argumentos s\u00f3lidos; para ele, todo argumento \u00e9 superficial, s\u00f3 diz respeito aos sinais, n\u00e3o atinge a natureza, porque a natureza n\u00e3o precisa de argumentos. A cor, a altura (os negros s\u00e3o pequenos demais, ou grandes demais, depende da regi\u00e3o), o sotaque, a forma do nariz, tudo isso que o racista quer discutir ele n\u00e3o leva a s\u00e9rio na discuss\u00e3o: para ele, de qualquer modo, a <i>natureza<\/i> permanece.<\/p>\n<p>Para o racista, \u00e9 a natureza dos seres que justifica a discrimina\u00e7\u00e3o: literalmente, a afirma\u00e7\u00e3o da sua <i>diferen\u00e7a<\/i>. N\u00e3o h\u00e1 necessidade de postular a <i>inferioridade<\/i>; entre seres de natureza diferente, toda compara\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. O <i>apartheid<\/i> \u00e9 o desenvolvimento separado: cada um no seu lugar. O racista sul-africano negar\u00e1 que os negros sejam desfavorecidos: como s\u00e3o de natureza diferente, isso n\u00e3o faz sentido. As favelas s\u00e3o para os negros o que as habita\u00e7\u00f5es confort\u00e1veis s\u00e3o para os brancos. Por mais espantoso que pare\u00e7a, aposto que os mercadores de escravos do s\u00e9culo XVIII negavam que, para eles, os negros fossem inferiores; porque, por mais espantoso que pare\u00e7a, ouvi muitos comedores de carne (anarquistas, \u00e9 claro) negarem que, para eles, os \u00abanimais\u00bb fossem inferiores \u2014 \u00abn\u00e3o, inferiores n\u00e3o, diferentes\u00bb.<\/p>\n<p>O discurso sexista tamb\u00e9m se baseia explicitamente na afirma\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de duas naturezas diferentes, feminina e masculina, e no elogio da Mulher, da M\u00e3e, da Esposa, daquela cujo bem-estar e honra \u00e9 fundar na\u00e7\u00f5es lavando as panelas. \u00abEu amo as mulheres!\u00bb, diz o sexista (ou \u00abas gatas\u00bb, ou \u00abas potrancas\u00bb).<\/p>\n<p>Do popular \u00abn\u00e3o sou racista\u00bb ao \u00abelogio da diferen\u00e7a\u00bb da nova direita, \u00e9 sempre a id\u00e9ia das diferen\u00e7as de natureza que est\u00e1 por tr\u00e1s do racismo e do sexismo. E estas ideologias s\u00e3o falsas, n\u00e3o porque a pele branca seja \u00abigual\u00bb \u00e0 pele negra, mas porque esta natureza simplesmente n\u00e3o existe. Mas s\u00e3o ainda mais plaus\u00edveis porque quase todo mundo, em segredo, aceita o seu princ\u00edpio e, acho eu, aceita porque a sobreviv\u00eancia do especismo depende disso. Para manter o especismo, todos aceitam a id\u00e9ia de uma natureza animal e todos, inconscientemente, aceitam, portanto, a id\u00e9ia de uma natureza humana. E \u00e9 a\u00ed que come\u00e7a a gin\u00e1stica intelectual dos anti-racistas especistas.<\/p>\n<p>Mesmo princ\u00edpio, mesmo discurso: \u00abN\u00e3o sou especista\u00bb e \u00abos animais n\u00e3o s\u00e3o inferiores, s\u00e3o diferentes\u00bb. \u00abSerem comidos \u00e9 o seu papel natural\u00bb. O <i>sinal<\/i> desta <i>natureza<\/i> \u00e9 que eles se comem uns aos outros. Assim s\u00e3o felizes: os leit\u00f5es sorriem na vitrine das ling\u00fci\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel ser anti-racista e ao mesmo tempo sexista, \u00e9 poss\u00edvel ser anti-racista e anti-sexista e ao mesmo tempo especista. Voc\u00ea pode muito bem me dizer: \u00abtudo isso \u00e9 verdade, mas os animais n\u00e3o d\u00e1 para comparar: os seres humanos s\u00e3o iguais, mas os animais s\u00e3o diferentes\u00bb.<\/p>\n<p>E h\u00e1 um monte de diferen\u00e7as entre o homem e o \u00abanimal\u00bb! \u00c9 que ningu\u00e9m poupa os meios de list\u00e1-las, como atesta esta tranq\u00fcila declara\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>Por muito tempo os moralistas, os fil\u00f3sofos e, mais tarde, os pesquisadores de ci\u00eancias humanas tiveram como principal objetivo rejeitar toda inclus\u00e3o do Homem no mundo dos animais ou, pelo menos, encontrar-lhe uma dimens\u00e3o espec\u00edfica que o permita sair de uma fam\u00edlia vergonhosa, de uma promiscuidade embara\u00e7osa.<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><i>J.-M. Bourre, <\/i>Di\u00e9t\u00e9tique du cerveau<i> (Diet\u00e9tica do c\u00e9rebro)<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Mas os seres humanos tamb\u00e9m s\u00e3o diferentes uns dos outros, todos sabem muito bem disso. Quando se diz que s\u00e3o iguais, s\u00f3 se diz uma coisa: que s\u00e3o iguais por <i>natureza<\/i>. E que os \u00abanimais\u00bb s\u00e3o diferentes deles, n\u00e3o pelo n\u00famero de patas, mas por sua <i>natureza<\/i>.<\/p>\n<p>\u00abA raz\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria do homem\u00bb. A \u00abraz\u00e3o\u00bb \u00e9 o sinal dominante para o especista, e \u00e9 por isso \u2014 e unicamente por isso \u2014 que vou demorar aqui refletindo sobre a quest\u00e3o da igualdade da intelig\u00eancia, quest\u00e3o que, de fato, reconhe\u00e7amos, preocupa-me pouqu\u00edssimo. \u00c9, pelo contr\u00e1rio, uma quest\u00e3o que tem agitado muito os especistas racistas e anti-racistas.<\/p>\n<p>Para alguns, a intelig\u00eancia \u00e9 o sinal da exist\u00eancia da alma, e a alma \u00e9 a natureza dos seres humanos. Mas para os outros, o que \u00e9 a natureza dos seres humanos?<\/p>\n<div class=\"image image-float-right\">\n<p><img src=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/wp-content\/uploads\/IMG\/squelettes\/documents\/que1.gif\" alt=\"Image\" \/>Os porcos sorriem nas vitrines das charcuteries (a\u00e7ougues especializados na venda de carne de porco e embutidos), mostrando muito bem que o seu papel, a sua voca\u00e7\u00e3o \u00edntima, a sua natureza, \u00e9 virar presunto.<\/p>\n<\/div>\n<h2>O que \u00e9 um ser humano?<\/h2>\n<p>A natureza dos seres j\u00e1 serviu para justificar muitas coisas: o racismo, a guerra, a ordem social estabelecida. \u00abSer de direita \u00e9 pensar que o Homem tem uma natureza imut\u00e1vel\u00bb (Le Pen, citado de mem\u00f3ria). Para os crist\u00e3os, a alma vem de Deus; para os outros, a natureza dos seres vem da Natureza, do Deus Natureza que todos adoram e do qual os ecologistas s\u00e3o os sacerdotes. A natureza de um ser seria o seu \u00abinato\u00bb, o que a Natureza lhe deu antes do nascimento.<\/p>\n<p>Os de esquerda n\u00e3o podem aceitar deste jeito o discurso sobre a natureza humana; eles dizem: \u00abo ser humano veio da natureza, mas ela se apagou, deixando o campo livre ao que \u00e9 propriamente humano, \u00e0 Hist\u00f3ria, \u00e0 Cultura, ao Social; o Homem continua a ser um animal em suas fun\u00e7\u00f5es animais; nas suas fun\u00e7\u00f5es elevadas, como a intelig\u00eancia, \u00e9 radicalmente outro.\u00bb<\/p>\n<p>Assim, para eles, a natureza do Homem acha-se definida pela aus\u00eancia de natureza; os \u00abanimais\u00bb \u00e9 que t\u00eam uma natureza \u2014 cada \u00abanimal\u00bb segundo a sua esp\u00e9cie, portanto, antes de tudo, t\u00eam a \u00abnatureza animal\u00bb = a natureza de ter uma natureza. E se isso vem a basear a igualdade humana sobre o esmagamento dos outros animais, n\u00e3o \u00e9 por acaso; \u00e9 que na esquerda todos s\u00e3o anti-racistas, mas principalmente n\u00e3o s\u00e3o anti-especistas. A verdadeira cr\u00edtica da no\u00e7\u00e3o de natureza de um ser, verdade profunda e papel atribu\u00eddo pela Natureza, esta cr\u00edtica que eles evitam fazer minaria o racismo \u2014 <i>mas tamb\u00e9m o especismo<\/i>.<\/p>\n<p>O anti-racista especista tem este problema: justificar o especismo sem justificar o racismo; manter a id\u00e9ia de natureza, baseada no nascimento; a id\u00e9ia de que a Natureza deu ao Homem a mais elevada das origens, a natureza de ser livre (nada de \u00abinato\u00bb abaixo da cintura). Aos \u00abanimais\u00bb, pelo contr\u00e1rio, deu a natureza de escravos submetidos ao instinto. O racista n\u00e3o tem este problema; o Branco e o Negro, o gato e o camundongo, cada um tem a sua natureza, o seu lugar e o seu papel na harmonia natural e social. O racista pode, com bem mais facilidade que o anti-racista, se fazer de paternalista e militar na \u00abdefesa animal\u00bb, em prol de um bom tratamento dos animais de corte.<\/p>\n<p>Com o grito de \u00abA Natureza est\u00e1 conosco\u00bb, os especistas racistas e anti-racistas debatem o \u00abinato\u00bb e o \u00abadquirido\u00bb, brigando sobre os <i>sinais<\/i>: os seres humanos t\u00eam todos a mesma intelig\u00eancia? E sobretudo: as diferen\u00e7as de intelig\u00eancia s\u00e3o <i>inatas<\/i>? A hierarquia entre seres humanos \u00e9 <i>intencional<\/i> por Natureza? Na pesquisa dos sinais os antigos interpretavam o f\u00edgado das vitelas, os modernos interpretam o nosso c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a traz a cegueira e este debate pode durar. Mas para quem n\u00e3o \u00e9 cego a resposta \u00e9 logo avistada: 1. os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o mais iguais na intelig\u00eancia do que no resto; 2. a intelig\u00eancia resulta, como todas as caracter\u00edsticas do ser vivo, de uma conjun\u00e7\u00e3o de causas gen\u00e9ticas e ambientais e, portanto, os genes podem provocar diferen\u00e7as de intelig\u00eancia. Estes fatos s\u00e3o do conhecimento de todos. E se justificam o racismo, ent\u00e3o o racismo \u00e9 justo e o especismo tamb\u00e9m. Se n\u00e3o justificam o racismo, ent\u00e3o nada justifica nem o racismo, nem o especismo.<\/p>\n<div class=\"image image-legende-right\">\n<p><img src=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/wp-content\/uploads\/IMG\/squelettes\/documents\/que2.gif\" alt=\"Image\" \/>Os sinais que mostram a presen\u00e7a da alma, segundo o Abade Bouvet, em <cite>Premi\u00e8res Notions d'instruction religieuse et Le\u00e7ons de choses religieuses<\/cite> (Primeiras no\u00e7\u00f5es de instru\u00e7\u00e3o religiosa e li\u00e7\u00f5es de coisas religiosas), 1938.<\/p>\n<\/div>\n<h2>Os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o iguais na intelig\u00eancia<\/h2>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que eu tenha especificamente de definir a intelig\u00eancia. Se preferem n\u00e3o falar dela j\u00e1 que n\u00e3o pode ser definida, ent\u00e3o n\u00e3o falemos dela, nem para comparar os seres humanos entre si, nem para comparar os seres humanos com os outros animais. Por outro lado, podemos muito bem falar dela sem precisar de uma defini\u00e7\u00e3o s\u00f3lida. N\u00e3o tenho necessidade de uma defini\u00e7\u00e3o exata do comprimento do pesco\u00e7o para comparar o pesco\u00e7o das girafas com o meu. E por pouco que se queira dar pouco sentido \u00e0 palavra, \u00e9 claro que alguns seres humanos s\u00e3o mais inteligentes do que outros.<\/p>\n<p>Existem numerosos seres humanos com profunda defici\u00eancia mental. Talvez me digam, pensando em poup\u00e1-los do desprezo, que s\u00e3o inteligentes \u00e0 sua maneira. Mas se quiserem dizer isso, n\u00e3o pode ser com o sentido com que a palavra \u00abintelig\u00eancia\u00bb \u00e9 empregada nos debates sobre a sua igualdade em negros e brancos.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil comparar a intelig\u00eancia de um gato e de um cachorro e at\u00e9 de um ser humano deficiente e um cachorro; mas \u00e9 claro que, seja qual for o crit\u00e9rio que quisermos adotar, h\u00e1 seres humanos menos inteligentes que a maior parte dos c\u00e3es.<\/p>\n<p>Se a intelig\u00eancia dos seres humanos justifica que n\u00e3o sejam tratados como cachorros, como tratar os seres humanos que s\u00e3o menos inteligentes do que cachorros? Mal, com certeza, mas menos mal do que tratamos os animais n\u00e3o humanos. Os deficientes nos fazem pensar um pouco demais nos \u00abanimais\u00bb, assim como aquela branca tinha vergonha de se parecer com uma negra; mas para os especistas, racistas ou n\u00e3o, a intelig\u00eancia n\u00e3o passa de um <i>sinal<\/i>, o que importa \u00e9 a <i>natureza<\/i>: os deficientes \u00abs\u00e3o seres humanos assim mesmo\u00bb. Seria considerada escandalosa a id\u00e9ia de cort\u00e1-los para pesquisas ou de mat\u00e1-los e com\u00ea-los \u2014 o que acontece todos os dias com milh\u00f5es de outros animais.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de seres humanos deficientes mentais basta, por si s\u00f3, para justificar o meu entre t\u00edtulo. V\u00e3o me dizer que o debate trata da intelig\u00eancia de negros e brancos. Esquecemos facilmente os deficientes, \u00abcasos marginais\u00bb, um pouco como esquecemos os n\u00e3o humanos: eles n\u00e3o fazem manifesta\u00e7\u00f5es de rua. Mas o caso deles \u00e9 pertinente: se os especistas racistas e anti-racistas debatem a intelig\u00eancia de brancos e negros, \u00e9 porque para eles a intelig\u00eancia tem rela\u00e7\u00e3o com o direito ao respeito; segue-se que, para eles, os deficientes s\u00f3 t\u00eam direito ao desprezo.<\/p>\n<p>Para os negros e os brancos (ou os franceses e os belgas, os brasileiros e os argentinos), as coisas s\u00e3o menos claras. S\u00f3 se pode falar da m\u00e9dia; para os indiv\u00edduos, a quest\u00e3o est\u00e1 resolvida, j\u00e1 que em cada grupo h\u00e1 deficientes mentais e outros que n\u00e3o o s\u00e3o. Mas m\u00e9dia de qu\u00ea? Existem testes de QI; podem ser contestados, podem-se criar outros crit\u00e9rios, mas salvo acasos improv\u00e1veis, nenhum dar\u00e1 a mesma m\u00e9dia em dois grupos dados. Podem-se talvez encontrar crit\u00e9rios que d\u00eaem aos negros uma m\u00e9dia superior aos brancos e outros que d\u00eaem o contr\u00e1rio; mas sem decidir que o crit\u00e9rio exato criado para dar as mesmas m\u00e9dias \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, \u00abo bom teste\u00bb, sempre teremos o seguinte: qualquer que seja o sentido da palavra, a intelig\u00eancia de dois grupos n\u00e3o \u00e9 igual.<\/p>\n<h2>Os genes provocam as diferen\u00e7as de intelig\u00eancia entre os seres humanos<\/h2>\n<p>Ningu\u00e9m contestar\u00e1 que a diferen\u00e7a de intelig\u00eancia entre um c\u00e3o e um ser humano tem causas gen\u00e9ticas e, portanto, que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre a intelig\u00eancia e os genes; mas \u00e9 <i>entre humanos<\/i> que queremos que os genes se apaguem. No entanto, ali dizemos o contr\u00e1rio: h\u00e1 os \u00abcasos marginais\u00bb.<\/p>\n<p>Numerosas defici\u00eancias mentais t\u00eam causa gen\u00e9tica. Por exemplo, um determinado gene faz nascer seres humanos fenilceton\u00faricos. Eles se tornam deficientes mentais profundos e morrem jovens, s\u00f3 que hoje conhecemos um regime alimentar que permite que se desenvolvam como todo mundo. Da\u00ed a minha afirmativa: a intelig\u00eancia resulta, como todas as caracter\u00edsticas, de uma conjun\u00e7\u00e3o de causas que podemos classificar, se quisermos, em gen\u00e9ticas e ambientais. Para os fenilceton\u00faricos, conhecemos um ambiente (regime alimentar) que permite que a sua intelig\u00eancia se desenvolva; para os outros seres humanos, assim como para os cachorros, n\u00e3o conhecemos. Mas em que isso muda a sua <i>natureza<\/i>? Um fenilceton\u00farico, por natureza, est\u00e1 mais pr\u00f3ximo de um ser humano normal ou de um c\u00e3o? A sua natureza depende dos seus genes ou do seu regime alimentar? Ou a natureza dos seres n\u00e3o \u00e9 uma quimera?<\/p>\n<p>E os brancos e os negros? O genoma influencia \u2014 ningu\u00e9m o contesta \u2014 a pigmenta\u00e7\u00e3o dos negros. Um grande n\u00famero de negros vive em regi\u00f5es pouco ensolaradas, onde esta pigmenta\u00e7\u00e3o pode provocar uma produ\u00e7\u00e3o insuficiente de vitamina D, donde o risco de raquitismo. \u00c9 poss\u00edvel que o raquitismo atrapalhe o desenvolvimento da intelig\u00eancia. Neste caso, alguns negros s\u00e3o menos inteligentes por causas gen\u00e9ticas e a m\u00e9dia de intelig\u00eancia dos negros \u00e9 reduzida por causas gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Trata-se aqui de uma hip\u00f3tese e, se ela existe, a influ\u00eancia em quest\u00e3o provavelmente \u00e9 pequena. Um suplemento alimentar de vitamina D a suprimiria. Mas este exemplo ainda \u00e9 pertinente: se queremos demonstrar que a diferen\u00e7a gen\u00e9tica entre brancos e negros n\u00e3o tem nenhuma incid\u00eancia sobre a sua m\u00e9dia de intelig\u00eancia, \u00e9 preciso eliminar <i>todo caminho causal que leve das suas diferen\u00e7as gen\u00e9ticas \u00e0 intelig\u00eancia<\/i> - e \u00e9 isso que \u00e9 totalmente inveross\u00edmil. Em dez minutos posso imaginar dez deles, para os brancos e os negros ou para os franceses e os belgas. Seria preciso ter muita confian\u00e7a na bondade e na vontade anti-racista cruel da M\u00e3e Natureza para acreditar que nenhuma dessas raz\u00f5es se verifique efetivamente ou que, por m\u00e1gica, todas elas se compensem.<\/p>\n<p>A id\u00e9ia da \u00abigualdade gen\u00e9tica\u00bb dos grupos humanos \u00e9 falsa. E que interesse existe em defend\u00ea-la? Qual a rela\u00e7\u00e3o com o racismo? O racismo seria justificado se, por acaso, os genes que provocam a pigmenta\u00e7\u00e3o provocassem a falta de vitamina D que provoca o raquitismo que provoca menos intelig\u00eancia? O n\u00edvel de intelig\u00eancia torna-se uma <i>natureza<\/i> contanto que seja causado pelos genes?<\/p>\n<p>V\u00e3o me dizer que n\u00e3o \u00e9 disso que se fala quando se discute a igualdade gen\u00e9tica da intelig\u00eancia. \u00c9 verdade; \u00e9 isso mesmo! A gen\u00e9tica <i>real<\/i>, a de que falo, \u00e9 uma causa e um conjunto de conseq\u00fc\u00eancias; a de que falamos habitualmente \u00e9 a gen\u00e9tica <i>m\u00edtica<\/i>, aquela em que o gene \u00e9 a nossa <i>natureza<\/i>, \u00e9 o nosso ser, a nossa verdade, a nossa ess\u00eancia; o nosso destino, o inalter\u00e1vel, o irremedi\u00e1vel, o intencional por Natureza. Vemos na gen\u00e9tica a concretiza\u00e7\u00e3o \u00abcient\u00edfica\u00bb da m\u00edstica ancestral do <i>sangue<\/i>, da <i>nascen\u00e7a<\/i>. Esta gen\u00e9tica n\u00e3o existe, s\u00f3 existe no esp\u00edrito dos racistas, dos sexistas, dos especistas, que querem discutir para saber se a natureza dos negros \u00e9 ou n\u00e3o mais animal que a dos brancos. Podem muito bem continuar discutindo l\u00e1 entre eles durante s\u00e9culos. Os negros s\u00e3o animais como os brancos. A intelig\u00eancia inata n\u00e3o existe. S\u00f3 existe uma intelig\u00eancia <i>real<\/i>, os genes propriamente ditos n\u00e3o s\u00e3o inteligentes, n\u00e3o t\u00eam vontade nem inten\u00e7\u00e3o, apesar das tentativas obscuras \u2014 especialidade dos s\u00f3cio-bi\u00f3logos \u2014 de lhes dar uma alma.<\/p>\n<h2>E da\u00ed?<\/h2>\n<blockquote><p>Eles falam desta coisa dentro da cabe\u00e7a (...). Qual a rela\u00e7\u00e3o com os direitos das mulheres ou os direitos dos negros? Se na minha caneca s\u00f3 cabe um quartilho e na sua um litro, n\u00e3o seria maldade da sua parte n\u00e3o me deixar encher a minha quartinha?<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p><i>Sojourner Truth, feminista negra, numa conven\u00e7\u00e3o feminista nos Estados Unidos em 1850, citada em <\/i>Animal Liberation<i>, Peter Singer<\/i><\/p><\/blockquote>\n<p>Por que ent\u00e3o d\u00e3o tanta import\u00e2ncia \u00e0 intelig\u00eancia?<\/p>\n<p>Pela sua import\u00e2ncia <i>real<\/i>, <i>pr\u00e1tica<\/i>? Justificam a \u00eanfase dada a ela dizendo que a for\u00e7a f\u00edsica, hoje, n\u00e3o tem mais muita utilidade. Presume-se que a intelig\u00eancia torna o indiv\u00edduo \u00fatil \u00e0 comunidade, que \u00e9 recompensada pela considera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Os que est\u00e3o no alto da escala social s\u00e3o os mais \u00fateis \u00e0 comunidade? Prefiro inverter a explica\u00e7\u00e3o: numa sociedade conflitada, a intelig\u00eancia \u00e9 uma <i>arma<\/i>. Dizem que \u00aba liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos ser\u00e1 obra dos pr\u00f3prios oprimidos\u00bb e, infelizmente, h\u00e1 verdade nisso. A liberta\u00e7\u00e3o dos negros americanos deve muito \u00e0 sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o existiria se s\u00f3 tivessem a intelig\u00eancia das galinhas. Do mesmo modo, a id\u00e9ia de que os negros s\u00e3o menos inteligentes que os brancos serve para desmoraliz\u00e1-los na luta pela igualdade social.<\/p>\n<p>Tal desigualdade de intelig\u00eancia, seja \u00abinata\u00bb ou \u00abadquirida\u00bb, seria um m\u00e1 not\u00edcia \u2014 tornaria mais dif\u00edcil a luta anti-racista. Mas n\u00e3o a tornaria <i>injusta<\/i>. A nossa cultura mistura um pouco demais for\u00e7a e direito com respeito. Os negros americanos n\u00e3o s\u00e3o mais escravos, as galinhas ainda s\u00e3o; a intelig\u00eancia dos negros <i>explica<\/i> em parte a sua liberta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a <i>justifica<\/i>.<\/p>\n<div class=\"image image-float-right\">\n<p><img src=\"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/wp-content\/uploads\/IMG\/squelettes\/documents\/que3.gif\" alt=\"Image\" \/>Le signe qui montre qu'on a le droit de les manger, d'apr\u00e8s Ch. Szlakmann, dans <cite>Le Juda\u00efsme pour d\u00e9butants<\/cite>, \u00e9d. La D\u00e9couverte, 1985.<\/p>\n<\/div>\n<p>A intelig\u00eancia permite \u00abfazer-se respeitar\u00bb; mas, sobretudo, tem um papel m\u00e1gico, como principal <i>sinal de humanidade<\/i>. Os negros s\u00e3o negros, os animais s\u00e3o animais. E o ser humano tem acima de tudo a sua condi\u00e7\u00e3o de ser humano. A enormidade do sofrimento e do mart\u00edrio que os seres humanos infligem hoje aos outros animais \u00e9 conhecida por todos. \u00c9 somente gra\u00e7as ao especismo que os seres humanos passam a consider\u00e1-la sem import\u00e2ncia. \u00c9 preciso que os animais sejam inteiramente outros; que n\u00f3s sejamos inteligentes. E o pr\u00f3prio fato de a intelig\u00eancia ser uma arma de promo\u00e7\u00e3o social a destaca como signo: a pr\u00f3pria sociedade define a si mesma contra os animais n\u00e3o humanos e a promo\u00e7\u00e3o social como prova de humanidade.<\/p>\n<h2>Sinais aos montes<\/h2>\n<p>Evocam-se muitas raz\u00f5es para justificar o que os seres humanos fazem com os outros animais; raz\u00f5es demais. Para os seus inventores, a verdade a demonstrar \u00e9 dada com anteced\u00eancia. O especista evoca-as uma atr\u00e1s da outra; nenhuma fica de p\u00e9. N\u00e3o importa; em nossa cultura profundamente especista, uma chama a outra e lhe tira a base, sem que ningu\u00e9m suspeite que o conjunto penda no vazio.<\/p>\n<p>Estas raz\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o raz\u00f5es, s\u00e3o sinais. \u00c9 claro que ningu\u00e9m se esfor\u00e7a demais para mostrar em que justificam a domina\u00e7\u00e3o dos seres humanos sobre os outros. E pouco importa que todas tenham a mesma falha, a de n\u00e3o incluir todos os seres humanos, sob pena de incluir tamb\u00e9m os n\u00e3o humanos.<\/p>\n<p>Inumer\u00e1veis s\u00e3o os sinais. Qualquer caracter\u00edstica pode servir, contanto que pare\u00e7a \u00abnobre\u00bb e pr\u00f3pria dos humanos. A ferramenta era \u00abpr\u00f3pria do Homem\u00bb at\u00e9 a descoberta de um p\u00e1ssaro que tamb\u00e9m a usa. Como possu\u00eda o pr\u00f3prio do Homem, declararam que a vida deste p\u00e1ssaro era sagrada como a de um ser humano. Claro que n\u00e3o, estou brincando! Eles entenderam. Ao comer o p\u00e1ssaro, disseram: s\u00f3 os seres humanos <i>fabricam<\/i> ferramentas. Mas alguns chimpanz\u00e9s tamb\u00e9m as fabricam, e este fil\u00e3o se esgotou.<\/p>\n<p>Outro fil\u00e3o: a linguagem. Dizem que os animais n\u00e3o t\u00eam linguagem mas, como os c\u00e3es sabem uivar, explicaram: linguagem <i>articulada<\/i>. Depois, ensinaram a alguns macacos a linguagem gestual dos surdos-mudos humanos, com sintaxe e tudo o mais (eles s\u00e3o menos dotados do que n\u00f3s, mas o princ\u00edpio est\u00e1 l\u00e1) e abandonaram tamb\u00e9m este fil\u00e3o (evitaram de especificar linguagem <i>sonora<\/i>, porque os surdos-mudos, ao contr\u00e1rio dos autistas, sabem defender-se).<\/p>\n<p>E como a aus\u00eancia de linguagem justifica o massacre? Explicaram-me que, se um ser n\u00e3o pode dizer que sofre, ningu\u00e9m pode descobrir. No entanto, todos os mam\u00edferos mostram os mesmos sinais de sofrimento que os humanos; seria espantoso que fen\u00f4menos t\u00e3o parecidos n\u00e3o tivessem a mesma causa. Poucas ci\u00eancias seriam poss\u00edveis caso se exigisse que o seu objeto fosse dotado de palavra. E tamb\u00e9m: \u00abSe um ser n\u00e3o pode conceituar o seu sofrimento, este n\u00e3o existe, \u00e9 puramente f\u00edsico.\u00bb As feministas mostraram muito bem que durante s\u00e9culos as mulheres sofreram em sil\u00eancio, porque faltavam conceitos para exprimir o que sentiam. Um passo decisivo para a sua libera\u00e7\u00e3o foi conseguir forjar estes conceitos para dizer e pensar o que viviam. Antes disso, o seu sofrimento era \u00abpuramente f\u00edsico\u00bb?<\/p>\n<p>Outros crit\u00e9rios: \u00abo animal sabe, o homem sabe que sabe\u00bb (Teilhard de Chardin); \u00abo animal n\u00e3o tem consci\u00eancia de si\u00bb; \u00abs\u00f3 os seres humanos t\u00eam uma personalidade \u00fanica\u00bb. Falso, vago ou os dois, nada disso resiste ao exame cient\u00edfico mais simples. E de qualquer modo, o que isso mudaria? \u00c9 saber que sabemos, ou a \u00abconsci\u00eancia de si\u00bb, ou a \u00abpersonalidade\u00bb que d\u00e3o valor \u00e0 vida? S\u00e3o esses \u00abn\u00e3o sei qu\u00ea\u00bb \u2014 as tais <i>naturezas<\/i> \u2014 que justificam os massacres, tanto das galinhas quanto dos judeus.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o \u00abinstinto animal\u00bb em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00abraz\u00e3o humana\u00bb. Este modo de colocar o problema testemunha sobretudo a ignor\u00e2ncia crassa que os seres humanos t\u00eam dos outros animais, do seu conhecimento feito de estere\u00f3tipos remo\u00eddos. Os racistas, em geral, tamb\u00e9m n\u00e3o sabem nada sobre aqueles que desprezam; mas as f\u00e1bulas racistas e especistas n\u00e3o passam disso: f\u00e1bulas, modos de dizer o indiz\u00edvel, a <i>natureza<\/i>.<\/p>\n<h2>Uma id\u00e9ia como as outras<\/h2>\n<p>Seria bem poss\u00edvel criar as crian\u00e7as humanas desde o nascimento num tal isolamento relacional e sensorial que n\u00e3o desenvolvessem <i>nenhuma<\/i> dessas t\u00e3o nobres qualidades \u00abpropriamente humanas\u00bb. Criadas nestas condi\u00e7\u00f5es, equivalentes \u00e0s que sofrem as vitelas, poderiam ent\u00e3o sofrer o mesmo destino, \u00abporque foram feitas para isso\u00bb (\u00abnunca conheceram outra coisa\u00bb). Para que se preocupar com o destino desses seres associais, incapazes de falar, de usar ferramentas, sem la\u00e7os afetivos e que nem sequer sabem que sabem? Se voc\u00ea acha isso escandaloso, concordo com voc\u00ea; mas se voc\u00ea n\u00e3o acha <i>igualmente escandaloso<\/i> o que fazem aos bezerros, bem, a\u00ed voc\u00ea \u00e9 especista. N\u00e3o quer que fa\u00e7am isso com os <i>humanos<\/i>, porque s\u00e3o da sua <i>esp\u00e9cie<\/i>. Que argumentos ent\u00e3o voc\u00ea poderia sustentar a s\u00e9rio contra um racista que recusaria que fizessem isso com os de sua <i>ra\u00e7a<\/i>?<\/p>\n<h2>As naturezas escondem o real<\/h2>\n<p>Para que se preocupar com o destino de qualquer ser? O que importa dizer que devemos nos abster de lhe fazer mal?<\/p>\n<p>Nada, se quiserem. Podem, se quiserem, matar e torturar quem quiserem. Podem decidir s\u00f3 torturar os negros ou os direitistas, se quiserem. Podem decidir torturar-se a si mesmos; mas isso raramente se faz. Por qu\u00ea? Porque faz sofrer, vai contra os seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Evitar fazer mal ao outro \u00e9 decidir estender a considera\u00e7\u00e3o que se tem pelos pr\u00f3prios interesses aos interesses do outro. A \u00e9tica n\u00e3o passa disso. E o que deve determinar quem ter\u00e1 os interesses considerados? Somente os brancos? Por que os brancos? Somente os seres inteligentes? Ou sociais? Quem leva em conta os pr\u00f3prios interesses n\u00e3o se pergunta se \u00e9 inteligente ou social. Isso n\u00e3o tem nada a ver com o problema. Fazer o mal faz mal, quer se seja social ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>A cada coisa real, suas conseq\u00fc\u00eancias reais. A intelig\u00eancia de um ser importa para muitas coisas, mas n\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com o fato de ser grave ou n\u00e3o lhe fazer mal. Ent\u00e3o, o que \u00e9 que importa?<\/p>\n<p>A cada coisa real, suas conseq\u00fc\u00eancias reais. Ao fato de um ser poder sofrer, a sua conseq\u00fc\u00eancia: evitar fazer-lhe mal. Isso independentemente de todas as outras caracter\u00edsticas deste ser. A \u00e9tica n\u00e3o racista, n\u00e3o sexista, n\u00e3o especista \u00e9 esta.<\/p>\n<p>Se um ser \u00e9 sens\u00edvel, pode sofrer ou ter prazer, o seu sofrimento e o seu prazer t\u00eam a mesma import\u00e2ncia que o de todos os outros seres. Toda diferen\u00e7a de import\u00e2ncia atribu\u00edda aos interesses de dois seres \u00e9 necessariamente arbitr\u00e1ria, j\u00e1 que baseada nalguma coisa sem rela\u00e7\u00e3o com a raz\u00e3o pela qual se consideram estes interesses, pois esta raz\u00e3o \u00e9 simplesmente a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O sofrimento \u00e9 sofrimento, o prazer \u00e9 prazer: eis a \u00fanica igualdade que me importa. Se as pedras podem sofrer ou ter prazer, devemos levar em conta o seu interesse de n\u00e3o sofrer e de gozar o prazer \u2014 quer cada pedra tenha ou n\u00e3o uma \u00abpersonalidade \u00fanica\u00bb. Se as pedras n\u00e3o podem sofrer nem ter prazer, como muito provavelmente \u00e9 o caso, n\u00e3o h\u00e1 nada a levar em conta.<\/p>\n<p><i>Na pr\u00e1tica<\/i>, o que fazer? A n\u00f3s, que n\u00e3o comemos carne, censuram-nos, muitas vezes com um sorriso ir\u00f4nico, por desdenhar as plantas; mas os que exibem t\u00e3o bruscamente a sua simpatia pelas plantas comem-nas dez vezes mais do que n\u00f3s, atrav\u00e9s dos animais que fazem ser criados numa vida de sofrimento e mortos. N\u00e3o importa; n\u00f3s n\u00e3o desprezamos nem as plantas nem as pedras. O desprezo \u00e9 uma atitude racista por si s\u00f3. O desprezo julga inferior a natureza de um ser; a mim, me importa o real. O car\u00e1ter sens\u00edvel ou n\u00e3o de um ser \u00e9 uma caracter\u00edstica real. Assim, me importa saber: quem a possui, quem pode sofrer?<\/p>\n<p>Como saber se as plantas ou as pedras podem sofrer? \u00c9 uma quest\u00e3o dif\u00edcil de resolver em termos absolutos, mas <i>na pr\u00e1tica<\/i> \u00e9 f\u00e1cil chegar a conclus\u00f5es simples. Voltarei a isso no pr\u00f3ximo <i>IRL<\/i>, mas todo esp\u00edrito n\u00e3o especista estar\u00e1 desde j\u00e1 de acordo comigo quanto a isso: a capacidade de sofrer dos p\u00e1ssaros, peixes e mam\u00edferos n\u00e3o humanos \u00e9 t\u00e3o veross\u00edmil e garantida quanto a dos seres humanos. Isso determina a primeira e mais simples conseq\u00fc\u00eancia: parar de com\u00ea-los.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Tradu\u00e7\u00e3o francesa: <i>La Lib\u00e9ration animale<\/i>, publicada por Grasset, mar\u00e7o de 1993.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um pouco de vocabul\u00e1rio Especismo: o especismo est\u00e1 para a esp\u00e9cie assim como o racismo est\u00e1 para a ra\u00e7a e o sexismo est\u00e1 para o sexo: uma discrimina\u00e7\u00e3o baseada na esp\u00e9cie, quase sempre a favor dos integrantes da esp\u00e9cie humana (Homo sapiens). 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