{"id":1414,"date":"2007-01-07T15:41:32","date_gmt":"2007-01-07T14:41:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1414&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T15:43:54","modified_gmt":"2016-05-01T13:43:54","slug":"algumas-reflexoes-sobre-o-tema-da-sensibilidade-alguns-atribuem-as-plantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/algumas-reflexoes-sobre-o-tema-da-sensibilidade-alguns-atribuem-as-plantas\/","title":{"rendered":"Algumas reflex\u00f5es sobre o tema da sensibilidade que alguns atribuem as plantas"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p>Quando abordo o tema da domina\u00e7\u00e3o que os humanos exercem sobre os outros animais, e, particularmente, quando falo da carne, muitas pessoas come\u00e7am logo a falar das plantas de uma maneira agressiva: segundo elas, as plantas pensam, s\u00e3o conscientes, gritam, sofrem ou t\u00eam prazer. Geralmente essas pessoas est\u00e3o com m\u00e1 f\u00e9, e fingem se interessar pelo destino das plantas apenas para melhor continuarem desprezando o dos animais. O que fazer nesse caso? Eu poderia colocar em evid\u00eancia o fato de elas se recusarem a discutir sobre os animais e \u00e9 justamente isso o que desejam, poderia lhes mostrar que elas n\u00e3o querem levar em conta, de fato, os interesses dos animais. E eu tamb\u00e9m poderia parar de discutir em tais condi\u00e7\u00f5es. Mas eu posso tamb\u00e9m me divertir levando em frente o jogo que esses indiv\u00edduos armam. Se as plantas fossem sens\u00edveis, isso seria, ent\u00e3o, mais um argumento contra a alimenta\u00e7\u00e3o carn\u00edvora - pelo menos em n\u00edvel l\u00f3gico. Pois, sendo necess\u00e1rias de 5 a 10 g de prote\u00ednas de origem vegetal para produzir 1 g de prote\u00edna de origem animal, parar de comer os animais, mesmo continuando a comer as plantas, reduziria muito os sofrimentos impostos a elas de um fator de 5 a 10, eis um belo argumento... mas que deixa evidentemente impass\u00edveis meus interlocutores que raciocinam sobre esse tema preciso em termos de 8 ou 80, pois na verdade n\u00e3o se importam nem um pouco com o tal sofrimento o qual, com delicadeza, atribuem \u00e0s plantas. Entretanto, se essas mesmas pessoas resolvessem se dedicar ao altru\u00edsmo para reduzirem o sofrimento dos homens, apenas se obtivessem um resultado ideal, ou mesmo simplesmente compar\u00e1vel ao que foi acima evocado, elas n\u00e3o fariam mais nada, n\u00e3o ajudariam os pa\u00edses pobres, nem a medicina, nem seus vizinhos, nem a si pr\u00f3prios. Por contraste, isso nos d\u00e1 toda a extens\u00e3o do desprezo que sentem pelos seres vivos sens\u00edveis que n\u00e3o pertencem \u00e0 Humanidade.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m pessoas que pensam sinceramente que as plantas sofrem ou t\u00eam uma consci\u00eancia, mesmo se forem raras as pessoas que da\u00ed tiram conclus\u00f5es pr\u00e1ticas. \u00c9 para essas pessoas que escrevo este texto, pois sei que se preocupam realmente com a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Pessoalmente, penso que as plantas n\u00e3o possuem consci\u00eancia, e que n\u00e3o sofrem, n\u00e3o sentem nem alegria nem tristeza. N\u00e3o se trata de uma cren\u00e7a, quero dizer, de uma <i>verdade revelada<\/i> \u00e0 qual me prendo porque me agrada, ainda que me seja mais agrad\u00e1vel pensar que as plantas n\u00e3o participam da imensa sinfonia de sofrimentos do mundo. Eu penso assim porque \u00e9 a hip\u00f3tese mais plaus\u00edvel que esteja de acordo (em harmonia) com os fatos dos quais disponho e com a compreens\u00e3o do mundo que eu, pelo menos parcialmente, constru\u00ed sobre estes fatos.<\/p>\n<p>A primeira raz\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 pequena, \u00e9 que n\u00e3o se conhece nenhuma<br class=\"autobr\" \/> esp\u00e9cie vegetal que possua um sistema nervoso, o que n\u00e3o \u00e9 de se estranhar, pois a fun\u00e7\u00e3o desse sistema \u00e9 a de acionar os m\u00fasculos e igualmente, justamente pelo fato de haver motricidade, de transportar a informa\u00e7\u00e3o recolhida por diversos receptores. Enquanto ao longo das eras os organismos animais tenderam a uma centraliza\u00e7\u00e3o funcional importante, este n\u00e3o foi o caso das plantas. Tal aus\u00eancia de centraliza\u00e7\u00e3o (esta autonomia de cada parte em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, que autoriza, por exemplo, os enxertos) torna a no\u00e7\u00e3o de individualidade dif\u00edcil de ser usada para os vegetais; se as plantas sofressem, poder\u00edamos perguntar o que \u00e9 que sofreria: cada folha...? Devemos considerar um morangueiro e suas mudas como uma s\u00f3 unidade sens\u00edvel ou como m\u00faltiplas unidades? E em que caso e a partir de que momento de seu desenvolvimento? Eles sofreriam juntos ou um s\u00f3, ou somente as ra\u00edzes? E a consci\u00eancia? Eis perguntas que s\u00e3o feitas realmente quando se evoca a hip\u00f3tese de uma sensibilidade ou de uma consci\u00eancia, mas que raramente as pessoas fazem. De todo jeito, se podemos dizer que h\u00e1 uma transfer\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o, na medida em que as mol\u00e9culas se deslocam, interagem em diversos lugares com os receptores da planta, e criam assim efeitos em cadeia, isso n\u00e3o autoriza a afirmar que uma <i>consci\u00eancia<\/i> as recolha, as centralize e as \u00abtrate\u00bb. Acredito que muitas pessoas t\u00eam dificuldades em imaginar uma vida \u00abvegetativa\u00bb das plantas porque nossa pr\u00f3pria experi\u00eancia de animais nos faz associar consci\u00eancia e sensibilidade \u00e0 no\u00e7\u00e3o de vida. Entretanto, at\u00e9 mesmo nos animais, as atividades vitais conscientes est\u00e3o ligadas \u00e0 motricidade \u2013 o que n\u00e3o \u00e9 o caso, por exemplo, da respira\u00e7\u00e3o ou da digest\u00e3o; os animais que est\u00e3o em coma, com encefalograma plano ou est\u00e3o descerebrados <i>vivem<\/i>, e isso prova que uma vida n\u00e3o consciente \u00e9 poss\u00edvel para um ser que n\u00e3o precisa se movimentar para viver. Pois o fato de as ra\u00edzes se enfiarem na terra ou as folhas se voltarem em dire\u00e7\u00e3o ao sol n\u00e3o necessita, a priori, mais consci\u00eancia do que o pr\u00f3prio fato de se desenvolverem ou envelhecerem.<\/p>\n<p>H\u00e1 um outro argumento que me parece muito forte: n\u00e3o se v\u00ea de forma alguma que tipo de utilidade evolutiva haveria no fato de as plantas terem sensibilidade e consci\u00eancia. No reino animal, elas representam um papel consider\u00e1vel na vida e sobreviv\u00eancia dos indiv\u00edduos, assim como em sua reprodu\u00e7\u00e3o. A ansiedade, o medo, a dor, apesar de eventuais efeitos perversos (por exemplo, um medo-p\u00e2nico pode nos jogar do alto de um abismo), levam o animal a reagir: por prud\u00eancia, com a fuga, atrav\u00e9s da defesa, o ataque... A sensibilidade e a consci\u00eancia s\u00e3o vantagens, pois o ser \u00e9 m\u00f3vel, portanto pode se deslocar, fugir de um perigo, se curar. Entretanto essas capacidades deixam globalmente de ser \u00fateis quando n\u00e3o \u00e9 o caso: um animal machucado que se esconde continua a sentir a dor devido a seu machucado, mesmo que a dor seja em v\u00e3o. E, como mostra a exist\u00eancia de indiv\u00edduos que possuem um sistema nervoso deficiente e n\u00e3o percebem a dor ou que est\u00e3o em coma ou sem o c\u00e9rebro, os ossos se ressoldam, as feridas cicatrizam, o sangue coagula, o sistema imunol\u00f3gico age com toda independ\u00eancia da percep\u00e7\u00e3o da dor: esta n\u00e3o oferece nenhuma utilidade, bem ao contr\u00e1rio, pois nos animais a sensa\u00e7\u00e3o de dor cria um stress que somente \u00e9 resolvido por uma rea\u00e7\u00e3o consciente; se n\u00e3o \u00e9 o caso, esse stress se volta contra o organismo. Ora, as plantas n\u00e3o possuem essa mobilidade<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Pois existem tamb\u00e9m animais que se movem muito pouco, como as conchas, dos\u00a0(...)\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span> e, quando essa mobilidade existe, ela continua insuficiente para permitir que as plantas lutem contra uma agress\u00e3o. Por que ent\u00e3o elas adquiririam uma consci\u00eancia ao longo das eras? E se, apesar de tudo, elas tivessem adquirido uma, por que a teriam conservado?<\/p>\n<p>Porque as plantas n\u00e3o possuem nada que se pare\u00e7a um pouquinho que seja com um sistema nervoso, porque tamb\u00e9m n\u00e3o se conhece nelas nada que possa se assemelhar a um impulso nervoso (que transporte a informa\u00e7\u00e3o a alta velocidade), porque uma consci\u00eancia ou uma sensibilidade \u00e0 dor e ao prazer aparentemente n\u00e3o lhes serviria para nada. Podemos at\u00e9 imaginar que atrapalharia sua sobreviv\u00eancia. Penso que elas seriam \u00abinsens\u00edveis\u00bb e \u00abmudas\u00bb, vivas mas \u00abinanimadas\u00bb. \u00c9 a hip\u00f3tese mais simples e a mais plaus\u00edvel. A hip\u00f3tese inversa suscita problemas e quest\u00f5es de import\u00e2ncia que, atualmente, n\u00e3o encontram respostas.<\/p>\n<p>\u00abMas, me dir\u00e3o, somos inocentemente antropom\u00f3rficos por tentarmos procurar nas plantas um sistema nervoso similar ao nosso, ou uma consci\u00eancia organizada como a nossa, e n\u00e3o \u00e9 estranho que nada encontremos; mas isso n\u00e3o implica a inexist\u00eancia de uma consci\u00eancia \"organizada de forma diferente\"\u00bb. O que poderia ent\u00e3o ser essa tal \u00abconsci\u00eancia\u00bb torna-se assim totalmente indefinido, e n\u00e3o sabemos em que se basearia tal consci\u00eancia, mas isso n\u00e3o parece perturbar muita gente. Realmente penso que \u00e9 a nossa vontade de fornecermos uma consci\u00eancia e uma sensibilidade ao reino vegetal que demonstra nosso antropomorfismo, em vez do contr\u00e1rio. V\u00e1rios livros existentes <i>L\u2019Intelligence des plantes<\/i>, o <i>La Vie secr\u00e8te des plantes<\/i><span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"Peter Tompkins e Christopher Bird, La Vie secr\u00e8te des plantes, ed. Robert\u00a0(...)\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span> contam anedotas sobre as plantas que sentem as palavras que lhes dizemos e que compreendem, sens\u00edveis \u00e0 afei\u00e7\u00e3o que lhes mostramos, sens\u00edveis \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica, sens\u00edveis \u00e0s infelicidades que afetam os seres humanos com os quais vivem, capazes de gritar, ficarem emburradas, de contar... Em nenhum dos livros que li encontrei refer\u00eancias corretas \u00e0s experi\u00eancias mencionadas, que me permitissem citar os trabalhos originais e, a fortiori, reproduzi-los. O que j\u00e1 \u00e9 algo suspeito, com efeito, a certeza com a qual o relato da experi\u00eancia \u00e9 feito \u00e9 tido como prova da veracidade do fato<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"Cf. Henri Broch, Le Paranormal: ses documents, ses hommes, ses m\u00e9thodes, ed.\u00a0(...)\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span>. O tom \u00e9 invariavelmente rigoroso (ainda que humor\u00edstico e jovial), e o estilo e os termos cient\u00edficos, mas as conclus\u00f5es n\u00e3o possuem argumenta\u00e7\u00f5es convincentes nem mesmo l\u00f3gicas ou plaus\u00edveis. Esses textos tentam parecer bem argumentados, mas fazem apelo \u00e0 credulidade, \u00e0 cumplicidade ativa e \u00e0 vontade de acreditar do leitor. Os resultados das experi\u00eancias descritas tornam-se inacredit\u00e1veis a partir do momento em que examinamos um pouco mais os detalhes e que tentamos determinar o que esses resultados implicam na realidade. Assim, nos dizem que as plantas at\u00e9 se alegram quando escutam m\u00fasica cl\u00e1ssica (mas n\u00e3o quando escutam rock, pois este n\u00e3o \u00e9 seu g\u00eanero musical...). Ora, at\u00e9 entre os humanos, a maneira como uma m\u00fasica \u00e9 sentida varia consideravelmente de acordo com as civiliza\u00e7\u00f5es, e mesmo de acordo com as classes sociais no seio de uma mesma cultura. Imaginando que pud\u00e9ssemos viajar no tempo, podemos imaginar a indigna\u00e7\u00e3o e incompreens\u00e3o das pessoas do s\u00e9culo XIX se lhes fiz\u00e9ssemos escutar rock, blues ou jazz! Apreciar uma m\u00fasica, consider\u00e1-la harmoniosa n\u00e3o \u00e9 algo espont\u00e2neo, mas depende de uma cultura musical. E as plantas apreciariam de cara Bach ou Brahms e n\u00e3o Berlioz ou Haydn.... Ora essa! E, ainda mais, um instrumento de m\u00fasica bem afinado somente o \u00e9 no que concerne \u00e0s ondas sonoras que o ouvido humano percebe. Parece que os c\u00e3es \u00e0s vezes detestam certos instrumentos que n\u00f3s apreciamos: Convenhamos ent\u00e3o que, em rela\u00e7\u00e3o aos ultra-sons, estes instrumentos lhes oferecem uma bela cacofonia! E, ainda neste caso, as plantas n\u00e3o apenas teriam como n\u00f3s um senso de est\u00e9tica musical - e o mesmo que n\u00f3s! - mas seriam tamb\u00e9m sens\u00edveis exatamente \u00e0s mesmas larguras de ondas que n\u00f3s - todas as esp\u00e9cies vegetais tamb\u00e9m! Eis a\u00ed um belo exemplo de antropomorfismo.<\/p>\n<p>Seria fastidioso detalhar assim, opondo-as, as diversas pretensas experi\u00eancias relatadas neste g\u00eanero de livro das quais todos j\u00e1 escutaram falar. Para mim \u00e9 pouco duvidoso, ao examinar v\u00e1rios exemplos, que os autores de tais livros ou artigos s\u00e3o desonestos, e que a maior parte dos leitores \u00e9 complacente. Por isso desejo que as pessoas me comuniquem se conhecem tal tipo de experi\u00eancias para que eu possa estud\u00e1-las, verific\u00e1-las e control\u00e1-las. Isso porque muitas pessoas que querem compreender um pouco o mundo onde vivem \u00e0s vezes t\u00eam pouca confian\u00e7a nas concep\u00e7\u00f5es cientificas atuais, mas acabam elegendo concep\u00e7\u00f5es ainda piores<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh4\" class=\"spip_note\" title=\"Assim, nunca encontrei um \u00fanico estudo franc\u00eas relativo \u00e0 uma eventual\u00a0(...)\" href=\"#nb4\" rel=\"footnote\">4<\/a>]<\/span>. Atualmente, apesar de a realidade implicar t\u00e3o pouco (e contradizer tanto) a hip\u00f3tese de que as plantas tenham uma sensibilidade e uma consci\u00eancia, essa tese encontra um n\u00famero cada vez maior de aderentes: aderentes de princ\u00edpio, poder\u00edamos dizer, que acreditam nisso porque t\u00eam o desejo de acreditar. Pois tais livros de qualidade med\u00edocre (para n\u00e3o falar de fraudes) dos quais falei acima, n\u00e3o podem satisfazer o leitor se este n\u00e3o estiver convencido antes da leitura ou, pelo menos, bem favor\u00e1vel, quer dizer, se ele n\u00e3o procura na leitura a confirma\u00e7\u00e3o de seus desejos. Assim, com toda evid\u00eancia, a id\u00e9ia de que as plantas sejam conscientes e sens\u00edveis nos agrada, ainda que n\u00e3o nos esforcemos para procurar detalhadamente o que poderia ser realmente esta consci\u00eancia ou sensibilidade. E ainda mais, esta id\u00e9ia exerce sobre n\u00f3s uma verdadeira fascina\u00e7\u00e3o, ao ponto de nos incitar a deixarmos de lado um pouco de nossos conhecimentos e nosso senso cr\u00edtico. As pessoas perguntam bem menos, por exemplo, se os invertebrados (insetos, moluscos...) s\u00e3o sens\u00edveis ou se t\u00eam uma \u00abconsci\u00eancia\u00bb, pergunta cuja resposta, longe de ser f\u00e1cil, tem toda raz\u00e3o de ser feita. Entretanto esse problema suscita bem menos entusiasmo e interesse, ele n\u00e3o parece responder \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es dos humanos e n\u00e3o movimenta as multid\u00f5es; para melhor dizer, ningu\u00e9m se importa. O mesmo, por\u00e9m, n\u00e3o acontece com as plantas justamente, sem d\u00favida, por serem infinitamente mais estranhas para n\u00f3s, ainda mais do que os pequenos animais, e \u00e9 essa estranheza que nos preocupa.<\/p>\n<p>Pois eu creio que por tr\u00e1s desta vontade t\u00e3o popular de acreditar que as plantas t\u00eam uma consci\u00eancia ou uma sensibilidade se esconde uma vontade de conceber um mundo onde tudo esteja interligado pela sensibilidade, onde tudo tenha uma exist\u00eancia sens\u00edvel, uma consci\u00eancia, onde tudo tenha potencialmente um discurso, um significado, uma vontade: um mundo de onde o sil\u00eancio esteja banido. Assim, muitos s\u00e3o aqueles que pensam que as pedras ou os objetos tamb\u00e9m sejam sens\u00edveis ao meio ambiente, ao que nele acontece, ao sofrimento dos outros, eventualmente, ou a suas emo\u00e7\u00f5es: segundo esquemas bem humanos, evidentemente! Vontade de ter um mundo onde nossos atos, nossos estados de esp\u00edrito, nossas emo\u00e7\u00f5es tenham uma repercuss\u00e3o sobre o conjunto da realidade, onde n\u00e3o estejamos jamais sozinhos, em um mundo onde tudo o que fizermos tem import\u00e2ncia, pois gera repercuss\u00f5es sobre a totalidade da realidade exterior e fica gravado pela realidade. Como se um outro (Deus ou a Natureza, atrav\u00e9s dos elementos naturais) estivesse sempre em contato conosco, mesmo quando estivermos sozinhos: ele toma conta de n\u00f3s, ele sabe que ali estamos, n\u00e3o estamos sozinhos no mundo, e existimos para um outro (algu\u00e9m)!<\/p>\n<p>Esta intelig\u00eancia ou exist\u00eancia sens\u00edvel das plantas ou das pedras (ou das montanhas, ou da Terra...) \u00e9 concebida dentro de uma rela\u00e7\u00e3o humana utilit\u00e1ria: elas s\u00e3o nossa mem\u00f3ria eterna, nossas testemunhas, aquelas que, ao nos verem viver, nos fornecem o sentido de nossas vidas. E lhes atribuir uma consci\u00eancia ou sensibilidade permite afastar de n\u00f3s a id\u00e9ia de uma Natureza que nos seria totalmente estranha, a id\u00e9ia de existirmos por existir, sem finalidade alguma. N\u00f3s lhes inventamos uma sensibilidade para quebrarmos o sil\u00eancio, para substitu\u00ed-lo por um murm\u00fario imagin\u00e1vel: o eterno sussurro da vida e das coisas; mas, para a maioria das pessoas, isso n\u00e3o muda estritamente nada a rela\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica que possam ter com as plantas ou as pedras: elas continuar\u00e3o a ser arrancadas ou despeda\u00e7adas sem que se pense ou reflita mais sobre elas, e todos continuar\u00e3o a falar de uma natureza harmoniosa e boa. Isso porque elas s\u00e3o vistas apenas como receptores, concebidas para nosso uso, tidas como p\u00f3lo relativo inteiramente subordinado ao \u00fanico p\u00f3lo que os humanos querem ver finalmente como realmente existente ou importante: a Humanidade.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Pois existem tamb\u00e9m animais que se movem muito pouco, como as conchas, dos quais n\u00e3o sabemos se sentem dor e prazer.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>Peter Tompkins e Christopher Bird, <i>La Vie secr\u00e8te des plantes<\/i>, ed. Robert Laffont, 1975; Martin Monestier, <i>De la musique et d\u00eas secrets pour enchanter vos plantes<\/i>, ed. Tchou; Robert Fr\u00e9d\u00e9rick, <i>L\u2019Intelligence des plantes<\/i>, ed. Arista, 1990; Jean-Paul Gibiat, \u00abAvez-vous la main verte?\u00bb, <i>\u00c7a m\u2019int\u00e9resse<\/i> n\u00b017, julho 1982.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>Cf. Henri Broch, <i>Le Paranormal: ses documents, ses hommes, ses m\u00e9thodes<\/i>, ed. du Seuil, 1989. Neste livro bastante cr\u00edtico, o autor menciona uma pretensa experi\u00eancia relativa \u00e0 sensibilidade das plantas que foi comprovadamente identificada como sendo uma farsa, e fornece a refer\u00eancia de trabalhos cient\u00edficos deste tema que apenas forneceram resultados negativos. Ao explicar tamb\u00e9m o que s\u00e3o as fotografias Kirlian, destr\u00f3i tamb\u00e9m os fundamentos da maioria das outras \u00abcomprova\u00e7\u00f5es\u00bb habituais fornecidas por outros estudos.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb4\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 4\" href=\"#nh4\" rev=\"footnote\">4<\/a>]\u00a0<\/span>Assim, nunca encontrei um \u00fanico estudo franc\u00eas relativo \u00e0 uma eventual sensibilidade ao sofrimento dos insetos, dos aracn\u00eddeos, dos antr\u00f3podos, dos moluscos... Na la <i>Encyclopaedia Universalis<\/i>, por exemplo, o longo artigo que estuda as himen\u00f3pteros (abelhas, formigas...) n\u00e3o menciona, em <i>nenhum momento<\/i>, a exist\u00eancia de um sistema nervoso. \u00c9 incr\u00edvel! Pode-se ter a inten\u00e7\u00e3o de estudar ou conhecer a vida ou o comportamento de um ser sem mesmo se perguntar se ele sofre ou n\u00e3o, e o que \u00e9 suscept\u00edvel de faz\u00ea-lo sofrer? Particularmente, os cientistas franceses parecem considerar que sim! Como qualquer outro cidad\u00e3o da rua, os cientistas n\u00e3o se preocupam com este tema, comportamento que revela totalmente o conformismo e a pobreza de suas pesquisas. O sofrimento animal \u00e9 tabu, para os cientistas tamb\u00e9m.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando abordo o tema da domina\u00e7\u00e3o que os humanos exercem sobre os outros animais, e, particularmente, quando falo da carne, muitas pessoas come\u00e7am logo a falar das plantas de uma maneira agressiva: segundo elas, as plantas pensam, s\u00e3o conscientes, gritam, sofrem ou t\u00eam prazer. 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