{"id":1409,"date":"2007-02-28T15:26:16","date_gmt":"2007-02-28T14:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/?p=1409&#038;lang=pt-pt"},"modified":"2016-05-01T15:28:49","modified_gmt":"2016-05-01T13:28:49","slug":"reflexoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.cahiers-antispecistes.org\/pt-pt\/reflexoes\/","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es"},"content":{"rendered":"<div class=\"champ contenu_chapo\">\n<div class=\"chapo\" dir=\"ltr\">\n<p>Este texto foi editado no ver\u00e3o de 1990 na revista americana <i>Between the Species<\/i><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_texte\">\n<div class=\"texte\" dir=\"ltr\">\n<p><i>Animal Liberation<\/i> foi, com certeza, o ponto de partida. Eu li o livro enquanto estava em uma praia, na Espanha, no ver\u00e3o de 1985 e aconteceu comigo o que tamb\u00e9m acontecera com v\u00e1rias outras pessoas. Ao fechar o livro eu disse: \u00abPuxa, \u00e9 l\u00f3gico...&nbsp;\u00bb. Eu j\u00e1 era vegetariana e estava acostumada a salvar gatos e c\u00e3es abandonados; e tamb\u00e9m era ativista de esquerda e me interessava pela filosofia marxista, que eu considerava como sendo um instrumento para mudar e para interpretar o mundo. Tais fragmentos dispersos de minha vida se reorganizaram bruscamente em uma imagem coerente.<\/p>\n<p>As grandes id\u00e9ias s\u00e3o simples. Todos os animais s\u00e3o iguais: o que existe de mais simples do que isso? Temos a impress\u00e3o de sempre ter sabido isso. Entretanto, ao longo da historia, ningu\u00e9m o havia dito. Um problema, sem duvidas, n\u00e3o apenas de ordem intelectual e de condi\u00e7\u00f5es precedentes, mas tamb\u00e9m de coragem. As grandes id\u00e9ias tamb\u00e9m s\u00e3o harm\u00f4nicas. Elas conferem unidade ao que \u00e9 m\u00faltiplo, provocam a uni\u00e3o onde h\u00e1 disc\u00f3rdia. O reconhecimento da igualdade entre n\u00f3s mesmos e o <i>outro<\/i> leva a um equil\u00edbrio no qual a raz\u00e3o e o sentimento se combinam em uma s\u00edntese superior em vez de se oporem. Deste encontro surge um eu menos dividido. Tive a consci\u00eancia que a id\u00e9ia da libera\u00e7\u00e3o animal \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>Ainda assim, isso cria problemas. Como um eu reorganizado pode admitir uma realidade que encontra-se deformada pois est\u00e1 dividida? Temos o sentimento de que tamb\u00e9m deveria ser f\u00e1cil restabelecermos a harmonia no mundo. Mas isso \u00e9 uma ilus\u00e3o que at\u00e9 o Peter Singer admitiu ter mantido quando terminou de escrever seu livro, uma ilus\u00e3o que ningu\u00e9m, assim acredito eu, pode evitar quando termina de ler este livro. Mas trata-se claramente de uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o trabalho cotidiano come\u00e7a. Ainda que Franco Salanga e eu mesma f\u00f4ssemos novos no movimento, t\u00ednhamos uma vantagem: pod\u00edamos aproveitar a experi\u00eancia que hav\u00edamos adquirido nos Estados Unidos. Desde nossa partida n\u00f3s lemos, escrevemos cartas, entramos em contato com fil\u00f3sofos e militantes. Descobrimos e devoramos <i>The Animals\u2019 Agenda<\/i>, <i>Ethics &amp; Animals<\/i>, <i>Between the Species<\/i>. E tomamos a consci\u00eancia de duas coisas. Em primeiro lugar, da grande import\u00e2ncia do papel da ilimitada teoria liberacionista. Acreditamos que ningu\u00e9m pode se opor a ela de forma s\u00e9ria. E, por conseguinte, n\u00e3o devemos jamais releg\u00e1-la ao segundo plano, ainda que seja para nos conformarmos com as atitudes admitidas. Desta forma, o processo ser\u00e1 mais longo, mas a mudan\u00e7a ser\u00e1 muito mais profunda.<\/p>\n<p>A segunda coisa que percebemos \u00e9 o peso do desafio pol\u00edtico que nosso movimento cria. Ao defendermos os seres sens\u00edveis que est\u00e3o colocados no lugar mais baixo da cadeia da explora\u00e7\u00e3o, nossa exig\u00eancia de justi\u00e7a assume um valor mais universal do que qualquer outro grupo - ou classe- de humanos explorados no passado: ela faz de nossa luta pela igualdade <i>a<\/i> luta pela igualdade (aqui ainda, n\u00f3s acreditamos nisso, a libera\u00e7\u00e3o animal \u00e9 a libera\u00e7\u00e3o humana). \u00c9 verdade, de um ponto de vista social, que a tarefa \u00e9 muito mais \u00e1rdua, pois os animais n\u00e3o podem lutar por si pr\u00f3prios: mas toda revolu\u00e7\u00e3o parece ter dependido, em um primeiro tempo, de um pequeno grupo de intelectuais e ativistas engajados, do que da contribui\u00e7\u00e3o das massas. E \u00e9 deste grupo que realmente precisamos, e \u00e9 isso que estamos criando.<\/p>\n<h2>I<\/h2>\n<p>Em outono de 1987, Franco e eu tent\u00e1vamos formular um projeto sobre o qual medit\u00e1vamos h\u00e1 mais tempo - o projeto de publicarmos uma revista que levasse para a It\u00e1lia as novidades que estavam acontecendo nos pa\u00edses anglo-sax\u00f5es. Durante uma viagem aos Estados Unidos, encontramos Steve Sapontzis, que nos deu v\u00e1rios conselhos e nos permitiu reproduzirmos, sem direitos autorais, os artigos editados em <i>Between the Species<\/i>. Para uma revista totalmente nova, isso significava um excelente come\u00e7o. Ainda n\u00e3o possu\u00edamos nem t\u00edtulo nem diagrama\u00e7\u00e3o. Um dia, enquanto escrevia uma carta para Harlan B. Miller, Franco sugeriu: \u00abE se a revista se chamasse \"Etica e Animali\"?\u00bb Esse t\u00edtulo era tudo o que precis\u00e1vamos! Dali em diante as coisas come\u00e7aram a se encaixar. A liga\u00e7\u00e3o ideal com um mentor estrangeiro que morrera h\u00e1 dois anos antes nos dava uma indica\u00e7\u00e3o clara da continuidade com o passado - pois <i>Ethics &amp; Animals<\/i>, havia realizado justamente o trabalho de pioneiro que n\u00f3s t\u00ednhamos em mente. O aspecto \u00abessencial\u00bb do t\u00edtulo tamb\u00e9m nos influenciou, levando-nos a renunciar \u00e0 id\u00e9ia que t\u00ednhamos de criar um jornal h\u00edbrido, ao mesmo tempo filos\u00f3fico e militante; n\u00f3s passamos ent\u00e3o a nos concentrar na teoria.<\/p>\n<p>O primeiro n\u00famero de <i>\u00c9tica &amp; Animali<\/i> foi editado em abril de 1988, a tempo de ser colocado nas m\u00e3os de Peter Singer que, pela primeira vez, visitava oficialmente a It\u00e1lia. Um m\u00eas mais tarde, Tom Regan, que j\u00e1 t\u00ednhamos visitado nos Estados Unidos, tamb\u00e9m chegou. Est\u00e1vamos com sorte. Uma revista at\u00edpica, publicada com poucos meios financeiros e com poucos exemplares, iria receber uma aten\u00e7\u00e3o inesperada do p\u00fablico e da imprensa gra\u00e7as \u00e0s confer\u00eancias e aos encontros que organizamos para Peter Singer e para Tom Regan. Neste \u00ednterim, a edi\u00e7\u00e3o italiana de <i>Animal Liberation<\/i> havia sido publicada, ainda que por uma liga anti-vivisseccionista (felizmente, a nova edi\u00e7\u00e3o estar\u00e1 a cargo de uma grande editora<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh1\" class=\"spip_note\" title=\"Ed. Mondadori, 1991 [NdT].\" href=\"#nb1\" rel=\"footnote\">1<\/a>]<\/span>), e contatos foram feitos para o lan\u00e7amento de uma edi\u00e7\u00e3o italiana do <i>The Case for Animal Rights<\/i> e de <i>Morals, Reason, and Animals<\/i> do autor Sapontzis (inclusive o primeiro j\u00e1 foi editado neste ano<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh2\" class=\"spip_note\" title=\"Ed. Garzanti, 1990 [NdT].\" href=\"#nb2\" rel=\"footnote\">2<\/a>]<\/span>). Esper\u00e1vamos progredir rapidamente. Entretanto, um pouco mais tarde, a mar\u00e9 mudou, nos obrigando a ser pacientes e a trabalhar mais lentamente.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos editado outros dois n\u00fameros de <i>E&amp;A<\/i> (o quarto est\u00e1 sendo preparado atrasado, pra variar). Seguimos uma linha relativamente rigorosa. Procuramos apresentar os pontos de vista \u00e9ticos liberacionistas mais relevantes e publicamos discuss\u00f5es sobre as quest\u00f5es que s\u00e3o as mais importantes. Recentemente nos direcionamos para o enfoque feminista. Ainda n\u00e3o inclu\u00edmos discuss\u00f5es com nossos advers\u00e1rios - pois estes j\u00e1 possuem v\u00e1rias maneiras e espa\u00e7os para se expressarem. A maior parte dos textos que publicamos s\u00e3o traduzidos do ingl\u00eas pois a It\u00e1lia entrou tarde neste debate. O material \u00e9 abundante. O \u00fanico problema consiste na pequena hist\u00f3ria que apresentamos em cada n\u00famero - queremos evitar o inconveniente de \u00abrealismo socialista\u00bb.<\/p>\n<p>Resumindo, <i>E&amp;A<\/i> foi previsto com dois objetivos: o de ser um desafio e uma ferramenta. O desafio \u00e9 dirigido \u00e0 cultura predominante e a ferramenta deve servir para criar o n\u00facleo do movimento. Ainda \u00e9 muito cedo para dizermos se estes objetivos foram atingidos. Em seu conjunto, a cultura italiana continua considerando a quest\u00e3o animal n\u00e3o como um problema moral e social fundamental, mas como uma preocupa\u00e7\u00e3o opcional ou menor- aqueles que militam continuam sendo os \u00abexperts\u00bb. Enquanto que os c\u00edrculos de esquerda, que tradicionalmente s\u00e3o os mais engajados, est\u00e3o imbu\u00eddos de chauvinismo humano de origem marxista, os que se consideram como progressistas liberais nos acusam vagamente de fanatismo, discordando de opini\u00f5es que n\u00e3o compreendem, e que n\u00e3o enxergam como sendo o desenvolvimento l\u00f3gico de seus pontos de vista. Contudo, \u00e9 verdade que, agora, o argumento \u00e9 levado mais a s\u00e9rio e que, na It\u00e1lia tamb\u00e9m, as teses sobre os direitos dos animais come\u00e7am a aparecer; alguns (raros) fil\u00f3sofos, ainda que n\u00e3o aceitem nossos pontos de vista, come\u00e7am a discut\u00ed-los e a dissemin\u00e1- los - mas o caminho ainda \u00e9 longo e ainda exigir\u00e1 muita luta.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos \u00abrespons\u00e1veis\u00bb pelo movimento, o resultado \u00e9 mais favor\u00e1vel. Atualmente h\u00e1 um n\u00famero bem maior de ativistas que l\u00eaem a revista, por sentirem a necessidade de unirem a teoria \u00e0 pr\u00e1tica. Uma outra indica\u00e7\u00e3o disto \u00e9 o interesse suscitado por uma s\u00e9rie de semin\u00e1rios que realizamos atualmente sobre a quest\u00e3o da \u00e9tica liberacionista. Mas talvez o que melhor mostre a mudan\u00e7a que vem ocorrendo seja o not\u00e1vel incidente ocorrido durante a primeira confer\u00eancia que organizamos em Mil\u00e3o, intitulada \u00abO ponto de vista \u00e9tico: diferen\u00e7as e desigualdades\u00bb. Durante a discuss\u00e3o, um fil\u00f3sofo utilitarista italiano expunha sua defesa de uma forma modificada da explora\u00e7\u00e3o dos animais, atrav\u00e9s do abate sem sofrimentos, quando um militante do p\u00fablico se levantou e perguntou com sinceridade: \u00abMas voc\u00ea trataria da mesma maneira uma crian\u00e7a possuidora de debilidade profunda, para se alimentar de sua carne?\u00bb A arma formid\u00e1vel que representa o argumento de casos marginais, introduzidos de forma sub-rept\u00edcia por um n\u00e3o universit\u00e1rio, atingiu seu objetivo e o jovem fil\u00f3sofo, ap\u00f3s uma breve tentativa de escamotear o problema que leva \u00e0 exclus\u00e3o de todo efeito secund\u00e1rio respondeu ao desafio, evitando a acusa\u00e7\u00e3o de especismo, com um <i>sim<\/i> - provocando uma enorme agita\u00e7\u00e3o na sala.<\/p>\n<h2>II<\/h2>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nas democracias ocidentais, com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade dos seres sens\u00edveis, parece com a da sociedade espartana cl\u00e1ssica. Uma oligarquia restrita, relativamente igualit\u00e1ria em seu seio, composta por humanos que governavam tiranicamente a massa dos exclu\u00eddos \u2013 os membros das outras esp\u00e9cies. No centro, garantias e direitos e, fora dele, arbitrariedades imensas. Nosso movimento, que atravessa a fronteira, deve encarar problemas incomuns, pois este mesmo contrato social que nos beneficia tanto enquanto humanos e militantes \u00e9 o mesmo que ratifica a explora\u00e7\u00e3o ilimitada dos n\u00e3o humanos. Do ponto de vista estrat\u00e9gico, em minha opini\u00e3o, recorrermos \u00e0 viol\u00eancia seria justific\u00e1vel eticamente por qualquer teoria n\u00e3o especista, mas, sob o ponto de vista estrat\u00e9gico seria algo problem\u00e1tico. Supondo que estiv\u00e9ssemos prontos para correr o risco, as rea\u00e7\u00f5es poss\u00edveis poderiam induzir a opini\u00e3o p\u00fablica a nos situar falsamente no mesmo plano que nossos advers\u00e1rios - at\u00e9 a apoi\u00e1-los, visto que as a\u00e7\u00f5es de nossos advers\u00e1rios consistem em se protegerem, enquanto que n\u00f3s, o que n\u00f3s defendemos \u00e9 <i>ningu\u00e9m<\/i>, pois os animais n\u00e3o existem enquanto nosso \u00absemelhante\u00bb. Por outro lado, o contrato social poderia ser utilizado contra n\u00f3s ao ponto de nos paralisar, como mostra a experi\u00eancia ocorrida na Inglaterra, onde leis de urg\u00eancia foram promulgadas contra a ALF e as Ligas, ainda que estas tenham evitado a viol\u00eancia e se limitaram a atos contra a propriedade - que podem, \u00e0s vezes, ser frut\u00edferos. Assim sendo, o que devemos fazer?<\/p>\n<p>Acreditamos que o problema fundamental \u00e9 o de aparecermos como um verdadeiro movimento pol\u00edtico, que pressione incessantemente os limites da preocupa\u00e7\u00e3o moral; que torne claro n\u00e3o apenas o fato de n\u00e3o sermos um grupo a mais de press\u00e3o de defesa animal ou um grupo com interesses particulares, mas sim um grupo de movimento de libera\u00e7\u00e3o; n\u00f3s somos a realiza\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios sobre os quais se funda essa mesma sociedade que se pronuncia contra n\u00f3s. Esta maneira de ver as coisas, segundo a experi\u00eancia americana, deve desestabilizar mais o terreno de nossos advers\u00e1rios e facilitar o aparecimento de intelectuais engajados e alian\u00e7as com outros movimentos, em particular com o movimento feminista. A partir de uma ideologia t\u00e3o \u00abforte\u00bb pode nascer uma <i>estrat\u00e9gia do n\u00e3o<\/i>, permitindo evitarmos comprometer os princ\u00edpios, ainda que levemos em conta a realidade. Uma larga proje\u00e7\u00e3o poderia, de fato, incluir ao mesmo tempo o <i>n\u00e3o<\/i> a setores inteiros da explora\u00e7\u00e3o animal - aos elos fracos da corrente - e o <i>n\u00e3o<\/i> aos aspectos particulares nos dom\u00ednios mais dif\u00edceis de serem atacados. \u00c9 ainda nos Estados Unidos que encontramos os exemplos para isso. Apesar de acharmos que, no momento atual, o movimento se preocupe demasiadamente pouco com o que constitui a coluna vertebral da explora\u00e7\u00e3o animal, que \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de animais para a alimenta\u00e7\u00e3o, pensamos que certas escolhas do movimento, assim como as t\u00e1ticas que est\u00e3o ligadas a elas, foram fundamentais. Lembramo-nos especialmente da \u00abCampanha por uma Am\u00e9rica sem peles\u00bb executada por Trans-Species Unlimited<span class=\"spip_note_ref\">\u00a0[<a id=\"nh3\" class=\"spip_note\" title=\"Hoje&nbsp;: Animal Rights Mobilisation [NdT].\" href=\"#nb3\" rel=\"footnote\">3<\/a>]<\/span> e realizada atrav\u00e9s de uma mobiliza\u00e7\u00e3o constante e agressiva da base, e tamb\u00e9m nos <i>Compassion Campaigns<\/i> da PETA (\u00abPeople for the Ethical Treatment of Animals\u00bb), visando a aboli\u00e7\u00e3o imediata dos testes cosm\u00e9ticos feitos nos animais, e cujos m\u00e9todos foram da desobedi\u00eancia civil at\u00e9 a presen\u00e7a nas assembl\u00e9ias dos acion\u00e1rios. Estas \u00faltimas campanhas nos interessam particularmente, pois estivemos diretamente implicados.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, um verdadeiro movimento ainda deve ser criado. H\u00e1 ligas anti-vivisseccionistas, associa\u00e7\u00f5es contra a ca\u00e7a, grupos que se ocupam dos zool\u00f3gicos e dos circos, mas a id\u00e9ia de se desafiar globalmente a explora\u00e7\u00e3o animal tem progredido com dificuldades. Temos ainda o problema dos Verdes, porque s\u00e3o um partido e aspiram uma hegemonia sobre esta quest\u00e3o - o que implica um enfraquecimento das reivindica\u00e7\u00f5es por causa de seus interesses eleitorais e uma confus\u00e3o por causa da diverg\u00eancia dos objetivos. \u00c9 no contexto destes obst\u00e1culos que nossa primeira tentativa de forma\u00e7\u00e3o de um grupo ocorreu e fracassou em 1987, quando o vegetarianismo n\u00e3o era universalmente aceito pelos <i>animalisti<\/i>. N\u00e3o t\u00ednhamos outra escolha a n\u00e3o ser esperar, e nos concentramos no jornal e na divulga\u00e7\u00e3o das id\u00e9ias. Entretanto, cerca de um ano mais tarde, aconteceu algo imprevisto: Susan Rich, diretora dos <i>Compassion Campaigns<\/i> da PETA, nos telefonou e pediu para apoiarmos uma campanha contra Benetton, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Era algo novo para n\u00f3s. O ataque tinha sido preparado meticulosamente, gra\u00e7as a um espi\u00e3o que se infiltrou no laborat\u00f3rio que a empresa havia contratado para realizar os testes de seus produtos cosm\u00e9ticos. A escolha do alvo foi ben\u00e9fica e o objetivo era de peso \u2013 a elimina\u00e7\u00e3o total da experimenta\u00e7\u00e3o animal. Mas, acima de tudo, um elemento pol\u00edtico de import\u00e2ncia capital apareceu pela primeira vez, quase naturalmente: a internacionaliza\u00e7\u00e3o do encontro.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca \u00e9ramos apenas tr\u00eas (Franco, eu e um colaborador pr\u00f3ximo da revista, Antonio Pillon), e foi necess\u00e1rio tomarmos uma decis\u00e3o. N\u00f3s aceitamos. T\u00ednhamos as primeiras experi\u00eancias de luta no setor dos cosm\u00e9ticos, ent\u00e3o criamos uma \u00abLiga contra os testes cosm\u00e9ticos nos animais\u00bb. Entramos em contato com dezenas de grupos e de associa\u00e7\u00f5es e logo pudemos participar da mobiliza\u00e7\u00e3o internacional e trabalhar ao lado de organiza\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos, da Grande Bretanha, da Alemanha e do Canad\u00e1. A imprensa foi atra\u00edda e fez uma boa cobertura. Poder\u00edamos tamb\u00e9m dizer que contribu\u00edmos para o resultado final, pois o que perturbou a tranq\u00fcilidade da empresa pouco tempo antes do resultado final, foi o an\u00fancio de uma manifesta\u00e7\u00e3o em Treviso, quer dizer, como hav\u00edamos dito em nossas incita\u00e7\u00f5es feitas ao estrangeiro, no quintal de M. Luciano. A vit\u00f3ria foi uma experi\u00eancia t\u00e3o inebriante, que ficamos totalmente fascinados- temos t\u00e3o poucas vit\u00f3rias! Entretanto, os problemas nos espreitavam. Muitas das associa\u00e7\u00f5es que haviam se juntado \u00e0 liga o fizeram apenas formalmente - mas, devo notar aqui que isso \u00e9 algo corriqueiro. Mais grave foi o fato que algumas dentre elas, no in\u00edcio aparentemente solid\u00e1rias, acabaram se revelando hostis e, em certos casos, prontas ao boicote. Ficou claro para n\u00f3s que o problema fundamental era de ordem ideol\u00f3gica, ainda que estiv\u00e9ssemos sujeitos a maliciosas quest\u00f5es de poder e a uma avers\u00e3o geral por toda novidade. Os anti-vivisseccionistas locais, ligados \u00e0s posi\u00e7\u00f5es (e tamb\u00e9m, infelizmente devemos dizer, aos \u00abm\u00e9todos\u00bb) de Hans Ruesch, analisaram como <i>pouco importantes<\/i> os ataques setoriais contra a se\u00e7\u00e3o de cosm\u00e9ticos da ind\u00fastria dos animais e como sendo <i>n\u00e3o-abolicionista<\/i> o enfoque baseado em argumentos \u00e9ticos e n\u00e3o \u00abcient\u00edficos\u00bb. Atualmente isso nos parece como sendo algo distante, discutimos e brigamos; neste meio tempo houve campanhas contra a Avon e a Revlon; rompemos rela\u00e7\u00f5es e criamos outras. Pelo menos a experi\u00eancia deixou suas marcas e n\u00f3s intensificamos nossos esfor\u00e7os: hoje possu\u00edmos um n\u00facleo a partir do qual, desde que as coisas estejam maduras, nossa organiza\u00e7\u00e3o liberacionista se erguer\u00e1.<\/p>\n<p>Assim, a campanha contra Benetton foi um desvio em nossa experi\u00eancia. Mas tamb\u00e9m, em nossa opini\u00e3o, por causa da id\u00e9ia nascente de um movimento internacional, ela constituiu um desvio em um n\u00edvel mais amplo. Gra\u00e7as \u00e0 perspic\u00e1cia de Susan Rich, esta id\u00e9ia n\u00e3o apenas perseverou mas cresceu ao longo das campanhas, para atingir, em nossos dias, a apoteose da campanha que est\u00e1 sendo preparada contra L\u2019Or\u00e9al. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil descrever o sentimento de solidariedade e de for\u00e7a que sentimos quando, em janeiro de 1990, realizamos em Paris (no terreno da L\u2019Or\u00e9al) a primeira entrevista coletiva internacional. Para n\u00f3s este foi um momento hist\u00f3rico: pois esta escolha n\u00e3o \u00e9 apenas imposta pela realidade da luta- pelo fato de nossos inimigos <i>serem<\/i> internacionais - mas ela aponta para as grandes repercuss\u00f5es futuras. Partilhar as experi\u00eancias, para decidirmos em conjunto as estrat\u00e9gias, para identificarmos os alvos comuns: quem pode dizer at\u00e9 onde a coopera\u00e7\u00e3o internacional poder\u00e1 nos levar? O primeiro passo foi feito: agora basta apenas continuar.<\/p>\n<h2>III<\/h2>\n<p>Estabelecer uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica \u00e9 uma coisa. Viver a vida de todos os dias \u00e9 outra. A vida cotidiana implica que levemos em conta nossas pr\u00f3prias incoer\u00eancias e fraquezas. Implica que andemos nas ruas e vejamos os a\u00e7ougues, as farm\u00e1cias, as lojas que vendem casacos de pele, perfumarias, ou nos restaurantes que comemos, pr\u00f3ximos \u00e0 pessoas que est\u00e3o consumindo carne de animais. Implica que amemos e tratemos bem pessoas que contribuem para perpetuar a explora\u00e7\u00e3o. Ou apreciemos a beleza de lugares e do charme de cidades que escondem a explora\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s de suas fachadas tranq\u00fcilas. \u00c0s vezes eu penso que n\u00f3s n\u00e3o pensamos verdadeiramente o que n\u00f3s falamos. Se o pens\u00e1ssemos, ficar\u00edamos submergidos: n\u00e3o poder\u00edamos continuar a viver do modo que estamos vivendo.<br class=\"autobr\" \/> Mas tamb\u00e9m digo a mim que ainda \u00e9 muito cedo - que fomos criados dentro do paradigma especista e que \u00e9 normal que ainda n\u00e3o estejamos totalmente libertos dele. Ou ent\u00e3o eu penso no longo caminho tortuoso que foi trilhado pela id\u00e9ia da igualdade humana, e digo a mim mesma que a id\u00e9ia da igualdade animal \u00e9 t\u00e3o recente que \u00e9 at\u00e9 mesmo incr\u00edvel como ela est\u00e1 se espalhando de maneira t\u00e3o r\u00e1pida e indo t\u00e3o longe. Entretanto, h\u00e1 uma outra resposta que, eu creio, vai ao fundo do problema: se n\u00f3s pens\u00e1ssemos realmente sempre o que n\u00f3s dizemos, n\u00e3o apenas n\u00f3s n\u00e3o poder\u00edamos viver assim, mas tamb\u00e9m n\u00e3o poder\u00edamos mais lutar. A extens\u00e3o e a onipresen\u00e7a da explora\u00e7\u00e3o animal s\u00e3o tais que, apenas fechando um pouco nossos olhos podemos conservar a esperan\u00e7a de mudar a realidade e a coragem de faz\u00ea-lo. O fato de nos isolarmos n\u00e3o deve ser considerado como uma forma de \u00absuperficialidade\u00bb: \u00e9 tamb\u00e9m e, talvez sobretudo, uma forma de auto-defesa. Ent\u00e3o eu me resigno - e o aceito. \u00c9 um pouco do pre\u00e7o que temos que pagar para possuirmos um movimento de libera\u00e7\u00e3o animal.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"champ contenu_notes\">\n<h2 class=\"label\">Notes<\/h2>\n<div class=\"notes\" dir=\"ltr\">\n<div id=\"nb1\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 1\" href=\"#nh1\" rev=\"footnote\">1<\/a>]\u00a0<\/span>Ed. Mondadori, 1991 <i>[NdT]<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb2\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 2\" href=\"#nh2\" rev=\"footnote\">2<\/a>]\u00a0<\/span>Ed. Garzanti, 1990 <i>[NdT]<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"nb3\">\n<p><span class=\"spip_note_ref\">[<a class=\"spip_note\" title=\"Notes 3\" href=\"#nh3\" rev=\"footnote\">3<\/a>]\u00a0<\/span>Hoje&nbsp;: Animal Rights Mobilisation <i>[NdT]<\/i>.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"wp-socializer wpsr-share-icons \" data-lg-action=\"show\" data-sm-action=\"show\" data-sm-width=\"768\" ><h3>Share and Enjoy !<\/h3><div class=\"wpsr-si-inner\"><div class=\"wpsr-counter wpsrc-sz-32px\" style=\"color:#000\"><span class=\"scount\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook,twitter,linkedin,pinterest,print,pdf\">0<\/span><\/span><small class=\"stext\">Shares<\/small><\/div><div class=\"socializer sr-popup sr-32px sr-circle sr-opacity sr-pad sr-count-1 sr-count-1\"><span class=\"sr-facebook\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/share.php?u=\" target=\"_blank\"  title=\"Share this on Facebook\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-facebook-f\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"facebook\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-twitter\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/twitter.com\/intent\/tweet?text=%20-%20%20\" target=\"_blank\"  title=\"Tweet this !\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-twitter\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-linkedin\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.linkedin.com\/sharing\/share-offsite\/?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Add this to LinkedIn\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fab fa-linkedin-in\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pinterest\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.pinterest.com\/pin\/create\/button\/?url=&amp;media=&amp;description=\" target=\"_blank\"  title=\"Submit this to Pinterest\"  style=\"color: #ffffff\" data-pin-custom=\"true\"><i class=\"fab fa-pinterest\"><\/i><span class=\"ctext\"><span data-wpsrs=\"\" data-wpsrs-svcs=\"pinterest\">0<\/span><\/span><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-print\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Print this article \"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-print\"><\/i><\/a><\/span>\n<span class=\"sr-pdf\"><a rel=\"nofollow\" href=\"https:\/\/www.printfriendly.com\/print?url=\" target=\"_blank\"  title=\"Convert to PDF\"  style=\"color: #ffffff\" ><i class=\"fa fa-file-pdf\"><\/i><\/a><\/span><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi editado no ver\u00e3o de 1990 na revista americana Between the Species Animal Liberation foi, com certeza, o ponto de partida. 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