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Tradução: Anna Cristina Reis Xavier; revisão: Eliana Moser

Este texto foi editado no verão de 1990 na revista americana Between the Species

Animal Liberation foi, com certeza, o ponto de partida. Eu li o livro enquanto estava em uma praia, na Espanha, no verão de 1985 e aconteceu comigo o que também acontecera com várias outras pessoas. Ao fechar o livro eu disse: «Puxa, é lógico... ». Eu já era vegetariana e estava acostumada a salvar gatos e cães abandonados; e também era ativista de esquerda e me interessava pela filosofia marxista, que eu considerava como sendo um instrumento para mudar e para interpretar o mundo. Tais fragmentos dispersos de minha vida se reorganizaram bruscamente em uma imagem coerente.

As grandes idéias são simples. Todos os animais são iguais: o que existe de mais simples do que isso? Temos a impressão de sempre ter sabido isso. Entretanto, ao longo da historia, ninguém o havia dito. Um problema, sem duvidas, não apenas de ordem intelectual e de condições precedentes, mas também de coragem. As grandes idéias também são harmônicas. Elas conferem unidade ao que é múltiplo, provocam a união onde há discórdia. O reconhecimento da igualdade entre nós mesmos e o outro leva a um equilíbrio no qual a razão e o sentimento se combinam em uma síntese superior em vez de se oporem. Deste encontro surge um eu menos dividido. Tive a consciência que a idéia da liberação animal é a liberação humana.

Ainda assim, isso cria problemas. Como um eu reorganizado pode admitir uma realidade que encontra-se deformada pois está dividida? Temos o sentimento de que também deveria ser fácil restabelecermos a harmonia no mundo. Mas isso é uma ilusão que até o Peter Singer admitiu ter mantido quando terminou de escrever seu livro, uma ilusão que ninguém, assim acredito eu, pode evitar quando termina de ler este livro. Mas trata-se claramente de uma ilusão.

Então, o trabalho cotidiano começa. Ainda que Franco Salanga e eu mesma fôssemos novos no movimento, tínhamos uma vantagem: podíamos aproveitar a experiência que havíamos adquirido nos Estados Unidos. Desde nossa partida nós lemos, escrevemos cartas, entramos em contato com filósofos e militantes. Descobrimos e devoramos The Animals’ Agenda, Ethics & Animals, Between the Species. E tomamos a consciência de duas coisas. Em primeiro lugar, da grande importância do papel da ilimitada teoria liberacionista. Acreditamos que ninguém pode se opor a ela de forma séria. E, por conseguinte, não devemos jamais relegá-la ao segundo plano, ainda que seja para nos conformarmos com as atitudes admitidas. Desta forma, o processo será mais longo, mas a mudança será muito mais profunda.

A segunda coisa que percebemos é o peso do desafio político que nosso movimento cria. Ao defendermos os seres sensíveis que estão colocados no lugar mais baixo da cadeia da exploração, nossa exigência de justiça assume um valor mais universal do que qualquer outro grupo - ou classe- de humanos explorados no passado: ela faz de nossa luta pela igualdade a luta pela igualdade (aqui ainda, nós acreditamos nisso, a liberação animal é a liberação humana). É verdade, de um ponto de vista social, que a tarefa é muito mais árdua, pois os animais não podem lutar por si próprios: mas toda revolução parece ter dependido, em um primeiro tempo, de um pequeno grupo de intelectuais e ativistas engajados, do que da contribuição das massas. E é deste grupo que realmente precisamos, e é isso que estamos criando.

I

Em outono de 1987, Franco e eu tentávamos formular um projeto sobre o qual meditávamos há mais tempo - o projeto de publicarmos uma revista que levasse para a Itália as novidades que estavam acontecendo nos países anglo-saxões. Durante uma viagem aos Estados Unidos, encontramos Steve Sapontzis, que nos deu vários conselhos e nos permitiu reproduzirmos, sem direitos autorais, os artigos editados em Between the Species. Para uma revista totalmente nova, isso significava um excelente começo. Ainda não possuíamos nem título nem diagramação. Um dia, enquanto escrevia uma carta para Harlan B. Miller, Franco sugeriu: «E se a revista se chamasse "Etica e Animali"?» Esse título era tudo o que precisávamos! Dali em diante as coisas começaram a se encaixar. A ligação ideal com um mentor estrangeiro que morrera há dois anos antes nos dava uma indicação clara da continuidade com o passado - pois Ethics & Animals, havia realizado justamente o trabalho de pioneiro que nós tínhamos em mente. O aspecto «essencial» do título também nos influenciou, levando-nos a renunciar à idéia que tínhamos de criar um jornal híbrido, ao mesmo tempo filosófico e militante; nós passamos então a nos concentrar na teoria.

O primeiro número de Ética & Animali foi editado em abril de 1988, a tempo de ser colocado nas mãos de Peter Singer que, pela primeira vez, visitava oficialmente a Itália. Um mês mais tarde, Tom Regan, que já tínhamos visitado nos Estados Unidos, também chegou. Estávamos com sorte. Uma revista atípica, publicada com poucos meios financeiros e com poucos exemplares, iria receber uma atenção inesperada do público e da imprensa graças às conferências e aos encontros que organizamos para Peter Singer e para Tom Regan. Neste ínterim, a edição italiana de Animal Liberation havia sido publicada, ainda que por uma liga anti-vivisseccionista (felizmente, a nova edição estará a cargo de uma grande editora [1]), e contatos foram feitos para o lançamento de uma edição italiana do The Case for Animal Rights e de Morals, Reason, and Animals do autor Sapontzis (inclusive o primeiro já foi editado neste ano [2]). Esperávamos progredir rapidamente. Entretanto, um pouco mais tarde, a maré mudou, nos obrigando a ser pacientes e a trabalhar mais lentamente.

Tínhamos editado outros dois números de E&A (o quarto está sendo preparado atrasado, pra variar). Seguimos uma linha relativamente rigorosa. Procuramos apresentar os pontos de vista éticos liberacionistas mais relevantes e publicamos discussões sobre as questões que são as mais importantes. Recentemente nos direcionamos para o enfoque feminista. Ainda não incluímos discussões com nossos adversários - pois estes já possuem várias maneiras e espaços para se expressarem. A maior parte dos textos que publicamos são traduzidos do inglês pois a Itália entrou tarde neste debate. O material é abundante. O único problema consiste na pequena história que apresentamos em cada número - queremos evitar o inconveniente de «realismo socialista».

Resumindo, E&A foi previsto com dois objetivos: o de ser um desafio e uma ferramenta. O desafio é dirigido à cultura predominante e a ferramenta deve servir para criar o núcleo do movimento. Ainda é muito cedo para dizermos se estes objetivos foram atingidos. Em seu conjunto, a cultura italiana continua considerando a questão animal não como um problema moral e social fundamental, mas como uma preocupação opcional ou menor- aqueles que militam continuam sendo os «experts». Enquanto que os círculos de esquerda, que tradicionalmente são os mais engajados, estão imbuídos de chauvinismo humano de origem marxista, os que se consideram como progressistas liberais nos acusam vagamente de fanatismo, discordando de opiniões que não compreendem, e que não enxergam como sendo o desenvolvimento lógico de seus pontos de vista. Contudo, é verdade que, agora, o argumento é levado mais a sério e que, na Itália também, as teses sobre os direitos dos animais começam a aparecer; alguns (raros) filósofos, ainda que não aceitem nossos pontos de vista, começam a discutí-los e a disseminá- los - mas o caminho ainda é longo e ainda exigirá muita luta.

Com relação à formação dos «responsáveis» pelo movimento, o resultado é mais favorável. Atualmente há um número bem maior de ativistas que lêem a revista, por sentirem a necessidade de unirem a teoria à prática. Uma outra indicação disto é o interesse suscitado por uma série de seminários que realizamos atualmente sobre a questão da ética liberacionista. Mas talvez o que melhor mostre a mudança que vem ocorrendo seja o notável incidente ocorrido durante a primeira conferência que organizamos em Milão, intitulada «O ponto de vista ético: diferenças e desigualdades». Durante a discussão, um filósofo utilitarista italiano expunha sua defesa de uma forma modificada da exploração dos animais, através do abate sem sofrimentos, quando um militante do público se levantou e perguntou com sinceridade: «Mas você trataria da mesma maneira uma criança possuidora de debilidade profunda, para se alimentar de sua carne?» A arma formidável que representa o argumento de casos marginais, introduzidos de forma sub-reptícia por um não universitário, atingiu seu objetivo e o jovem filósofo, após uma breve tentativa de escamotear o problema que leva à exclusão de todo efeito secundário respondeu ao desafio, evitando a acusação de especismo, com um sim - provocando uma enorme agitação na sala.

II

A situação nas democracias ocidentais, com relação à comunidade dos seres sensíveis, parece com a da sociedade espartana clássica. Uma oligarquia restrita, relativamente igualitária em seu seio, composta por humanos que governavam tiranicamente a massa dos excluídos – os membros das outras espécies. No centro, garantias e direitos e, fora dele, arbitrariedades imensas. Nosso movimento, que atravessa a fronteira, deve encarar problemas incomuns, pois este mesmo contrato social que nos beneficia tanto enquanto humanos e militantes é o mesmo que ratifica a exploração ilimitada dos não humanos. Do ponto de vista estratégico, em minha opinião, recorrermos à violência seria justificável eticamente por qualquer teoria não especista, mas, sob o ponto de vista estratégico seria algo problemático. Supondo que estivéssemos prontos para correr o risco, as reações possíveis poderiam induzir a opinião pública a nos situar falsamente no mesmo plano que nossos adversários - até a apoiá-los, visto que as ações de nossos adversários consistem em se protegerem, enquanto que nós, o que nós defendemos é ninguém, pois os animais não existem enquanto nosso «semelhante». Por outro lado, o contrato social poderia ser utilizado contra nós ao ponto de nos paralisar, como mostra a experiência ocorrida na Inglaterra, onde leis de urgência foram promulgadas contra a ALF e as Ligas, ainda que estas tenham evitado a violência e se limitaram a atos contra a propriedade - que podem, às vezes, ser frutíferos. Assim sendo, o que devemos fazer?

Acreditamos que o problema fundamental é o de aparecermos como um verdadeiro movimento político, que pressione incessantemente os limites da preocupação moral; que torne claro não apenas o fato de não sermos um grupo a mais de pressão de defesa animal ou um grupo com interesses particulares, mas sim um grupo de movimento de liberação; nós somos a realização dos princípios sobre os quais se funda essa mesma sociedade que se pronuncia contra nós. Esta maneira de ver as coisas, segundo a experiência americana, deve desestabilizar mais o terreno de nossos adversários e facilitar o aparecimento de intelectuais engajados e alianças com outros movimentos, em particular com o movimento feminista. A partir de uma ideologia tão «forte» pode nascer uma estratégia do não, permitindo evitarmos comprometer os princípios, ainda que levemos em conta a realidade. Uma larga projeção poderia, de fato, incluir ao mesmo tempo o não a setores inteiros da exploração animal - aos elos fracos da corrente - e o não aos aspectos particulares nos domínios mais difíceis de serem atacados. É ainda nos Estados Unidos que encontramos os exemplos para isso. Apesar de acharmos que, no momento atual, o movimento se preocupe demasiadamente pouco com o que constitui a coluna vertebral da exploração animal, que é a criação de animais para a alimentação, pensamos que certas escolhas do movimento, assim como as táticas que estão ligadas a elas, foram fundamentais. Lembramo-nos especialmente da «Campanha por uma América sem peles» executada por Trans-Species Unlimited [3] e realizada através de uma mobilização constante e agressiva da base, e também nos Compassion Campaigns da PETA («People for the Ethical Treatment of Animals»), visando a abolição imediata dos testes cosméticos feitos nos animais, e cujos métodos foram da desobediência civil até a presença nas assembléias dos acionários. Estas últimas campanhas nos interessam particularmente, pois estivemos diretamente implicados.

Na Itália, um verdadeiro movimento ainda deve ser criado. Há ligas anti-vivisseccionistas, associações contra a caça, grupos que se ocupam dos zoológicos e dos circos, mas a idéia de se desafiar globalmente a exploração animal tem progredido com dificuldades. Temos ainda o problema dos Verdes, porque são um partido e aspiram uma hegemonia sobre esta questão - o que implica um enfraquecimento das reivindicações por causa de seus interesses eleitorais e uma confusão por causa da divergência dos objetivos. É no contexto destes obstáculos que nossa primeira tentativa de formação de um grupo ocorreu e fracassou em 1987, quando o vegetarianismo não era universalmente aceito pelos animalisti. Não tínhamos outra escolha a não ser esperar, e nos concentramos no jornal e na divulgação das idéias. Entretanto, cerca de um ano mais tarde, aconteceu algo imprevisto: Susan Rich, diretora dos Compassion Campaigns da PETA, nos telefonou e pediu para apoiarmos uma campanha contra Benetton, na Itália.

Era algo novo para nós. O ataque tinha sido preparado meticulosamente, graças a um espião que se infiltrou no laboratório que a empresa havia contratado para realizar os testes de seus produtos cosméticos. A escolha do alvo foi benéfica e o objetivo era de peso – a eliminação total da experimentação animal. Mas, acima de tudo, um elemento político de importância capital apareceu pela primeira vez, quase naturalmente: a internacionalização do encontro.

Na época éramos apenas três (Franco, eu e um colaborador próximo da revista, Antonio Pillon), e foi necessário tomarmos uma decisão. Nós aceitamos. Tínhamos as primeiras experiências de luta no setor dos cosméticos, então criamos uma «Liga contra os testes cosméticos nos animais». Entramos em contato com dezenas de grupos e de associações e logo pudemos participar da mobilização internacional e trabalhar ao lado de organizações dos Estados Unidos, da Grande Bretanha, da Alemanha e do Canadá. A imprensa foi atraída e fez uma boa cobertura. Poderíamos também dizer que contribuímos para o resultado final, pois o que perturbou a tranqüilidade da empresa pouco tempo antes do resultado final, foi o anúncio de uma manifestação em Treviso, quer dizer, como havíamos dito em nossas incitações feitas ao estrangeiro, no quintal de M. Luciano. A vitória foi uma experiência tão inebriante, que ficamos totalmente fascinados- temos tão poucas vitórias! Entretanto, os problemas nos espreitavam. Muitas das associações que haviam se juntado à liga o fizeram apenas formalmente - mas, devo notar aqui que isso é algo corriqueiro. Mais grave foi o fato que algumas dentre elas, no início aparentemente solidárias, acabaram se revelando hostis e, em certos casos, prontas ao boicote. Ficou claro para nós que o problema fundamental era de ordem ideológica, ainda que estivéssemos sujeitos a maliciosas questões de poder e a uma aversão geral por toda novidade. Os anti-vivisseccionistas locais, ligados às posições (e também, infelizmente devemos dizer, aos «métodos») de Hans Ruesch, analisaram como pouco importantes os ataques setoriais contra a seção de cosméticos da indústria dos animais e como sendo não-abolicionista o enfoque baseado em argumentos éticos e não «científicos». Atualmente isso nos parece como sendo algo distante, discutimos e brigamos; neste meio tempo houve campanhas contra a Avon e a Revlon; rompemos relações e criamos outras. Pelo menos a experiência deixou suas marcas e nós intensificamos nossos esforços: hoje possuímos um núcleo a partir do qual, desde que as coisas estejam maduras, nossa organização liberacionista se erguerá.

Assim, a campanha contra Benetton foi um desvio em nossa experiência. Mas também, em nossa opinião, por causa da idéia nascente de um movimento internacional, ela constituiu um desvio em um nível mais amplo. Graças à perspicácia de Susan Rich, esta idéia não apenas perseverou mas cresceu ao longo das campanhas, para atingir, em nossos dias, a apoteose da campanha que está sendo preparada contra L’Oréal. Não é fácil descrever o sentimento de solidariedade e de força que sentimos quando, em janeiro de 1990, realizamos em Paris (no terreno da L’Oréal) a primeira entrevista coletiva internacional. Para nós este foi um momento histórico: pois esta escolha não é apenas imposta pela realidade da luta- pelo fato de nossos inimigos serem internacionais - mas ela aponta para as grandes repercussões futuras. Partilhar as experiências, para decidirmos em conjunto as estratégias, para identificarmos os alvos comuns: quem pode dizer até onde a cooperação internacional poderá nos levar? O primeiro passo foi feito: agora basta apenas continuar.

III

Estabelecer uma estratégia política é uma coisa. Viver a vida de todos os dias é outra. A vida cotidiana implica que levemos em conta nossas próprias incoerências e fraquezas. Implica que andemos nas ruas e vejamos os açougues, as farmácias, as lojas que vendem casacos de pele, perfumarias, ou nos restaurantes que comemos, próximos à pessoas que estão consumindo carne de animais. Implica que amemos e tratemos bem pessoas que contribuem para perpetuar a exploração. Ou apreciemos a beleza de lugares e do charme de cidades que escondem a exploração por trás de suas fachadas tranqüilas. Às vezes eu penso que nós não pensamos verdadeiramente o que nós falamos. Se o pensássemos, ficaríamos submergidos: não poderíamos continuar a viver do modo que estamos vivendo.
Mas também digo a mim que ainda é muito cedo - que fomos criados dentro do paradigma especista e que é normal que ainda não estejamos totalmente libertos dele. Ou então eu penso no longo caminho tortuoso que foi trilhado pela idéia da igualdade humana, e digo a mim mesma que a idéia da igualdade animal é tão recente que é até mesmo incrível como ela está se espalhando de maneira tão rápida e indo tão longe. Entretanto, há uma outra resposta que, eu creio, vai ao fundo do problema: se nós pensássemos realmente sempre o que nós dizemos, não apenas nós não poderíamos viver assim, mas também não poderíamos mais lutar. A extensão e a onipresença da exploração animal são tais que, apenas fechando um pouco nossos olhos podemos conservar a esperança de mudar a realidade e a coragem de fazê-lo. O fato de nos isolarmos não deve ser considerado como uma forma de «superficialidade»: é também e, talvez sobretudo, uma forma de auto-defesa. Então eu me resigno - e o aceito. É um pouco do preço que temos que pagar para possuirmos um movimento de liberação animal.

Notes

[1Ed. Mondadori, 1991 [NdT].

[2Ed. Garzanti, 1990 [NdT].

[3Hoje : Animal Rights Mobilisation [NdT].