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O paladar e o assassinato

Tradução: Anna Cristina Xavier; revisão: Valderramos

A liberação animal é um movimento importante nos países anglo-saxônicos, e seus modelos éticos são mais discutidos e populares do que na França. Apesar disso, é admirável como este movimento se desenvolveu de uma maneira diferente das outras lutas que ocorreram na mesma época: o feminismo, em particular, dedicou-se a uma crítica acirrada do sexismo, desmantelando incessantemente a ideologia «implícita» que legitima e sustenta a dominação viril nos mínimos aspectos da vida social (a linguagem, a organização do tempo ou do espaço doméstico…) mostrando como essa ideologia articula-se precisamente nas relações concretas de dominação e de exploração, perseguindo-a sem piedade nas representações «autorizadas», quer fossem estas populares (as mínimas conversas da vida quotidiana) ou instruídas (nas teorias filosóficas, a Psicologia, a Psicanálise e as diversas ciências sociais como a História, a Antropologia, a Sociologia, por exemplo). Não há dúvidas de que tal perseguição acirrada e contínua imprimiu maior força ao movimento. Por sua vez, no seio do movimento de liberação animal, ninguém duvida que a falta de uma análise política digna deste nome cause o enfraquecimento do movimento. Vejo nisto uma das causas dos desvios atuais do movimento nos países anglo-saxônicos, que parece cada vez mais dissolver-se em um ecologismo difuso, ao falar cada vez menos do problema da dieta carnívora em si e cada vez mais dos animais selvagens, confundindo, ao mesmo tempo, os «interesses» da espécie ou da Natureza com os interesses do indivíduo animal. Resumindo: o movimento vem sendo inserido nos sistemas de pensamento (e também de ação) definidos pela dominação especista, em vez de se esforçarem a destruí-los.

O texto de David Olivier apresentado aqui é um primeiro elemento de uma análise geral do especismo, do que o funda, dos interesses sociais e individuais que este exprime. Publicaremos em seguida outros textos que tentam analisar «o porquê» e «o como» do estado atual das coisas relativas ao tema. Se a liberação animal está centrada antes de tudo no destino dos animais, ela também compreende a realidade que combate. No momento, creio que este texto seja pertinente, pois ele propõe uma explicação dos interesses que estão em jogo ao consumirmos carne: não estamos simples e passivamente imersos em uma tradição culinária e em preferências gustativas naturais ou sociais. Nós nos agarramos a nossas práticas não apenas pela «força do hábito», por simples inércia, mas também porque elas têm um sentido para nós, um sentido preciso ao qual aderimos ativamente. Desde então não é mais à ignorância das pessoas, à falta de «consciência» das pessoas que a liberação animal ataca, mas a seus interesses, seus desejos, suas vontades; não se trata mais de uma Revelação, do fato de termos que informar as pessoas, mas de um combate político onde interesses divergentes se opõem. A partir daí, uma análise e uma ação política ligadas à realidade se tornam possíveis.

Yves Bonnardel

«Cadavres exquis»

Existe um jogo que se chama em francês «cadavres exquis» (tradução literal: «cadáveres suculentos»). Disseram-me que foram os surrealistas que o batizaram assim. Este jogo faz com que a pessoa elabore poemas por meio do uso de seqüências incontroladas de palavras, e os surrealistas adoravam esse tipo de coincidências muitas vezes impressionantes. Com certeza, durante uma partida apareceu a expressão «cadavres exquis»; e ela foi então guardada para denominar o jogo. Essa seqüência foi um caso fortuito, mas não foi uma coincidência o fato de o nome ter sido guardado para designar o jogo. Pois parece que ela impressionava particularmente, aparecendo como o típico amálgama que apenas a coincidência e o destino poderiam ousar fazer; como o estranho, o absurdo total, como algo inimaginável dentro do qual apenas descuidadamente poderíamos pisar. Imagino que tenha sido talvez à mesa que os surrealistas ficaram extasiados por causa da capacidade do jogo de produzir estranhezas jamais vistas, e se perguntaram, apesar de tudo: «cadavres exquis» (cadáveres suculentos), estando assentados à mesa, será que isso não lhes sugeriria alguma outra coisa? A psicanálise diz que o estranho é freqüentemente o comum – o «déjà vu» –, mas que comum? Vemos tão raramente cadáveres! Ele é excelente, este frango – sim, raramente, e ainda menos os cadáveres suculentos – e, entretanto, isso me lembra algo – eu não vejo o quê, dê-me uma asa; poderíamos denominar assim o jogo, «cadavres exquis» (cadáveres suculentos).

Os inocentes com as mãos encharcadas de sangue

Assim então, a expressão que foi usada e considerada para designar a coisa estranha, designa literalmente objetos cotidianos: os corpos mortos dos animais não-humanos que, em nossa cultura, formam a base indispensável de toda cozinha. Há algo semelhante a um hiato: as pessoas sabem o que comem? A literatura pró-vegetariana sugere com freqüência que o consumidor de carne não seria culpado, mas uma vítima. Tudo seria feito para lhe esconder o que é a carne, para lhe mascarar sua real natureza, para evacuar as «conotações negativas» da morte e do sofrimento. Assim, os abatedouros, como as pessoas nos contam, foram deslocados para fora das cidades; e, hoje, a carne é vendida dentro de embalagens asseptizadas, nas seções dos supermercados. O consumidor seria assim o inocente enganado pelo capitalismo, pelo tecnocrata, pelo McDonald, pelo pecuarista [1].

A finalidade de apresentar as coisas desse modo parece ser a de desculpabilizar o consumidor; pois, paradoxalmente, os sentimentos de culpabilidade sobre um ato podem muito bem levar à sua repetição. Cada bife ingerido pelo carnívoro o anestesia, e forma uma mensagem que ele manda a si próprio: «não pode ser algo de ruim, pois o refaço». Ao contrário, se ele se conscientiza da gravidade de seus atos, encontra-se confrontado ao seu passado e deve assumi-lo para poder justificá-lo. Infelizmente, é difícil acreditar na inocência do consumidor se nos limitamos a condenar apenas alguns aspectos particulares do consumo de carne (como o sofrimento suplementar infligido pela pecuária industrial, a superalimentação dos gansos ou o abate ritualizado) e de justificar assim implicitamente o princípio mesmo de matar o outro para comê-lo, a partir da constatação de que ele não seja um ser humano. É difícil acreditar na inocência do consumidor, é difícil acreditar que coma carne porque o governo ou o sindicato dos açougueiros lhe escondam que se trata de um animal morto. Pessoalmente, por exemplo, quando eu comia carne, eu já sabia o que era e não acho que fui o único neste caso. Uma inocência que leva cotidianamente quase todas as pessoas a contemplar, escolher, manipular, cortar, colocar na boca, mastigar e engolir pedaços de animais mortos para isso, e a fazer dessa prática alimentar o centro de discussões gastronômicas cotidianas, sobre as delícias maiores ou menores das diferentes partes dos cadáveres – essa inocência aí tem motivos para nos deixarem céticos.
A realidade cotidiana da propaganda e da apresentação comercial da carne contradiz a tese da inocência e apóia a da intenção. A publicidade encarrega-se de lembrar a todos a origem da carne, o animal bem vivo («Que vigor tem o boi!»), mesmo se isso é feito de forma estilizada. Os açougues são decorados com desenhos de animais sorridentes; nas latas de atum, os peixes sorriem para atrair o cliente. «Matamos» «Fazemos churrascadas após matarmos os leitões» isso é o símbolo da alegria popular que pode ser encontrada na expressão agressiva do «vai ser uma festa total». O supermercado francês «Casino» lançou uma propaganda com duas páginas coloridas bem explícitas: «8 dias para os amadores, estamos festejando o leitão», com a foto de uma cabeça no meio, pés, rabos, sangue (chouriço) etc. «No Natal, são sempre os mesmos que brindam!», dizia uma outra propaganda, com a foto de uma lagosta. A marca de vinho «Vieux Papes» apresenta a garrafa de vinho tinto sobre um fundo de cor dominante vermelho-sangue e diversos pedaços de animais mortos com seus pescoços dependurados e caídos em segundo plano. Em várias peixarias e restaurantes, animais aquáticos vivos ficam dentro de aquários e podem ser escolhidos na hora pelo consumidor. Com certeza, os abatedouros (assim como outras indústrias) deixaram os centros das cidades, mas isso não impede que o primeiro açougue situado perto de minha casa exiba, atrás do guichê, uma foto enorme dos antigos abatedouros de Lyon, mostrando centenas de bois reunidos para esperar a morte. Assim, os clientes que esperam não esquecerão o que vieram buscar.

Assassinatos por hábito?

Disseram-me que se os humanos insistem tanto em comerem carne, seria porque isso é um hábito humano. E também porque gostam do gosto. Mas o que vale esse tipo de explicações? A força do hábito existe sempre, mas é muito variável. Para que ela possa explicar a perpetuação do consumo da carne – de início já deixa de lado a questão da origem da carne –, seria necessário explicar por que ela tem força suficiente para se opor às razões que podemos ter para pararmos de comer carne. E tais razões existem. Claro, muitas pessoas são pouco sensíveis ao sofrimento dos animais não-humanos. Inclusive militantes das associações de defesa animal são geralmente carnívoros, freqüentemente com ostentação. Ainda mais, a carne custa caro para os humanos, pois sua fabricação implica a pilhagem do Terceiro Mundo e diversas conseqüências ecológicas nefastas. Assim, para o consumidor individual mesmo, a quem a carne custa em dinheiro – mais do que um regime vegetariano custaria – e custa também muitas vezes em saúde, o grande consumo praticado pelas pessoas representa um papel conhecido na etiologia das doenças cardiovasculares e dos cânceres intestinais. Temos de explicar que o hábito é bastante forte para que os humanos prefiram não causar sofrimentos aos não-humanos e não matá-los, privar outros humanos de alimento, causar degradações em seu próprio meio ambiente, gastar dinheiro e colocar sua própria saúde ou mesmo vida pessoal em perigo... á mudar o «hábito». E este comportamento estranho não é de apenas um nem o de alguns, mas o da maioria: em nossa sociedade, é o comportamento de quase todos.

O gosto do assassinato

As pessoas dizem que o hábito em questão é o do paladar (gosto), que é sempre particularmente forte. Podemos, entretanto, questionar: a privação de doces (freqüentemente considerados muito saborosos) ou do queijo ou dos ovos ou de legumes seria sentida de forma tão brutal como a privação da carne? Há pessoas que viajam, mudam de países e também de alimentação; se nos lugares que elas visitam, elas encontram uma alimentação da qual não gostam, elas reclamam quando voltam para casa – «como a gente come mal naquele país» –, mas raramente como se reclamassem de uma privação: elas teriam gostado que uma boa culinária diferente tivesse substituído aquela com a qual estão acostumadas, e ficaram decepcionadas não pelo fato da culinária ser diferente, mas porque a julgaram ruim; as pessoas estimam que o alimento que têm o hábito de comer poderia ter sido substituído por algo de bom. Se no país em questão não lhes foi servida carne, ou se foi servida pouca carne, as pessoas dirão que faltou algo: elas estimam instantaneamente que apenas a carne pode substituir a carne; que qualquer tipo de carne, mesmo com um gosto novo, pode substituir as carnes com as quais estão acostumadas. Se consideramos que é o hábito gustativo que leva as pessoas a não conseguirem se livrar da carne, é necessário explicar que todos os tipos de carne, do polvo ao cordeiro, passando pelas dobradinhas, têm um gosto particular em comum, e que este gosto, mais do que qualquer outro, é muito atraente e potente, reforçando o argumento de que se privar dele cria esta forte sensação de privação. Encontrar um tal gosto comum e estimar sua potência pode parecer em uma primeira abordagem algo difícil, pois, segundo dizem, o gosto faz parte das coisas que não podemos discutir. Se parássemos aqui a discussão, a simples explicação pelo hábito do gosto não levaria a lugar nenhum.
Eu penso que a argumentação do carnivorismo pelo gosto é justa, porém insuficiente. Pois o gosto/paladar, contrariamente ao que as pessoas pensam, pode ser explicado. Certamente há algumas preferências gustativas simples que existem fora da influência cultural; por exemplo, descobriu-se que os bebês de todos os países gostam mais dos sabores adocicados do que dos amargos. Todavia, cada um conhece o papel essencial que as influências culturais desempenham neste assunto. Vemos o adulto apreciar o sabor amargo do café e o picante da pimenta ou do whisky. A percepção do paladar depende de fatores múltiplos. O que chamamos «paladar» é classicamente considerado pelos fisiologistas como a combinação do que a língua e o olfato percebem. Na realidade, o olfato predomina. A língua percebe apenas o sabor açucarado, o salgado, o ácido e o amargo, dos quais nenhuma combinação pode recriar a rica variedade que apreciamos ao longo de uma refeição. Quando estamos gripados, achamos as coisas sem gosto, e notemos bem o fato de que, na gripe, somente o olfato está afetado. Já se discorreu muito sobre o caráter eminentemente emocional do olfato e, em um senso mais amplo, do paladar. Se o gosto da carne é atrativo e potente, o olfato desempenha um papel importante: para a língua, a carne é apenas vagamente salgada. E o olfato é inseparável da emoção.
De fato, como eu já notei, entram também em jogo as sensações como a acidez, a textura, a audição (o barulho das batatas chips), a visão etc. Quando degustamos um iogurte colorido com o sabor de framboesas, temos a sensação perfeita de reconhecermos o gosto da framboesa; porém, se tivermos os olhos fechados, não saberemos mais se ele é de framboesa ou de banana. Um mesmo sabor será percebido como agradável ou desagradável se provém de um queijo ou de pés com chulé. A emoção do paladar e do olfato é inseparável do que sabemos de sua origem.
Minha mãe nos servia, com freqüência, espaguetes com molho de tomate quando eu era jovem e ainda não tinha (segundo minha memória) nenhuma preocupação. Sempre foi o prato que eu mais apreciei. O gosto do molho de tomate me faz sempre pensar nos espaguetes, e reciprocamente. Para mim, então, espaguetes e molho de tomate têm um só gosto. Entretanto, talvez eles não tenham nenhuma substância odorizante em comum; é a experiência emotiva, pela qual, espaguetes e molho de tomate são associados, que determina como eu os percebo, juntos ou separados, e que faz que eu tenha, para os dois, em meu cérebro, apenas uma região com a etiqueta «gosto de espaguete molho de tomate» e ligada às lembranças correspondentes.
Eu penso que essa atração gustativa específica que a carne exerce – atração em grande parte responsável pelo que a cada segundo a humanidade faz a uma infinidade de seres sensíveis na pecuária, nos abatedouros e nas redes de pesca –, implica que as carnes, todas as carnes, têm algo em comum de atraente. O gosto é reputado subjetivo, misterioso, inexplicável. Eu penso, ao contrário, que o gosto é algo límpido. Para saber que gosto as carnes têm em comum, é necessário procurar o que, justamente, objetivamente, elas têm em comum. E essa coisa – que se encontra nas codornas que fritamos, no salame, no cérebro do carneiro e no siri –, o único denominador comum objetivo destas substâncias, o que todas têm e que nenhuma outra tem, é o fato de ser o corpo morto de um ser anteriormente vivo e sensível, que foi morto em nome da vontade que temos de comê-lo.
Ninguém pode negar que a vida de um ser e sua morte, tem reverberações emocionais profundas. E a aprovação que a sociedade exprime ao fato de distribuir essa morte à vontade, não pode ser algo indiferente para ninguém. Todas as carnes têm em comum o assassinato, todas elas evocam a mesma emoção e são percebidas como tendo fundamentalmente o mesmo gosto. Existe apenas uma única região cerebral para o gosto da carne, cuja etiqueta é «o gosto do assassinato».

Assassinatos suculentos

A tradição nos diz que quanto maior for o sofrimento infligido ao animal, melhor será sua carne. Isso se aplica não apenas aos gatos e cães coreanos, mortos lentamente por enforcamento, mas também aos frangos freqüentemente depenados vivos em nossos restaurantes, com essa mesma finalidade. Keith Thomas, em seu livro Dans le jardin de la nature [2], descreve o abate na Inglaterra no século XVI:

Para tornar a carne mais branca, abre-se a garganta dos bezerros e dos cordeiros, de forma que o sangue escorra bem; depois fecha-se a ferida e deixa-se o animal sobreviver ainda um dia.

Ele cita assim uma receita comum para matar os leitões na mesma época:

«Depois de ter sido bem engordado, enfie bem fundo um facão em um de seus flancos e deixe o animal correr com o facão até que morra; ou atormente-o gentilmente com cães amordaçados.»

E, assim como indica um dos personagens de um romance inglês do século XIX [3], ainda sobre os leitões:

« (...) a carne deve ser bem sangrada, e por isso é necessário que o animal morra lentamente (...) eu fui criado em uma fazenda e conheço bem o processo. Um bom açougueiro deve fazer o animal sangrar durante muito tempo. Ele deve demorar pelo menos de 8 a 10 minutos para morrer.»

Todo mundo sabe como é fabricado o «foie gras». Entretanto, não são pessoas selvagens que comem isso, mas pessoas, justamente consideradas «refinadas, civilizadas». O sofrimento aqui, mais uma vez, confere valor e prestígio. Quanto ao caviar, é extraído do ventre dos esturjões, sem anestesia. Hoje em dia, a pecuária intensiva gera muitos sofrimentos. Com efeito, trata-se simplesmente da continuidade de utilização dos métodos das tradições antigas, como nota Keith Thomas. Por exemplo, no século XVII, «cria-se especialmente os cordeiros do Dorset aprisionando-os em minúsculas cabanas escuras para serem servidos no Natal, sobre a mesa dos nobres e dos burgueses». E, se os bezerros hoje em dia são sistematicamente criados em série e particularmente maltratados (privação de fibras e de ferro), é para que suas carnes fiquem pálidas e valham mais. É verdade que o inverso também existe: assim, a pecuária industrial adquiriu, em nossos dias, a reputação de tornar a carne insossa. Mas exatamente neste caso existe a falsa idéia (que é muito difundida) de que os animais criados assim estariam tão desnaturados que não sofreriam mais; pois seriam apenas como simples máquinas. De tanto torturar a vítima, ela se torna insensível. Na cabeça de muitas pessoas, hoje em dia, apenas o bezerro «que cresceu mamando na mãe», tem algo a lamentar quando é morto para nos dar uma carne saborosa. Assim, o sofrimento e o bom gosto da carne ainda coincidem. Eu penso, entretanto, que perderíamos muito tempo ao procurarmos avaliar, mediante análise dessa química, como o sofrimento melhora ainda mais o sabor da carne. Finalmente, torturar e matar é um pouco a mesma coisa. O sofrimento não é um produto químico, mas ele confere mais gosto e emoção. E, se a pessoa gosta do paladar, da emoção da carne, então o gosto e a emoção da carne bem sofrida serão ainda melhores.

Por que tanto ódio?

A descrição que acabo de fazer sobre as motivações dos carnívoros parece fazer deles monstros sedentos de sangue. Isso é plausível? Eu mesmo comi carne durante vários anos, e não tenho a impressão de ter sido, naquela época, bem diferente, psicologicamente, do que sou hoje em dia. Ao contrário de hoje em dia, será que eu era atraído pelo assassinato, pela violência e pela tortura?
Talvez essa não seja a boa pergunta. Atraídos pelo assassinato, pela violência, pela tortura, praticamente todos nós o somos. Não é bem clara a razão – isso tem a ver, talvez, com a angústia de nossa própria morte [4]. De toda forma, essa tendência à Schadenfreude parece ser algo quase universal [5]. Temos um prazer intenso em olhar um filme de horror, em jogar jogos de guerra, em ler a história do Terceiro Reich. Por outro lado, o sentimento de dominação que proporciona a opressão do outro, não possui apenas uma dimensão individual no caso da carne. Parece que a sociedade toda ainda não aprendeu a se definir a não ser como estando contra o outro, e agora que a igualdade dos humanos foi reconhecida (pelo menos em princípio), este outro somente pode ser um não-humano. Comendo a carne que está no meio da mesa, cada um se assegura sobre sua própria qualidade de dominante, sobre seu lugar entre seus próximos e no seio da sociedade que lhe outorgou este poder de matar. Mesmo o mais pobre mendigo pode comprar uma latinha de sardinhas e terá seu pedaço de peru de Natal nos «Restos du Cœur» [6].
O prazer de matar e de fazer sofrer na imaginação, a satisfação que tiramos de uma dominação simbólica, são essencialmente os mesmos que podemos sentir ao fazer realmente essas coisas. A diferença capital não está no nível do que sente o agente, mas no nível da vítima – no primeiro caso, não há vítima; no segundo, há. No primeiro caso, não há por que se abster, salvo se acharmos esse tipo de imaginação pouco estética, ou doentia para o caráter. No segundo caso, há fortes razões, éticas, para nos abstermos: o sofrimento das vítimas. Tudo acontece como se os humanos, ao comerem os animais, não notassem que se trata de horrores realmente perpetrados. Ou melhor: no nível estético o sofrimento e a morte do não-humano são anulados, não sendo percebido como reais, perdendo então todo valor. Quando eu comia carne, eu não me sentia mais sanguinário do que um menino que brinca de guerreiro: levar em conta a ética com relação aos animais nem me passava pela cabeça. É o que o psicólogo americano Don Barnes denomina como «cegueira ética condicionada [7]»: sempre que levarmos em consideração ética os não-humanos, isto implica conseqüências desagradáveis. Significa reconhecer o horror do que fizemos, e parar de fazê-lo, renunciando assim aos prazeres que tínhamos e adotando uma posição social embaraçosa – e se encontrar inibido.

Cadáveres injustos

Pedir aos humanos que deixem de consumir carne é, em aparência, pedir-lhes pouca coisa. Em aparência é quase nada pedir, pois, mesmo que sejam alheios aos interesses dos animais, os humanos aparentemente têm quase interesse em parar de comê-los. Parece admissível para quase todos que seja possível modificar sua alimentação por causa de sua saúde ou por causa do Terceiro Mundo. Pedir aos humanos que deixem de comer carne por causa dos interesses dos animais, é pedir, no máximo, que levem um pouquinho em conta estes interesses.

Seria já muito bom se, conseguindo que as pessoas levassem um pouquinho mais em conta os interesses dos não-humanos, conseguíssemos fazer com que não mais comessem carne. Infelizmente, na realidade, o consumo de carne é, para os humanos, de uma importância cultural central. É pedir-lhes muito que parem de comê-la. Essa é uma armadilha dentro da qual muitos militantes (pela liberação animal) se encontram presos. Partindo da igualdade de consideração que devemos ter com relação aos interesses de todos os indivíduos, nós militamos contra a prática especista central que é o consumo da carne; mas como isso parece ser uma exigência fraca, extraída de argumentos fracos e até mesmo de ordem puramente privada (a saúde, a simpatia pelos animais), a mensagem forte – a igualdade animal – se perde pelo caminho. Temos grandes dificuldades em transmitir nossa mensagem sob esse argumento percebido como sendo fraco.
Devido à fraqueza da mensagem veiculada por nossa militância pró-vegetariana – e convenhamos que os interesses dos animais merecem um pouquinho mais de atenção e ponderação– o público, a partir do momento que imagina realmente parar de comer carne, encontra-se confrontado com seu forte interesse em continuar com essa prática. O carnívoro pode até ocultar o sentimento de estar de acordo conosco – ele estaria de acordo apenas se, como podem sugerir as aparências, fosse fácil não comer carne. Simplesmente ele tem a impressão que nós nos enganamos sobre ele: o carnívoro gosta demais de carne; para ele seria um esforço imenso não mais comê-la. Então, candidamente ele nos aprova: «você tem razão, continue»; mas o vegetarianismo não é para ele.
A tentação de exaltar quanto é fácil e agradável ser vegetariano, e benéfico para a saúde, apenas reforça a armadilha. Deveríamos, ao contrário, então, para expressar nossa mensagem, dizermos como é difícil ser vegetariano? Eu acho, claro, que é bom explicar, pois muitas pessoas ainda não sabem, que viver sem carne é possível, e que isso também não exige nenhuma atenção particular para a saúde – «substituir» as «proteínas animais [8]» não exige nenhuma ginástica complicada. Mas temos de deixar claro que sabemos que a carne é importante para as pessoas. Devemos lhes dizer que sabemos que lhes pedimos muito; que sabemos que lhes pedimos para abandonar uma prática que está inserida no centro de suas relações com a sociedade, com seus familiares e consigo mesmo, e com sua própria morte. Nós lhes pedimos isso porque, ainda que os cadáveres que eles consumam sejam suculentos, as conseqüências deste consumo são horríveis. E porque mesmo que tal prática traga prazer e segurança, parar é a única escolha justa.

Notes

[1Assim um folheto da organização britânica «Animal Aid» apresenta ao público, em paralelo, em duas páginas: «o que nós lhes fazemos» (pecuária industrial etc.) e «o que fazem com vocês» (carne com hormônios etc.). Fora o «nós» que sem dúvida deveria ser enforcado, o resto se torna vítima inocente.

[2Editora Gallimard, 1985, pp. 122 e 123.

[3Jude the Obscure, romance de T. Hardy, citado por Keith Thomas.

[4Se o assassinato é tão atraente, talvez seja porque matar é uma vitória sobre a morte – limitada, com certeza –, mas todas as vitórias o são. Ao matar, nós encomendamos a morte, nós somos os mestres; nós escolhemos a que hora ela chega, e mesmo quando se trata de um animal da pecuária, nós é que decidimos que ele morrerá: pois sem nossa vontade de assassínio, este animal nunca teria existido. O fato de estarmos perto da morte, nos dá a impressão de conquistá-la e dominá-la.
A mesa farta, a boa vida, é a carne, a festa, o lugar onde esquecemos a morte ao colocá-la no centro da mesa. E para este ser que matamos, que ocupa o lugar de honra, sentimos como se também fosse a festa, pois sua carne, consumida, se tornará forças vivas. O vegetariano, ao contrário, tem uma aparência de ser alguém tristonho, que espera passivamente a morte, que a sofrerá sem nunca tê-la praticado.

[5O assassinato atrai mas também pode causar repulsa. Há muitas pessoas que sentem nojo da carne. Isso não contradiz minhas afirmações: aqui, ainda, o gosto atribuído à carne está ligado ao ato que a produz. Globalmente está claro que é geralmente a atração por este gosto que domina.

[6Poderemos enriquecer este tema com a leitura de: Nick Fiddes, Meat : A Natural Symbol, editora Routledge, Londres, 1991.

[7Citado por Peter Singer em La Libération animale, p. 120.

[8Para a alimentação de uma criança vegana, como para qualquer outra criança, é bom consultar um pediatra.