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Traducão e revisão: Nicolau Kouzmin-Korovaeff

O emprego da linguagem implica sempre não-ditos. O ouvinte completa o que é dito com o que está subentendido. Isto só é possível se o locutor e o ouvinte compartilham um mesmo quadro de experiências ou de idéias. Se eu digo: «Paulo veio», é preciso que o ouvinte conheça um mesmo «Paul» que eu.

O não-dito é, sem dúvida, inevitável, mas nem sempre é inocente. Já que aquilo que está subentendido é indispensável à compreensão, o ouvinte é como que forçado, ao menos no espaço de um instante, a referir-se a isso, a servir-se disso, e, portanto, a aceitar as idéias, e até mesmo a ideologia, que aí estão contidas, mesmo se ele não estiver de acordo com as mesmas; ou então, é preciso que ele faça de conta que não está compreendendo. Até mesmo o simples fato de chamar alguém de «Paulo» pode ser uma violência; por exemplo, ele pode chamar-se Ahmed, mas se ver obrigado, contra a sua vontade, pela administração, a escolher para si um prenome francês. Outro exemplo, o dos insultos : se alguém trata um homossexual de «pederasta», o mesmo é obrigado a admitir o caráter insultuoso do qualificativo, ou a fingir que não está compreendendo que se quer insultá-lo (respondendo, por exemplo: «sim, e daí?»).

Assim sendo, o emprego do não-dito pode ser uma verdadeira armadilha lingüística; e, de fato, muitas vezes ele é empregado como tal. Dizer, como o fazem os defensores da vivissecção, que a vivissecção é útil, ou, como muitos dos seus adversários, que ela é inútil, subentende sempre: «útil - ou inútil – para os humanos», e obriga, desta forma, a admitir que «útil/inútil» e «útil/inútil para os humanos» são sinônimos. Quem se recusa a ser especista, não consegue compreender estas frases; compreendê-las, como compreender as dezenas de frases semelhantes que se ouvem todos os dias, significa, toda vez, ser levado a participar do especismo. E levar alguém a participar por si mesmo de alguma coisa, «comprometê-lo», é um procedimento psicológico poderoso no sentido de dissuadi-lo de se-lhe opor.

Da mesma forma, dizer que a carne é boa para a saúde, ou que ela é nociva à saúde, deixa implícito a saúde de quem se está falando. É óbvio que comer carne não é bom para a saúde daquele que é comido.