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No campo do inimigo

Tradução: Juliana Marques; revisão: Eliana Moser

Jane Hendy é australiana. Instalada em Paris há muitos anos, ela milita pelos animais através da associação «Les Vaches Rouges» (Clermont-Ferrand), da qual ela é a principal coordenadora. Ela é também autora de um blog (redcow123.blogspot .com) onde relata as ações, reflexões, reencontros, histórias de animais. Histórias geralmente tristes, como na vida, pois são histórias verdadeiras. A narração abaixo é o extrato de seu blog.

A Redação

Quarta-feira, 27 de abril de 2005

Ao prepararmos a Semana Mundial da Libertação dos Animais de Laboratório, queremos dar um pouco de tipicidade ao evento.

Próximo a nossa cidade, há um centro de pesquisas agrícolas (INRA) muito conhecido pelos animais de binóculos: quer dizer de vacas, de ovelhas e de porcos que passeiam com um tubo na barriga, para que os técnicos possam fazer a coleta de materiais a qualquer momento. Havia também lhamas e cavalos, mas estes foram enviados ao matadouro há alguns anos.

 

Hoje de manhã, telefonei ao responsável pelo bem-estar animal deste centro. A pessoa que respondeu a esta descrição insistiu no fato de que ele era um simples pesquisador, e não poderia falar por todos os cientistas empregados no local. Hmmm. Expliquei que gostaria de comprar uma casa lá, próxima ao centro, e que gostaria de me assegurar de que nenhum mal era feito aos animais, ouvimos histórias, você sabe...

 

«Não somos sádicos, todos que trabalham aqui com os animais têm permissão dada pelo Comitê de ética da direção Geral de alimentação. Como todos os pesquisadores de qualquer laboratório na França.»

 

Aqui começa meu desespero. Este tipo não estava nem ai pra mim e para a ética. Ele tinha uma voz que os ingleses chamam de «unctious» – untuosa – como um pastor protestante que só fala do senhor. E eu, que conheço este centro há 12 anos, tive que interpretar o papel da inglesa «amiga dos bichos» que quer comprar uma casa de campo.

 

À minha questão: «Porque continuar as experiências depois de tantos anos?», ele respondeu:

«- Você sabe, as coisas evoluem. É sobretudo para o bem estar deles.

- Desculpe, o bem-estar de quem? Dos animais?

- Sim, isso nos ajuda a alimentá-los melhor.»

 

E foi lá que eu comecei a não mais interpretar meu papel: «Então, porque não colocar um tubo na barriga dos seus filhos, assim você se certifica de que estão sempre bem alimentados?»

Minha pergunta não o agradou, foi com dificuldade que eu consegui acalmá-lo. Ele recomeçou a falar de tubos: «Finalmente, foi o “end-user“ que pediu isso».

 

Ele mesmo colocou as aspas, que grande cultura! Entretanto, em inglês, não se diz com freqüência a palavra end-user (consumidor final). Acho que compreendi o que ele quis dizer: é o consumidor que decide, o pequeno cliente dos grandes supermercados que insiste para que os empregados de um centro de pesquisa torturem os animais. Felizmente, desta vez não reagi, e ele pode continuar a falar do destino dos animais que estão sob sua proteção. Todo mundo termina no matadouro, claro, pois não podemos nos distanciar do modelo de criação atual.

 

«- Fora os tubos, você faz outras pesquisas nos animais?

- Eu pessoalmente, trabalho com as emoções.»

 

Como ele não queria dizer muito, fui eu que o ajudei:

«- Por exemplo, o sofrimento da separação da vaca do seu bezerro?

- Sim, por exemplo, é muito importante. Você sabe, não há sofrimento. Com os animais da tropa, talvez sim. Mas com as vacas que, há gerações, são criadas para dar leite num estábulo, não há problema. Deixamos o bezerro algumas horas para que ele possa beber o colostro, e depois o retiramos.

- Ai você me ensinou algo. Pensei que mesmo em criações intensivas fosse por alguns dias. E nas criações orgânicas, acreditei que a vaca pudesse cuidar de seu pequeno algumas semanas.

- Ah, isso é perigoso do ponto de vista da contaminação! Se o leite de vaca é destinado ao consumo humano, é melhor que ela não tenha muito contato com o bezerro...»

 

Por milagre, não falei muito, escutei bastante, coisas deprimentes. Neste centro, tem também ratos e camundongos, ele não pode me explicar exatamente o que fazem com eles. Sim, eu poderia ir vê-los, tem um dia de portas abertas a cada dois anos. Não, não pode ser deixado entrar qualquer um, você pode perguntar isso ao presidente do centro...

Ele me deu o telefone do presidente, nos despedimos polidamente.

 

Foi tudo. Acho que prefiro mais os negociantes de animais, os camponeses, os matadores dos abatedouros, do que este tipo de pessoa que estudou e sabe falar de ética sem compreendê-la.