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A natureza não escolhe

Tradução: Nicolau Kouzmin-Korovaeff

Mais uma questão de palavras… Que importância podem, pois, ter as palavras? O que importa, são as coisas! Eu fico, no entanto, sempre impressionado ao ver até que ponto os raciocínios que engendramos são dependentes das palavras, são predeterminados por elas. As palavras deveriam ajudar-nos a raciocinar, mas às vezes, pelo contrário, elas nos impedem de fazê-lo.

Mais uma questão de palavras, portanto. Vivemos numa sociedade em que a predação é vivenciada como natural; e isto, tanto entre humanos, quanto entre animais não-humanos. É «natural» que «o melhor ganhe», seja entre patroas e operárias, entre países industrializados e países pobres, entre lobos e cordeiros. E «o melhor» é o mais forte. Darwin disse-o, é científico, nada se pode fazer a respeito, é a ordem das coisas… é a seleção natural.

Pois bem, não. Simplesmente porque a seleção natural não existe.

«Dei a este princípio o nome de seleção natural [1]»

A adesão à palavra do Mestre pode ser às vezes uma traição de seu espírito, do sentido da sua obra, uma vez que o dito Mestre, procedendo em termos de inovação e defrontando-se com mentalidades inicialmente hostis, escolhe com freqüência suas palavras pelo menos tanto por suas qualidades pedagógicas, conciliatórias, de transição, quanto por sua clareza. Isto é muito particularmente verdadeiro a respeito de Darwin, em quem se encontra, no mais alto grau, uma mistura de audácia e de prudência – como o ilustra, por exemplo, sua constante reticência no sentido de declarar publicamente a sua irreligião, no entanto consciente e assegurada.

Se for possível extrair um sentido maior, central, da obra de Darwin, é o seguinte: para explicar a diversidade da vida, não é necessário apelar nem às intenções de um criador – a uma criação divina – nem às intenções de uma força quase-divina, a Natureza, nem a um finalismo inerente às próprias formas vivas, a uma «enteléquia», segundo a concepção dos evolucionistas lamarckianos. É esta a razão pela qual o darwinismo, que, sem implicar necessariamente a inexistência de Deus, minava uma grande parte das bases positivas da crença, foi combatido encarniçadamente e continua a ser combatido, em larga medida, pelo campo religioso.

Graças a Darwin, portanto, pensamos poder explicar o aparecimento e a evolução da vida sem finalismo, sem sentido preestabelecido – o que não quer dizer que o sentido não existe no mundo. O sentido existe em nós – em nós, os seres sensíveis, que damos um sentido às coisas através de nossos desejos e nossos prazeres e que aparecemos como produtos de mecanismos evolutivos que, esses sim, não têm sentido. Nós queremos, mas nada quis que quiséssemos. Queremos livremente, sem dever obedecer a um criador que nos ditaria uma natureza, um dever-ser, um dever-querer.

Nós queremos, mas nada quis que quiséssemos. Isto deveria estar claro, desde Darwin; ou, pelo menos, deveria estar claro que é possível pensar assim, já que é aí que reside o sentido da obra de Darwin, obra à qual a grande maioria dos cientistas se refere. Entretanto, a partir do momento em que se interroga esses cientistas sobre o darwinismo, depara-se com palavras cujo efeito global é de anular o darwinismo; palavras que nos reconduzem diretamente ao finalismo, a antes de Darwin, à época em que Darwin estava lutando por essas idéias quase sozinho. Particularmente, ao se perguntar aos biólogos de hoje como nós, os animais, aparecemos, eles respondem, retomando as palavras do próprio Darwin, que a natureza agiu por seleção natural.

Deveria ser possível falar em biologia sem finalismo. Mas a persistência, a onipresença de uma terminologia finalista permanece ainda hoje um problema maior, apesar do darwinismo alardeado de quase todos os biólogos. Já tratei do essencialismo inerente ao uso da palavra «espécie [2]» e me estenderei longamente aqui sobre o finalismo desta expressão central da «seleção natural»; para fazer perceber a onipresença sufocante do finalismo, darei, entretanto, primeiramente alguns outros exemplos.

Nós mal nos damos conta do finalismo por detrás das nossas palavras. Dizemos e ouvimos, sem pestanejar, frases como «as TRELETTES (*) se acasalam em fevereiro, para que seus filhotes nasçam em maio e gozem de dias bonitos». Mas as TRELETTES têm por acaso a mais remota idéia da duração da sua gestação? O pensamento comum, que quando isso lhe convém, nega todo o sentimento e toda a inteligência aos não-humanos, lhes concede, às vezes, pelo contrário, capacidades de cálculo e de predição, assim como intenções totalmente inverossímeis. É que, de fato, esse pensamento comum, especista, nega aí ainda a realidade individual dos não-humanos; ele diz «as TRELETTES», mas de fato pensa «a espécie TRELETTE», «o finalismo natural em sua tradução TRELETTE». As TRELETTES individuais não existem para ele senão como representantes [3].

O finalismo também está sujeito à linguagem funcionalista. Dir-se-á, por exemplo, «os espinhos permitem à planta defender-se contra os pássaros». Mas o verbo «permitir» implica uma vontade por parte da planta: ela gostaria de se defender; a realidade lhe opõe obstáculos; os espinhos lhe permitem levantá-los, eles são para ela um meio para um fim. A planta quer se defender, defender a sua vida; a sua vida é um valor para ela.

Sabe-se, desde Darwin, ou se deveria saber, que as coisas não se passam desta forma; ou, pelo menos, que há uma explicação mais simples, que permite poupar a atribuição, a priori pouco verossímil, de uma vontade, de uma consciência, à planta. Pode-se supor que, em certo momento, certas plantas tiveram, por alguma razão, alguma coisa que se assemelhava a espinhos; como daí resultava que os pássaros as comiam menos, elas produziram mais sementes, e pouco a pouco se espalharam, enquanto outras, que não tinham espinhos, produziam menos sementes e não deixaram mais descendentes. Dentre as primeiras, as que tinham os espinhos maiores ou mais duros, elas próprias foram menos comidas pelos pássaros, e, portanto, pelo mesmo mecanismo, as plantas de espinhos grandes e duros se generalizaram.

Tal é o mecanismo descrito por Darwin; para expô-lo, tentei eliminar rigorosamente toda e qualquer expressão finalista. Se eu não tivesse feito este esforço, eu teria dito, por exemplo, como todo o mundo: «...como isso protegia essas plantas dos ataques dos pássaros, elas tiveram mais sucesso reprodutivo e levaram a melhor sobre as suas concorrentes»; eu teria renegado pelo menos cinco vezes o caráter mecânico que eu tinha justamente começado a pôr em evidência!

Trata-se de uma fatalidade da língua? Acho que é sobretudo o sinal da nossa dificuldade, da nossa reticência, no sentido de integrar verdadeiramente o darwinismo, mais de um século após A Origem das espécies, e isto apesar da adesão alardeada da maioria dos biólogos... à palavra do Mestre.

O finalismo (mal)disfarçado da expressão «seleção natural»

Todo o mundo se lembra de que Darwin usou a expressão «seleção natural», mas poucos se recordam de que ele só a justificou por analogia: «Dei a este princípio (...) o nome de seleção natural, para indicar as relações dessa seleção com a que o homem pode realizar [4]». Ela está marcada pelo seu curso intelectual, pois é em grande parte através do estudo da seleção praticada pelos criadores em relação aos animais domésticos que ele chegou à sua teoria. Ela está, portanto, marcada por um período em que Darwin ainda não era darwiniano. Aliás, ela não satisfez tanto assim nem o próprio Darwin, que acrescenta imediatamente que uma outra expressão teria sido mais exata. Mas ela satisfez todo o mundo após Darwin. Preferiu-se se dar por satisfeito com ela.

Analisemos, a partir de um exemplo, o que é uma seleção.

1. Eu debulhei ervilhas e acumulei-as numa saladeira. Fino gourmet, eu gostaria, no entanto, de rejeitar as mais farinhentas.

2. Eu sei que as ervilhas mais farinhentas são também, geralmente, as mais graúdas. Eu as escolho, portanto, e só conservo as menores. Posso escolhê-las manualmente ou com uma peneira, pouco importa; o essencial é que tenho um objetivo de seleção – o caráter não-farinhento – e um critério de seleção, o tamanho. Eu seleciono as ervilhas em função do critério e tendo em vista o objetivo.

3. Eu obtenho, no final das contas, um bom prato de ervilhas tenras, mesmo que algumas dentre elas, talvez, apesar do seu pequeno tamanho, acabem se revelando farinhentas.

Não há coincidência entre o objetivo de seleção e o critério de seleção. O objetivo de seleção (o paladar) é meu objetivo, resulta dos desejos e interesses de um ser sensível. Já o critério de seleção (o tamanho) é diretamente material, podendo ser posto em prática de forma inteiramente mecânica (peneira). Eu quis que ele fosse a tradução material mais fiel possível do objetivo de seleção («eu sei que as ervilhas mais farinhentas são também, geralmente, as mais graúdas»); mas é bem possível que permaneça um descompasso. A seleção se pode enganar, ou mais exatamente, eu posso me enganar, ao escolher o meu critério de seleção.

 

Vejamos um outro exemplo, em que não há verdadeira seleção:

Uma erupção vulcânica de tipo explosivo projeta imensos blocos nos arredores da cratera. Uma vez acalmados os poderes do inferno, uma equipe de vulcanologistas se dirige ao local e observa certa gradação no tamanho dos blocos; quanto maior o distanciamento em relação à goela do vulcão, tanto menos graúdos eles são. Talvez isso lhes pareça bem natural, talvez eles/elas arrisquem uma explicação física, baseada, por exemplo, na relação entre a força exercida sobre um bloco, proporcional à sua seção, e sua massa, proporcional a seu volume. No caminho de volta, no entanto, a expedição encontra um bloco particularmente graúdo longe da cratera. Os cientistas anotam este fato em seus livros de apontamentos, e se perguntam como farão para ajustá-lo à sua explicação.

Ninguém, contudo, pensa que o deus Vulcão cometeu um erro. Nem mesmo ocorreu ao espírito dos vulcanologistas a idéia de que alguém tenha tentado escolher os blocos. Alguma coisa se passou, que teve por resultado certa repartição dos blocos; sendo o fenômeno complexo, a repartição resultante também o é, mesmo que, num primeiro momento, se possa dizer, para simplificar, que os blocos mais graúdos foram lançados menos longe. O resultado não pode ser comparado com algum objetivo. O processo não podia se enganar, pois enganar-se, é sempre em relação a alguma coisa que se teria querido. O processo não é uma seleção; ele é o que é. Ele não pode iludir as forças que o puseram em andamento; ele pode, no máximo, iludir os vulcanologistas. Assim, para que um processo seja uma seleção, não basta que ele seja um processo que produz certo resultado; é preciso que haja uma finalidade, um objetivo de seleção, do qual o processo não passa da realização. Ora, eu o disse, a contribuição central da obra de Darwin reside na explicação da evolução por um processo mecânico, destituído de finalidade; é, portanto, impróprio, até mesmo contraditório, conservar a expressão «seleção natural».

Eu disse que Darwin tinha escolhido esta expressão por analogia. É que o processo que ela designa assemelha-se muito, não a uma seleção em geral, mas à dos criadores:

Um criador quer vacas que dêem muito leite. Ele sabe que, de modo geral, as crias tendem a parecer-se com os seus pais. Ele conservará, portanto, as crias fêmeas nascidas das vacas mais produtivas; as outras, ele as enviará ao matadouro [5]. Com efeito, dentre as crias fêmeas que ele conservou, muitas lhe darão satisfação, algumas até mesmo mais do que a sua mãe; algumas, em compensação, decepcioná-lo-ão. Dessas últimas, ele eliminará as crias.

O criador tem, assim, um objetivo de seleção (a quantidade de leite que as crias fêmeas darão), donde ele extrai um critério de seleção (a quantidade de leite produzida pela mãe). Trata-se, portanto, de uma verdadeira seleção, de um processo concluído. Mas qual é a analogia entre esse processo e aquele que ele chamou de «seleção natural»?

Para vê-lo, é preciso voltar-se para o aspecto positivo da teoria darwiniana, para os seus postulados falsificáveis [6]. Vou tentar enunciá-los aqui:

G1. Os caracteres dos seres vivos geralmente se transmitem aos seus descendentes [7]; existe, entretanto, certa parcela de variabilidade, os descendentes jamais se parecem exatamente com os seus pais. Pelo menos uma parte dessa variabilidade é, ela mesma, transmissível, isto é, num indivíduo, um caráter, mesmo novo, pode ser transmitido aos seus descendentes.

G2. Pelo menos uma parte dessa variabilidade transmissível é aleatória, ou seja, a sua ocorrência independe de toda e qualquer finalidade.

G3. Existem casos em que a variabilidade transmissível aleatória influi, em determinado ambiente, no número médio de descendentes do indivíduo (mais exatamente: sobre a esperança matemática desse número). Se o ambiente permanecer o mesmo, esses caracteres tenderão a ver a sua freqüência na população aumentar ou diminuir, na medida em que eles aumentem ou reduzam esse número médio de descendentes.

G4. Este processo é suficiente para explicar a evolução e a transformação das formas vivas no curso da história da terra.

A semelhança entre a seleção do criador e a «seleção natural» é grande:

E1. As crias fêmeas das vacas muito produtivas são elas próprias geralmente muito produtivas; o criador sabe, entretanto, que não esta não é uma regra absolutamente fiável: existe uma parcela de variabilidade. Além disso, às vezes esta é transmissível, razão pela qual o criador considerará, antes de mais nada, as qualidades da mãe, mais do que as da avó (isto é, levará em conta caracteres recém-aparecidos), para decidir se conservará ou mandará matar as crias fêmeas.

E2. O criador sabe de que mães ele optou por conservar as crias fêmeas, mas ele também sabe que ele não controla os caracteres exatos dessas crias fêmeas. Talvez ele tenha sorte, talvez não.

E3. O criador procederá sistematicamente de maneira que as vacas mais produtivas, estando aí incluídas aquelas em que essa produtividade é um caráter novo (não-herdado da sua mãe), tenham mais descendentes (não-destinadas rapidamente ao matadouro). Como os criadores agem assim há séculos, as vacas tornam-se cada vez mais produtivas.

E4. Parece plausível que este processo possa explicar a nítida diferença que se observa entre os animais domésticos e as formas selvagens mais próximas.

Assim, o paralelo se estende aos quatro pontos que pus em evidência. Compreende-se, nestas condições, que Darwin tenha querido lembrar a prática dos criadores no título da sua teoria. De fato, a seleção dos criadores E1 a E4 aparece como um simples caso particular do processo geral G1 a G4, constituindo os objetivos do criador um caso particular de meio ambiente, no qual uma variabilidade transmissível aleatória influi no número médio de descendentes do indivíduo (pontos G3 e E3). Simplesmente, o criador age com intenção, fazendo do processo uma verdadeira seleção. O erro de Darwin foi de retomar, para designar o caso geral, um termo que só se aplica ao caso particular.

Isto foi bastante lógico de sua parte, tanto mais que este é um procedimento corrente na língua. Em francês se diz «limoger [=despedir] alguém» desde que certos generais, eu creio, foram enviados, em reforma forçada, para Limoges. Então, sim, «seleção natural» é uma boa fórmula, sob a condição de ser compreendida neste sentido.

Infelizmente, isto só permaneceu uma fórmula. Tudo se passa como se, hoje em dia, os/as que falam de «seleção natural» acreditassem nisso tanto quanto se elas/eles pensassem que todos os empregados despedidos se reencontram em Limoges. Eis uma descrição da «seleção natural», tal como ela é percebida, ainda e sempre:

A fim de promover certo número de qualidades – força, rapidez, inteligência, beleza, etc. -, a natureza realiza um processo de seleção, graças ao qual ela elimina «os fracos, os débeis mentais, os disformes», como diz A. Lindbergh [8]. Colocando, por exemplo, um instinto de competição sexual nos cervos machos, ela leva estes últimos a se enfrentarem, obtendo assim que os mais fortes se reproduzam mais e suplantem os fracos, os débeis mentais, etc.

Para ver a presença, em tal descrição, da disjunção critério/objetivo de seleção, basta imaginar que um cervo aprenda a «trapacear»; que lhe seja dado o meio, por exemplo, de untar a extremidade de suas galhadas com uma substância tóxica que neutralize os seus adversários ao primeiro contato. Esse cervo, por mais franzino e cambaleante que ele possa ser, vencerá todos os combates e deixará um grande número de descendentes igualmente «disformes». Ele passará no critério de seleção – a vitória nos combates -, ainda que ele não satisfaça o objetivo de seleção – a força. Ele terá trapaceado, dir-se-á, porque ele não terá obedecido às regras da competição que a Natureza tinha instituído «para que vença o melhor». É, portanto, que, no pensamento comum, o melhor não é, por definição, aquele que vence; há um melhor a priori, correspondente ao objetivo de seleção, e um vencedor, correspondente ao critério.

Dir-se-á que o meu exemplo é artificial; como é que um cervo pode aprender a trapacear? É, no entanto, a «trapaça» que explica, em boa parte, o desprezo que os biólogos (e quase todo o mundo, de fato) exprimem, às vezes abertamente, por uma grande quantidade de seres, aos quais eles aplicam o belo nome de «parasitas [9]»:

Um preço foi pago no curso da evolução por esta proeza em perversidade. O estigma do parasita está sobre Teleutomyrmex [variedade de formigas pequenas, parasitas de outras formigas; vivem nos ninhos das outras formigas, pelas quais são alimentadas até se reproduzir]; o seu corpo é fraco e degenerado [10].

Outro exemplo de «logro»: os pobres, os sem-teto, as desempregadas humanas, os «fracos, os débeis mentais, os disformes», que «nenhuma seleção natural elimina». Nós os «conservamos ciumentamente em vida», «é assim forçosamente em civilizações como a nossa»; mas A. Lindbergh, que fala assim [11], é, por outro lado, «um adepto incondicional da seleção natural, pois a Natureza não pode se enganar». Não pode se enganar... Bela certeza, mas que mostra bem que para A. Lindbergh, como de resto para todo o mundo [12], é ao menos conceptualmente imaginável que a Natureza se engane. Ela não diz «não tem sentido dizer que a Natureza se engana»; ela diz que a Natureza é bastante sábia para que o seu critério de seleção corresponda perfeitamente ao seu objetivo de seleção. Salvo quando intervém a «civilização», o Homem, o artífice: é isso que permite o logro dos fracos, etc.

 

Seria necessário elaborar um histórico do darwinismo até os nossos dias, um histórico da recuperação, imediata, do darwinismo pela direita, através do «darwinismo social». A esquerda se tem mobilizado muito contra isso, sobre o tema de «não é igual, os humanos são humanos, não são animais». Ela teria feito melhor, dizendo, simplesmente, «o darwinismo social não é darwinismo. Isso não tem nada a ver». Ela teria podido, para isso, começar mostrando que a «seleção natural» não é uma seleção. Mas ela não o fez, ela perdeu uma boa ocasião em relação ao darwinismo, porque ela também estava «atolada» no finalismo, no naturalismo, que ela não queria abandonar, porque ela era especista [13].

Notes

[1Charles Darwin, A Origem das espécies], p. 107 (A Descoberta, 1980, trad. E. Barbier; a primeira edição de The Origin of Species data de 1859).

[2«As espécies também não existem», Cahiers antispécistes n°11 (dez. 1994).

[3Para mim também, aliás: pois eu inventei as «TRELETTES». Eu teria podido tomar qualquer animal.

[4Ibid.

[5Eu simplifico, certamente, ao não fazer intervir, por exemplo, também o pai; mas isso não altera nada no fundo do processo. Procederei da mesma forma em outros exemplos.

[6Fasificável = que pode ser posto à prova dos fatos, que pode a priori ver-se contradito (falsificado) pelos fatos (critério de cientificidade de Popper). Foi dito que o darwinismo não era falsificável; mas é porque se polarizou sobre certas formulações criptofinalistas do darwinismo!

[7A distinção entre caracteres adquiridos e caracteres herdados não interfere necessariamente aqui; esta questão não estava, aliás, claramente resolvida na época de Darwin.

[8Alika Lindbergh, citado no texto de Yves Bonnardel deste mesmo número dos Cahiers.

[9Haveria a dizer sobre o emprego do termo «parasita», em oposição a «predador». O predador é um nobre; o leão é o rei da selva. No que o parasita é menos nobre do que o predador? É que ele engana. Ele é menor do que a sua presa. Em lugar de enfrentá-la em combate singular, lealmente («como um homem», estou tentado a escrever!), como o lobo face ao coelho (!), ele a ataca dissimuladamente, por trás, aninhando-se em seus recônditos para sugar-lhe o sangue. Geralmente ele não mata a sua presa, ele seria bem incapaz disso, mesquinho e degenerado como é; ou então, se ele a mata, é submergindo-a sob a grande quantidade.

Faz-se muito hoje em dia para a reintrodução dos lobos e outros linces nas zonas em que esses animais desapareceram. Em contrapartida, eu não ouvi dizer que B. Bardot militasse pela reintrodução de tal ou tal espécie de pulga ou de solitária que anteriormente atacava os melharucos ou os coelhos, mas que desapareceu. Talvez não existam; mas se existissem, duvido que o desaparecimento de tais «parasitas» fosse sentido como um mal.

[10B. Hölldobler e E.O. Wilson, Voyage chez les fourmis (Viagem ao reino das formigas), éd. du Seuil, 1996, p. 143.

[11Mesma fonte.

[12A. Lindbergh é de extrema direita, isto é, ela diz bem alto aquilo que, infelizmente, quase todo o mundo pensa bem baixinho.

[13Ela o é ainda, maciçamente... ainda que alguns progressos comecem a se fazer sentir.